O "small talk"-quebra-gelo inicial obedeceu, inevitavelmente, ao protocolo da época: em Oakland, na Califórnia, a situação melhora, do "lockdown" rigoroso para “apenas” vermelho – “Já há algumas salas de espectáculo e cinemas abertos” – e a interrogação que se segue – “E aí, em Lisboa? Lisboa é também o seu apelido, não é?...” – permite a resposta de sucesso assegurado – “Sim, sou o primo português do Jack London” – que conduz a descobrir que, em Oakland, existe uma Jack London Square. Pandemia, literatura e toponímia arrumadas, Merrill Garbus e Nate Brenner, a dupla Tune-Yards, a 9 099 quilómetros de distância, via Zoom, explicam que, para chegar ao novo álbum, Sketchy, foi preciso demolir algum "writer’s block" embora sem demasiadas dores de parto: “O Nate não se cansa de recordar-me que me sinto sempre dessa maneira quando acabo um álbum. Sempre. Mas é só uma questão de não nos esquecermos de que este é o nosso trabalho e encararmos uma coisa de cada vez. Não falhar o compromisso de ir para o estúdio todos os dias, não pensar demasiado, e fazer o que tem de se fazer. Andar em frente”.
Não constitui exactamente outro bloqueio mas uma constante, quase uma obssessão, em toda a discografia dos Tune-Yards (Bird-Brains, 2009, Whokill, 2011, Nikki Nack, 2014, e I Can Feel You Creep Into My Private Life, 2018): a interrogação acerca de sentirem-se ou não autorizados a apropriar-se de elementos das culturas africana e afro-americana. Coisa intrigante quando se sabe como a própria história da música – no rock, na clássica, no jazz – se ergueu sobre essa interminável e praticamente natural pilhagem. “Provavelmente é natural. Para aqueles de nós que possuem ouvidos (risos) é natural ouvir alguma coisa e, a seguir, regurgitá-la. Ou imitá-la. É assim que aprendemos a falar. Mas o que importa é o contexto em que me situo enquanto música branca: como lidar, neste país, num momento em que pessoas de cor são massacradas pelo Estado, com o facto de me ser possível ganhar dinheiro com esta música de um modo que não está ao alcance de todos. Sou fã de hip hop desde há muito tempo mas a minha relação com ele é distante, de fora para dentro, nunca vivi a realidade de sentir que o meu corpo está em perigo”, argumenta Merrill. (daqui; segue para aqui)
“Such an army of revolution," he said, "twenty-five millions strong, is a thing to make rulers and ruling classes pause and consider. The cry of this army is: 'No quarter! We want all that you possess. We will be content with nothing less than all that you possess. We want in our hands the reins of power and the destiny of mankind. Here are our hands. They are strong hands. We are going to take your governments, your palaces, and all your purpled ease away from you, and in that day you shall work for your bread even as the peasant in the field or the starved and runty clerk in your metropolises. Here are our hands. They are strong hands!'" (Jack London - O Tacão de Ferro - II)
“'I know nothing that I may say can influence you', he said. 'You have no souls to be influenced. You are spineless, flaccid things. You pompously call yourselves Republicans and Democrats. There is no Republican Party. There is no Democratic Party. There are no Republicans nor Democrats in this House. You are lick-spittlers and panderers, the creatures of the Plutocracy. You talk verbosely in antiquated terminology of your love of liberty, and all the while you wear the scarlet livery of the Iron Heel'” (Jack London - O Tacão de Ferro - I)
14 November 2010
UM AMERICANO EM LISBOA
Hamilton Leithauser é o género de personagem com quem apetece conversar. Não porque seja instantaneamente simpático e acolhedor: na verdade, não abusa do palavreado – as respostas telegráficas ocorrem com alguma frequência – nem se entrega a extensas explicações e especulações. Mas rapidamente nos apercebemos de que aquele interlocutor não se deixa facilmente acondicionar na embalagem do rocker prototípico, enclausurado no seu pequeno universo de referências e autoreferências e de frívolas lubrificações do ego. Leithauser e, com ele, a música dos Walkmen, possui aquilo que, com algum rigor, se deve designar como substância. Há coisas que não circulam, necessariamente, na cadeia do ADN mas é bem capaz de não se tratar também de um acaso que, sendo ele sobrinho do poeta e romancista Brad Leithauser, a banda tenha em mãos desde 2004, o "work in progress" de um romance colectivo (programado para 800 páginas!), John’s Journey. E que, quando interrogado acerca das suas leituras em curso, Leithauser responda sem pestanejar Arthur And George, de Julian Barnes (vénia), e God Is Not Great, de Christopher Hitchens (vénia, vénia, vénia). Mas o que começo por lhe perguntar – era inevitável, não era? – é qual o motivo real, verdadeiro, profundo, decisivo, para o último álbum dos Walkmen ter como título Lisbon. E ele responde-me “Porque não?...”
Vai ser, então, necessário exercer um pouco de pressão. Por isso, em vez do jogo sujo das justificações patrioteiro/geográficas óbvias, atiro-lhe com a suave chantagem pessoal de ter achado francamente encantador terem-se lembrado de baptizar o disco com o meu nome de família. E faço charme literário revelando-lhe que sou o primo lisboeta de Jack London. Já não é a primeira vez que o truque resulta. Hamilton ri-se e desenvolve: “Não que estivéssemos sempre a pensar na cidade enquanto escrevíamos as canções. É, na verdade, mais uma memória. Não sei bem por que motivo mas, quando esse título foi sugerido, todos concordámos com ele. Não posso dizer que Lisboa tenha tido uma influência directa sobre o disco. Mas, tendo estado aí duas vezes – e, ao contrário do que, frequentemente, acontece, não nos limitámos a ficar no hotel e a frequentar os bares: fomos ao castelo, conversámos com pessoas locais, experimentámos restaurantes, admirámos a arquitectura da cidade – durante a fase de concepção do álbum, foi, sem dúvida, uma memória motivadora importante”.
A motivação deve ter sido realmente poderosa: as onze canções que figuram no álbum tiveram de ser cesarianamente extraídas de um total de mais de trinta: “Foi um processo que nos ocupou dois anos até seleccionarmos aquilo que nos pareceu ser um passo em frente que valia a pena ser publicado. E isso acabou por ser um som de rock mais cru e despojado como os do Elvis Presley ou do Johnny Cash para a Sun Records. Quando o conseguimos, sentimos que tínhamos chegado onde, realmente, desejávamos. Toda a vida escutámos esse tipo de música. Mas, sempre que iniciamos o processo de um novo álbum, ensaiamos abordagens diferentes. E, muitas vezes, estamos à espera que as coisas sigam por um caminho e elas acabam por ir por outro completamente inesperado. Claro que nós gostamos da sonoridade que a banda tem e não nos passa pela cabeça dizer que, agora, soamos como o Elvis ou o Johnny Cash da Sun. Acho que esse esforço de contenção e de procurar ser mais sucinto não só foi divertido como nos fez muito bem”.
Na página dos Walkmen, no MySpace, a música da banda surge descrita como “melodramatic popular song”. Pergunto a Leithauser se está disposto a dar a sua bênção a essa definição: “Claro que não. Tínhamos que escolher uma opção e, evidentemente, decidimo-nos pela mais estúpida”. Naturalmente, não lhe peço a caracterização oficialmente aceite pelo grupo (essa pergunta deveria ser universalmente proibida, apenas me havia intrigado a que, aparentemente, eles próprios sugeriam) mas ouso pisar terreno mais movediço: será que não existe uma comparação que pode ser feita entre os percursos dos National e dos Walkmen, bandas novaiorquinas da mesma geração e com universos estéticos e temáticos afins, que, num caso (o dos National), extravasou já a mera condição de culto indie e, no outro, parece quase fazer gala de não o abandonar? Hamilton Leithauser não dá sinais de lhe ter tocado em nenhum ponto frágil e responde tranquilamente: “Há já alguns anos, fizemos diversos concertos juntos, conhecemo-nos, sempre nos demos bem, e existe alguma espécie de afinidade e de propósito comum às duas bandas. Se eles estão a ganhar dinheiro, fico muito feliz por isso. Mas também me sinto satisfeito com a nossa situação: penso que os nossos últimos dois álbuns foram os melhores que já gravámos e estamos prontos para gravar outros ainda melhores”. Fechando o círculo, peço-lhe para imaginar como será o momento em que, seguramente, virão tocar Lisbon em Lisboa: “Está a perguntar-me se isso poderá desencadear alguma centelha?...” Reformulo: não receia que o público local possa alimentar demasiadas expectativas relativamente a algum particular efeito mágico devido à suposta influência lisboeta das canções? “Não sei, não faço a mais pequena ideia de como irão reagir. Mas, se calhar, iremos ter de pensar em alguma coisa mais especial...”