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05 October 2025

(sequência daqui) Após a publicaçao em Abril de 2023, de Songs and Symphoniques: the Music of Moondog, (em torno da música do lendário "Viking da 6ª Avenida", reinterpretada pela Ghost Train Orchestra, pelo Kronos Quartet e avulsos notáveis vários (Rufus Wainwright, Joan Wasser, Jarvis Cocker, Petra Haden, Sam Amidon, Aoife O'Donovan), David Byrne que, durante um dos concertos em Brooklyn, entusiasmado com a variedade de instrumentos da Ghost Train, não resistira a subir ao palco com o grupo, deixou-se arrastar pela ideia de entregar as suas novas canções a um ensemble de bateria, percussão, guitarra, baixo, cordas e sopros. No fundo, apenas um prolongamento e diversificação da estratégia de American Utopia: "Senti que a opção por arranjos orquestrais mais íntimos realçaria a emoção que me parece estar presente nestas canções", diz Byrne, "É algo de que as pessoas nem sempre se aprecebem no meu trabalho, mas desta vez tive a certeza de que estava lá. Ao mesmo tempo, também me vejo como alguém que pretende ser acessível". (segue para aqui)

11 June 2025

"Grown Ups"

(sequência daqui) Na verdade - entre programas de rádio, televisão, conferências e quase-academismos afins - Jarvis nunca deixou de ter uma agenda generosamente preenchida. O que, de certo modo, é impossível não reparar neste novíssimo More que, tal como já acontecia com This Is Hardcore e We Love Life (apesar da produção de Scott Walker...), se apresenta como um sólido e, aqui e ali, impressionante trabalho de marcenaria mas nunca na qualidade de algo capaz de fazer abanar os alicerces do artesanato contemporâneo. Claro que se, apesar disso, no vaudeville de subúrbio de Hardcore..., os textos apontando sibilinamente em várias direcções não escasseavam ("I am not Jesus though I have the same initials, I am the man who stays home and does the dishes, a man told me to beware of thirty-three, he said 'It was not an easy time for me', but I'll get through, even though I've got no miracles to show you"), em More, Jarvis Cocker, Candida Doyle, Nick Banks e Mark Webber continuam a ser capazes de desenhar maravilhosos instantes de deboche ("Screwing in a charity shop on top of black bin bags full of donations, the smell of digestive biscuits in the air", 'Tina') envoltos em aromas de feira.

08 June 2025

 
(sequência daqui) Tudo o que de extra-musical se lhes seguiu após os passos inseguros de This Is Hardcore (1998) e We Love Life (2001) e o longo hiato posterior tem apenas o valor da cusquice elevada ao patamar de teoria da conspiração: era Danae Stratou, mulher do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, a personagem de "Common People" ("She came from Greece she had a thirst for knowledge, she studied sculpture at Saint Martin's College, that's where I caught her eye")? Jarvis Cocker invadiu o palco dos BRIT Awards de 1996 quando Michael Jackson interpretava "Earth Song" num gesto impulsivo e irreflectido ou foi tudo minuciosamente planeado? Entregou ele ao Foundling Museum, de Londres, um saco cheio de cópias de "Romania Today", uma revista em língua inglesa de propaganda das maravilhas do regime de Ceausescu? A modelo da capa de This Is Hardcore é ou não a política e actriz russa Ksenia Sobchak? (segue para aqui)

05 June 2025

Pulp Later With Jools Holland 1st June 2025
 
(sequência daqui) O essencial, porém, fora assegurado: o instável grupo de criaturas que ia constituindo os Pulp mantinha-se junto (tanto quanto era possível num permanente vai e vem) e os próprios acidentes que ocorriam - por exemplo, Jarvis cair da janela de um primeiro andar quando, para impressionar uma miúda, fazia uma imitação do Homem Aranha - enquadravam-se perfeitamente nas coordenadas daquela peculiar normalidade. O que, caminhando ao longo de uma produção discográfica razoavelmente regular - Freaks (1987), Separations (1992) - lhes permitiu chegar a Intro - The Gift Recordings (1993), que, antes de His 'n' Hers (1994) e Different Class (1995), por essa altura, me obrigava a vê-los como "A banda sonora para um circo de aberrações (Individuais, domésticas, sociais)" na qual "a eufórica celebração da Grã Bretanha e da sua paisagem humana como sarjeta da moral cristã e vistoso lixo para incinerar numa colorida feira popular foi organizada por quem, pelo povo não revela um exagerado afecto. (...) Different Class (a baixa, desprezível, abjecta e orgulhosa) foi o alfa e o ómega de uma trajectória única. A escuta de tudo aquilo que o antecede pode não ser sempre exaltante mas, pelo meio do 'glamour' rasca, das lantejoulas em segunda mão e do 'chic' de saldo (isto é, Roxy Music devolvido ao proletariado suburbano), explica demasiado bem a genealogia de uma glória adiada". (segue para aqui)

03 June 2025

 
(sequência daqui) À beira da desintegração por manifesto desinteresse das gentes (por essa altura, mais motivadas pelo carnaval Britpop), entra em cena Russell Senior, guitarrista e violinista, fundador da Dada Society - também conhecida como New Wave Society - na universidade de Bath (onde também desempenharia o papel de Josef K., numa encenação de O Processo, de Kafka), e activamente militante durante a greve dos mineiros de 1984 em cuja violenta Batalha de Orgreave participou. "O Russell, realmente, salvou-nos. Tinha a opinião que não deveríamos ser exclusivamente um projecto musical, que deveríamos incluir outras formas de expressão artística", conta hoje Jarvis à "MOJO". Prosseguiram, então, na qualidade de Jarvis Cocker Experience & The Wicker Players que, em diversos pubs, apresentariam The Fruits Of Passion, uma peça surrealista na qual o baterista Magnus Doyle tentava o coito com uma laranja. (segue para aqui)

01 June 2025

UMA PECULIAR NORMALIDADE
 
 
Pode dizer-se que, em boa medida, foi Russell Senior quem salvou os Pulp da extinção. Jarvis Cocker, desde os 7 anos, "por influência dos Beatles", sonhava ser membro de uma banda. E, por volta dos 14, preencheu um caderno de apontamentos com "The Pulp Master Plan": "O grupo deve insinuar-se na opinião pública criando canções pop bastante convencionais, porém, ligeiramente excêntricas", prometia o inventor dos então Arabicus Pulp, cuja estreia em palco ocorreria na Sheffield City School, em Março de 1980. Três anos depois, seria publicado o primeiro álbum, It, que, aquando da sua reedição, em 1996, me faria classificá-lo como uma "colecção de canções moldadas no idioma clássico da pop e já devidamente avinagradas por aquele tipo de ironia corrosiva que haveria de transformar-se na imagem de marca de Jarvis Cocker como 'songwriter'". Ninguém reparou. (daqui; segue para aqui)
 

01 April 2022

 
(sequência daqui) Passaria também por Jacques Brel (“Ouvimos uma canção como ‘Jackie’ e pensamos ‘Que diabo! Isto é um filme condensado em três minutos e meio!’ Tentei escrever canções assim e, obviamente, falhei. Mas, ao falhar, cheguei a outros lugares que eram igualmente importantes”), Noel Coward, Bacharach/Hal David, Gershwin, Cole Porter e, avançando vertiginosamente no calendário, Jarvis Cocker (“Foi uma grande influência no que faço. Tinha alguma inveja de como a escrita dele era tão fantasticamente intensa. Não se alimentava dos lugares comuns habituais na composição de canções pop e era tão divertido como tenebroso”). Mas também pelo cinema e pela literatura: "The Booklovers" (de Promenade, 1994) inicia-se com um sample de Audrey Hepburn enquanto expedita e erudita livreira, no filme Funny Face (Stanley Donen, 1957) e prossegue com a enumeração de 73 autores literários; "Bernice Bobs Her Hair" é a transmutação pop de uma "short story" de F. Scott Fitzgerald; e "Lucy" (de Liberation, 1993) é um mil-folhas confeccionado a partir de três poemas de Wordsworth. “Naturalmente, sou uma espécie de pega, tanto em termos musicais como literários. Suponho que havia um certo fascínio nos livros que andava a ler e que não via reflectido na música que escutava, à excepção, talvez, do Morrissey, com os Smiths. E tive a sorte de nunca virem a correr atrás de mim por causa dos direitos de autor!” Mas há um método? Ao fim de três décadas, existe alguma espécie de modus operandi estabelecido? “Raramente escrevo com a intenção de construir um álbum. Eles apenas vão acontecendo. Às tantas, reparo que existe uma certa quantidade de canções que parecem convergir numa determinada atmosfera. Por isso, nunca penso em álbuns mas eles acabam por aparecer. É realmente incrível que eu ainda ande por cá. Mesmo com todas as bizarrias, a minha única intenção foi sempre apenas gravar discos pop”.

01 December 2021

 
(sequência daqui) Para o último, The French Dispatch, voltou a recorrer a Desplat que comporia música inspirada em Erik Satie e Thelonious Monk e pediu a Jarvis Cocker que gravasse uma versão de "Aline" (1965), baladona lacrimejante de Christophe, ídolo “romântico” da pop francesa. Não se ficariam, no entanto, por aí: o nativo de Sheffield com o mais tolerável sotaque francês do Reino Unido, sob a produção executiva de Anderson, ampliaria a ideia para um álbum inteiro – Chansons d’Ennui Tip-Top –, “companion piece” e “extensão musical” do filme, onde, com supremo garbo e nenhuma iconoclastia, e na companhia ocasional de Lætitia Sadier (Stereolab), ressuscitaria 12 vetustos sucessos de Dalida, Brigitte Bardot, Nino Ferrer, Jacques Dutronc, Serge Gainsbourg, Françoise Hardy, Alain Delon, Marie Laforêt e Brigitte Fontaine. No filme, "Aline" é escutada emanando diegeticamente do jukebox do café Le Sans Blague. É, sem dúvida, a melhor forma de saborear esta “period piece”.

29 November 2021

DO JUKEBOX
 
 
No universo paralelo do cinema de Wes Anderson, há (entre várias outras) duas particularidades que o definem: a obsessão pela simetria visual e uma concepção da banda sonora já designada como “crate-digger soundtrack”. Isto é, composta a partir do tipo de música e canções que tendem a ser apenas descobertas nos caixotes de feira-da-ladra e lojas de segunda mão, ponto de vista próximo mas não exactamente idêntico ao que costuma orientar Quentin Tarantino na mesma missão: se este tende a propor a redenção do mais obscuro e (muitas vezes, injustamente) desclassificado “kitsch”, Anderson, com a indispensável colaboração do farejador Randall Poster, valoriza o “vintage” de fina casta. Em Hotel Chevalier, prequela de The Darjeeling Limited (2007), "Where Do You Go To (My Lovely)?", do meteórico Peter Sarstedt, ocupava todo o espaço sonoro e, no próprio Darjeeling, reapareceria por diversas vezes, na companhia de canções dos Kinks, Rolling Stones e Joe Dassin. Mas, em toda a restante filmografia, lado a lado com peças do reportório clássico e música original de Alexandre Desplat e Mark Mothersbaugh (Devo), é um desfile contínuo de memórias dos Proclaimers, Ramones, Velvet Underground, Elliot Smith, Zombies, Sigur Rós, The Creation, Chad & Jeremy, Cat Stevens, The Who, Yves Montand, John Lennon, Faces, West Coast Pop Art Experimental Band, Nico, Dylan, Clash, Devo, Stooges, Scott Walker, Beach Boys, Charles Aznavour, e até de versões de David Bowie por Seu Jorge.(daqui; segue para aqui)
 
Jarvis Cocker - "Aline" (real. Wes Anderson)

26 July 2020

O DISCO QUE LHE FUGIU


No início de Junho, Neil Young publicou no seu site, Neil Young Archives, uma versão recente de "Southern Man" (“I saw cotton and I saw black, tall white mansions and little shacks, southern man, when will you pay them back? I heard screamin' and bullwhips cracking, how long? how long?”), originalmente do álbum de 1970, After The Gold Rush. E acompanhava-a com uma mensagem que, sem nomear George Floyd, era assaz explícita: “Aqui estou eu, um velho, a cantar uma canção com 50 anos, escrita após incontáveis anos de racismo nos EUA. E olhem para nós, hoje! Estas coisas acontecem há tempo de mais. Já não se trata apenas do ‘homem do Sul’. Acontece por todos os Estados Unidos. Chegou a altura de haver mudanças autênticas, novas leis e novas regras para a polícia”.



Em Janeiro passado, pouco depois de, finalmente, ter conseguido a nacionalidade americana, apressara-se a declarar o seu apoio à candidatura presidencial de Bernie Sanders. Alguns dias após a revisitação de "Southern Man" e já consumada a desistência de Sanders, voltaria ao site para, sob o título “Hope”, nos convidar a ser testemunhas das suas novas rotinas quotidianas: “Olá, estou a lavar a loiça. Agora, faço-o todas as manhãs e começo a gostar de cuidar da nossa linda cozinha. Não era costume ocupar-me muito com isto. Adoro deixar tudo limpo e a brilhar. Quando acabo, pego num produto de limpeza de que gosto especialmente, ‘Thieves’, e limpo todas as superfícies. Segundo parece, foi inventado por ladrões (“thieves”) porque lhes permitia cometer crimes, limpar todas as áreas e remover os vestígios. Um grande produto com uma história. O que nos traz à nossa História”. E, abrindo as janelas ao mundo lá fora, atirava-se ao que, verdadeiramente, importa: “Sinto que vem aí uma mudança. Sabemos que as vidas negras são importantes. O meu coração está com todas as famílias negras que foram afectadas, isto é, com todas as famílias negras através da História da América. Sou um velho branco e não me sinto ameaçsdo pelo meu irmão negro. Se o nosso presidente foi responsável por toda esta agitação, por ter atiçado as chamas e ter tentado virar-nos uns contra os outros por motivos políticos, não desistimos do combate por aquilo em que acreditamos. Não passa de um desgraçado líder que ergue muros em volta da nossa casa. Os meus irmãos e irmãs negras já sofreram que baste. A supremacia branca está a chegar ao fim mas não desaparecerá tão cedo. Pensem ou não que o irmão branco de Barack Obama irá ser capaz de lidar com esta situação, será ele, muito provavelmente, o nosso novo líder, fazendo regressar compaixão e empatia à Casa Branca. Que o Grande Espírito esteja com Joe Biden”. E concluía: “A loiça está quase no fim e é altura de limpar a bancada e deixá-la a brilhar para o dia que aí vem”.



Todo este cenário doméstico estava já presente, desde Março, nas “Fireside Sessions” que, filmadas pela mulher, Daryl Hannah, em diversos locais do rancho de ambos no Colorado durante a imposta quarentena, contara com públicos tão especiais como os seus cães rebolando-se na neve, e, na “Barnyard Session”, uma alpaca impertinente, um cavalo desatento e um irrequieto grupo de galinhas. Coisa, obviamente, muito caseirinha e informal mas completamente de acordo com a iminente publicação de Homegrown, um dos vários e míticos “lost albums” que os arquivos de Young contêm. Gravado entre Dezembro de 1974 e Janeiro de 1975 na qualidade de legítimo sucessor do clássico Harvest (1972), acabaria por ser preterido a favor do negríssimo Tonight’s The Night (1975), assombrado pelas mortes por "overdose" do guitarrista dos Crazy Horse, Danny Whitten, e do "roadie" e amigo, Bruce Berry ("I'm sorry. You don't know these people. This means nothing to you", escrevera ele numa nota da edição original).


Se a justificação oficial para a desistência de Homegrown é, hoje, a de se tratar de uma colecção de canções demasiado impregnada pela memória da separação da actriz Carrie Snodgress – “Peço-vos desculpa. Deveriam ter podido escutar este álbum alguns anos depois de ‘Harvest’. É o lado triste de uma relação amorosa. E dos estragos que fez. Não suportava ouvi-lo. Queria andar para a frente. Por isso, guardei-o para mim, escondi-o no cofre, deixei-o na prateleira, arrumei-o na memória... mas devia tê-lo partilhado. Na verdade, é muito bonito. Foi essa a razão por que o gravei. Por vezes, a vida dói. Sabem o que quero dizer. Este foi o disco que me fugiu” –, segundo uma lenda apócrifa, a ocultação durante 45 anos terá sido decretada numa noite de libérrimo convívio alimentada por estimulantes vários no Hotel Chateau Marmont (que Jarvis Cocker e Chilly Gonzales celebrariam em Room 29) durante a qual Rick Danko, Levon Helm, Richard Manuel (da Band) e elementos dos Crazy Horse, chamados a decidir, votaram a favor de Tonight’s The Night e contra Homegrown.



È muito provável que tenham tido razão: o que quase meio século depois escutamos é, sem dúvida, um belo naco do Neil Young folk-country e (maioritariamente) acústico mas não se trata de nenhum Smile ou Basement Tapes e, muito menos, peça capaz de se elevar à crueza das trevas de Tonight’s.... "Love Is A Ros"’ entraria, facilmente, para o cânone de Young, "Kansas" é uma delicada variação mais leve do que o ar sobre o tema “Hello I love you, won’t you tell me your name (“And it’s so good to have you sleeping by my side, although I’m not so sure if I even know your name”), "White Line" (com bordado de Robbie Robertson), "Try" e "Star of Bethlehem" (ambas vaporizadas pela voz de Emmylou Harris), e "Vacancy" (a deixar infectar-se pela electricidade das guitarras) vão pelo mesmo bom caminho. Mas a faixa-título e "Little Wing" são desesperantemente banais, "We Don’t Smoke It No More" demonstra exactamente o contrário do que afirma e "Florida" – um exercício de "spoken word" sobre cordas de piano friccionadas por copos de vidro – revela Young a candidatar-se ao lugar de um JG Ballard ganzado e a falhar redondamente. Acerca de perdidos e achados idênticos, Neil Young disse, uma vez: “Trabalho para a minha musa. Começo um álbum e as coisas correm umas vezes melhor, outras pior. Muitas vezes, não há uma boa razão para um disco ter ficado perdido pelo caminho. Gravei-o, passou por mim, alguma coisa me distraíu e esqueci-me do que tinha estado a fazer antes”. Homegrown não merecia o esquecimento mas não perdia nada com um desbaste dos ramos secos.

07 June 2020

The Weird Sisters (Jarvis Cocker, Johnny Greenwood, Steve Mackey, Phil Selway...) - "Do The Hippogriff"

(da BSO de Harry Potter and the Goblet of Fire)

10 January 2020

Um lema para 2020 (e, quiçá, eterno) já facilmente identificável 

Jarvis Cocker - "Cunts Are Still Running The World"

Well did you hear, there's a natural order 
Those most deserving will end up with the most 
That the cream cannot help but always rise up to the top 
 Well I say, "Shit floats" 
 If you thought things had changed 
Friend, you'd better think again 
Bluntly put, in the fewest of words: 
Cunts are still running the world

 Now the working classes are obsolete 
 They are surplus to society's needs 
So let 'em all kill each other 
 And get it made overseas. 
That's the word, don't you know 
From the guys that's running the show 
Let's be perfectly clear boys and girls, 
 Cunts are still running the world

Oh feed your children on crayfish and lobster tails, 
Find a school near the top of the league 
In theory I respect your right to exist 
I will kill you if you move in next to me 
Ah, it stinks, it sucks, it's anthropologically unjust 
Oh, but the takings are up by a third, oh so 
 Cunts are still running the world

The free market is perfectly natural 
Do you think that I'm some kind of dummy? 
 It's the ideal way to order the world 
"Fuck the morals, does it make any money?" 
And if you don't like it, then leave 
Or use your right to protest on the street. 
Yeah use your right, but don't imagine that it's heard 
 Cunts are still running the world

 

05 September 2018

MANIFESTO

  
Em 1913, Luigi Russolo, no manifesto Futurista L'Arte dei Rumori, decretava: “Após terem sido conquistadas por olhos Futuristas, as nossas múltiplas sensibilidades ouvirão, enfim, com ouvidos Futuristas. Os motores e máquinas das nossas cidades industriais serão, um dia, conscientemente afinados de modo a que cada fábrica se transforme numa embriagante orquestra de ruídos”. Nas “liner notes” de Music For Airports (1978), Brian Eno anunciava os parâmetros por que a "ambient music" haveria de se reger: “Deverá ser capaz de acomodar diversos níveis de escuta sem privilegiar nenhum em particular. Será tão ignorável quanto interessante”. O número 2 do “Bikini Kill Zine” de 1991, publicava o Riot Grrrl Manifesto assinado por Kathleen Hanna”: “Acredito, com toda a força do meu coração, mente e corpo, que as raparigas constituem uma força revolucionária que pode transformar o mundo e que o transformará”. Em 2012, Nadezhda Tolokonnikova, perante um tribunal russo fantoche, expunha o programa das Pussy Riot: “Demos concertos nos túneis do metro, em cima de autocarros, no telhado de centros de detenção, em lojas de roupa e na Praça Vermelha. Acreditamos que a arte deverá ser para todos”. No Nu-Troglodyte Manifesto (2015), Jarvis Cocker proclamava: “Fujam do tagarelar constante, interminável e sem sentido que nos distrai de quem realmente somos e do que realmente queremos”



Em Agosto de 2018, num texto em que apresenta o terceiro álbum, Hunter, Anna Calvi junta-se à ilustre lista de músicos produtores de manifestos e declara: “Pretendo ir além do género. Desejo não ter de escolher entre o masculino e o feminino em mim. (...) Ando à caça de alguma coisa – desejo experiências, desejo acção, desejo liberdade sexual, desejo intimidade. (...) Desejo repetir infinitamente as palavras ‘rapariga, rapaz, mulher, homem’ até lhes encontrar os limites, contra a vastidão da experiência humana. Envergo o meu corpo e a minha arte como uma armadura mas também sei que ser verdadeira para comigo é expor-me a ser ferida”. Abertamente “queer e feminista” – mas as anteriores "I’ll Be Your Man" ou "Suzanne And I" haviam já aberto as hostilidades das políticas de género –, troca algo da amplitude e elaboração cinemáticas de Anna Calvi (2011) e One Breath (2013) por uma urgência quase militante de guitarras incendiárias e palavras de ordem cifradas ("As a Man", "Don’t Beat The Girl Out Of My Boy", "Alpha", "Chain"), em belíssimo registo de libreto operático “com uma causa”.