Showing posts with label Jim O' Rourke. Show all posts
Showing posts with label Jim O' Rourke. Show all posts
26 February 2025
29 August 2022
(sequência daqui) Final do primeiro acto. No segundo, abandonaria a banda, criaria uma empresa de jardinagem, matricular-se-ia no curso de arqueologia do University College de Londres e, quase confidencialmente, ocupar-se-ia com a escrita de canções. Estão todas em Giant Palm que o produtor e arranjador Joel Burton a convenceria a gravar com uma trupe de mais de 30 músicos. Preparem-se, então, para se cruzarem com Astrud Gilberto de braço dado com Sandy Denny, reparem na proximidade de Jim O’Rourke com Bert Jansch, o jazz e o psicadelismo tropicalista e, de um modo geral, refresquem-se neste maravilhoso e impuríssimo chuveiro.
19 May 2022
(You Belong There - álbum integral aqui)
(sequência daqui) E, referindo-se ao facto de grande parte do disco ter sido concebido nas atmosferas rurais do Norte do estado de Nova Iorque e de Santa Fe, no Novo México, acrescentava; “Não sou uma pessoa particularmente espiritual. Não sou religioso. Mas, definitivamente, sinto uma espécie de relação misteriosa com certos lugares. É o mais próximo que chego de uma experiência espiritual”. É, então, num registo de art/rock/folk – de Van Dyke Parks a Baden Powell, Robert Wyatt, Jim O’Rourke, Nick Drake, a clássica de câmara e o jazz – que estas 10 matrioscas sonoras meticulosamente orquestradas circulam, entre espirais de guitarra, arrebatamentos orquestrais e oceânicas massas corais, à esquina de um quase aforismo Zen: “Our work for work’s sake, we’re useless in our way, clear the brush and push the paint, nothing’s lost when there’s nothing there, whatever was and whatever will”.
29 June 2021
MONSTROS E DEMÓNIOS
Sem se dar muito por isso, ao longo de 30 e tal anos, sob o nome (verdadeiro) de Will Oldham - aliás, Joseph Will Oldham -, mas também enquanto Palace, Palace Brothers, Palace Songs, Palace Music ou Bonnie ‘Prince’ Billy, a solo ou em colaborações com Dawn McCarthy, The Cairo Gang, Bill Callahan, Meg Baird, Jim O’Rourke e inúmeros outros, em álbuns, EP, singles, e compilações, o belo príncipe exibe no CV bem para lá de uma centena de títulos. Entre os quais, desde 25 de Abril do ano passado, também uma versão de "Grândola Vila Morena", de José Afonso, cantada "a capella", em português, na sua conta do Instagram. Pelo meio dessa densa e riquíssima floresta de música feita de folk, country e punk que lhe valeria o cognome de “Appalachian post-punk solipsist”, em Master And Everyone (2003), descobria-se "Wolf Among Wolves", uma dulcíssima e tremenda confissão de alienação e renúncia (“Why can’t I be loved as what I am, a wolf among wolves, and not as a man among men”) que, bastaria, por si só, para justificar o título da sua recolha de textos – Songs Of Love And Horror – de há 3 anos. Em 2005, na companhia de Matt Sweeney (Skunk, Chavez e pistoleiro contratado de estúdio de primeira linha), o lobo ganharia super-poderes e transformar-se-ia em possante Superwolf, criatura mítica que, só 16 anos depois, reemerge das trevas. (daqui; segue para aqui)
19 February 2020
AGUARELA INGÉNUA
Gato repetidamente escaldado pelas inúmeras e desavergonhadas campanhas de "hype" à volta de “génios incompreendidos na sua época” que, trazidos à luz, se revelam muito pouco geniais e justissimamente ignorados, teme, naturalmente, a água fria de mais uma “inigualável descoberta” pronta a servir. Foi, pois, inteiramente justificado que, ao ser anunciada a exumação de duas preciosidades do início dos anos 70, desde então remetidas para a clandestinidade, e cujo autor, durante os 40 anos seguintes, se vira obrigado a sobreviver como jardineiro, operário e trabalhador rural, a oferenda tenha sido recebida com os dois pés firmemente colocados atrás. Afinal, por uma vez, o "hype" tinha toda a razão de ser: Bill Fay (1970) e Time of The Last Persecution (1971) – muito especialmente o primeiro – eram o género de peças perante as quais apenas podia pensar-se “Mas como foi possível?...”
Entusiasticamente apregoado por Jeff Tweedy, David Tibet, Nick Cave e Jim O’Rourke, era, de todo, impossível não alinhar no coro. E fi-lo: Bill Fay era “coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen”. Provavelmente decisivas eram as orquestrações de Mike Gibbs (jazzman às ordens de Carla Bley, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, e Joni Mitchell) porque, embora também valiosos, Time of The Last Persecution e os dois que gravaria pós-ressurreição (Life Is People, de 2012, e Who Is the Sender?, de 2015), sem a mão de Gibbs, tendiam a aconchegar-se demasiado às ecografias da alma dos velhos "singer-songwriters". Countless Branches vem confirmar essa ideia: quase só pele e osso de voz e piano com ocasionais pinceladas transparentes de violoncelo e trompete, é uma aguarela intimista de deslumbramento cripto-cristão perante o mundo, a vida e os humanos, talvez excessivamente ingénua – confrontar com Leonard Cohen - para um cavalheiro de 77 anos.
Labels:
Bill Evans,
Bill Fay,
Carla Bley,
David Ackles,
Jim O' Rourke,
Joni Mitchell,
Leonard Cohen,
Marianne Faithfull,
Mike Gibbs,
Nick Cave,
Peter Gabriel,
Scott Walker,
Tim Buckley,
videoclips,
Wilco
12 February 2020
20 June 2019
Bill Callahan é o tipo capaz de escrever “Dress sexy at my funeral, my good wife, for the first time in your life, wear your blouse undone to here and your skirt split up to there, and when it comes your turn to speak before the crowd, tell them about the time we did it on the beach with fireworks above us” e de cantar essas palavras envoltas na adequada gravitas que o tema exige, rematando-as com “Also tell them about how I gave to charity and tried to love my fellow man as best I could, but most of all, don't forget about the time on the beach with fireworks above us”. Estávamos em 2000 e no álbum Dongs of Sevotion, quando, na realidade, não tinha ainda conhecido a “good wife”. Foi só 12 anos mais tarde que encontrou Hanly Banks, documentarista que, sobre ele realizaria Apocalypse e que, em consequência da felicidade familiar que descobririam juntos, forçaria Shepherd In A Sheepskin Vest – o sucessor de Dream River (2013) – a ter de ir lentamente amadurecendo durante 6 anos. Quando, numa entrevista recente a “The Fader”, lhe chamaram a atenção para que, também agora, o há muito desaparecido David Berman (Silver Jews) reaparece, observou: “É como se todos os zombies tivessem acordado”.
Levou 6 anos para concluir este álbum o que é bastante mais que a sua média habitual. Houve algum motivo particular para isso?
Houve mudanças importantes na minha vida: casei-me e tive um filho. Não sou o tipo de pessoa capaz de ignorar tudo isso e continuar a trabalhar. Tive de aprender a ser pai e marido e isso ocupou-me alguns anos. Ao mesmo tempo, procurei não perder de vista o velho eu que faz música e encontrar o espaço no cérebro para cada uma das minhas diferentes responsabilidades. Foi demorado resolver tudo isso. Por outro lado, proporcionou-me tempo para reavaliar e repensaro meu trabalho.
Na propria essência da escrita das canções, na forma como as trabalha e interpreta, houve alguma transformação concreta?
Quis gravar um album cujo tema fosse definitivamente tudo aquilo por que tenho passado. Nunca me apercebi de que existissem muitos discos acerca da felicidade doméstica. Tudo isto me afectou muito profundamente. Se trabalhasse num escritório ou fosse advogado, trabalhava doze horas, voltava para casa, e tudo se passaria sem problemas. Mas, comigo, não é bem assim, preciso de me envolver com as coisas. E este não é, de facto um tópico que costume interessar imenso aos "songwriters". Talvez alguém mais jovem do que eu, que tenho já 53 anos, pudesse ter outra perspectiva sobre isto.
Tratar-se-á daquilo a que, habitualmente, se chama ter atingido a maturidade?
...
... se calhar... muitas vezes, quando saímos de casa dos pais, não estamos ainda realmente preparados para assumir responsabilidades e tomar conta de nós mesmos enquanto jovens adultos. Provavelmente, só atingimos a maturidade quando damos vida a alguém.
Poderá dizer-se que aquilo que constitui o espírito do álbum é uma ideia de que vale mais concentrarmo-nos na descoberta e preservação da felicidade do que desperdiçar o tempo obcecado pelo lado negro e ameaçador da existência?
Ainda não tinha pensado nisso dessa forma mas parece-me um bom ângulo sob o qual encarar o álbum.
Já descobriu a resposta para a interrogação que, em "Ride My Arrow", do último álbum, formulava: “Is life a ride to ride? Or a story to shape and confide? Or chaos neatly denied?”
Hoje, provavelmente, responderia “a ride to ride” mas é importante permanecermos abertos a todas as possibilidades, não devemos agarrar-nos teimosamente apenas a uma.
Nos primórdios dos Smog, a música era agreste, ruidosa, experimental, lo-fi. Uma vez, descreveu-a como “a monkey throwing shit on the walls”. Pretendia puramente experimentar ou tinha alguma intenção definida?
Gostava de explorar todos os tipos de ruído, moldá-los, tirar partido de vias mais abstractas, é um caminho muito aberto. É verdade que, na altura, também não dominava particularmente bem a guitarra... pretendia que fosse tudo imediato o que, numa situação de estúdio, é difícil acontecer. Tive de aprender tudo isso à minha custa.
Quando começou a dedicar-se à música, havia bandas ou músicos individuais que, de algum modo, tivessem funcionado como modelos para si?
John Lee Hooker foi uma grande influência. Aprendi com ele que uma canção pode ser constituída apenas por meia dúzia de palavras, dois ou três acordes... De outra forma, também o Lou Reed: escrevia sobre aquilo que mais ninguém escrevia, coisas que estaríamos à espera de encontrar num livro ou num filme mas não numa canção. Abriu-me os horizontes para assuntos com os quais nem sequer sonhava. Mas também os Minutemen ou os Meat Puppets, os textos eram muito idiossincráticos. Muito no início, interessava-me também pela "musique concrète", pelo "free jazz"... sonoridades "free-form" que nunca podem ser recriadas.
E, hoje, que música ouve que o entusiasme?
Oiço bastante "footwork", um género de hip-hop muito estranho e experimental popularizado pelo RP Boo, um DJ de Chicago. Acho-o muito hipnótico. Ninguém gosta, realmente de ouvir, é só um apoio para dançar, mas eu gosto mesmo. Também oiço muita música electrónica e "house", tudo aquilo que, antes, não conseguia compreender. Estou convencido que acabamos por ser capazes de entender tudo se não desistirmos de o fazer.
Foi a partir de 1997, com Red Apple Falls (produzido por Jim O’Rourke), que tudo começou a ser algo mais estruturado...
Já tinha tocado com um baterista em Wild Love (1995) mas essa foi realmente a primeira vez que, num álbum, do princípio ao fim, usei bateria. Nessa altura, foi como se tivesse acendido um enorme foco de luz, a bateria torna tudo muito mais fácil, podemos apoiar-nos nela.
A partir de 2007 e de Woke on a Whaleheart, deixou de gravar como Smog e passou a fazê-lo sob o seu próprio nome. Houve alguma razão especial para isso?
O nome Smog era como uma tatuagem que eu tivesse feito aos 18 anos. E, à medida que o tempo ia passando, fazia cada vez menos sentido.
Não é fácil livrarmo-nos de uma tatuagem...
É verdade, mesmo agora, em anúncios de concertos, muitas vezes, ainda continua a aparecer “Bill Callahan (Smog)”. Quis distanciar-me em relação a isso. Pelo menos, tentei... Para mim, tinha deixado de ter qualquer significado, estava farto.
Em 2010, publicou Letters to Emma Bowlcut a que chamou uma “epistolary novelette” e, quatro anos depois, I Drive a Valence, uma recolha de textos de canções e desenhos seus. Foram impulsos de ocasião ou gostaria de prosseguir uma carreira literária?
Insistiam muito comigo para escrever um livro e gostava de pensar que serei capaz de voltar a escrever outro. Foi uma experiência de que gostei: escrever, reescrever, corrigir, editar... Mas só sou capaz de fazer uma coisa de cada vez: se estou a pensar num disco, não consigo, ao mesmo tempo, concentrar-me num livro.
Sentava-se disciplinadamente para escrever ou ia produzindo textos dispersos que, depois, reuniu em livro?
Ao longo dos anos, tinha reunido um certo número de textos mais ou menos em formato epistolar e mais uns quantos outros. Uma amiga minha, Connie Lovatt, leu-os e editou-os. A forma de carta é um meio de expressão muito livre: pode ser prosa, poesia, entradas de um diário, crónicas, comentários, apontamentos...
Escrever um livro foi uma experiência radicalmente diferente de escrever canções?
As canções são habitualmente estruturadas em versos e refrão. Os parágrafos não são a mesma coisa. São mais robustos e compactos. Os versos são mais finos e farpados.
26 July 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (VI)

Joanna Newsom - Ys
Sob o pequeno alpendre da quadrilha-“free folk”, Joanna Newsom é a indisputada primeira-dama: se o álbum de estreia (The Milk-Eyed Mender) já lhe tinha rendido uma considerável vassalagem, o último, Ys, submergiu-a – como à lendária cidade bretã que dá o título ao disco – sob um dilúvio de elogios quase unânimes. É verdade que se rodeou das melhores companhias (produção de Steve Albini, misturas de Jim O’Rourke e arranjos orquestrais de Van Dyke Parks – de longe, o melhor de Ys: deveriam ser cirurgicamente extraídos, de emergência, e reeditados autonomamente) mas não é, realmente, fácil amar verdadeiramente um conjunto de canções quilométricas (comparativamente, os Himalaias de “soufflé” sonoro dos Yes são delicadas miniaturas), com recheio de inescrutável “poesia” vertida em inglês arrebicado e supostamente “arcaico” sobre tricot de harpa, encenadas em cenário pseudo-pré-Rafaelita simbolicamente sobrecarregado (o que, tecnicamente, se designa como "simbolismo aos baldes") e interpretadas por uma voz com o timbre de Lisa Simpson e o tipo de maneirismos que fazem seriamente pensar que, afinal, entre Björk e Françoise Hardy, não existem assim tão grandes diferenças. (2007)
Joanna Newsom - Ys
Sob o pequeno alpendre da quadrilha-“free folk”, Joanna Newsom é a indisputada primeira-dama: se o álbum de estreia (The Milk-Eyed Mender) já lhe tinha rendido uma considerável vassalagem, o último, Ys, submergiu-a – como à lendária cidade bretã que dá o título ao disco – sob um dilúvio de elogios quase unânimes. É verdade que se rodeou das melhores companhias (produção de Steve Albini, misturas de Jim O’Rourke e arranjos orquestrais de Van Dyke Parks – de longe, o melhor de Ys: deveriam ser cirurgicamente extraídos, de emergência, e reeditados autonomamente) mas não é, realmente, fácil amar verdadeiramente um conjunto de canções quilométricas (comparativamente, os Himalaias de “soufflé” sonoro dos Yes são delicadas miniaturas), com recheio de inescrutável “poesia” vertida em inglês arrebicado e supostamente “arcaico” sobre tricot de harpa, encenadas em cenário pseudo-pré-Rafaelita simbolicamente sobrecarregado (o que, tecnicamente, se designa como "simbolismo aos baldes") e interpretadas por uma voz com o timbre de Lisa Simpson e o tipo de maneirismos que fazem seriamente pensar que, afinal, entre Björk e Françoise Hardy, não existem assim tão grandes diferenças. (2007)
Subscribe to:
Posts (Atom)