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14 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (II)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Três anos depois, o truque parecia continuar a funcionar. Escrevendo na "Rolling Stone" de 30 de Agosto sobre a banda sonora de Dylan para Pat Garrett & Billy the Kid, de Sam Peckinpah, Jon Landau — o "descobridor" de Bruce Springsteen — decretaria: “A mais importante figura do rock branco dos anos 60 transformou-se numa das menos significativas dos anos 70. Mas o que causa maior perplexidade parece ser a deliberada intenção desse declínio”. De facto, por essa altura, Dylan parecia fazer tudo para demolir a imagem que, até esse momento, se lhe havia colado, chegando a manter uma perigosa relação de proximidade com o Rabbi Meir Kahane, da Jewish Defense League, uma organização sionista de extrema-direita. A publicação de Blood On The Tracks (1975), Basement Tapes (com a Band, 1975) e Desire (1976) parecia apontar para uma suspensão de pena mas não tardaria muito até que — após uma peculiar epifania ocorrida quando, durante um concerto, um fã lhe atirou para o palco um crucifixo —, durante três anos e outros tantos álbuns (Slow Strain Coming, 1979, Saved, 1980, e Shot Of Love, 1981), Dylan se afundasse na superstição evangélica neo-carismática do cristianismo "born again" tal como o Vineyard Movement o pregava. Das homilias em palco às tentativas de evangelização dos que partilhavam o estúdio com ele (o veterano produtor de R&B, Jerry Wexler, amavelmente dissuadi-lo-ia: "Bob, tens à tua frente um velho judeu, ateu, de 62 anos. Vamos só gravar um disco, está bem?..."), tudo parecia, desta vez, apontar para que o plano inclinado não fosse apenas um adereço. 

Justamente o momento adequado para, a propósito da publicação do álbum de um estimável "singer-songwriter" irlandês que não incendiaria a história da música (para que conste: Rave On, de Andy White, 1986), com todas estas desculpas, justificações e atenuantes, lhe lavrar a certidão de óbito. O que, nas páginas do "Expresso", cobrindo-me para sempre de vergonha, implacavelmente fiz: “Não consegue entender-se muito bem por que motivo uma geração inteira, há anos, persiste em convencer-se e em tentar convencer as seguintes que Bob Dylan, do ponto de vista criativo, não se encontra definitivamente empalhado, suscitando sempre expectativas de ressurreição — invariavelmente infundadas — aquando de cada nova edição sua. Como se não fosse transparentemente evidente que (com excepção de esporádicos e isolados fogachos de brilhantismo posteriores), após Highway 61 Revisited e Blonde On Blonde e, em grau menor, John Wesley Harding, Dylan nunca mais conseguiu igualar-se a si mesmo ainda que a sua influência tenha permanecido, até hoje, quase intocada". (segue para aqui)

29 August 2013

(AINDA) OUTRO LADO DE BOB DYLAN

  
Bob Dylan deverá ter pulado de alegria ao ler a pergunta com que Greil Marcus iniciava os 40 000 caracteres da crítica a Self Portrait, no número de 23 de Julho de 1970 da “Rolling Stone”: “What is this shit?...” E mais feliz terá ficado ao reparar que, evidentemente, Marcus não se ficava por aí mas zurzia forte e feio na obra e no autor, comparando-o com Rimbaud que trocara a poesia pelo comércio na Abissínia, interrogando-se acerca do real valor de Dylan (“Em 65 e 66, seríamos assim tão impressionáveis? Não teremos sobrevalorizado algo que, afinal, não era melhor do que isto? Aqueles discos tão intensos terão sido apenas acidentais?”), desafiando-o a ir até ao fim e a assumir o “Bing Crosby Look”, e confessando amargamente que era a primeira vez que se sentia cínico ao ouvir um disco dele. Mas, a certa altura, por acaso ou não, Greil Marcus acerta no alvo: “Há uma curiosa tendência para o auto-apagamento. Dylan retira-se de uma posição na qual lhe é exigido que exerça o poder. Quase como o duque de Windsor abdicando do trono”. De facto, estava tudo a correr tal como fora planeado: um pouco por todo o lado, Self Portrait seria incinerado, o “Pravda” soviético chamaria a Dylan “capitalista ganancioso” e este fizera questão de não recusar o muito institucional e nada revolucionário doutoramento honoris causa que a universidade de Princeton lhe concedera. Ainda que, desgraçadamente, na cerimónia de atribuição dessa distinção, o académico de serviço não tenha resistido a apresentá-lo na qualidade de “expressão autêntica da consciência inquieta da Jovem América”.


Porque era justamente disso que ele queria fugir! Se seleccionara para Self Portrait os registos mais deslavadamente country e as mais pálidas interpretações de "standards", a intenção era, precisamente (assim o afirma em Chronicles Volume One), alienar de uma vez por todas a multidão de fãs e apóstolos que o acossava e lhe exigia “que saísse à rua e os conduzisse sabe-se lá onde, deixando de me esquivar aos meus deveres de porta-voz de uma geração. (...) Eu apenas cantara canções directas que falavam de realidades novas e poderosas. Tinha muito pouco em comum e sabia ainda menos de uma geração de que era o suposto porta-voz. (...) Sentia-me como um pedaço de carne atirado aos cães. (...) Escreviam-se histórias acerca de eu andar em busca de mim, numa demanda interior atormentada. Tudo isso me parecia óptimo. Gravei um álbum duplo [Self Portrait] para o qual atirei tudo o que colasse e não colasse à parede. (...) Convencera-me de que, quando a crítica demolisse a minha obra, o mesmo aconteceria comigo e o público me esqueceria”. Another Self Portrait (1969–1971), décimo volume das Bootleg Series editado a 27 de Agosto, apresenta-se com a exigente missão de demonstrar que, nesses anos de eclipse, ao lado da Band, de David Bromberg e de Al Kooper, nem tudo o que Dylan gravou era o esterco que, deliberadamente, amontoou no duplo de 1970. Bem mais difícil será fazer o mesmo em relação aos registos do período "born-again", quando o seu fervor evangelizador nem perante o produtor Jerry Wexler se deteve, obrigando este a dizer-lhe “Bob, estás a lidar com um judeu ateu de 62 anos. Vamos só gravar um álbum...”

18 September 2012

"In the late 1970s, Dylan became a born-again Christian and released two albums of Christian gospel music. Slow Train Coming (1979) featured the guitar accompaniment of Mark Knopfler (of Dire Straits) and was produced by veteran R&B producer, Jerry Wexler. Wexler recalled that when Dylan had tried to evangelize him during the recording, he replied: 'Bob, you're dealing with a sixty-two-year old Jewish atheist. Let's just make an album'". (aqui)

Jerry Wexler (Jerry Wexler died at his home in Sarasota, Florida, on August 15, 2008, from congestive heart failure. Asked by a documentary filmmaker several years before his death what he wanted on his tombstone, Wexler replied "Two words: 'More bass'")