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12 December 2025

Sketches for My Sweetheart the Drunk (1998) | Full Album 

(sequência daqui) Segundo álbum (inacabado) de Buckley, Sketches For My Sweetheart the Drunk, continua a ser uma das histórias mais comoventes sobre "o que poderia ter sido" da história do rock. Embora Buckley tenha falecido tragicamente antes da conclusão do álbum, o filme oferece um olhar sobre os fragmentos que restam e desafia-nos a conjecturar acerca da direção que Buckley buscava musicalmente, combinando estilos mais introspectivos e fracturados com a sua intensidade característica. "Tínhamos de nos esvaziar interiormente para deixar fluir aquela música muito devocional. Por vezes, sentia uma estranhíssima sensação de viajar vertiginosamente para diante no tempo, conduzido pela trajectória da voz do Jeff, como se a minha vida se derramasse toda naquele instante. Era um grupo que não tinha medo de arriscar e possuía a coragem suficiente para se aventurar por áreas inesperadas, onde, às vezes, nos descobríamos à beira do abismo", contava o guitarrista Michael Tighe, também presente ao lado de Mary Guibert no referido encontro parisiense. À beira do abismo - contam Aimee Mann, Joan Wasser e todos os demais que, agora, depõem - esteve Jeff ao aproximar-se perigosamente da heroína, ao quase sucumbir aos sintomas de depressão que o oprimiam, aos sonhos e alucinações que não lhe davam descanso ou aos planos irrealistas ("Vou escrever 100 canções em 5 semanas") que se propunha. O que Tighe, de algum modo, quase consegue sintetizar: "Tenho a sensação de que, muitas vezes, através dos textos, ele nos telegrafava a sua morte que, acredito, foi mais uma questão inexorável de destino do que propriamente um acidente. A forma como morreu acabou por ser muito semelhante ao modo como viveu a vida: mergulhando na corrente".

05 October 2025

(sequência daqui) Após a publicaçao em Abril de 2023, de Songs and Symphoniques: the Music of Moondog, (em torno da música do lendário "Viking da 6ª Avenida", reinterpretada pela Ghost Train Orchestra, pelo Kronos Quartet e avulsos notáveis vários (Rufus Wainwright, Joan Wasser, Jarvis Cocker, Petra Haden, Sam Amidon, Aoife O'Donovan), David Byrne que, durante um dos concertos em Brooklyn, entusiasmado com a variedade de instrumentos da Ghost Train, não resistira a subir ao palco com o grupo, deixou-se arrastar pela ideia de entregar as suas novas canções a um ensemble de bateria, percussão, guitarra, baixo, cordas e sopros. No fundo, apenas um prolongamento e diversificação da estratégia de American Utopia: "Senti que a opção por arranjos orquestrais mais íntimos realçaria a emoção que me parece estar presente nestas canções", diz Byrne, "É algo de que as pessoas nem sempre se aprecebem no meu trabalho, mas desta vez tive a certeza de que estava lá. Ao mesmo tempo, também me vejo como alguém que pretende ser acessível". (segue para aqui)

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

17 October 2010

TOP5


Lloyd Cole - Broken Record

É exactamente como acontece em alguns dos melhores livros: à primeira frase, ficamos, instantaneamente, prisioneiros da leitura e, apenas admitindo ocasionais interrupções para satisfazer uma ou duas necessidades básicas, não lhe tiramos os olhos de cima até que (já com alguma saudade antecipada do momento em que o começámos) cheguemos à última página. Lloyd Cole – criatura letrada e bastamente literata – sabe disso melhor do que ninguém e não foi, de certeza, num momento de súbita inspiração que decidiu que Broken Record haveria de abrir com “Not that I had that much dignity left anyway”. E que, qual livro ou filme, a sequência (“nor could I feign great surprise when she finally walked away”) apresente, imediatamente, personagens e argumento em alta definição.



Com todos os “traços de autor” incluídos: melodia infecto-contagiosa, ironia autodepreciativa (uma nascente inesgotável de que, em "Westchester County Jail", poderemos, por exemplo, beber também “I look like a million bucks, sure I ain’t worth quite that much”) e aquela espécie de New England-country music que, mais intensamente nos 21 anos americanos de Cole, tem temperado a sua música. Desde o final dos Commotions, nenhum disco de Lloyd Cole foi menos do que bom. Acerca de Broken Record, porém, é obrigatório dizer que teremos de o arrumar algures – lugar definitivo ainda sob ponderação – no top5 do autor de Rattlesnakes. Joan Wasser, Fred Maher e Blair Cowan ocupam os lugares-chave na casa das máquinas e, por instantes (não se trata de deriva nostálgica mas de energia primordial recuperada), dir-se-ia que escutamos, de novo, a mesma banda de "Four Flights Up" ou "Are You Ready To Be Heartbroken". Sim, sim, isso mesmo.

(2010)

01 December 2009

ATMOSFERA DE NOVA IORQUE



Shara Worden parece genuinamente surpreendida (e feliz) por receber, vindo de Lisboa, um telefonema de alguém interessado em conversar com ela sobre a música que, nos My Brightest Diamond, compõe e interpreta. E, assim que se lhe pergunta por que motivo alguém com irrepreensível formação clássica – da Universidade de North Texas, a Moscovo e Nova Iorque – “acaba” como elemento de uma banda pop, ri-se com vontade e responde: “Mas eu, enquanto estudava, cantava também em bandas de rock. Gosto muito de ópera e de música clássica mas o que realmente prefiro é compor e escrever canções. Acabou só por ser uma questão do que me sentia impelida a fazer”. É um belo ponto de partida. Porque a educação académica de Shara – essencialmente centrada no canto lírico e na música de Purcell e Debussy – parece tê-la imunizado contra os portentosos desastres que, no passado, decorreram das colisões frontais entre rock e música clássica.



Ela confirma e exemplifica: “Quando estava a compor A Thousand Shark’s Teeth, escutei bastante as canções de Samuel Barber e os primeiros quartetos de cordas de Webern, apetecia-me explorar essas áreas musicais. É por isso que, em ‘Apples’, há todos aqueles pizzicatos, a melodia das cordas se transfere de uma voz para outra... todos esses compositores do meio do século passado encaravam o colorido tímbrico como melodia em vez de se apoiarem sobretudo na harmonia para impulsionar a música. Foi algures por aí que procurei encontrar um terreno de compromisso: não estava a escrever música clássica, era pop, mas tentava descobrir uma forma de utilizar essa linguagem neste contexto. Por exemplo, em 'The Diamond', imaginei como poderia soar ali o crescendo das cordas do Adagio For Strings, do Barber”.



A verdade é que não é espécime único: um pequeno contingente de "meninas do conservatório" – Regina Spektor, Joan "As Police Woman" Wasser, Christina Courtin, St. Vincent/Annie Clark –, povoa a cena indie nova-iorquina: “Conheço-as, são todas minhas amigas. Há, de facto, aí, qualquer coisa especial. Aquela sensação de, quando encontramos alguém pela primeira vez, nos apercebermos logo de que temos algo em comum. Não que falemos muito acerca disso mas há, definitivamente, uma empatia a esse nível”. E corrige logo a minha imprecisão "de género": “Mas também há diversos homens. Não falando sequer no Sufjan Stevens (com quem ela colaborou), existem também o Bryce Dessner e o Padma Newsome (que foi meu professor), dos National; estudaram ambos em Yale: um, guitarra clássica e, o outro, composição e viola de arco. E o Rob Moose, que tem tocado comigo e com o Antony. Em Nova Iorque, respira-se uma atmosfera muito especial: há escolas como a Juilliard e a Manhattan School Of Music mas as pessoas estão expostas a uma tão grande diversidade de músicas que há, simultaneamente, um desejo enorme de experimentação e uma imensa disponibilidade de músicos excelentes. Apoiamo-nos muito uns aos outros, colaboramos em imensas coisas”. E, quando se encontram todos, entretêm-se com uns quartetos de Beethoven? (gargalhada sonora) É... e eu canto umas canções do Pierrot Lunaire, do Schoenberg...”.



Dos dois álbuns dos My Brightest Diamond, o segundo – A Thousand Shark’s Teeth – estava, originalmente, destinado a ser uma continuação em versão-quarteto de cordas do primeiro, Bring Me The Workhorse. Mas, pelo caminho, os planos foram drasticamente alterados: “A primeira de várias questões importantes foi eu ter-me apercebido que, em A Thousand Shark’s Teeth, havia muito poucas canções que me apetecesse tocar ao vivo. Depois da digressão de Bring Me The Workhorse, tive de tomar decisões. Gravei, então, 'Inside A Boy', 'From the Top of the World' e 'Ice and The Storm' que são as canções mais upbeat do álbum e as mais capazes de ser interpretadas em palco. Existiam versões de ‘Dragonfly’ e ‘Disappear’ mais longas e menos rock’n’roll e interroguei-me por que caminho pretendia, realmente, levá-las. Foi por essa altura, que imaginei que um disco de canções só com um quarteto de cordas era mesmo o que desejava fazer. Mas, a partir de certo ponto, comecei a pensar que seria óptimo poder acrescentar uns sopros aqui e ali, umas percussões acolá, e dei comigo a adicionar, a adicionar... Mas muitas canções são reflexos de outras. Para mim, há paralelismos entre ‘Something Of An End’ e ‘Inside A Boy”, por exemplo. São canções que fazem parte da mesma família, que fazem um uso idêntico do texto, que partilham uma linguagem semelhante”.



A “família” das referências eruditas de Shara, no entanto, não está fechada a outras provenientes da pop: “Só para lhe dar um exemplo, Shark’s Teeth foi definitivamente influenciado pelo Alice, do Tom Waits, pela ‘côr’ geral dele. Descobri o engenheiro de som que tinha sido responsável pela gravação e mistura desse álbum e do Blood Money, o Husky Höskulds, e consegui que fosse ele também a gravar e masterizar o nosso. Queria aquelas tonalidades escuras – com muitas marimbas, violinos, saxofone, clarinete-baixo – que havia no Alice. Mas há também muitos artistas visuais como o Anselm Kiefer ou o Robert ParkeHarrison que sinto como importantes para que faço. Ambos têm como matéria de trabalho a procura da compreensão do lugar do homem no universo e de um sentido de responsabilidade para com o planeta e de uns para com os outros o que, certamente, estava presente em A Thousand Shark’s Teeth, juntamente com o tema da morte e com certos traços mais banais do trabalho humano: seja no que diz respeito às relações laborais ou aos aspectos mais prosaicos e aborrecidos das actividades diárias e ao desejo de lhes fugir. Pode dizer-se que metade desse disco foi escrita um pouco aleatoriamente e a outra metade teve uma intenção muito mais pronunciada de explorar esses temas”.



E, em palco *, poderemos sonhar com o pequeno luxo da orquestra de câmara? (nova e espontânea gargalhada) Quem me dera, meu amigo!... No concerto de lançamento do disco, pude recorrer a uma orquestra de câmara. Mas, para estes concertos, será uma versão muito mais despojada: só bateria, baixo e eu, numa diversidade de instrumentos, alguns deles, electrónicos. Será uma imagem muito mais crua e descarnada capaz de estabelecer uma relação mais directa e imediata. Pelo menos, é o que eu espero que aconteça. Mas não sei, é melhor, depois, dizer-me como foi!...”

* 2/12/09 Lisboa, São Luis; 4/12/09, Coimbra, Teatro Gil Vicente; 5/12/09 Espinho, Academia de Musica

(versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 28.11.09)

(2009)

18 October 2009

JUILLIARD POP



Christina Courtin - Christina Courtin

Imaginem o que poderia ser, em termos actuais, uma superbanda: o guitarrista Marc Ribot (Tom Waits e inúmeras outras notabilidades de downtown-New York), Greg Cohen (baixista e acordeonista de currículo semelhante com Laurie Anderson pelo meio, aqui, também, enquanto co-produtor), o teclista Benmont Tench (ele, fidelíssimo dos Heartbreakers, de Tom Petty, mas também regular de Johnny Cash, U2, Sam Phillips, Bob Dylan, Roy Orbison, Rolling Stones, Elvis Costello e Fiona Apple), o baterista Jim Keltner (não há espaço para incluir metade dos ilustres), o multi-instrumentalista, produtor e "film-musician", Jon Brion (Aimee Mann, a bela Fionna, Brad Mehldau e filmes de P.T. Anderson e Michel Gondry na carteira) e ainda outras notabilidades injustamente avulsas.



Estão todos no álbum de estreia de Christina Courtin, recém-licenciada da Juilliard em violino e – como Joan Wasser, Shara Worden ou Regina Spektor, outras tantas "meninas de conservatório" – óptima e erudita "songwriter" (algures entre o melhor de Kristin Hersh, Joni Mitchell e Spektor), capaz de escrever “I thought I was a person too, turns out I’m a monster just like you” e de, por só, episodicamente, aqui, pegar no violino, desafiar a velha escola com a frase (no seu site) “Take that, Juilliard!”.

(2009)

21 September 2009

EXTREME MAKEOVER



Joan As Police Woman - Cover

No ano passado, por ocasião da publicação de To Survive, Joan Wasser (ou Joan As Police Woman, se preferirem) explicava que o motivo por que tinha desistido de uma carreira de violinista clássica para se entregar nos promíscuos braços da pop havia sido o facto de se ter apercebido que preferia compor e interpretar música nova e não “tocar o concerto para violino de Brahms” pela milionésima vez, tendo consciência que lhe seria praticamente impossível fazê-lo “melhor do que já o foi”. E, quando a conversa atingiu aquela etapa em que lhe coube fazer a enumeração das suas devoções privadas, a lista rapidamente engordou, de Nina Simone a Neil Young. David Bowie, Joni Mitchell, Stevie Wonder, Al Green, Shostakovich, Sibelius, Bartók, Ravel, Britten e Stravinsky. Ficaremos, então, a saber agora que, tal como ela assegurou no momento em que interrompeu a sequência de vénias, se tratava, realmente, de um rol “interminável”.



E também que, embora não tenha chegado ainda a vez do concerto de Brahms, Joan não se faz rogada a preencher um álbum completo com música alheia. Com a melhor justificação possível: a todas e a cada uma destas canções do disco que tem estado disponível nos concertos da actual digressão europeia, ela impõe as suas próprias regras de releitura radical e as transforma, literalmente, em coisa indiscutivelmente sua. Exemplo eloquente é "Sacred Trickster", dos Sonic Youth, convertido em híbrido de gospel e pop de girl group. Mas o espectro de estilos e soluções alarga-se tremendamente em modo de "extreme makeover", vestindo de dissonâncias o que era ligeiro, vertendo acusticamente o que fora eléctrico ou pintando de cores garridas a dureza hip hop, em "Overprotected", de Britney Spears, "Fire", de Jimi Hendrix, "Lady", de Adam & The Ants, "Whatever You Like", de TI, "She Watch Channel Zero", dos Public Enemy, "Ringleader Man", de T-Pain ou "Baby", de Iggy Pop e David Bowie. E, sobretudo, na discreta solenidade de câmara da belíssima "Keeper of The Flame", de Nina Simone.

(2009)


Voto na urna: nulø, com a frase "ESTA GENTE É UM NOJO"

18 May 2009

TECHNICOLOUR DISNEY NIGHTMARE



St. Vincent - Actor

Como Regina Spektor, Shara Worden (My Brightest Diamond) ou Joan "as Police Woman" Wasser, Annie Clark (alias, St. Vincent) é moça pop com pedigree académico, no caso, o Berklee College of Music. E – deve ser a versão contemporânea dos colégios de freiras enquanto viveiros de gloriosas devassas – moça pop numa variante admiravelmente inclassificável que reinvindica como antecedentes estéticos Pierrot le Fou, de Godard, Badlands, de Mallick, ou O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming, as bandas sonoras-Disney da Bela Adormecida, da Branca de Neve ou da Dama e o Vagabundo, Scary Monsters, de Bowie, Robert Fripp e os Yo La Tengo.



"Technicolour Disney Nightmare" é designação que assenta muito bem a esta música de monstruosa Mary Poppins revista por Tim Burton segundo Corman ou, se preferirem, de Alice no país dos horrores: ricamente orquestral à maneira do seu mestre Sufjan Stevens, coral e melódica à beira do precipício, descendência demente de uma Björk estuprada por Gainsbourg, capaz de alinhar "You're a liar, you're an extra lost in the scene" imediatamente antes de "I sit transfixed by a hole in your T-shirt" e de isso soar assaz sedutor.

(2009)

09 November 2008

ACADEMIA DE POLÍCIA



Claro que interessa conhecer os motivos, as curvas e as contracurvas que conduziram uma aluna de violino da classe – na universidade de Boston – de um discípulo de David Oistrakh, a transformar-se em instrumentista e “songwriter” pop. Mas francamente mais intrigantes eram as razões para que Joan Wasser tivesse optado pelo “nom de plume” de Joan As Police Woman. Visivelmente esgotada por um carrossel de voos e entrevistas mas nem por isso com menos vontade de conversar, a ex-companheira de Jeff Buckley conta uma história que diz bastante acerca de si e do seu sentido de humor: “A meio dos anos 70, havia uma série policial de televisão, com a Angie Dickinson, chamada Police Woman. Passava-se em S. Francisco e ela desempenhava o papel de uma agente da polícia infiltrada. Creio que foi a primeira série do género a ter uma mulher como protagonista. Só a conheci quando passou em repetição mas cresci a ver séries policiais. Era muito 'cool'... também havia a Charlie’s Angels mas essa era demasiado 'fofinha', esta era mais como o Kojak. Quando comecei os espectáculos a solo com o meu nome verdadeiro, as pessoas supunham que iriam assistir a um concerto de violino, não sabiam que eu escrevia canções. Tive de inventar um nome para mim. Num dia em que tinha vestido qualquer coisa muito anos 70, um amigo disse-me ‘Joan, incorporaste o espírito da Angie, no Police Woman?E foi assim que me tornei Joan As Police Woman”.



O outro lado da biografia, então. Das aulas de piano, desde os seis anos, até aos dois álbuns a solo (Real Life, 2006, e To Survive, 2008), passando pelo percurso como violinista ao lado de Lou Reed, Sparklehorse, Tanya Donelly, Mary Timony, Antony e Rufus Wainwright: “Estudei violino clássico na universidade mas, ao mesmo tempo, comecei a tocar em todas as situações que ia descobrindo. Adoro a música clássica mas era, para mim, evidente que não iria fazer dela a minha vida. Queria tocar música nova e interessava-me mais tocar as peças que os professores da minha escola compunham. Quantas vezes será ainda possível tocar o concerto para violino de Brahms melhor do que já o foi? Eu não era uma criança prodígio, nunca seria capaz de o fazer”. O primeiro ensaio de autonomia estética foram bandas como os Lotus Eaters e Hot Trix mas, principalmente, os Dambuilders: “Gravei vários discos com eles e toquei por todo o lado. Não me passava pela cabeça escrever canções, o que me preocupava era descobrir uma forma de integrar o violino num contexto pop sem que soasse a falso”.



Alto! O que significa realmente isso de “integrar o violino num contexto pop sem soar a falso”? Será o retorno à escola de pensamento John Cale? “Isso mesmo. Procuro encaixar-me entre a guitarra e o baixo e tocar muito mais ritmicamente do que melodicamente. E também uso muito os pedais de distorção, delay, fuzz... No meu primeiro álbum, em “Christobel”, muita gente me veio dizer que adorava o solo de guitarra… na verdade, era o meu violino. Comecei por tocar um violino de cinco cordas que incluía o dó grave da viola de arco, gosto dos registos graves. Uma das piores formas de fazer sobressair o violino é abusar dos agudos”. Antes de prosseguir com a narrativa autobiográfica – e Joan recita-a, ordenada e cronologicamente arrumada, numa impecável “timeline” –, parece oportuno perguntar-lhe se sente alguma particular afinidade com outras recentes “songwriters” e instrumentistas de formação académica desviadas para a pop, como Shara Worden (My Brightest Diamond) ou Regina Spektor: “Conheço a Shara e falei uma vez com a Regina mas, a ela, não a conheço bem. No fundo, todas estudámos música e desejamos criar algo de nosso. Os conhecimentos que temos de harmonia permitem-nos ir além daquilo que é mais habitual no idioma da pop que, em grande medida, descende dos blues. Estamos bastante habituadas a lidar com 'clusters' de acordes, com alguma complexidade harmónica. Que diabo!...ter tocado Mahler aos catorze anos há-de, inevitavelmente, ter produzido algum efeito”.



Etapa seguinte. Ponto final nos Dambuilders e a difícil transição do papel de violinista para o de compositora e cantora: “Quando a banda acabou, isso despertou-me a vontade de explorar outras vias e comecei a tocar guitarra o que, naturalmente, me estimulou a cantar, precisava de ouvir melodias. Em palco, sentia-me muito confortável com o violino mas, sempre que tinha de cantar, ficava paralisada de terror! Não estava segura da minha voz, tinha medo de a usar. Mas a minha personalidade sempre me empurrou para me atirar àquelas coisas que me assustam, desde que me aperceba que posso aprender algo com isso. Escrevi, então, as primeiras canções e pus de pé uma banda, Black Beetle – os músicos que tocavam com o Jeff Buckley – em que, tanto o Michael Tighe, o guitarrista, como eu, estávamos a aprender a escrever canções. Gravámos um disco mas nunca o publicámos. Por volta de 2000, comecei a dar concertos a solo para me obrigar a ir mais longe vocalmente, sem a bengala de uma banda. Tinha tocado com imensos músicos espantosos e poderia continuar a fazê-lo durante o resto da vida mas a decisão de pôr a minha música em primeiro lugar estava tomada”. Dois álbuns, dois EP e meia dúzia de singles mais tarde, apetece saber quais os modelos e referências (se os há... mas há sempre, mesmo quando, voluntária ou involuntariamente, ocultos) que Joan Wasser, da academia para os palcos pop, sente que poderão ter sido lançados para o caldeirão da sua escrita.



Não hesita um segundo: “No que respeita à comunicação das emoções, adoro a Nina Simone. Cantou imensas canções que não eram dela mas, de cada vez que cantava, sentia-se que ela estava toda naquele momento e era impossível não partilharmos das suas emoções. E continuo a sonhar ser capaz de escrever uma canção como as do Neil Young. Mas também gosto muito do David Bowie e da Joni Mitchell... é uma lista interminável. De momento, não tenho ouvido mais nada senão Al Green. Há tempos, também tive uma recaída de Stevie Wonder: de cada vez que o ouvimos, descobrimos coisas novas, aquele universo continua vivo!”. Mas há ainda outro universo que continua vivo. E que regressa, radiante, à superfície sempre que lhe dão uma oportunidade para isso. Como aconteceu, no programa de música clássica, “Visionaries”, da BBC World News (segundo Joan, ainda não emitido), que a convidou para derramar louvores sobre o compositor russo Shostakovich: “Sempre falei muito acerca dele em entrevistas, é uma música que me emociona imenso. É muito programática, como acontece na música para cinema. Tem um carácter muito destemido: por vezes, é brutal, outras, soturna, e noutras ainda, alegre e vibrante. Também gosto muito de Sibelius, Bartók, Ravel, Britten, Stravinsky... iria ser outra lista sem fim. Todos os grandes são sempre verdadeiramente grandes!”.

(2008)

28 June 2008

ACADEMIA: ART & SOUL



My Brightest Diamond - A Thousand Shark’s Teeth




Joan As Police Woman - To Survive

Quando, há dois anos, foi publicado Bring Me The Workhorse, de Shara Worden/My Brightest Diamond, e, em simultâneo, Begin To Hope, de Regina Spektor, os pontos comuns da biografia de ambas permitiram que, sem esticar demasiado a lógica, os dois álbuns fossem tratados no mesmo texto. Uma e outra provinham de famílias musicais e, com currículo académico de conservatório (estudo da música de Purcell e Debussy na University of North Texas e aulas de canto operático em Nova Iorque para Worden, e, da Moscovo natal aos Purchase College e Manhattan School Of Music, uma licenciatura em piano, no caso de Spektor), tinham acabado por se dedicar a variantes distintas do idioma pop/rock, demonstrando como não é uma fatalidade que a atmosfera erudita das salas de aula conduza à amputação de uma criatividade menos universitariamente configurada.



Também por essa altura, em 2006, era editado Real Life, o álbum de estreia de Joan Wasser (aliás, Joan As Police Woman), outra ilustre frequentadora daquelas instituições cujas paredes transpiram a tradição clássica europeia: aulas de piano desde os seis anos e de violino a partir dos oito, prosseguidas na Universidade de Boston (sob a orientação de Yuri Mazurkevich, discípulo de David Oistrakh) onde, naturalmente, integrou a Boston University Symphony Orchestra. É, portanto, quase inevitável que, agora que My Brightest Diamond e Joan As Police Woman chegam aos respectivos segundos álbuns, estes, exactamente pelos mesmos motivos, voltem a ser igualmente emparelhados. O mais interessante, no entanto, é que, tal como já sucedia com Worden e Spektor, sejam bastante mais significativas as diferenças entre eles do que qualquer hipotético elo espiritual “académico” que os reunisse.



Concebido ao mesmo tempo que Bring Me The Workhorse (num processo que vem desde 2002), A Thousand Shark’s Teeth deveria ter sido o segundo painel para quarteto de cordas do díptico que os dois constituiriam. Na verdade, cresceu para um elenco final de cerca de vinte elementos – secções de cordas, guitarras, vibrafones, clarinetes, corne inglês, harpa – que dá corpo orquestral às magníficas peças de Shara Worden, algures entre o que poderia ter sido uma Kate Bush imensamente menos afectada, Björk, Jeff Buckley, e tudo o que ela própria enumera como pontos de referência: Lewis Carroll, Tom Waits, os filmes de Jean Pierre Jeunet, a pintura de Anselm Kiefer, a fotografia de Robert ParkeHarrison, Maurice Ravel e Tricky (aos dois últimos, cita-os explicitamente em “Black & Costaud” e “Like A Sieve”). Se Workhorse foi uma estreia memorável, Shark’s Teeth não apenas a confirma integralmente como é, seguramente, um dos enormes álbuns deste ano.



To Survive é de outra estirpe: a dos “singer-songwriters”, na tradição de Joni Mitchell, Carole King ou Laura Nyro, uma espécie de soul branca sofisticada (pensem em Nina Simone mas também em Cat Power ou Mary Margaret O’Hara), criada por quem já pisou estúdios e palcos ao lado de Lou Reed, Tanya Donelly, Sparklehorse, Antony & The Johnsons e Rufus Wainwright (integrou as bandas de ambos). Repescar a ideia de “torch song” – despida de adereços, excesso de maquilhagem e luxo de guarda-roupa – não será demasiado despropositado num álbum de maioritariamente belas canções onde, com alguma surpresa, Wasser troca preferencialmente o violino pelo piano e David Sylvian e Rufus (discretíssimo como lhe fica melhor) contribuem vocalmente em duas faixas.

(2008)