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22 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (VI)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Poderia ainda acrescentar ao rol de desatinos a reacção inexplicavelmente alérgica a Steve McQueen (1985), dos Prefab Sprout ("É impossível não franzir o nariz a esta pop quase sem espinha nem energia, hipercarregada de efeitos e complicativa, piscando incessantemente o olho a si mesma e que, deslumbrada com tanta aparente versatilidade, é incapaz de seguir de modo escorreito um percurso melódico sem ceder à tentação de lhe sobrepor desvios 'espertalhões' a mostrar aos entendidos que a sabedoria até vai além dos desprezíveis quaternário e cadência de dominante-tónica") mas é obrigatório reconhecer que não se colecciona asneiradas apenas virando o polegar para baixo. O inverso também pode ser generosamente produtivo. 
 
Uma década depois, em Dublin, o festival Green Energy converter-se-ia em palco de aparições milagrosas. E juro solenemente, cross my heart and hope to die, que nada disso teve sequer vagamente a ver com o facto de o patrocinador do evento ser a cerveja Heineken. Por lá andavam Lou Reed, Goldie, Orbital e inúmeros anónimos (ou quase) mas a primeira revelação ocorreria num dos inúmeros palcos de bar/pub , de Temple Bar, o Fitzsimmon's. Poucos passos à minha frente, Nine Wassies From Bainne. Abalo existencial instantâneo: "Colisão frontal e fulgurante entre Zappa, a comédia Dada, Zorn, o fantasma electrocutado do rock, Hendrix, Captain Beefheart e todos os arredores mais delirantes desta área de catástrofe. Apenas uma bateria-turbo, um baixo em estado de taquicárdia e uma guitarra que viaja em voo picado, da distorção ao timbre de trompete, passando pelo contraponto de pedais e sonares alucinados, 'flashes' de derrapagem orquestral e intervalos de melodia encaixilhada em arame farpado", escreveria eu, ainda em levitação. E, solenemente, proclamava: "São de Cork, evitam a Inglaterra (demasiado 'trendy') e estão a caminho de Nova Iorque, em busca de editora. Não se esqueçam, foi aqui que ouviram falar deles pela primeira vez". Pela primeira e, muito provavelmente, a última. Porque, embora tenham encontrado a editora que procuravam, nela gravariam Ciddy Hall, único álbum da sua meteórica carreira discográfica, e pouco depois esfumar-se-iam. (segue para aqui)

26 June 2023

"Shadow Forces"
 
(sequência daqui) No novo Love In Exile, é como se essa singularidade se acentuasse mais ainda buscando, paradoxalmente, a dissolução nas ondas sonoras que, com o pianista e compositor Vijay Iyer e o multi-istrumentista Shahzad Ismaily – gente da intimidade estética de Laurie Anderson, Lou Reed, Tom Waits, Jolie Holland, Laura Veirs, Bonnie Prince Billy, Faun Fables, Secret Chiefs 3, John Zorn ou Elysian Fields –, conduz por um puzzle de estrofes em Urdu cerzidas por uma teia de melismas encantatórios. “Fomo-nos escutando uns aos outros e conduzimo-nos por caminhos que desconhecámos. Sem nunca nos perdermos”.

21 February 2022

AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
 
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)

13 September 2021

MENSAGEM NA GARRAFA


Sempre que alguém estéticamente sagaz e pouco apreciador de navegar por mares sobejamente navegados procura um guitarrista que não se limite a picar o ponto, é muito provável que acabe a mexer os cordelinhos necessários para recrutar Marc Ribot. A (imensamente incompleta) lista dos que o fizeram é já extensa e esclarecedora: John Zorn, Tom Waits, Lounge Lizards, Elvis Costello, Marianne Faithfull, Jazz Passengers, Allen Toussaint, T-Bone Burnett, Laurie Anderson, McCoy Tyner, Caetano Veloso, Jamaaladeen Tacuma, David Sylvian, Arto Lindsay... O que não o impediu de, a solo (em nome próprio ou com os Rootless Cosmopolitans e Ceramic Dog), ter registado mais de duas dezenas de álbuns. Há três anos, Songs of Resistance 1942 – 2018 – que, “cinco minutos após a eleição de Trump, decidira ser inevitável gravar” –, manifesto político para o qual convocou Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndegeocello, Fay Victor, Tift Merritt, Sam Amidon, Justin Vivian Bond, Ohene Cornelius, Syd Straw e Domenica Fossati, foi uma das mais soberbas peças de agit-prop de sempre pela qual ficaremos eternamente em dívida ao espantalho laranja. (daqui; segue para aqui)

"B-Flat Ontology"

14 January 2021

Kronos Quartet - "Turn, Turn, Turn" (Pete Seeger)
(...) [Pete Seeger} Foi também pioneiro do que viria a chamar-se “world music” e um feroz ortodoxo da “pureza” folk, o que o transformaria em protagonista do famigerado incidente do corte dos cabos de palco ao Bob Dylan herecticamente eléctrico, no Newport Folk Festival de 1965. Durante mais de 40 anos, o Kronos Quartet reconfigurou radicalmente o que, convencionalmente, se entendia como quarteto de cordas, interpretando um vastíssimo reportório que se alargou dos minimalistas americanos a Thelonious Monk, Piazzola, Laurie Anderson, Bill Evans, John Zorn, Television, Bryce Dessner, Alban Berg, Jimi Hendrix, compositores africanos e mexicanos, e música de Bollywood, (...) (daqui)

25 September 2018

NO PASSARÁN! 


Dias antes das eleições presidenciais francesas do ano passado nas quais Macron e Marine Le Pen se enfrentavam, Marc Ribot e “um grupo de músicos novaiorquinos preocupados” – Jack Dejohnette, Mary Halvorson, Roy Nathanson, Marco Cappelli, Ches Smith – publicavam no “Le Monde” uma carta dirigida “aos nossos amigos franceses que pensam abster-se no domingo”. E alertavam: “A eleição de Donald Trump foi, para nós, um pesadelo. Escrevemos-vos porque, vendo os números das sondagens de Le Pen e ouvindo os debates acerca da abstenção, vivemos um aterrador 'déjà vu'. Esperamos que possam beneficiar da nossa experiência. Como muitos de vós, muitos de nós opuseram-se ao neo-liberalismo de Hilary Clinton e, agora, ao de Macron. Mas a cura para a opressão neo-liberal – em França, Grã Bretanha, Hungria ou EUA – não é a eleição das respectivas Frentes Nacionais. Dizemos: NO PASSARÁN! E apelamos a todos que apoiem uma Frente Popular que as detenha. (...) Não à abstenção! Não a Le Pen!” 



Por essa altura, já Ribot tinha dado início à gravação do álbum que, “cinco minutos após a eleição de Trump”, decidira ser inevitável: Songs Of Resistance 1942 – 2018. Inspirado por Liberation Music Orchestra (1970), de Charlie Haden, Sounds of the Civil Rights Movement, da Smithsonian Folkways, e tudo o que os Last Poets publicaram”, o ubíquo guitarrista da vanguarda de Nova Iorque que Tom Waits, Elvis Costello e John Zorn não dispensam pesou prós e contras – “Há muitas contradições no acto de fazer música com objectivos políticos: como agir contra alguma coisa que detestamos sem nos tornarmos iguais a ela? Porventura, iremos cometer erros mas aprenderemos com eles” –, avançou e, belissimamente acompanhado, não cometeu um único erro. Entre clássicos do cancioneiro antifascista italiano como "Bella Ciao" (esventrada por Tom Waits) e "Fischia II Vento" (transfigurada pela voz de Meshell Ndegeocello em levitação), o desfile de imprecações reorientadas para Trump na canção popular mexicana "Rata de Dos Patas" (“Rata inmunda, animal rastrero, escoria de la vida, (...) espectro del infierno, maldita sabandija, cuánto daño me has hecho”), hinos reconfigurados dos Direitos Cívicos, ou as novíssimas e magníficamente iradas "Srinivas" (por Steve Earle e Ribot) e "The Big Fool" , se Songs of Resistance, cobrindo um reportório de quase 80 anos, parece ecoar Hegel – “aquilo que a História ensina é que nunca aprendemos nada com a História” –, na verdade, dos "partigiani" italianos aos combatentes de Charlottesville, obstina-se em nunca depor as armas.

28 October 2014

SCOTT O)))

  
Em Dezembro de 2012, David Peschek, de “The Quietus”, a propósito da publicação de Bish Bosch, tentava explicar a transfiguração de Scott Walker desde os tempos dos Walker Brothers até à actualidade dizendo que seria algo semelhante a um dos miúdos dos One Direction converter-se numa combinação de John Zorn, Diamanda Galás, Ligeti e Sunn O))). No mesmo número, em conversa com Walker, John Doran confidenciava-lhe que o álbum – em imagem que o próprio reconhecia como não muito feliz – o fazia pensar numa orquestra de zombies assassinando-se com os instrumentos, escutada por um público igualmente composto por zombies que, em vez de gritar “Brains! Brains!”, urrava “Brahms! Brahms!” Scott terá soltado uma rara gargalhada e respondido: “Obrigado. Acabou de compor o meu álbum seguinte”. Poucas vezes uma publicação terá sido tão profética. Soused, acabado de editar, é uma gravação a meias com os Sunn O))) – os espectros de Zorn, Galás e Ligeti nunca foram parentes demasiado afastados do Scott Walker que saiu da crisálida com Tilt (1995) e, em The Drift (2006) e Bish Bosch, completou a metamorfose numa aterradora borboleta nocturna – e, se a comparação de Doran era, talvez, excessivamente gráfica, a verdade é que essa atmosfera crepuscular de assombração sempre foi o habitat natural de Walker. 



Aparentemente predestinados para, um dia, se cruzarem, a voz e os demónios de Scott e as guitarras de Stephen O'Malley e Greg Anderson (herdeiros de Rhys Chatham e Glenn Branca numa variante glacial da estética do "drone" sonoro que os inventores de etiquetas classificam – entre outros rótulos "prêt-à-porter" – como "heady metal") coabitam da forma mais desejavelmente desconfortável, entregues à edificação de desmedidos painéis de um pavor quase táctil, imensas catedrais de cinzas habitadas por uma multidão de clones do coronel Kurtz, trasladado dos fotogramas de Coppola e condenado para toda a eternidade a viver “the horror... the horror”. Não por acaso, a primeira das cinco longas faixas tem o título de "Brando" e, nela, Scott Walker, qual penitente de missa negra S&M, uiva “A beating would do me a world of good”. Uma maré alta do mais puríssimo mal ameaça transbordar e não é aqui que encontrará algum obstáculo.

07 October 2014

05 March 2014

CARREGADOS DE FUTURO


A 15 dias de distância, aparentemente, a actualidade do assunto dir-se-ia algo prejudicada. O ponto, contudo, é que, para o que, aqui, verdadeiramente importa, a actualidade é o menos decisivo dos critérios. Fale-se, então, do concerto de reunião dos Mler Ife Dada, do passado dia 14 de Fevereiro, no CCB. Comemorando os 30 anos de uma banda que, desde o final da década de 80, não existe, haveria sérios motivos para supor estarmos perante um quadro clínico daquilo que, no seu tratado de anatomia patológica pop, Simon Reynolds designou como “retromania”: a devoção quase museológica pelo passado, a reconstituição de um reportório “de época”, o olhar obsessivamente retrospectivo. Exactamente aquilo que podemos encontrar, por exemplo, num álbum como Sun Structures, dos Temples, grupo "soit disant" psicadélico britânico cujos elementos terão nascido por volta da altura em que a banda de Nuno Rebelo e Anabela Duarte encerrou a actividade. E justamente tudo o que nem vagamente se detectou no regresso dos Mler Ife Dada: sem pré-aviso e ignorando tudo acerca deles, ninguém no público seria capaz de adivinhar que a magnífica música que escutava não tinha sido criada na véspera. 


A diferença de atitude é crucial: voltar atrás e trazer, tão só, aquilo que já lá estava ou usar esse movimento como pretexto para continuar a pegar fogo à invenção. Naturalmente, ter como ponto de partida Coisas Que Fascinam (1987) e Espírito Invisível (1989) – duas das peças musicais pop mais carregadas de futuro do século XX – e os singles e EP complementares é uma enorme vantagem. Mas, se esse era o guião, dificilmente se preveria o modo pelo qual, sem maiores sobressaltos do que a incorporação de um trio de cordas e outro de sopros, ele seria gloriosamente expandido e dinamitado: como se o interregno de 25 anos tivesse sido minuciosamente cronometrado para possibilitar o melhor concerto de sempre dos Mler Ife Dada, a vertigem sonora da máquina de dança dada-surreal (multiplamente engatada em afro-funk arábico, visões de Naked City através de lentes Plopoplot Pot, arraiais "kitsch"-fadistas e figuras obrigatórias de "vaudeville" eurasiático) estendeu a passadeira para a exuberante encarnação de Anabela sob a forma de cegonha cruzada de pantera "on high heels", ora Yma Sumac, ora Jane Birkin, Berberian, Piaf ou Callas sem travões. No futuro, lá ao longe.

17 May 2011

NÃO É BEM ISSO


tUnE-yArDs - whokill

Houve um instante nos anos do pós-punk em que, limpo o terreno de todos os detritos que, durante quase uma década, o tinham atravancado, o processo de reconstrução se iniciou e, por algum tempo, a pop mais intensa, inteligente e vibrante de sempre tomou conta dos acontecimentos. Política e eléctrica, imediata e enxuta (mas com o exacto grau de complexidade indispensável para não se confinar ao raso utilitarismo de agit-prop), atlética e eclética, a música que – dos Talking Heads aos Bush Tetras, das Raincoats aos Delta 5, dos Gang Of Four às Slits ou a James Chance & The Contortions – então, se escutou era, literalmente, como um cantil de água fresca descoberto a meio de um deserto que levara demasiado tempo a atravessar. De entre todos, no entanto, poucos terão conduzido essa transformação tão longe e produzido tão prolongadas consequências estéticas como o Pop Group. Constituído em 1978, abriu as hostilidades com "We Are All Prostitutes", prosseguiu-as com For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder?, agregou à seita Dennis Bovell, gente do free-jazz, as Slits e os Last Poets, e, quando, três anos depois, explodiu, os estilhaços – Pigbag, Maximum Joy, Head e, sobretudo, Rip Rig + Panic – não foram menos gloriosos do que o petardo original. E, de caminho, foram ungidos como precursores do “Bristol Sound” que pariria Massive Attack e Portishead.



Dito isto, sublinhe-se que de Merrill Garbus/tUnE-yArDs não se pode legitimamente afirmar que possua semelhanças com qualquer um dos anteriormente referidos. Na verdade, aquilo que de mais rigoroso se pode dizer é algo de raro e absolutamente precioso: ela não se assemelha, realmente, a nada do que possamos mais ou menos informadamente conhecer. A ex-estudante de artes de palco e ex-bonecreira que odiava fantoches, a aprendiz de swahili e recolectora de música tradicional africana no Quénia que confessa ter problemas de consciência com a pilhagem da cultura africana pelo Ocidente (“Que vou eu fazer com isto? Devo pedir autorização? Se tenho medo de pedir autorização, quererá isso dizer que não o deveria fazer? E, se não há ninguém a quem pedi-la, significa que não há problema?”) mas que, por fim, se absolve – e, por extensão, a Paul Simon e aos Vampire Weekend –, o que desses todos guardou foi a atitude DIY, a urgência das intenções e o apetite pela diversidade das fontes de alimentação sonora. Chamem-lhe, se quiserem, Mrs Beefheart, comparem-lhe o timbre vocal com Aretha ou Miriam Makeba, atrevam-se a um sonho no qual as Raincoats se entregam ao deboche com vários clones de John Zorn e Björk ensaia vocalizos com os Dirty Projectors (o que, aliás, já aconteceu) e, se isso parecer assaz coincidente com a memória que permaneceu do Pop Group/Rip Rig + Panic, seria bom que ficassem a saber que não nos conseguimos aproximar suficientemente do perfil-tUnE-yArDs. A antiga noção de “futurismo primitivo” é bem-vinda, um certo gestualismo à la Pollock corrigido pela disciplina formal de Braque ajuda a definir contornos, a ideia de uns Konono nº1 no corpo de uma americana branca desbocada que admite publicamente “You came to put handcuffs on my brother down in the alley, I dreamt of making love to you” e um humilde ukulele são, igualmente, necessários. Mas não, ainda não é bem isso.

(2011)

19 July 2010

ESPELHOS QUEBRADOS



Pop Dell’Arte - Contra Mundum




Abztraqt Sir Q - Extimolotion




Zelig - Joyce Alive!

Em 1983, Woody Allen criou a personagem Leonard Zelig, singular "camaleão humano" das décadas de 20 e 30 do século passado, capaz de, em virtude de uma incomum disfunção psíquica, involuntária e dolorosamente, mimetizar os traços de personalidade e os maneirismos sociais daqueles com que convivia. Começava a sua trajectória como freak circense e acabava na qualidade de herói de guerra mas – é da própria natureza das melhores histórias – não se ficaria pelas salas de cinema a sua peculiar condição. Exactamente da mesma forma que, dois anos depois, em outro filme de Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, Jeff Daniels saltava do ecrã para o mundo real, o "síndroma de Zelig" - uma raríssima forma de perturbação cerebral – seria identificado, em 2007, por uma equipa de cientistas italianos dirigida por Giovannina Conchiglia. Não desistam de ler já: no quinto episódio da quarta temporada da série Dr. House (“Mirror, Mirror”), a um doente era diagnosticado o "síndroma de Giovannina", versão retorcidamente televisiva do Zelig original. E, por estes dias, há quem fale de um "síndroma de House", problema com que os médicos apenas humanos têm de lidar face à desconfiança dos doentes que não descobrem neles o poder dedutivo, sherlockianamente sobre-humano, do intratável figurão representado por Hugh Laurie. O qual (House, não Laurie), dizem as más línguas, sofrerá do "síndroma de Asperger". A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida...



Para o que, agora, realmente, interessa, por diversos motivos, Zelig dá imenso jeito. Em primeiro lugar, porque uma das bandas portuguesas de que, aqui, se falará responde pelo nome de Zelig. E não inocentemente: são eles mesmos quem confessa que “a nossa música tem uma influência muito forte de muitos géneros diferentes. É uma música que se transfigura muito e passa por muitas mutações” e reivindicam Zelig-personagem como “metáfora da influência que as coisas exercem umas sobre as outras”. Depois, porque, tanto no caso deles como no dos Pop Dell’Arte e dos Abztraqt Sir Q, coexistem, em simultâneo, o impulso para a permanente transformação e a recusa de se deixarem indistinguir da atmosfera musical circundante. Por outras palavras, todos são Zeligs para si mesmos mas sobressaem, violentamente, no cenário, quais bizarras e inclassificáveis criaturas. Porque cometeram a proeza de reinventar a roda da gramática musical? Não, apenas porque, nesse toca-e-foge de mimetismo/antimimetismo, optaram pelo jogo de reflexos sobre espelhos quebrados e, sabiamente, recompuseram os estilhaços segundo as regras de uma (des)ordem muito pessoal e privada.



Prioridade, então, aos veteranos. Mas pela única razão de que, na circunstância, os Pop dell’Arte funcionam, de modo ideal, como precursores e elo de ligação – estético e ético – em relação aos outros dois grupos. Quixote romântico da segunda vaga do pop/rock luso, editor, com a independente Ama Romanta, de múltiplos embriões de muito e nada (Mler Ife Dada, Sei Miguel, Croix Sainte, Nuno Canavarro, Tó Zé Ferreira, Pascal Comelade, Mão Morta...), ao leme do "bateau-ivre" Pop Dell’Arte, João Peste inventou o equivalente musical de um jornal que somente é publicado quando tem, de facto, notícias relevantes para dar – de 1986 até hoje, pelo meio de singles, EP dispersos e compilações, apenas três álbuns: a memorável estreia de 1987, Free Pop (isso mesmo que o título insinua: a atitude libertária do free-jazz transposta, via Duchamp, Warhol e descendência para o universo-pop) e os quase nada menores Ready Made (1993) e Sex Symbol (1995). Pelo que, quinze anos depois, Contra Mundum seria sempre motivo de celebração. Acresce, entretanto, que não se trata, exclusivamente, de saudar o regresso do Pierrot Lunaire trágico da pop nacional: centrados no núcleo resistente Peste/José Pedro Moura, os Pop Dell’Arte que, de novo, escutamos reiniciam a jornada interrompida e voltam ao laboratório subterrâneo onde dão vida aos psicadelismos fadistas, às fanfarras eléctricas, aos arraiais weillianos e à poeticamente perversa candura de palavras e melodias estropiadas em bailado demente de que só eles conhecem o segredo.



É fácil relacionar os Pop Dell’Arte com os muitíssimo mais novos Abztraqt Sir Q. Desde logo, porque algum motivo terá havido para que João Peste (não propriamente uma guest star de serviço) tenha aparecido como convidado do seu óptimo álbum de estreia, Qorn Pop Garden, publicado no final de 2008. A afinidade que, então, já se pressentia – a costela teatral e operaticamente excessiva, os malabarismos linguísticos poliglotas, a veia experimentalista domesticada pelo vício pop – confirma-se integralmente mas, desta vez, em Extimolotion, aprofundando a morfologia ossuda das canções, o perfil esquinado das melodias e o solavanco rítmico como forma superior do riff, numa espécie de depuração última do pós-punk, filtrado através de trinta anos de história, alguma erudição e um prazer evidente em construir diagramas sonoros a três dimensões e bastante mais variantes cromáticas.



Os Zelig, enfim, são o improbabilíssimo lugar geométrico onde gente oriunda dos Ornatos Violeta, Pluto, Drumming, Dep, Electric Buttocks, Tchakare Kanyembe, Foge Foge Bandido e tropelias punk hardcore paralelas tropeça em Sun Ra, nos Naked City, em John Barry e Frank Zappa e, armada de marimbas, vibrafones, contrabaixo, flauta, teclados, percussões, serrote, guitarra e uma devastadora secção de sopros de faca nos dentes, capaz de passar a ferro uma seara, vai-se estatelar gloriosamente muito próximo da terra de ninguém onde, num hipotético momento de repouso, a Flat Earth Society de Peter Vermeersh e seus pacientes de Tourette associados recupera o fôlego, após mil refregas sonoras. António Serginho, Eduardo Silva, José Marrucho, Nico Tricot e Pedro Cardoso – muito conservatório, muito currículo de jazz, rock e ruídeira marginal afim – estão prontos para, caso seja necessário, operar como reserva estratégica da brigada de combate flamenga: as coordenadas do terreno conhecem-nas de cor e não têm a alma menos engarrafada de sonhos de Morricone em pagodes chineses, de surf bands flutuando em jangadas de juncos no Sahara, de James Bond correndo por entre semifusas numa animação musicada por Carl Stalling ou de cenas tórridas de Rita Hayworth nos braços de um mullah de Andrómeda. Não duvidem por um só segundo: com um máximo de prontidão, esse será sempre o mínimo que deles poderemos esperar.

(2010)

09 July 2010

O CORAÇÃO DAS TREVAS



Laurie Anderson - Homeland

United States I-IV, 1984. Home Of The Brave, 1986. Homeland, 2010. Pelo meio, há só mais oito albums (vários ao vivo). Mas todos eles, de uma forma ou de outra, não fogem demasiado à regra programática instituída nos títulos do tríptico acima referido: Laurie Anderson escreve, fala, canta e compõe acerca da América, encena a América enquanto seu lugar de origem e gigantesca metáfora do mundo contemporâneo. Como ela própria esclarece, podem ocorrer oscilações de intensidade: “Sempre que aconteceu uma viragem à direita, tive tendência para escrever coisas mais políticas; quando viramos à esquerda, a poesia regressa; este está na fronteira, combina um pouco de ambas as coisas”.



Mas, ainda que em equilíbrio instável – a mesma Life On A String de que falava em 2001 –, desde a justificação para o título (“Ninguém usa a palavra ‘homeland’. Parece uma má tradução de um pequeno país balcânico. O Department of Homeland Security colocou uma palavra excessivamente sentimentalizada ensanduichada entre duas outras verdadeiramente burocráticas. No fundo, não se trata da ‘homeland’ nem de segurança, mas de um certo tipo de controlo governamental”), não sobram muitas dúvidas de que a privadíssima combinação de "spoken word", electronica, "stand-up comedy" e poesia de que Laurie registou a patente, aqui, tem um centro de gravidade não exclusiva mas acentuadamente político. E escutá-la (na companhia de John Zorn, Lou Reed, Kieran Hebden/Four Tet ou de músicos siberianos), na primeira pessoa ou sob o disfarce de Fenway Bergamot, dissecando o coração das trevas (“You thought there were things that had disappeared forever, things from the Middle Ages, beheadings and hangings and people in cages, and suddenly they’re alright, welcome to the American night”) é um privilégio demasiado raro para ser desperdiçado.

(2010)

28 April 2009

FRANCOFILIA



Vincent Delerm - Favourite Songs

A derrota esmagadora do idioma francês face ao inglês, nas últimas três décadas, teve consequências mais devastadoras do que apenas o coice no ego nacional gaulês. O que, só por si, até poderia ter contribuído para reconduzir ao plano da realidade quem ainda vivia imaginariamente no início do século XX e no papel de "trendsetter" cultural. Verdadeiro prejuízo, no campo da música popular, por exemplo, foi o facto de uns consideráveis milhões de novos anglófonos e anglófilos terem ficado quase irremediavelmente arredados da possibilidade de conhecer génios como Brel, Gainsbourg ou Brassens.



E, em sentido inverso, francófilos como Mick Harvey, Neil Hannon, John Zorn ou Jennifer Charles não têm chegado para inverter o sentido da corrente. É, por isso, uma batalha entre forças imensamente desiguais procurar convencer o mundo que Vincent Delerm é um enorme e requintadíssimo autor de canções de ironia acetinada e melodia subtil. Estes dezasseis magníficos duetos – com gente como Moustaki, Benjamin Biolay, Neil Hannon, Irène Jacob ou Alain Souchon –, porém, não desistem de investir contra duas ou três praças fortes inimigas e quem sabe se uma ou outra não acabará por declarar a rendição.

(2009)

06 April 2009

LYNCH NOIR



Elysian Fields - The Afterlife

Até hoje, nunca terão ultrapassado o estatuto de micro-culto mas o que não falta a Jennifer Charles e Oren Bloedow é currículo e pedigree. Ambos descendentes de gente activa no meio teatral, musical e da rádio, ela, após o percurso académico pela New York University e pela Tisch School Of The Arts, ocupou-se com uma série de espectáculos de poesia/performance na Knitting Factory; Oren, pelo seu lado, passou pelo New England Conservatory, envolveu-se na cena downtown de Nova Iorque ao lado de John Lurie, Marc Ribot e tutti quanti e – coisa de emoldurar na parede da sala – viu-se, inesperadamente, nomeado “artista do ano” de 2004 por Greil Marcus.



E, desde que, pelo meio dos anos 90, constituíram os Elysian Fields, o percurso não tem sido menos imaculado: quatro álbuns de noir pop voluptuosamente mórbida (segundo Nick Kent, “sensual como o sonho húmido de um sonâmbulo”), diversas colaborações com a Tzadik, de John Zorn – nomeadamente, dois álbuns de canções Sefarditas –, de Jennifer com Jean Louis Murat (A Bird On A Poire, em modelo Birkin/Gainsbourg) e, para dourar a biografia, até a sempre bem-vinda medalha do “lost album” produzido por Steve Albini e rejeitado pele Universal que, um dia, também há-de vir à luz. A matriz musical está estabelecida – "torch song" lynchiana, aqui e ali, dilacerada por dissonâncias eléctricas – e, nessa exacta medida, The Afterlife, sem alterar nada de substancial, é um belíssimo pedaço de música para as últimas horas da noite.

(2009)

05 April 2009

LEITÃO KOSHER



"Na hora do espectáculo, o público senta-se, os artistas chegam, a função arranca, e ninguém se apercebe dos pequenos dramas que poderiam ter inviabilizado aquele momento. O saxofonista John Zorn, por exemplo, um judeu militante que enverga camisolas com slogans sobre a causa, vai com agrado à Casa da Música, refere José Orlando, da produção executiva, mas desde que esteja assegurada uma refeição de leitão, apresentada quase como condição prévia". ("Pecado da Música", Valdemar Cruz, "Actual"/"Expresso", 04.04.09)

(2009)

14 December 2008

CANÇÕES DE PROTESTO *



No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.



“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:



“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.



Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.



A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.



O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'.



Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.



Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.



Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.



Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.

* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)

(2008)

30 October 2008

BOSSA DE NOVO



Vinicius Cantuária - Cymbals

Dificilmente, Vinícius Cantuária se deixa situar como arquétipo do “músico brasileiro”: se o baterista, guitarrista, cantor, compositor de Manaus guarda no currículo colaborações com Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda ou Gilberto Gil, a verdade é que, quando interrogado acerca dos modelos em torno dos quais construiu a sua personalidade, deixa escapar que cresceu a ouvir os Beatles e, mais tarde, lhes acrescentou as figuras tutelares de Bill Evans, Chet Baker e Miles Davis. Nada disso, porém, seria suficiente para adivinhar que, desde que, em 1994, emigrou para Nova Iorque, se iria transformar em nome de referência do “inner circle” da cena musical a que, desde há uns bons anos, se convencionou designar como “downtown”. Isto é, o polígono de imensamente variável geometria, cujos vértices se situam em John Zorn, Laurie Anderson, Bill Frisell, Marc Ribot, Arto Lindsay, David Byrne e que, episodicamente, absorve outros como Sakamoto ou Brian Eno. Segundo conta, integrou-se no meio do modo mais informal possível e conseguiu rapidamente ultrapassar o estatuto de “brasileiro convidado” pelo mero facto de a sua origem poder acrescentar algum tempero mais ou menos “exótico”. É por isso que, embora datando do ano passado, o seu mais recente álbum, Cymbals, surpreende: objecto de classicismo bossanovista quase puro, poderia ter sido concebido propositadamente para se integrar com merecidíssima honra nas comemorações actuais do género musical que João Gilberto, Tom Jobim e o outro Vinícius ofereceram ao mundo. Apenas com pontuais alusões ao idioma do tango, revisões de clássicos, e as participações de Brad Meldhau e Naná Vasconcelos, dir-se-ia uma espécie de virtuoso exercício “back to basics”.

(2008)

01 August 2008

ANTES E DEPOIS DA MPB



Caetano Veloso - Estrangeiro




João Gilberto - O Mito

Garanto que sabia. Juro que estava à espera. Não poderia prever a data precisa mas adivinhava que, mais tarde ou mais cedo, seria inevitável: Caetano Veloso haveria de ser capaz de conceber e concretizar um álbum capaz de pôr os cabelos em pé aos incondicionais da MPB. Foi agora mesmo. Já está feito e é brilhante. A estratégia foi exemplar. Depois de ter passado meia vida a demonstrar com sucessivos exemplos práticos como a MPB não tinha obrigatoriamente de estar condenada a uma trajectória de banalização progressiva, dinamitando-lhe sucessivamente os códigos de linguagem e a cristalização dos limites aceites, com Estrangeiro, de um só golpe, é a própria ideia de MPB que fica posta em causa. A colocação da carga de explosivos em pleno centro do teatro de operações tem responsáveis inesperados mas comprovadamente perigosos: Arto Lindsay e Peter Sherer do destacamento de guerrilha sonora nova-iorquino, Ambitious Lovers, assistidos de perto por Marc Ribot (co-piloto de viagens diversas de Tom Waits, Costello, Maria McKee e ex-co-artilheiro de Lindsay, nos Lounge Lizards), Bill Frisell (notório ao lado de John Zorn, entre uma multidão de outros exploradores de paragens longínquas) e Naná Vasconcelos. Os dois primeiros, para além de participarem como instrumentistas, também asseguram os cuidados de produção e a resultante é o disco mais surpreendente oriundo do Brasil nos anos oitenta. Não restavam demasiadas dúvidas sobre o facto de os textos e melodias de Caetano Veloso pertencerem já, por inteiro, ao património mais nobre da língua e da música de expressão portuguesa. Agora, fica também claro aquilo em que nem todos tinham ainda reparado: na cena ampliada da música do planeta, contam-se pelos dedos de uma mão os que se atrevem a tocar de perto "mano Caetano". O desfibramento da linguagem no plano dos poemas (alguém duvida que o são?) que sempre foi uma constante na obra de Caetano Veloso transpõe-se, aqui, de uma forma decidida, para o coração da própria música. Sob a superfície só aparentemente tranquila das melodias e do puzzle móvel de palavras, trabalha, subterraneamente, em Estrangeiro, uma tempestade eléctrica de descargas, acelerações e electrochoques sonoros que desmontam, pelo avesso, o corpo descarnado das canções. Como se a inquietude que assaltava os textos não se pudesse mais acomodar aos formatos tradicionais e tivesse contagiado a música com as angulosidades, assimetrias e dilacerações que, por dentro, a habitavam, desfigurando, do interior, a suave perfeição "tropical" habitualmente esperável.



Todo o disco pode ser decifrado a partir da pequena frase que, quase clandestinamente, se insere (entre parêntesis e em inglês) no final da faixa-título: "Some may like a soft Brazilian singer but I've given up all attempts at perfection". O que é apenas outra forma de dizer que, para salvar um corpo doente, por vezes se impõem modalidades severas de cirurgia radical. Estrangeiro não é mais nem menos do que isso: golpe profundo na placidez do aconchego autosatisfeito da MPB, separando, mais uma vez, as águas como, desde a época do Tropicalismo, Caetano se habituou a fazer. Nele se acha o ponto exacto de encontro dos percursos de Lindsay e Veloso, da troca e tradução simultânea de vocabulário que, de Norte para Sul e de Sul para Norte do continente americano, ambos aqui protagonizam, na margem mais produtiva da música de ambas as geografias. Sobre os textos, faltaria acrescentar que todos sem excepção reforçam a exigência que, há muito, a produção de Caetano impõe: compilação e edição autónoma como exemplo contemporâneo absoluto de tudo o que à língua portuguesa é permitido explorar, nos limites de um discurso poético inteiramente original, articulado, sem o menor atrito, com a autonomia e as exigências próprias do objecto musical. Completamente isoláveis sem perdas e estreitamente unidas com vantagem dobrada, palavras e música de Estrangeiro correm, simultaneamente, no mesmo sentido e em direcções diferentes, forçando até ao extremo as linhas de tensão que suportam a arriscada manobra global.



Ao lado, antes e depois do teatro de guerra onde se desenrolam estas fabulosas operações, pode encontrar-se a histórica reedição da obra gravada de João Gilberto entre 58 e 61, quando, através da "invenção" da bossa-nova, tinha início a longa caminhada que haveria de desembocar, trinta anos depois, na inversão radical da lógica de partida. O Mito é-o duplamente. Pelo lugar decisivo que este conjunto de temas e interpretações ocupou no período fundador da música moderna brasileira (de Chega de Saudade em diante) e pela ideia de inacessível perfeição clássica que passou a definir como modelo para sucessivas gerações de compositores e intérpretes, código de conduta a invocar tanto em tempo de paz como de insurreição estética: o estrito minimalismo emocional de voz sussurada e violão sobre fundo de veludo orquestral, a enganadora simplicidade melódica sobre areia movediça harmónica e a elíptica ironia "cool" que refrigerou e abriu para o futuro e para o exterior uma música redobradamente mestiça.



Há-de haver certamente, fora do círculo de devoradores fiéis da História da MPB, quem queira considerar esta recapitulação como mera curiosidade de arquivo, exclusivamente dirigida a incondicionais e fanáticos. A esses, seria de aconselhar uma educativa viagem de circumnavegação por La Varieté, dos Weekend, e The Prince Of Wales, de Alison Statton, passando pelos primeiros Everything But The Girl e adjacências do "british jazz revival", com convite incluído para a detecção das óbvias afinidades e prolongamentos extracontinentais a que João Gilberto deu origem. Se acontecer que o local de chegada seja Estrangeiro, significa apenas que, por entre o labirinto dos mapas, mais uma expedição de aventura e descoberta se concluiu com êxito.

(1989)

14 June 2008

A HUMANIDADE NO SEU PIOR


Na margem do lago de Lucerna oposta aquela onde se situa o magnífico Centro Cultural projectado por Jean Nouvel, no café do hotel em que Stefan Winter e restante "staff" da Winter & Winter se hospedavam, as entrevistas quase simultâneas com "the Winter man" e Uri Caine (a cargo de Jorge Lima Alves e "yours truly"), a pretexto das incontornáveis Goldberg Variations na "versão Caine", já tinham há muito terminado. Mas, na minha mesa-Caine, com um gravador alimentado a pilhas chinesas compradas, de urgência, na única loja apropriadamente chinesa aberta, numa tarde de sábado, no irritantemente perfeito paraíso social suíço, a conversa informal pós-entrevista ainda continuava. E, a propósito de John Zorn, que ele próprio referira e com o qual também já colaborou, apeteceu-me pedir-lhe que, de uma vez por todas, me explicasse o que — sendo tanto ele, Uri Caine, como Zorn, de ascendência judaica — significavam realmente aquelas coisas da "Radical Jewish Culture" e da "Great Jewish Music" a que Zorn, na sua editora Tzadik (isto é, a "Justiça" hebraica mais fundamentalista), se dedicara de alma e coração, identificando como especificamente judeus músicos como Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg que, para nós, desgraçados ignorantes da correcção étnica e política, eram apenas optimos... músicos.


E, de caminho, exibi-lhe o meu nariz, muito judeu: "Em Portugal, se calhar, somos quase todos árabes, celtas, judeus e tudo o que por lá passou. Mas praticamente ninguém quer saber disso, é um ancestral dado multicultural em que nunca nos lembramos sequer de pensar". E a América culturalmente sofisticada de Caine (muito mais culta do que a recente América "PC" de Zorn) depôs imediatamente as armas e reconheceu o equívoco: "Quase sempre, a invocação cega dessa herança cultural, étnica e política, acaba, como no caso de John Zorn, por coincidir com os programas da extrema-direita mais radical, mesmo quando — e será o caso dele — não se tem consciência disso. O horror do Holocausto, como o dos índios, dos vietnamitas, dos kosovares ou dos africanos não tem raça, é apenas a humanidade no seu pior". A seguir, contou-me duas histórias. A do pai dele, Caine (advogado, liberal, judeu-americano, que sempre educou os filhos nas tradições e preceitos judaicos inteiramente assumidos), que, quando pressionado para tomar posição pública contra uma manifestação de rua anti-semita, advogou o direito dos manifestantes a desfilar, como todos os outros, e, perante esse acto, a serem julgados pelo que faziam. Pelo que teve a casa violenta e agressivamente cercada pelos defensores do fundamentalismo judeu, talvez muito "PC", mas bastante pouco democráticos.


E, depois, a do próprio Zorn, judeu, familiar, cultural e etnicamente reprimido, que, como mecanismo de emancipação, arvorou o judaísmo (também como "marketing ploy") enquanto bandeira de algo que ele próprio não conhece assim tão bem. Ao ponto de, antes de um concerto na Holanda, se ter permitido provocar um seu devotadíssimo admirador perguntando-lhe, arrogantemente, se a comunidade judaica local tinha sido formalmente convidada. Ao que este, lhe respondeu que as entradas, naturalmente, eram livres... Uri Caine — também presente — tomou nota e, quando se encontravam os dois na sinagoga local, fez questão de lhe ler os nomes das vítimas do Holocausto, ali escritas, na parede, em hebraico. "Mas.. tu és capaz de ler hebraico?!", espantou-se Zorn. "Claro", respondeu-lhe Caine, "e tu que gostas de te mostrar como um judeu tão radical, empenhaste-te em aprender a falar japonês por motivos culturais, mas és incapaz de ler uma linha em hebraico". Moral da história: não será este, afinal, senão mais um episódio, na vertente cultural, daquela estúpida e eterna tragédia a que Amin Maalouf chamou As Identidades Assassinas?



(1999)