"(...) O aclamado e vilipendiado autor de Animal Farm sempre aconselhou que se tivesse como modelo a prosa limpa de Swift, onde não há uma palavra desperdiçada: uma prosa lúcida, bela na sua simplicidade, escorreita, directa, certeira, não rendilhada nem enredada, em suma, um potente veículo para transportar ideias. Gonçalo M. Tavares, pelo contrário, serve-se de uma prosa arrebicada, contorcida, pretensiosamente oracular, própria de uma pitonisa em elevado grau de intoxicação. (...) A prosa oracular, pretensiosa, indigesta e, por fim, provinciana, de Tavares, parece ser muito apreciada em certos meios lusíadas. Mau sinal, acho eu, para o estado mental da nossa grei. Por detrás de muita prosa pomposa, esconde-se muitas vezes uma enorme trapalhada. Bertrand Russell, grande lógico/matemático, denunciava, na aclamadíssima filosofia de Sartre, um mero e patético acervo de 'extravagâncias linguísticas'. Tavares cultiva muito este universo de puras extravagâncias linguísticas. E, por favor, não me respondam com argumentos de autoridade, do género: ele é muito traduzido. Paulo Coelho e Barbara Cartland também o são. Qualquer bom oficial de relações públicas consegue milagres. (...)" (Eugénio Lisboa, aqui)
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05 February 2021
04 November 2019
O QUE UM PAÍS JULGAVA SER
É verdade que ele já tinha declarado ser “um génio muito estável” e que, no início deste ano, a então secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders – qual irmã Lúcia em relação a Salazar –, anunciara que “Deus quis que Donald Trump fosse presidente”. Mas, quando The Seduction of Kansas, segundo álbum dos Priests, foi gravado, Trump ainda não tinha revelado ao mundo o seu complexo de Messias tão explicitamente como em Agosto passado, ao declarar “I am the chosen one!”. Muito menos proclamara da forma que o fez a 7 de Outubro, a sua “imensa e inigualável sabedoria”. Não será, pois, exagero dizer que, em "Jesus’ Son", a banda de Washington DC, viu o futuro: “God came to me in a dream and told me that I'm Jesus' son, I know this world is mean, it's lucky I'm the chosen one, I sparkle like the setting sun, I think I wanna hurt someone, I'm young and dumb and full of cum”. Texto profético e tão rico de significados, que tanto poderia aludir a The Donald, a um qualquer pregador evangelista do Deep South, ou ao Travis Bickle, de Taxi Driver.
Já em 2017, a propósito do álbum de estreia Nothing Feels Natural, publicado logo após a tomada de posse de Trump mas concebido e escrito bastante antes, os petardos que disparava (“You want some new brutalism? You want something you can write home about, you want something to move away for, a reason to colonize”) foram entendidos enquanto antecipação da nova idade das trevas que se aproximava. Afinal, do mesmo modo que os vizinhos e camaradas Gauche (com quem partilham a baterista Daniele Yandel) se inspiraram em A People's History Of The United States, de Howard Zinn, eles partiram de What’s the Matter With Kansas? How Conservatives Won the Heart of America, de Thomas Frank (2004) – um estudo do Sunflower State como barómetro da política americana –, para a criação de uma metáfora cultural e política dos EUA onde “all the cowboys, they get ready for a drawn-out, charismatic parody of what a country thought it used to be”, um “little YouTube Sartre” decreta que "There's no way to overthrow the bourgeoisie except tossing a hand grenade into your society" e a Dorothy do Feiticeiro de Oz, activando a magia dos sapatinhos vermelhos e segura de que “There’s no place like home”, regressa, feliz, ao Kansas. Menos esquemático e musicalmente mais complexo – a guitarra de G.L. Jaguar!... – do que o (óptimo) panfletarismo dos Gauche, apetece muito escutar ambos em sequência. A ordem é arbitrária.
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09 May 2018
"But what matters is not working out a reform of capitalist society, but launching an experiment that completely breaks with that society, an experiment that will not last, but which allows a glimpse of a possibility: something which is revealed for a moment and then vanishes. But that is enough to prove that something could exist" (Jean Paul Sartre interviews Daniel Cohn-Bendit, Le Nouvel Observateur, 20 de Maio, 1968)
22 February 2015
O mais belo e acabado exemplo do pequeno-médio-intelectual-armado-ao-pingarelho: fã do Fernando Nobre e das "16 marcas de iogurte muito bom para os povos economicamente, mas também ao nível da formação do seu próprio corpo", ávido de "sonho e utopia", teorizador do papel da "classe média desde a Grécia Antiga" e da "Polónia, hoje bastante liberal", candidata a aliada da Alemanha-"âncora de uma futura Europa estável", visionário que "não acredita que esteja a acabar o Modelo Social Europeu" mas profetiza que "num futuro longínquo a escravatura se imponha novamente".
Sartre, volta, tudo te está perdoado!
12 April 2014
VINTAGE (CXCVIII)
Juliette Gréco - "La rue des Blancs-Manteaux"
Dans la rue des Blancs-Manteaux
Ils ont élevé des tréteaux
Et mis du son dans un seau
Et c'était un échafaud
Dans la rue des Blancs-Manteaux
Dans la rue des Blancs-Manteaux
Le bourreau s'est levé tôt
C'est qu'il avait du boulot
Faut qu'il coupe des généraux
Des évêques, des amiraux,
Dans la rue des Blancs-Manteaux
Dans la rue des Blancs-Manteaux
Sont venues des dames comme il faut
Avec de beaux affûtiaux
Mais la tête leur faisait défaut
Elle avait roulé de son haut
La tête avec le chapeau
Dans le ruisseau des Blancs-Manteaux
(ver aqui)
09 April 2014
GIGANTES
Foi em 8 de Maio de 1949 que Miles Davis, viajando pela primeira vez para fora dos EUA, visitou Paris para tocar na Sala Pleyel. No início do ano, havia iniciado o trabalho de parto que, só quase uma década depois, daria à luz Birth Of The Cool mas a dor verdadeira conhecê-la-ia na capital francesa. Como conta Richard Williams em The Blue Moment: Miles Davis ‘Kind Of Blue’ And The Remaking Of Modern Music, ele iria apaixonar-se perdidamente por uma miúda de 22 anos, Juliette Gréco, que Boris Vian lhe apresentou e que, em 1943, fora libertada da prisão de Fresnes onde a Gestapo a encerrara durante vários meses: “Gréco recorda-se que Jean Paul Sartre dissera a Miles ‘Porque é que vocês não se casam?’ Miles respondeu: ‘Porque a amo demasiado para a fazer infeliz’. Nesse momento, não era uma questão de infidelidade (Davis era casado e com dois filhos) ou de donjuanismo; era simplesmente uma questão de cor. ‘Se me tivesse levado para a América com ele, seria sempre vista como a puta de um preto’”. No fim de Maio, Miles Davis regressa a Nova Iorque e, emocionalmente devastado, abandona a família e afunda-se na heroína.
Em Paris, já musa da "rive gauche" existencialista, Gréco hesita entre o teatro e a canção mas decide-se por esta quando Sartre (“Gréco tem um milhão de poemas na voz. Na boca dela, as minhas palavras transformam-se em pedras preciosas”) e Joseph Kosma lhe oferecem "Rue des Blancs-Manteaux". Dai em diante, de Vian a Prévert, Béart, Ferré, Brel, Brassens, Biolay, Gainsbourg, todos os grandes da "chanson" lhe passaram pela voz e, sucedendo a Miles Davis, a lista de corações despedaçados alargou também seriamente. Quando, em 2012, o "maîre" de Paris, lhe entregou a medalha vermelha da cidade fazia, de há muito, todo o sentido a dedicatória: “Juliette Gréco é a parisiense. A parisiense que encarna o tempo de Paris que nunca passa”. No fim do ano passado, Gréco Chante Brel, encontro de gigantes com vertiginosas orquestrações de Gérard Jouannest, demonstrava como, aos 86 anos não é impossível gravar um álbum que deixa a tremer os joelhos de quem o escuta. Se ainda forem a tempo, nos próximos 15 e 17 de Maio, Gréco apresentá-lo-á no Olympia de Paris. Caso falhem, não é caso para alarme: é bem provável que esses não sejam os seus últimos concertos.
30 October 2010
NIGGER'S WHORE
(sequência daqui)
Cannonball Adderley com Miles Davis - " Autumn Leaves"
"Miles Davis's dark Italian suits and his European sports cars made him stand out from the generality of jazz musicians of the 1950s. No doubt his visit to Paris in May 1949, when he met Sartre and Boris Vian and fell in love with Juliette Gréco, had broadened his cultural horizons as well as his fashion sense. Two thousand fans turned up to hear him play at the Salle Pleyel in the Faubourg Saint-Honoré. (...)
That was the night Davis met Gréco, then making a name for herself in the clubs of the Left Bank, and through her the leading existentialists of the time. (...) More than half a century later, Gréco remembered: 'Sartre said to Miles: «Why don't you and Julie get married?» Miles replied: «Because I love her too much to make her unhappy». At that moment it wasn't a matter of infidelity [Davis was already married with two children] or of behaving like a Don Juan; it was simply a question of colour. If he'd taken me back to America with him, I would have been seen there as a 'nigger's whore'". (The Blue Moment: Miles Davis's 'Kind Of Blue' And The Remaking Of Modern Music, de Richard Williams)
(2010)
29 August 2010
THE BOX - REAL. RICHARD KELLY
Uma matryoshka infinita concebida por M.C. Escher. Sartre em versão sci-fi realizada por David Lynch. The Third Man reescrito por Philip K. Dick. Lulu On The Bridge em colisão frontal com The Day The Earth Stood Still. O Milgram Experiment (sort of) redesenhado por Arthur C. Clarck. O mito de Adão e Eva a flutuar entre Barton Fink e The Shining. Uma "morality play" em formato "mindfuck" dirigida por Richard Kelly mas sem coelhos gigantes. Muito provavelmente, um mau filme. Se calhar, ridículo. E absolutamente fascinante. Com uma magnífica banda sonora de Win Butler, Régine Chassagne e Owen Pallett (sim, esses mesmos).
(2010)
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sci-fi
14 March 2010
O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XL)
António Rego

Existem, sem dúvida, os escolhidos e os predestinados. Aqueles que, por algum motivo, exibem um sinal de diferença que os separa dos restantes. No próprio nome, por exemplo: António Rego não poderia ser mais contemporaneamente católico, mais explicitamente envolvido nas turbulências do século que confrontam esse rego acolhedor e profundo da fé (fulgurantemente evidente no sorriso das crianças, nunca como agora tão frequentemente tocadas pelo amor do Senhor) com a impiedade do mundo. E, simultaneamente, capaz de traduzir essa angústia para uma sublime reflexão filosófica:
"Estaremos marcados pela náusea de Sartre, o niilismo de Nietzsche, o desespero de Hamlet, a fúria de Herodes e a loucura de Hitler, ou a depressão e ansiedade dum pós modernismo insano?"
Não!... responde Rego. E contrapõe-lhe a "teoria de Jesus", aplicável a todo o humano sofredor: para agricultores e floricultores, "o desprendimento dos 'lírios do campo'"; para profissionais de cabeleireiro e seus clientes, "a providência sobre 'os cabelos da vossa cabeça'”; para os beneficiários de crédito bancário, "a certeza de que 'nada do que pedimos é em vão'"; enfim, para todos nós, consumidores de papos-secos, baguettes e vianinhas, "a confiança 'no pão que nos concede' em vez do escorpião". O "escorpião" é só para rimar com "pão". (aqui)
(2010)
António Rego
Existem, sem dúvida, os escolhidos e os predestinados. Aqueles que, por algum motivo, exibem um sinal de diferença que os separa dos restantes. No próprio nome, por exemplo: António Rego não poderia ser mais contemporaneamente católico, mais explicitamente envolvido nas turbulências do século que confrontam esse rego acolhedor e profundo da fé (fulgurantemente evidente no sorriso das crianças, nunca como agora tão frequentemente tocadas pelo amor do Senhor) com a impiedade do mundo. E, simultaneamente, capaz de traduzir essa angústia para uma sublime reflexão filosófica:
"Estaremos marcados pela náusea de Sartre, o niilismo de Nietzsche, o desespero de Hamlet, a fúria de Herodes e a loucura de Hitler, ou a depressão e ansiedade dum pós modernismo insano?"
Não!... responde Rego. E contrapõe-lhe a "teoria de Jesus", aplicável a todo o humano sofredor: para agricultores e floricultores, "o desprendimento dos 'lírios do campo'"; para profissionais de cabeleireiro e seus clientes, "a providência sobre 'os cabelos da vossa cabeça'”; para os beneficiários de crédito bancário, "a certeza de que 'nada do que pedimos é em vão'"; enfim, para todos nós, consumidores de papos-secos, baguettes e vianinhas, "a confiança 'no pão que nos concede' em vez do escorpião". O "escorpião" é só para rimar com "pão". (aqui)
(2010)
23 October 2009
UMA AVENTURA NA EDUCAÇÃO - TEMA & VARIAÇÕES

Hipótese A

Aliviadíssima com o presentinho que a oposição lhe oferecerá ao suspender a avaliação dos professores no parlamento, Isabelinha ensaia o perfil de anti-Lurdes, faz charminho à classe docente e inventa o eduquês light. Dá para sobreviver até 2011 se, durante o próximo ano, o barco não for ao fundo. Depois, logo se vê.
Hipótese B:

Apesar do charminho, o professoriado, animado com as "vitórias", toma o freio nos dentes e Isabelinha tacteia na escuridão. Se todo o resto à volta não se encapelar demasiado, dialoga, dialoga, dialoga, empata, empata, empata, até o Governo já não poder ser demitido. Depois, logo se vê.
Hipótese C:

O professoriado, lado a lado com os operários, camponeses, soldados, marinheiros e Cavaco, enceta a luta armada. Os "apparatchiks" do ME - o verdadeiro e eterno poder - exigem músculo e fazem-lhe a folha. Há uma grande tempestade debaixo dos céus e a situação é excelente para a revolução. Isabelinha inicia, finalmente, a leitura de Huis Clos, murmura "o inferno são os outros" e inaugura o seu período de existencialismo dilacerado. Vê-se muito mal.
(2009)
Hipótese A
Aliviadíssima com o presentinho que a oposição lhe oferecerá ao suspender a avaliação dos professores no parlamento, Isabelinha ensaia o perfil de anti-Lurdes, faz charminho à classe docente e inventa o eduquês light. Dá para sobreviver até 2011 se, durante o próximo ano, o barco não for ao fundo. Depois, logo se vê.
Hipótese B:
Apesar do charminho, o professoriado, animado com as "vitórias", toma o freio nos dentes e Isabelinha tacteia na escuridão. Se todo o resto à volta não se encapelar demasiado, dialoga, dialoga, dialoga, empata, empata, empata, até o Governo já não poder ser demitido. Depois, logo se vê.
Hipótese C:
O professoriado, lado a lado com os operários, camponeses, soldados, marinheiros e Cavaco, enceta a luta armada. Os "apparatchiks" do ME - o verdadeiro e eterno poder - exigem músculo e fazem-lhe a folha. Há uma grande tempestade debaixo dos céus e a situação é excelente para a revolução. Isabelinha inicia, finalmente, a leitura de Huis Clos, murmura "o inferno são os outros" e inaugura o seu período de existencialismo dilacerado. Vê-se muito mal.
(2009)
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