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14 February 2022

COMO UM CÃO QUE NÃO LADRA

“Escrevi a minha primeira canção quando andava por volta dos 12 anos. Chamava-se ‘I’ve Seen It All’ e ainda hoje me parece cómico ter sido tão incrivelmente triste. Não faço a mais pequena ideia de onde surgiu. Até aquela altura não tinha vivido nenhuma experiência traumática, tive uma infância óptima. Mas, mesmo nessa idade, as trevas já me fascinavam”, contou Eve Adams à “Uncut” numa entrevista em que a sua música era descrita como “baladas fatalistas de folk-noir” que “habitam uma zona crepuscular de ruinas românticas e devaneio melancólico onde o amor é tortuoso e volátil e a morte espreita sempre por entre as sombras”. Inspirações voluntariamente confessadas: a Concha Perez/Marlene Dietrich em The Devil Is A Woman (1935) e a Dorothy Vallens/Isabella Rossellini de Blue Velvet (1986). “Muitas vezes sinto como se não pertencesse verdadeiramente a esta era. Creio que muita gente sente também o mesmo. São tempos difíceis”. (segue para aqui)

02 June 2017

SOMBRIA E ASSUSTADORA



Angelo Badalamenti deverá estar eternamente grato a Ivo Watts-Russell, o patrão da 4AD, por, sem sequer se ter apercebido disso, lhe ter proporcionado a oportunidade de tornar-se o compositor às ordens de David Lynch. Na verdade, em Blue Velvet (1986), Lynch desejava muito ter na banda sonora não apenas "Song To The Siren" (de Tim Buckley), na interpretação dos Cocteau Twins para It’ll End In Tears (1984) – o álbum do colectivo multi-artistas da 4AD, This Mortal Coil –, como pretendia que os próprios Robin Guthrie e Elizabeth Fraser figurassem no filme. Watts-Russell, porém, não foi pobre a pedir pelo licenciamento e essa hipótese foi abandonada (seria finalmente concretizada em Lost Highway, 1997, embora sem Robin e Liz no ecrã), abrindo a porta a Badalamenti.



Recrutado como "coach" vocal de Isabella Rossellini e responsável pela totalidade da BSO – que incluiria também "In Dreams", de Roy Orbison’, "Love Letters", de Ketty Lester’, e "Blue Velvet", de Bobby Vinton –, para ela, em substituição de "Song To The Siren", escreveria "Mysteries Of Love" (com texto de Lynch) e a restante música que, segundo a vontade do realizador, deveria ser “inspirada em Shostakovich, muito russa, o mais bela possível, mas, ao mesmo tempo, sombria e assustadora”. Rossellini acabaria por desistir de cantar e seria Julee Cruise, um vozeirão da Broadway devidamente domesticado e anestesiado por Badalamenti, a interpretá-la. O trio funcionou tão bem que, sem pausa, daria origem ao primeiro álbum de Julee Cruise, Floating Into The Night (1989), matriz tanto do "musical" experimental Industrial Symphony No. 1: The Dream of the Broken Hearted (1990), apresentado por duas vezes na Brooklyn Academy Of Music de Nova Iorque, como, sobretudo, da memorável banda sonora da série Twin Peaks para cuja atmosfera "noir"-narcótica contribuiu com "Falling", "Rockin' Back Inside My Heart", "Into the Night", "The Nightingale" e "The World Spins". Já na longa metragem Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992), o triângulo Lynch/Badalamenti/Cruise apenas regressaria num tema, "Questions in a World of Blue".

31 May 2010

STARING AT MARINA ABRAMOVIC

"At Marina Abramovic's MOMA retrospective 'The Artist is Present' the public is given the opportunity to sit across from (and generally stare at) the renowned performance artist for as long as they like. Photographer Marco Anelli takes a photo of each participant and catalogs them in a Flickr stream that currently contains over 1,300 portraits. The album captures celebrities, super fans, and average museum goers with a tolerance for 8-hour lines as they react to Marina's gaze, be it in terror, amusement, or more often than not, by crying like a baby". (aqui)

Lou Reed, 9 minutes


Isabella Rossellini, 8 minutes


Sharon Stone, 10 minutes


Björk, 4 minutes


Robert Wilson, 13 minutes

(2010)

02 February 2010

FOUND A PENNY, PICKED IT UP



Tindersticks - Falling Down A Mountain

Acerca de um tipo que se lembra de convidar a magnífica e esquiva Mary Margaret O’Hara para um dueto só se pode dizer o melhor. E, se esse mesmo fulano já for reincidente na realização de idênticas propostas desonestas a damas como Isabella Rossellini e Lhasa de Sela, então não resta senão tirar-lhe o chapéu e genuflectir. O cavalheiro em questão dá pelo nome de Stuart Staples e, por acaso, o último álbum da sua banda – Tindersticks – recém-esfacelada pela partida do violinista Dickon Hinchliffe, do baterista Alasdair Macaulay e do baixista Mark Colwill, The Hungry Saw (2008), até nem lhe fazia augurar um futuro demasiado radioso.



Só pode, pois, ser uma óptima surpresa que o novíssimo Falling Down A Mountain não insista na ideia de repetir velhos procedimentos com novo elenco e se aventure por labirintos de libérrimo jazz (na companhia do trompetista Terry Edwards), desertos morriconianos, e batidas gingadas, do Tex-Mex à Motown, com as desejáveis lines-a-pedir-para-ser-citadas (“Found a penny, picked it up, all the day I had some luck, but that was two weeks last Tuesday, since then there’s been a sliding feeling”) simpaticamente incluídas e... miss O’Hara na tripulação para o saborosamente frívolo "Peanuts".

(2010)

26 May 2008

FIM DE CAPÍTULO
(repescado a partir daqui)



Tindersticks - Donkeys 92-97

Stuart Staples fala como se tivesse pavor de que uma só das palavras que pronuncia pudesse deixar uma impressão errada. A voz sai-lhe segredada, quase inaudível, repete as ideias, gagueja, sorri embaraçado com algumas das perguntas mas, mesmo assim, lá consegue explicar as razões por que os Tindersticks se decidiram a editar Donkeys, uma compilação que recolhe todos os seus singles e raridades avulsas até aqui dispersas. E, depois, anuncia que o grupo se prepara para grandes mudanças ao mesmo tempo que conta como realizou a fantasia de cantar com Isabella Rosselini e não consegue encontrar outra razão para o título do álbum a não ser que "it just felt right".

Por que motivo decidiram publicar agora esta compilação de lados B e raridades que não é exactamente aquilo a que nos habituámos a chamar um "Best Of"?
Suponho que porque, para nós, ele funciona como o encerramento de um capítulo. Resume todo um ciclo de canções, garantindo, ao mesmo tempo, que nada daquilo que fomos publicando fique indisponível.

Se isto encerra um ciclo de canções, como irá ser o seguinte?
Ainda não sabemos bem, estamos a trabalhar para o proximo disco. Penso que vai ser muito diferente dos anteriores embora também não me espante que, depois, as pessoas não identifiquem muito bem essas diferenças. Mas estamos a descobrir uma nova forma de escrever as canções com uma ênfase muito mais nítida na totalidade do grupo e na contribuição das ideias de cada elemento.



Por que motivo esta compilação se intitula Donkeys?
Só porque sentimos que ficava bem (risos). Há qualquer coisa nessa palavra que casa perfeitamente com o espírito das canções. Não houve nenhuma outra razão muito especial.

Ouvindo o disco, houve uma coisa que me chamou a atenção e em que antes nunca tinha verdadeiramente reparado: a apurada sensibilidade pop dos Tindersticks na forma como, a partir de um desenho de guitarra, de um "leitmotiv" de cordas ou da forma como cada canção cresce da estrofe para o refrão, se define o essencial...
Mas nós sempre nos encarámos realmente como uma banda pop. Quando escrevemos uma canção, partimos de uma ideia inicial e procuramos conduzi-la até à sua conclusão natural. Embora isso não queira dizer que tenhamos uma fórmula secreta que nos indique exactamente como havemos de fazer as coisas.

A partir de certa altura, enveredaram por uma via de pop orquestral. Do vosso ponto de vista, isso constituiu um desenvolvimento inevitável?
Foi uma consequência muito natural do facto do Dickon fazer parte do grupo e de ele tocar violino. A utilização de uma orquestra acabou por ser também uma forma de evitar que, para gravar as partes de cordas, ele tivesse de tocar trinta vezes a harmonia de cada canção. Parece-me, por outro lado, que essa via já deu os frutos que tinha a dar e é altura de mudarmos de rumo.

Vai ser essa, então, uma das mudanças?
A mudança irá ser mais profunda. Não é uma questão de nos vermos livres disto ou daquilo em particular. Trata-se verdadeiramente de descobrir o que funciona realmente bem quando nós os seis tocamos em conjunto e ser capaz de transpôr isso que é, de facto, especial para um disco. O que, até aqui, creio que ainda não conseguimos. Esse é o objectivo mais importante.



De qualquer modo, os Tindersticks, como os Divine Comedy ou os Walkabouts integram-se numa corrente de pop orquestral que está a crescer...
No caso deles, deve ter sido porque todos ouviram os nossos discos!... (risos) Claro que é muito simples decidir que se deseja escrever pop orquestral e contratar um arranjador. Como sabe, nós não funcionamos dessa forma. Connosco esse impulso veio de dentro.

Independentemente disso, no seu caso, como cantor, tem consciência de se estar a referir a uma antiga tradição de "crooners"?
A verdade é que os cantores que eu admiro não vêm dessa tradição. É certo que, há cerca de dois anos, estávamos obcecados com a ideia de escrever a canção definitiva de Jimmy Webb. Mas levámos isso até onde era possível e, agora, já não vale a pena continuar por aí.

Lembro-me de ter lido que, em determinado momento, contactaram Juan Garcia Esquivel, o papa do "easy listening" mexicano para escrever para vocês...
Isso foi há cerca de três anos. Foi uma daquelas coisas que nos passou pela cabeça. Admirávamos a música dele (se quiser, foi, mais uma vez, esse filão da música orquestral) e lembrámo-nos de lhe falar. Mas é como lhe digo, agora, há que seguir por outro caminho.

Como é que surgiu a ideia para o seu dueto com Isabella Rosselini em "Marriage Made In Heaven"? Pensou nela desde o primeiro momento?
Essa é uma das nossas primeiras canções. Originalmente, cantei-a com a Nikki, das Huggy Bear, e editámos pouco mais de mil exemplares. Gravámo-la e misturámo-la num único dia mas era uma daquelas canções a que estávamos sempre a voltar. Quando decidimos regravá-la tínhamos um certo desejo instintivo em relação à possibilidade de o fazermos com a Isabella. Imaginámos como ela seria e fomos atrás dessa ideia para confirmar se tínhamos razão. E, de facto, encontrá-la e estar com ela confirmou as nossas fantasias.

Ela revelou-se uma cantora natural?
Não. Mas os cantores naturais também não têm assim tanto interesse, pois não? Ela é uma actriz e o que faz nesta canção é representar.



Se relacionarmos esse seu dueto com a outra versão de "No More Affairs" cantada em francês, vamos ter quase directamente a Serge Gainsbourg e Jane Birkin...
Espero bem que sim...(risos) Essa versão em francês tem a ver com a ideia de sempre me ter fascinado a expressão das emoções através da fonética de uma língua que não compreendo.

Na ultima linha do "press release" para este disco, é referido que os Tindersticks são vestidos por Timothy Everest, um alfaiate de cavalheiros londrino. Isso é assim uma coisa tão importante para vocês?
Houve uma altura em que foi. Vestíamos uma roupa que mais ninguém usava. Tal como acontecia com as nossas canções.

Para terminar, posso-lhe pedir o seu "top ten" de discos privado?
Sempre que me perguntam isso, faz-se-me uma branca no pensamento. Mas acabo sempre por falar de gente como Tim Hardin, Velvet Underground, Big Star, Al Green, Townes Van Zandt...

Na primeira vez que conversámos, disse-me que passou a juventude a ouvir os discos de Neil Diamond da sua mãe...
Isso é uma velha tradição de família... Pelo Natal, ou são esses ou os do Perry Como...



(1998)