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06 January 2026
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13 June 2024
"Floating On A Moment" (ver aqui também)
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)
07 June 2024
(sequência daqui) Parcialmente chocado nos tempos mortos de estúdio que os Massive Attack lhes iam oferecendo durante a gravação do seu Blue Lines, foi ainda preciso alguma persistência até que os universos de Beth e Geoff se sobrepusessem exactamente e a miúda que, pelos pubs de Bristol, cantava Nina Simone, Otis Redding, Jimmy Cliff e as duas Janis (Joplin e Ian) mostrasse "It Could Be Sweet" ao alquimista sonoro. Seria esse o momento em que, historicamente, os Portihead eclodiram. O sucesso, porém, foi acridoce: "Não quero armar-me em polícia e pôr-me a dizer às pessoas como devem escutar a nossa música. Mas a forma como Dummy acabou sendo absorvido pelo ‘mainstream’ foi muito peculiar. A ideia de que teve o destino de banda sonora para ‘dinner-parties’ significa que o que era a essência desse álbum não foi, realmente, compreendida. E isso não nos pareceu uma coisa muito simpática”, declararia Geoff Barrow â “Uncut”. Seguir-se-iam Portishead (1997) - "Foram 13 meses de completa confusão mental... como adivinhar o que tinha gerado o sucesso de Dummy?", diria Barrow - e, 11 anos depois, Third, com Roseland NYC Live (1998) de permeio. (segue para aqui)
28 November 2019
De Nova Iorque para Londres, de Montréal para Israel, Cuba e a Grécia. Pelo menos, Marianne ficou para sempre na contracapa de Songs From A Room (1969), Suzanne Elrod na de Death Of a Ladies’Man e Sharon Robinson na de Ten New Songs. Como, amantes ou amigas, poderiam ter ficado também a outra Suzanne (Verdal, a que inspirou a canção), Joni Mitchell, Nico, Janis Joplin, Dominique Isserman, Rebecca De Mornay, Anjani Thomas, Judy Collins. Foi à porta desta última, em Nova Iorque, que, em 1966 – descrente da possibilidade de sobreviver como romancista depois de o segundo romance, Beautiful Losers (escrito num caldeirão mental alimentado a cocktails heróicos de LSD, anfetaminas, sedativos e jejuns), ter sido arrasado pela crítica literária canadiana –, Leonard foi bater, “desconhecendo totalmente o que Dylan, Phil Ochs ou Joan Baez andavam a fazer”. No documentário, Collins conta: “Abri-lhe a porta, ofereci-lhe um café, e ele diz-me ‘Não sei cantar, não sei tocar guitarra e não tenho a certeza se isto é uma canção’. Tocou-me ‘Suzanne' e eu disse-lhe ‘Podes ter a certeza que é uma canção! E tenho de a gravar imediatamente!’ Ficamos amigos, gravei a canção [e também "Dress Rehearsal Rag", no álbum In My Life, 1967, que só ressurgiria na voz do autor, no avassalador Songs of Love and Hate] e ele deixou sempre muito claro que, nunca por nunca, quereria cantá-la em público. Num concerto de beneficência, convidei-o para subir ao palco e cantá-la comigo. Tremia como varas verdes. A meio, começou a soluçar e fugiu do palco, num ataque de pânico. Fui atrás dele e convenci-o a regressar”. A canção sobre Suzanne Verdal - bailarina que estudara com Martha Graham e interpretava peças de John Cage e Edgar Varèse – “foi uma espécie de porta. Tinha de abri-la com cautela, senão perdia o acesso ao que estava do outro lado. Não foi uma canção acerca de uma determinada mulher. Não dormimos juntos. Ela não queria macular ou contaminar a pureza do carinho que sentia pela nossa relação. Foi uma canção sobre o começo de uma vida diferente para mim”.
Contudo, desde o final da frequência na McGill University, de Montréal, e o primeiro semestre em Columbia, uma depressão recorrente assombrava-o: “Quando me refiro a depressão, não estou a falar apenas de tristeza, não se parece muito com a ressaca de um fim-de-semana em que uma rapariga nos deixou pendurados. É uma espécie de agressão mental que, de um momento para o outro, nos impede de funcionar. Uma depressão clínica que é o pano de fundo de toda a minha vida, uma sensação de angústia e ansiedade, de que nada está bem, de que o prazer é inalcançável e todas as estratégias falham”. Num programa da televisão canadiana, com Irving Layton (aquele cuja mulher, Aviva, recorda que frequentemente o espicaçava, dizendo “Leonard, are you sure you’re doing the wrong thing?”), em surdina, tocava no assunto: “Quando, de manhã, acordo, a minha verdadeira preocupação é saber se estou ou não em estado de graça”. Em Madrid, foi mais longe: “Tenho sempre a sensação de viver à beira do colapso e preciso de tomar medidas de emergência: experimentei o Prozac, experimentei o amor, experimentei as drogas e a meditação zen. Tentei esquecer todas essas estratégias e caminhar em frente. Mas o úico lugar onde a verdadeira avaliação acontece é quando me sento para escrever, quando atinjo aquele ponto em que já não posso ser desonesto acerca do que faço”.
A sua eternamente desnorteada bússola política – definiu-se como “um anarquista incapaz de lançar uma bomba” mas, em Londres, teve relações problemáticas (embora fugazes) com o situacionista alucinado Alexander Trocchi e com o militante do Black Power, Michael X – levá-lo-ia a Havana, em 1961, durante a crise da Baía dos Porcos, “lutando por ambos os lados”: “Interessava-me muito saber o que significava para um homem andar armado e matar outros homens, e até que ponto eu me sentia atraído por esse processo. A morte aproxima-nos da verdade. Nunca fui muito fervoroso nas minhas convicções, nem sequer naquele tempo. Fui até Cuba convencido de que o mundo inteiro existia para usufruto da minha observação e educação enquanto indivíduo”. Em 2001, por ocasião da publicação de Ten New Songs, comodamente recostado no sofá de um hotel, em Paris, respondia-me acerca dos motivos para chamar The Army à banda que o acompanhava: “Gosto das fardas . Gosto da ausência de ambiguidade, do grande sentido de uma finalidade, de um objectivo, da implicação de solidariedade e fraternidade, o sentido de uma comunidade sagrada, da devoção e dedicação a um ideal”. Em "Field Commander Cohen" auto-retratava-se sarcasticamente: “Field Commander Cohen, he was our most important spy, wounded in the line of duty, parachuting acid into diplomatic cocktail parties, urging Fidel Castro to abandon fields and castles. I never asked but I heard you cast your lot along with the poor, but then I overheard your prayer, that you be this and nothing more than just some grateful faithful woman's favourite singing millionaire, the patron saint of envy and the grocer of despair, working for the Yankee Dollar”. E, em "The Last Tourist in Havana Turns His Thoughts Homeward", de Flowers for Hitler (terceira colecção de poemas, 1964), exortava: “Come, my brothers, let us govern Canada, let us find our serious heads, let us dump asbestos on the White House, let us make the French talk English, not only here but everywhere, let us torture the Senate individually until they confess, let us purge the New Party, let us encourage the dark races, so they'll be lenient when they take over”.
Caminhando perigosamente na corda bamba, em Paris, acrescentava: “Adoro política, as políticas extremistas. Posições políticas extremistas enquanto narrativa. Espero nunca viver sob tais regimes, mas sempre me atraíram naquilo que representam de um certo apetite humano pela ordem. Escutar pessoas que articulam visões da perfeição é sempre muito interessante. A maioria das pessoas é obrigada a negociar uma ambiguidade aterradora nas suas vidas. E, de súbito, alguém se ergue e afirma ‘Eu sou sérvio’". Ou sou isto ou aquilo. E tudo flui a partir daí. É a descoberta e o estabelecimento de uma identidade exclusiva. A maioria das políticas extremistas decorre desta posição. Todos os países possuem este elemento que deseja definir a totalidade da aventura nacional em termos de uma identidade muito específica”. E, de um modo mais geral, o homem que, em The Future (1992), cantaria “Give me crack and anal sex, take the only tree that's left and stuff it up the hole in your culture, give me back the Berlin wall, give me Stalin and St. Paul, I've seen the future, brother, it is murder”, explicaria: “Não me considero um pessimista. Um pessimista é alguém que está sempre à espera que chova. Eu estou encharcado até aos ossos”. (continua)
01 April 2010
VISITA GUIADA

Get Yer Ya-Ya’s Out

Rolling Stones Live At The Max

Terrifying/The Legendary Atlantic City Concert
Breve visita guiada à história da música popular, na segunda metade do século XX: primeira paragem, Madison Square Garden, 27 e 28 de Novembro de 1969, antepenúltimos concertos dos Rolling Stones na digressão que, a 6 de Dezembro, terminaria em Altamont e, aí, extinguiria oficialmente os fumos de “paz & amor” da década. A tournée havia começado menos de três meses após o festival de Woodstock e um pouco mais depois de Armstrong e Aldrin terem caminhado sobre a Lua. Richard Nixon tinha sido eleito presidente dos EUA, um movimento radical de estudantes ocupara a universidade de Harvard e o massacre de My Lai, no Vietname, ocorrera apenas há dois meses. Nos bastidores dos concertos, circulavam Jimi Hendrix, Jerry Garcia, Janis Joplin e o yippie Abbie Hoffman que tentara ludibriar a segurança, fazendo-se passar pelo coronel Tom Parker, o famigerado empresário de Elvis Presley.
Com reportório assente em Beggars Banquet (do ano anterior) e Let It Bleed (que seria publicado uma semana depois), a digressão daria origem a Live'r Than You'll Ever Be, um dos primeiros bootlegs ao vivo, e a Get Yer Ya-Ya’s Out, o live acerca do qual Lester Bangs, um ano mais tarde, escreveria: “Numa época em que a maioria dos concertos se tornou quase embaraçosa no seu exibicionismo e excesso, Ya-Ya’s pontapeia-nos para fora da cadeira. Não o amamos apenas pelo que é mas também por aquilo que ele não é”. E, concentrando-se na última faixa, concluía: “’Street Fighting Man’ eleva o concerto a um nível de intensidade estratosférica que simplesmente se ergue acima do resto do álbum e lhe serve de síntese”. Nos últimos dias da aventura americana, Mick Jagger, aos 26 anos, resmungava “Não podemos continuar a fazer isto eternamente, estamos a ficar demasiado velhos”.
Segunda paragem: digressão "Steel Wheels/Urban Jungle" (na extensão europeia), de Agosto de 1989 a Agosto de 1990, entre os EUA, a Europa – a 10 de Junho de 90 picaria o ponto em Lisboa, no estádio de Alvalade – e o Japão, quase 120 concertos e um colossal sucesso financeiro. Filmados em Londres, Berlim e Turim, em toda a glória do sistema IMAX, os Stones actuam num gigantesco cenário disneyano, repleto de “exibicionismo e excesso”, Jagger muda de guarda-roupa entre cada duas canções, os ângulos de filmagem oscilam entre o hagiográfico e o acrobático. Três passos antes do último (a inevitável "Satisfaction"), é a vez de "Street Fighting Man", a tal canção que Jagger e Richards haviam escrito inspirados no revolucionário trotsquista Tariq Ali e nos motins parisienses de Maio de 68 (“Nessa altura, Londres era uma cidade muito pacata… Em França mas também na América, vivia-se uma época muito estranha por causa da guerra do Vietname e de todas aquelas revoltas constantes. Pareceram-me tempos óptimos, violentos. Em França quase derrubaram o governo”, diria ele, mais tarde, a Jann Wenner, da “Rolling Stone”): do lado direito do palco, um enorme dragão insuflável multicolorido contorce-se. Qual S. Jorge, Jagger investe sobre ele, de peito aberto e lança em punho, até ser, metaforicamente, devorado. O cenário de 68 virara BD, Mick Jagger tinha 47 anos e, até hoje, “demasiado velho” ou não, continuaria “a fazer aquilo”. The show must go on.
Terceira paragem: Atlantic City, New Jersey, 1989, ainda a "Steel Wheels Tour". Nem músicos com a dimensão dos Stones estão imunes a que o "business as usual", na sua versão mais rasteira, os abocanhe. Quem viu as imagens e escutou o som de Live At The Max, dificilmente acreditará que se trata da mesma banda e da mesma digressão que aqui – com os special guests John Lee Hooker, Clapton e Axl Rose - se apresenta: há DVDs domésticos de qualidade facilmente superior em todos os parâmetros de avaliação e este apenas poderá beneficiar da atenuante de, logo no título, se anunciar tal como, realmente, é – Terrifying.
Sumário: Get Yer Ya-Ya’s Out, na sua opulência de caixa contendo a gravação original, um CD de inéditos, outro (óptimo) com as participações de B. B. King e Ike & Tina Turner, um DVD (dispensável a não ser pelo carácter documental) de cinco temas e um booklet de 28 páginas (fotos, textos, memorabilia) em "hardback", é material de consulta indispensável; Live At The Max satisfaz os interessess de quem prefere os Stones maduros, em versão-Grand Guignol, e acredita piamente que eles continuam a ser "the greatest rock’n’roll band"; Terrifying, na ausência da acção directa de um qualquer grupo de "street-fighting men", é apenas um caso de polícia.
(2010)
Get Yer Ya-Ya’s Out
Rolling Stones Live At The Max
Terrifying/The Legendary Atlantic City Concert
Breve visita guiada à história da música popular, na segunda metade do século XX: primeira paragem, Madison Square Garden, 27 e 28 de Novembro de 1969, antepenúltimos concertos dos Rolling Stones na digressão que, a 6 de Dezembro, terminaria em Altamont e, aí, extinguiria oficialmente os fumos de “paz & amor” da década. A tournée havia começado menos de três meses após o festival de Woodstock e um pouco mais depois de Armstrong e Aldrin terem caminhado sobre a Lua. Richard Nixon tinha sido eleito presidente dos EUA, um movimento radical de estudantes ocupara a universidade de Harvard e o massacre de My Lai, no Vietname, ocorrera apenas há dois meses. Nos bastidores dos concertos, circulavam Jimi Hendrix, Jerry Garcia, Janis Joplin e o yippie Abbie Hoffman que tentara ludibriar a segurança, fazendo-se passar pelo coronel Tom Parker, o famigerado empresário de Elvis Presley.
Com reportório assente em Beggars Banquet (do ano anterior) e Let It Bleed (que seria publicado uma semana depois), a digressão daria origem a Live'r Than You'll Ever Be, um dos primeiros bootlegs ao vivo, e a Get Yer Ya-Ya’s Out, o live acerca do qual Lester Bangs, um ano mais tarde, escreveria: “Numa época em que a maioria dos concertos se tornou quase embaraçosa no seu exibicionismo e excesso, Ya-Ya’s pontapeia-nos para fora da cadeira. Não o amamos apenas pelo que é mas também por aquilo que ele não é”. E, concentrando-se na última faixa, concluía: “’Street Fighting Man’ eleva o concerto a um nível de intensidade estratosférica que simplesmente se ergue acima do resto do álbum e lhe serve de síntese”. Nos últimos dias da aventura americana, Mick Jagger, aos 26 anos, resmungava “Não podemos continuar a fazer isto eternamente, estamos a ficar demasiado velhos”.
Segunda paragem: digressão "Steel Wheels/Urban Jungle" (na extensão europeia), de Agosto de 1989 a Agosto de 1990, entre os EUA, a Europa – a 10 de Junho de 90 picaria o ponto em Lisboa, no estádio de Alvalade – e o Japão, quase 120 concertos e um colossal sucesso financeiro. Filmados em Londres, Berlim e Turim, em toda a glória do sistema IMAX, os Stones actuam num gigantesco cenário disneyano, repleto de “exibicionismo e excesso”, Jagger muda de guarda-roupa entre cada duas canções, os ângulos de filmagem oscilam entre o hagiográfico e o acrobático. Três passos antes do último (a inevitável "Satisfaction"), é a vez de "Street Fighting Man", a tal canção que Jagger e Richards haviam escrito inspirados no revolucionário trotsquista Tariq Ali e nos motins parisienses de Maio de 68 (“Nessa altura, Londres era uma cidade muito pacata… Em França mas também na América, vivia-se uma época muito estranha por causa da guerra do Vietname e de todas aquelas revoltas constantes. Pareceram-me tempos óptimos, violentos. Em França quase derrubaram o governo”, diria ele, mais tarde, a Jann Wenner, da “Rolling Stone”): do lado direito do palco, um enorme dragão insuflável multicolorido contorce-se. Qual S. Jorge, Jagger investe sobre ele, de peito aberto e lança em punho, até ser, metaforicamente, devorado. O cenário de 68 virara BD, Mick Jagger tinha 47 anos e, até hoje, “demasiado velho” ou não, continuaria “a fazer aquilo”. The show must go on.
Terceira paragem: Atlantic City, New Jersey, 1989, ainda a "Steel Wheels Tour". Nem músicos com a dimensão dos Stones estão imunes a que o "business as usual", na sua versão mais rasteira, os abocanhe. Quem viu as imagens e escutou o som de Live At The Max, dificilmente acreditará que se trata da mesma banda e da mesma digressão que aqui – com os special guests John Lee Hooker, Clapton e Axl Rose - se apresenta: há DVDs domésticos de qualidade facilmente superior em todos os parâmetros de avaliação e este apenas poderá beneficiar da atenuante de, logo no título, se anunciar tal como, realmente, é – Terrifying.
Sumário: Get Yer Ya-Ya’s Out, na sua opulência de caixa contendo a gravação original, um CD de inéditos, outro (óptimo) com as participações de B. B. King e Ike & Tina Turner, um DVD (dispensável a não ser pelo carácter documental) de cinco temas e um booklet de 28 páginas (fotos, textos, memorabilia) em "hardback", é material de consulta indispensável; Live At The Max satisfaz os interessess de quem prefere os Stones maduros, em versão-Grand Guignol, e acredita piamente que eles continuam a ser "the greatest rock’n’roll band"; Terrifying, na ausência da acção directa de um qualquer grupo de "street-fighting men", é apenas um caso de polícia.
(2010)
01 May 2008
PORTISHEAD, BRIXTON ACADEMY, 1997

"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.
É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.
No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)
"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.
É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.
No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)
06 February 2008
PARCEIRAS PERFEITAS

Cat Power - Jukebox

Dawn Landes - Fireproof
Cat Power e Dawn Landes. À primeira vista, poderia imaginar-se que se trata apenas de uma “arrumação” confortavelmente preguiçosa que obedeceria exclusivamente ao critério de reunir duas “singer-songwriters” femininas por uma única questão de género. O que, na verdade, até seria bastante defensável: mesmo sem demasiados rigores estatísticos, não é difícil reparar como o contingente feminino em actividade na pop de melhor linhagem tem, hoje, um peso e importância incomparavelmente superiores ao que, não há tanto tempo quanto isso, acontecia. A discriminação positiva – ainda que, no caso, crescentemente inútil e desnecessária – estaria, então, razoavelmente justificada. O essencial, porém, deve ser procurado na condição de “singer-songwriter” que, em cada uma, de modo inteiramente distinto, repensa e reavalia a forma-canção, o seu posicionamento e os diversos modos de lidar com ela.
Cat Power, por exemplo, havia já entrado na lenda como a persona trágica e (em palco) imprevisível de Chan Marshall. Os álbuns revelavam uma valiosa escritora de canções mas eram os seus concertos que alimentavam o mito: poderiam chegar ou não ao fim, transformar-se em violentas sessões de psicodrama público, perder-se em patéticas divagações alcoólicas com residual componente musical ou – também sucedia – ser momentos de intimidade única entre ela e o seu público. A bisbilhotice “social-cor-de-rosa” (ou de tons mais negros…) a que o jornalismo musical não é imune tanto vampirizou os “comos”, “ondes” e “porquês” dessa exposição do combate com os seus demónios interiores como se afadiga agora na enumeração dos passos da via dolorosa que – aparentemente – a terão conduzido à redenção. Afinal, o que importa dizer a propósito da publicação de Jukebox (segundo disco de versões, oito anos depois de The Covers Record) é que, qualquer que seja a relação entre a suposta pacificação existencial e a obra, este é, muito provavelmente, o melhor álbum de Chan Marshall/intérprete (e, apenas pontualmente, compositora).

Onde, na realidade, é obrigatório reparar que a intérprete, em considerável medida, assume quase o estatuto de co-autora, de tal modo se apropria das canções e, muito pouco cerimoniosamente, as revolve e transforma. Exagerando (mas não muito): Frank Sinatra foi apagado da História, “New York” é, de agora em diante, uma canção de Cat Power. Precisamente o mesmo tratamento a que (ao lado de Jim White, dos Dirty Three, e de Judah Bauer, da Jon Spencer Blues Explosion) submete as restantes dezasseis – as outras onze do álbum principal acrescidas de cinco bónus –, herdadas de nomes tão veneráveis como Billie Holiday, Janis Joplin, Joni Mitchell, James Brown, Nick Cave, Moby Grape, Patsy Cline, Hank Williams ou Bob Dylan. E é exactamente nas duas faixas que giram em torno de Dylan (a versão de “I Believe In You” e o original de Marshall, “Song To Bobby”) que o mais surpreendente jogo de máscaras ocorre: enquanto “I Believe In You”, literalmente, muda de mãos, escutamos “Song To Bobby” – “Backstage pass in my hand, giving you my heart was my plan, can I finally tell you to be my man?” – no que só poderá ser a voz de Chan Dylan ou Bob Marshall.
No site da Amazon, quando se procura Fireproof, de Dawn Landes, aconselham-nos a comprá-lo, na qualidade de “perfect partner”, em conjunto com Jukebox. E não custa muito admitir que, independentemente da estratégia de marketing, existe, sem dúvida, alguma lógica de familiaridade no emparelhamento: apadrinhada por Suzanne Vega e Andrew Bird, técnica de som de Philip Glass, Joseph Arthur e Ryan Adams, Dawn Landes pratica o tipo de canção contemporânea que viaja agilmente entre tradição country-folk e aquele “modernismo” sonoro patenteado por Tom Waits desde Swordfishtrombones. Gravado num antigo quartel de bombeiros de Brooklyn convertido em estúdio, articula instrumentação tradicional com electrónica, optigons, glockenspiel, melodias memoráveis e uma escrita poeticamente enxuta que alinha frases como “we are like kids in a play set in the Victorian age, we only know what to say because we practiced at home” com a maior naturalidade. Traz à memória Laura Veirs mas, sobretudo, 99.9 Farenheit Degrees, de Suzanne Vega, e isso só pode ser uma coisa muito boa. (2008)
Cat Power - Jukebox
Dawn Landes - Fireproof
Cat Power e Dawn Landes. À primeira vista, poderia imaginar-se que se trata apenas de uma “arrumação” confortavelmente preguiçosa que obedeceria exclusivamente ao critério de reunir duas “singer-songwriters” femininas por uma única questão de género. O que, na verdade, até seria bastante defensável: mesmo sem demasiados rigores estatísticos, não é difícil reparar como o contingente feminino em actividade na pop de melhor linhagem tem, hoje, um peso e importância incomparavelmente superiores ao que, não há tanto tempo quanto isso, acontecia. A discriminação positiva – ainda que, no caso, crescentemente inútil e desnecessária – estaria, então, razoavelmente justificada. O essencial, porém, deve ser procurado na condição de “singer-songwriter” que, em cada uma, de modo inteiramente distinto, repensa e reavalia a forma-canção, o seu posicionamento e os diversos modos de lidar com ela.
Cat Power, por exemplo, havia já entrado na lenda como a persona trágica e (em palco) imprevisível de Chan Marshall. Os álbuns revelavam uma valiosa escritora de canções mas eram os seus concertos que alimentavam o mito: poderiam chegar ou não ao fim, transformar-se em violentas sessões de psicodrama público, perder-se em patéticas divagações alcoólicas com residual componente musical ou – também sucedia – ser momentos de intimidade única entre ela e o seu público. A bisbilhotice “social-cor-de-rosa” (ou de tons mais negros…) a que o jornalismo musical não é imune tanto vampirizou os “comos”, “ondes” e “porquês” dessa exposição do combate com os seus demónios interiores como se afadiga agora na enumeração dos passos da via dolorosa que – aparentemente – a terão conduzido à redenção. Afinal, o que importa dizer a propósito da publicação de Jukebox (segundo disco de versões, oito anos depois de The Covers Record) é que, qualquer que seja a relação entre a suposta pacificação existencial e a obra, este é, muito provavelmente, o melhor álbum de Chan Marshall/intérprete (e, apenas pontualmente, compositora).
Onde, na realidade, é obrigatório reparar que a intérprete, em considerável medida, assume quase o estatuto de co-autora, de tal modo se apropria das canções e, muito pouco cerimoniosamente, as revolve e transforma. Exagerando (mas não muito): Frank Sinatra foi apagado da História, “New York” é, de agora em diante, uma canção de Cat Power. Precisamente o mesmo tratamento a que (ao lado de Jim White, dos Dirty Three, e de Judah Bauer, da Jon Spencer Blues Explosion) submete as restantes dezasseis – as outras onze do álbum principal acrescidas de cinco bónus –, herdadas de nomes tão veneráveis como Billie Holiday, Janis Joplin, Joni Mitchell, James Brown, Nick Cave, Moby Grape, Patsy Cline, Hank Williams ou Bob Dylan. E é exactamente nas duas faixas que giram em torno de Dylan (a versão de “I Believe In You” e o original de Marshall, “Song To Bobby”) que o mais surpreendente jogo de máscaras ocorre: enquanto “I Believe In You”, literalmente, muda de mãos, escutamos “Song To Bobby” – “Backstage pass in my hand, giving you my heart was my plan, can I finally tell you to be my man?” – no que só poderá ser a voz de Chan Dylan ou Bob Marshall.
No site da Amazon, quando se procura Fireproof, de Dawn Landes, aconselham-nos a comprá-lo, na qualidade de “perfect partner”, em conjunto com Jukebox. E não custa muito admitir que, independentemente da estratégia de marketing, existe, sem dúvida, alguma lógica de familiaridade no emparelhamento: apadrinhada por Suzanne Vega e Andrew Bird, técnica de som de Philip Glass, Joseph Arthur e Ryan Adams, Dawn Landes pratica o tipo de canção contemporânea que viaja agilmente entre tradição country-folk e aquele “modernismo” sonoro patenteado por Tom Waits desde Swordfishtrombones. Gravado num antigo quartel de bombeiros de Brooklyn convertido em estúdio, articula instrumentação tradicional com electrónica, optigons, glockenspiel, melodias memoráveis e uma escrita poeticamente enxuta que alinha frases como “we are like kids in a play set in the Victorian age, we only know what to say because we practiced at home” com a maior naturalidade. Traz à memória Laura Veirs mas, sobretudo, 99.9 Farenheit Degrees, de Suzanne Vega, e isso só pode ser uma coisa muito boa. (2008)
13 June 2007
1967, UM ANO MUITO POUCO COMUM
De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um “ano comum”. Isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao papa Gregório XIII que, a 18 de Janeiro de 1582, o promulgou para substituir o anterior calendário juliano: nem através de ligação directa ao Grande Arquitecto do Universo poderia ele ter previsto a dimensão exacta pela qual o ano em que John Coltrane, Che Guevara, Woody Guthrie e René Magritte morreram e Kurt Cobain, Julia Roberts, Nicole Kidman e Noel Gallagher nasceram foi tudo menos um ano comum. No mundo, em geral, e na cultura pop, em particular, 1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e ruptura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram.
The Beatles - Strawberry Fields Forever
Porque é impossível não o referir, recorde-se já que foi em 1967 que, a 26 de Maio, os Beatles publicaram Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Enquanto marco simbólico do ano e da era, a sua importância permanece mas deve também adiantar-se que, no âmbito mais restrito da sua ressonância na cultura pop posterior, já viu bem melhores dias: não só todo o resto que os Beatles editaram no mesmo período de doze meses – os singles “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, “All You Need Is Love”/”Baby You’re A Rich Man” e “Hello Goodbye/”I Am The Walrus” e o duplo EP “Magical Mystery Tour” – é francamente mais rico e interessante como, em sucessivas votações dos “all time best” (na última, do número de Junho da “Mojo”, para “os 100 discos que mudaram o mundo”, ficou-se por um modesto 16º lugar), tem vindo, aceleradamente, a ver a sua cotação desvalorizada relativamente a diversos outros concorrentes e até face a outras gravações da banda de Lennon e McCartney como Revolver, ou mesmo (na recentíssima da “Mojo”) ao single de 1963, “I Want To Hold Your Hand” (um honroso segundo lugar atrás de “Tutti Frutti”, de Little Richard).
Pink Floyd - Interstellar Overdrive
As oscilações do gosto terão a sua própria lógica mas a verdade é que, num ano em que – política, social e culturalmente – aconteceu incomparavelmente mais do que em muitas décadas, escolher um único objecto/figura emblemáticos não andaria muito longe de confiar no acaso de um lançamento de dados. Tomem, então, nota:
1) álbuns de estreia pop/folk/rock – The Velvet Underground & Nico, seguido, também em 1967, de White Light/White Heat; The Songs Of Leonard Cohen; The Doors (e, no final do ano, Strange Days); The Piper At The Gates Of Dawn, dos Pink Floyd; Safe As Milk, de Captain Beefheart; Are You Experienced?, da Jimi Hendrix Experience (e ainda Axis: Bold As Love); Mr. Fantasy, dos Traffic; The Grateful Dead; Buffalo Springfield (Neil Young+Stephen Stills) e (sobretudo), no Outono, Buffalo Springfield Again; Chelsea Girl, de Nico; David Bowie; Surrealistic Pillow, dos Jefferson Airplane, antecedendo After Bathing At Baxter’s; Moby Grape; Blowin’ Your Mind, de Van Morrison; Electric Music For The Mind And Body, de Country Joe & The Fish (que publicariam também I Feel Like I’m Fixin’ To Die); The Thoughts Of Emerlist Davjack, dos Nice (casulo de Keith Emerson, futuramente Emerson, Lake & Palmer); H. P. Lovecraft; Big Brother & The Holding Company (voz. Janis Joplin).
The Jimi Hendrix Experience - Purple Haze
2) obras-primas avulsas, objectos de culto e sementes de futuro – Goodbye And Hello, de Tim Buckley; Forever Changes e Da Capo, dos Love; Pleasures Of The Harbor, de Phil Ochs; Absolutely Free, dos Mothers of Invention; 5000 Spirits Or The Layers Of The Onion, da Incredible String Band; Days Of Future Passed, dos Moody Blues; The Who Sell Out; Something Else By The Kinks; Between The Buttons e Their Satanic Majesties, dos Rolling Stones; Walk Away Renee/Pretty Ballerina, dos Left Banke; Ptoof, dos Deviants; Tenderness Junction, dos Fugs; Tangerine Dream, dos Kaleidoscope; Mass In F Minor, dos Electric Prunes; Younger Than Yesterday, dos Byrds; Disraeli Gears, dos Cream (Eric Clapton+Jack Bruce+Ginger Baker); John Wesley Harding, de Bob Dylan; Easter Everywhere, dos 13th Floor Elevators.
Que outro ano, anterior ou posterior, se poderá gabar de ter fundado uma mão-cheia de géneros musicais (o psicadelismo dos Pink Floyd, Grateful Dead, Country Joe & The Fish, Kaleidoscope, Traffic, Fugs, H. P. Lovecraft, Jefferson Airplane ou de Their Satanic Majesties; o rock-sinfónico/progressivo dos Nice ou Moody Blues; o “noise”, com White Light/White Heat; os blues “cósmicos” de Jimi Hendrix, Big Brother ou Cream – ainda que, aqui, haja, que reconhecer os antecedentes dos Yardbirds; as incursões pelos idiomas clássico, da vanguarda contemporânea/electrónica e das músicas orientais dos Electric Prunes, Tim Buckley, Nico, Incredible String Band, Love, Frank Zappa/Mothers of Invention, Phil Ochs e dos próprios Beatles que, já em Revolver, por aí haviam deambulado; a ópera-rock com The Who Sell Out), de ter revelado (ou confirmado ao segundo álbum) figuras que marcariam indelevelmente a pop até hoje – Lou Reed, John Cale, Van Morrison, Neil Young, Jimi Hendrix, Nico, David Bowie, Tim Buckley, Leonard Cohen, Frank Zappa, Captain Beefheart – e, de um modo geral, ter participado intensamente nas convulsões que, daí em diante (e o Maio francês estava apenas a um ano de distância), virariam o século XX do avesso. A música aspirava o espírito do tempo e, ao expirá-lo, acelerava a rotação do mundo.
The Velvet Underground - I'm Waiting For The Man
De facto, o ano em que, logo a 2 de Janeiro, Charlie Chaplin estreava o seu último filme (A Condessa de Hong Kong) e que, a 19 de Dezembro, ouviria o professor John Wheeler formular, pela primeira vez, o conceito de “buraco negro”, foi um período de movimentos e eventos contraditórios: se a Guerra dos Seis Dias (entre 5 e 10 de Junho) incendiava irreversivelmente o Médio Oriente, o golpe de estado “dos coronéis” na Grécia instalava mais uma ditadura europeia e o general Westmoreland garantia que a vitória americana no Vietname era certa, o “Gathering of the Tribes for a Human Be-In” que, a 14 de Janeiro, reunia 30 000 pessoas no Golden Gate Park de S. Francisco, fazia convergir para um mesmo lugar as várias sensibilidades heterodoxas da época (ecologistas, velhos beatniks, feministas, novos hippies, anarco-freaks, militantes anti-Vietname, contestatários estudantis, activistas anti-segregacionistas, radicais de esquerda, gurus místicos e apóstolos lisérgicos), dava a palavra a oradores como Allen Ginsberg, Jerry Rubin e Timothy Leary (que lançaria o mote do ano com o seu famoso “Turn on, tune in, drop out” aparentemente “soprado” por Marshall MacLuhan, enquanto o “underground chemist”, Owsley Stanley, abastecia generosamente as massas com LSD – ilegalizado desde 16 de Outubro de 1966 – especialmente sintetizado para a ocasião), oferecia o palco aos Jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service e, acima de tudo, anunciava o “Summer of Love” que, meses depois, faria convergir para o distrito de Haight Ashbury, Berkeley e da baía de S. Francisco mais de 100 000 “flower children” em busca de “amor livre”, comunitarismo, transcendência e bucolismo utópicos “à la” Thoreau, êxtases químicos instantâneos e toda a parafernália cultural e filosófica que estaria na raiz da “New Age” e da contracultura “underground”.
Timothy Leary - How to Operate Your Brain
No entanto, a 15 de Janeiro, um dia depois do “Human Be-In”, no Ed Sullivan Show, os Rolling Stones, a bem da moral e dos bons costumes, seriam forçados a cantar “Let’s spend some time together” em vez do “Let’s spend the night together” original e, um mês mais tarde, Mick Jagger e Keith Richards veriam a polícia londrina invadir-lhes uma festa privada e acusá-los de consumo e posse de drogas pelo que, a 29 de Junho, acabariam mesmo por ser presos. Foi, sem dúvida, um ano em que manter-se a par das notícias não terá sido fácil: no mesmo dia em que as “tribos” se congregavam no Golden Gate Park, o “New York Times” revelava que o exército americano realizava experiências em matéria de guerra biológica; a 1 de Março, a Revolução Cultural Chinesa termina com o regresso dos Guardas Vermelhos à escola, oito dias antes de Svetlana Alliluyeva, filha de Estaline, fugir para os EUA e, no penúltimo dia do mês, os Beatles são fotografados para a capa de Sgt Pepper's, uma semana antes de levantar voo o primeiro Boeing 737 (a 11 de Dezembro, seria o baptismo de vôo do Concorde).
Outra linha de acontecimentos decorre paralelamente: a 28 de Abril, Cassius Clay/Muhammad Ali recusa combater no exército dos EUA e, embora, a 12 de Junho, o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (do qual, a 30 de Agosto, Thurgood Marshall seria o primeiro membro afro-americano) tenha declarado inconstitucionais todas as leis que proibiam os casamentos interraciais, isso não impede que, a 15 de Julho – dois dias antes da morte de John Coltrane –, expludam violentos motins raciais em Detroit (43 mortos, 342 feridos, 1400 edifícios incendiados) que alastram a Nova Iorque, Washington D.C. e Alabama, e, a 21 de Setembro (quatro dias depois da estreia do musical hippie, Hair), dezenas de milhares marcham sobre Washington contra a guerra do Vietname enquanto Allen Ginsberg entoa mantras com o objectivo de “fazer levitar o Pentágono”.
Peace March - Thousands Oppose Vietnam War, 1967
A atmosfera cultural do “Verão do Amor” (que, na edição de 7 de Julho da “Time”, a “cover story” intitulada "The Hippies: Philosophy of a Subculture." descrevia como "Do your own thing, wherever you have to do it and whenever you want. Drop out. Leave society as you have known it. Leave it utterly. Blow the mind of every straight person you can reach. Turn them on, if not to drugs, then to beauty, love, honesty, fun”) seria, entretanto, perfeitamente caracterizada pelo Monterey Pop Festival – 200 000 participantes e o primeiro festival pop/folk/rock, ao ar livre e gratuito -, na Califórnia, no qual actuaram Jimi Hendrix, The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, Ravi Shankar, Hugh Masekela, The Grateful Dead, Janis Joplin com os Big Brother & The Holding Company, The Association, Buffalo Springfield, Country Joe & The Fish, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, Laura Nyro, Canned Heat, Simon & Garfunkel, The Paul Butterfield Blues Band, The Steve Miller Band, os Blues Project e Otis Redding, que morreria a 10 de Dezembro, num acidente de avião.
Janis Joplin c/ Big Brother and the Holding Company
Não foi a única baixa do universo cultural a lamentar: entre Maio e Agosto, juntar-se-lhe-iam Edward Hopper, Vivien Leigh, Jayne Mansfield, o poeta Carl Sandburg, o dramaturgo Joe Orton, René Magritte, o manager dos Beatles, Brian Epstein e Woody Guthrie. Tragédia de enorme dimensão foram as cheias de Lisboa, a 26 de Novembro, com 462 vítimas mortais que se somariam às das guerras coloniais em curso, às do Vietname ou às decorrentes do abate pela República Popular da China de dois aviões norte-americanos que teriam violado o seu espaço aéreo.
Mas, mais visível ou invisivelmente, havia forças várias em movimento: a 26 de Junho (um dia antes de, em Enfield, no Reino Unido, o Barclays Bank abrir a primeira máquina multibanco), Karol Wojtila – futuro João Paulo II – é ordenado cardeal e, pela mesma altura, Lech Walesa começa a trabalhar como electricista, nos estaleiros Lenine, de Gdansk; a 4 de Julho, o Parlamento britânico descriminaliza a homossexualidade, Antony Hewish e Jocelyn Bell Burnell, da Universidade de Cambridge, descobrem o primeiro pulsar e, no final do ano (que se iniciara com a morte de Jack Ruby, assassino de Lee Harvey Oswald, putativo assassino de John Kennedy), Christiaan Barnard realiza, na cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante cardíaco. O “zeitgeist” da era impulsionaria, ainda Ralph J. Gleason e Jan Wenner a fundar a “Rolling Stone” (para onde Greil Marcus – salário: 30 dólares por semana – , Hunter S. Thompson ou Lester Bangs escreveriam), sobrevivente única de “rock magazines” históricos como a “Crawdaddy!” e “Creem”. Muitos anos mais tarde, reflectindo sobre a atmosfera desses anos, um dos seus alegados heróis, Leonard Cohen, diria: “Os hippies não me interessaram especialmente. Em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu que fui escuteiro posso dizê-lo”. (2007)
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