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14 November 2019

29 October 2019

SERENA ALUCINAÇÃO

  
Brian Eno, ateu confesso, afirmou uma vez que “o budismo é uma excelente religião para ateus”. Só se enganava num pequeno mas importante detalhe: não se trata, de facto, de uma religião – o conceito de “deus” é-lhe totalmente alheio – mas de uma filosofia de vida e, em particular no Zen, onde todos os ensinamentos de Siddhārtha Gautama se descobrem finamente decantados, um eficaz método de lubrificação mental. O próprio Siddhārtha aconselhava os discípulos a não desperdiçarem tempo com especulações metafísicas. Numa famosa parábola do Canone Pali, um monge dirige-se-lhe, inquieto, por nunca lhe ter escutado uma palavra acerca de se o universo é finito ou infinito, limitado ou ilimitado, ou se a alma é distinta do corpo. E o Buda, amavelmente enfastiado, pede-lhe para pensar num homem atingido por uma flecha envenenada: “Se, quando a família e os amigos chamassem um médico, ele se recusasse a ser tratado antes de saber quem o havia ferido, a que casta pertencia, qual a altura e côr da pele, e que arco, flecha e veneno tinha utilizado, decerto morreria antes de conhecer tudo isto. Seja o universo eterno ou não, a morte, a velhice, o sofrimento e a infelicidade continuarão a existir e só nesta vida poderão ser eliminados. Se não te expliquei todas essas coisas é porque elas são inúteis e não conduzem à libertação”



 
Inevitavelmente, porém, a popularização dos ensinamentos do Buda acabaria por transformá-los numa religião quase idêntica às outras com toda a corte de espíritos, amuletos e superstições, especialmente evidente na variedade do budismo tibetano, caldo de cultura de onde surgiu o Bardo Thodol ou Livro dos Mortos Tibetano – escrito no século VIII e redescoberto no século XIV –, um guia de viagem para as almas nos 49 dias que se seguem à morte. Songs From The Bardo, reune Laurie Anderson, Tenzin Choegyal e Jesse Paris Smith (filha de Patti Smith) para uma leitura musical de 80 minutos do texto tibetano (que já fertilizou o Ubik, de Philip K. Dick, em versão lisérgica, The Psychedelic Experience, de Timothy Leary e, por via deste, Tomorrow Never Knows", dos Beatles), num exercício de serena alucinação sonora e poética que, tal como poderia acontecer se fosse baseado nas mais febris escrituras da tradição judaico-cristã e gnóstica, faz as palavras levitar - “Dancing with a crescent knife and a skull full of blood, gesturing and gazing at the sky” –, por entre a evaporação dos timbres de violino, piano, violoncelo, gong, flauta, alaúde e taças de cristal.