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08 April 2026

"God’s Lonely Man" (feat. Iggy Pop)
 
(sequência daqui) Em 2020, publicaria Hunted, álbum de revisão de temas de Hunter entregues a Joe Talbot (Idles), Courtney Barnett, Julia Holter e Charlotte Gainsbourg; e, em variadíssimas coordenadas espaciais e temporais, veria o seu nome associado aos de Colette, Gucci, Vogue,Fendi, Lagerfeld, Chanel ou Burberry (com EP Live For Burberry incluído, 2017); não menor cometimento seria a banda sonora para a soberba série de TV Peaky Blinders (Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score, 2024) à qual se sucede agora o EP Is This All There Is?. Apresentado como o primeiro de uma trilogia de gravações "que explora a identidade como uma metamorfose, moldada e remodelada pela experiência da paixão", o que Calvi busca - acompanhada por Matt Berninger,Laurie Anderson, Perfume Genius e Iggy Pop - é estimular a eclosão de um desdobramento de personalidades, da fria racionalidade à mais física colisão sonora.

14 October 2022

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXVII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)
 
 
 
 
 It's Immaterial - Life's Hard And Then You Die (álbum integral aqui)
 

Iggy Pop - "Shades" (Blah-Blah-Blah - álbum integral aqui)
 
 
"Lenin In Zurich" - Easterhouse  (Contenders - álbum integal aqui; ver também aqui)

16 March 2022

DESMANTELAR A CAIXA

No Outono de 2020, acabado de publicar Hey Clockface, Elvis Costello contava-nos como, no início desse ano, perante os primeiros sinais de alarme pandémico, “as pessoas começaram a deixar de aparecer nos concertos” e compreendera “que estava na altura de cancelar tudo e voltar para o Canadá para ir ter com a minha família antes que fechassem as fronteiras”. E rematava: “Ali estava eu, na ilha de Vancouver, a olhar para aquele imenso mar e a tentar perceber onde tudo isto iria parar...” Como viria a descobrir-se, a perplexidade não iria durar muito: “Temos de escolher entre rendermo-nos e escrever baladas pálidas e melancólicas acerca do isolamento ou abrir a pontapé um buraco na caixa onde nos encerraram”, confessa ele, agora, à “Uncut”. A dita caixa haveria de ser, literalmente, desmantelada: não apenas publicaria Hey Clockface mas também La Face de Pendule À Coucou (EP de "remixes" e versões francesas de Clockface com Iggy Pop, Isabelle Adjani, Tshegue e AJUQ), um luxuoso "boxset deluxe" de Armed Forces (1979), Spanish Model (uma peculiar reconfiguração de This Years’s Model (1978), em castelhano, interpretado por cantores espanhóis e latino-americanos sobre o registo instrumental original dos Attractions) e, por fim, The Boy Named If – ou, em versão oficiosa, The Boy Named If (And Other Children’s Stories) –, o 32º álbum de estúdio de uma prolífica discografia. (segue para aqui)

"The Boy Named If"

22 April 2020

A PREDADORA E AS PRESAS

 
Há dois anos, Hunter, o terceiro álbum de Anna Calvi, apresentava-se como um manifesto “queer e feminista” sobre o qual abertamentamente proclamava: “Pretendo ir além do género. Desejo não ter de escolher entre o masculino e o feminino em mim. (...) Ando à caça de alguma coisa – desejo experiências, desejo acção, desejo liberdade sexual, desejo intimidade. (...) Desejo repetir infinitamente as palavras ‘rapariga, rapaz, mulher, homem’ até lhes encontrar os limites, contra a vastidão da experiência humana. Envergo o meu corpo e a minha arte como uma armadura mas também sei que ser verdadeira para comigo é expor-me a ser ferida”. Após os belíssimos Anna Calvi (2011) e One Breath (2013), a intenção era, então, oferecer ao mundo algo de “tranquilamente audacioso e provocante, primitivo e belo, vulnerável e forte, o caçador e a presa”. Por essa altura, pouco antes de se apresentar em Lisboa, no Capitólio, tinha-nos confessado que pretendia “criar algo que fosse mais visceral, animal e selvagem e menos cerebral, textos mais imediatos e muito concentrados na ideia de conduzir até ao extremo o contraste entre as sensações de força e poder, de vulnerabilidade e intimidade” e, através desse gesto, “alcançar a máxima nitidez possível”. Uma nitidez tão grande quanto a do que, num disco “muito mais do corpo do que da cabeça”, explicitamente, propunha: “A nossa cultura está impregnada de fantasmas de mulheres enquanto objectos de caça dos homens. Quis inverter os papéis: a mulher como caçadora que se apodera da sua presa, masculina ou feminina. Basta de tolerância em relação aos limites que, supostamente, definiriam como uma mulher se deve comportar. Por que motivo haveria de aceitá-los apenas por causa da minha anatomia?...” 



Nesse álbum, para além dos músicos com que, habitualmente trabalhava - Mally Harpaz, percussão e harmonium, Daniel Maiden, baixo e bateria, John Baggot, teclados – chamara também a si Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds). Terá estado aí mesmo a semente do que no novo mini-CD, Hunted, foi o plano de acção: pegar em sete canções de Hunter ("Swimming Pool", "Hunter", "Eden", "Away", "Don’t Beat The Girl Out Of My Boy", "Wish" e "Indies Or Paradise") e partilhá-las com Julia Holter, Charlotte Gainsbourg, Courtney Barnett, e Joe Talbot (Idles), caçados para, por sua vez, as capturarem para si, tendo como ponto de partida, "takes" iniciais ou não publicadas de cada uma delas. Não por serem, necessariamente, melhores ou mais “genuínas” mas por oferecerem um ponto de partida diferente: “Estive a ouvir diversas versões destas canções que tinha gravado inicialmente. Hunter era um disco muito intenso e galvanizante. Desta vez, quis apresentar estas canções numa outra perspectiva mais serena e vulnerável. Em cada uma das canções, não sinto que uma versão seja mais verdadeira, mais autêntica do que a outra. É apenas uma outra forma de olhar, um outro ângulo sobre o mesmo enredo”. A escolha dos cúmplices não assentou em nenhuma particular proximidade ou intimidade pessoal: “Conhecia a Courtney Barnett e o Joe Talbot de alguns concertos em que, por acaso, tínhamos estado juntos e, uma vez, tinha ido ter com a Charlotte Gainsbourg – ela já conhecia o meu trabalho mas, quando lhe falei, não fazia a menor ideia de quem eu era – para lhe dizer quanto gostava do trabalho dela. A Julia Holter está na mesma editora que eu o que até facilitou os contactos, mas, até este momento, nunca nos tínhamos falado nem encontrado”



Na verdade, nem em estúdio, chegaram sequer a encontrar-se, tendo sido todas as partes gravadas separadamente. Tratou-se apenas de reconhecer afinidades estéticas e de descobrir uma forma de lhes dar corpo musical: “São todos músicos e artistas que me têm inspirado e com quem desejei colaborar por sentir que poderiam acrescentar algo de importante ao espírito de cada canção. Enviei as canções a cada um deles, perguntei-lhes unicamente se gostariam de as interpretar mas não lhes dei qualquer tipo de instruções acerca de como o fazer. Permiti que procedessem como desejassem. A beleza de todo este processo foi poder receber de volta aquilo que lhes tinha enviado e ficar magnificamente surpreendida com os resultados e com as escolhas que tinham feito”. No caso de Julia Holter, a quem propôs dedicar-se a "Swimming Pool", o resultado foi especialmente surpreendente: “Não estava, de todo, à espera que ela acabasse por me apresentar aquele espantosa versão coral... foi uma surpresa maravilhosa. É, sem dúvida, um belíssimo exemplo do enorme talento e da imaginação única dela. Mas todos eles eram, verdadeiramente, aqueles que queria, todos são muito importantes para mim e senti-me muito feliz quando aceitaram o meu convite. Se fosse possível, no entanto, também não perderia a oportunidade de trabalhar com o Iggy Pop”



Embora, antes de se dedicar a novo álbum de originais, exista ainda o projecto para um outro volume de colaborações, durante o ano passado, entregou-se à composição para a banda sonora da quinta temporada de Peaky Blinders, a extraordinária série da Netflix, (para a qual, entre diversos outros, Nick Cave e PJ Harvey também contribuiram largamente): “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade – algo que sempre procurei na minha música –, como se eu fosse ele. Foi uma espécie de diálogo entre nós que me conduziu a procurar inspiração na música dos westerns porque Peaky Blinders é, de facto, um western situado em Birmingham”. E, com quem gostaria de poder ter colaborado mas já não o poderá fazer? “David Bowie, Nina Simone, Jimi Hendrix, e Edith Piaf”.

08 December 2019

O convite ao bocejo
 

Previsíveis como a sucessão das estações (antes das alterações climáticas), depois do ímpeto reconstrutor na toca da beatagem social-fascista, seguem-se as divergências, tendências e sensibilidades de berliques e berloques.

The Stooges - "No Fun"

06 September 2017

28 December 2016

O FUNDO DO COPO


O luxuoso Dorchester, com vista sobre Hyde Park, foi o hotel escolhido por David Bowie para, no domingo 16 de Julho de 1972, acolher dezenas de jornalistas americanos a quem iria apresentar Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Lou Reed (de unhas "bordeaux" e óculos escuros) e Iggy Pop (cabelo prateado, olhos pintados e t-shirt dos T. Rex) estavam presentes. E, conta Simon Reynolds em Shock And Awe: Glam Rock And Its Legacy (arrume-se já o assunto: ensaio pop do ano), Bowie, dirigindo-se aos convidados, declarou: “Pessoas como o Lou Reed e eu anunciam, provavelmente, o fim de uma era... e digo isto, catastroficamente. Qualquer sociedade que deixa à solta gente como nós está seriamente perdida. Somos ambos muito confusos, paranóicos, absolutos desastres ambulantes. Se somos a vanguarda de alguma coisa, não somos necessariamente a vanguarda de algo bom”. A 8 de Janeiro de 2016 – data do seu 69º aniversário e antepenúltimo dia de vida – David Bowie oferecia ao mundo uma derradeira Estrela Negra. Mas não suficientemente negra. You Want It Darker, murmurou Leonard Cohen, duas semanas antes de recusar ser testemunha do que, há muito previra (“I've seen the future, brother: it is murder”): no dia seguinte a ter “saído de jogo”, o planeta – seriamente perdido, sim – dava-se conta de que um candidato apoiado pelo Ku Klux Klan e pronto a partilhar o saque com um tirânico ex-director do KGB chegara à presidência dos EUA.


Em “30 Days 30 Songs” (que cresceria até “30 Days 50 Songs”), um site independente que, na qualidade de “artists for a Trump-free America”, entre 10 de Outubro e 8 de Novembro, juntou R.E.M., Franz Ferdinand, Aimee Mann, Andrew Bird, Moby, Lila Downs, Matt Berninger, Mirah, Ani Di Franco, Bob Mould e diversos outros, dispararam-se rajadas de agit-prop musical contra o Orange Clown e Michael Stipe espumou de fúria a propósito da utilização de "It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)" num comício de Trump (“Go fuck yourselves, you sad, attention-grabbing, power-hungry little men. Do not use our music or my voice for your moronic charade of a campaign”), tal como fariam os Rolling Stones, Neil Young e Aerosmith. No centenário do Manifesto Dada, filho natural da Primeira Grande Guerra, e nos 40 anos do punk (a cujas relíquias, avaliadas em 5 milhóes de libras, o filho de Malcolm McLaren lançou fogo, em protesto contra a sua mumificação institucionalizada no UK do Brexit), nada impediria a História de, uma vez mais, recuar vertiginosamente.


Talvez não seja motivo para, nos EUA, voltar a cantar-se já, já, "Strange Fruit". Mas a crua reportagem de PJ Harvey por alguns dos lugares da peste contemporânea (Afeganistão, Kosovo, os bairros esquálidos da periferia de Washington D.C.) em paralelo com a metralha de videos de pesadelo de Nadya Tolokonnikova/Pussy Riot ("Chaika"/"Straight Outta Vagina"/"Organs"/"Make America Great Again") deixam adivinhar o renascimento de uma contracultura de protesto. E, é verdade, o artista anteriormente conhecido como um impronunciável "Love Symbol" regressou à condição do confirmadamente mortal Prince Rogers Nelson. E, valha-nos isso, Dylan ganhou o Nobel. E, tudo bem medido e avaliado, parece que, afinal, 2016 não terá sido o pior ano de sempre. Que nunca venhamos a ter saudades dele. Porque não se trata de saber se estava meio cheio ou meio vazio mas, sim, se o fundo do copo está furado ou não.

22 November 2016

SÓ A VOZ E AS PALAVRAS


Na madrugada da sexta-feira de há duas semanas, demo-nos conta de que estávamos há quatro dias sem Leonard Cohen e só nessa altura tínhamos reparado. Quando nos chamaram a atenção para isso, compreendemos rapidamente que terem-no feito antes, em plena tempestade que se desencaderia no dia a seguir a termos deixado de o ver (“Morrer é só não ser visto”, explicou outro poeta), poderia apanhar-nos demasiado desatentos para reparar que o que se passava diante dos nossos olhos já ele o havia visto claramente, muito antes, em 1988: “Everybody knows that the plague is coming, everybody knows that it's moving fast (…) Everybody knows that the dice are loaded, everybody rolls with their fingers crossed, everybody knows that the war is over, everybody knows the good guys lost, everybody knows the fight was fixed, the poor stay poor, the rich get rich, that's how it goes, everybody knows”. Vinte anos antes, imaginara, com caracter de urgência, outro mundo: “Espero que as mulheres se apressem e tomem o poder. Vai acontecer inevitavelmente, por isso será melhor que se despachem. Poderemos, então reconhecer, finalmente, que as mulheres são a mente e a força que sustentam o mundo; os homens são apenas coscuvilheiros e artistas. Nós ficaríamos entregues às nossas tarefas infantis e elas manteriam o mundo a funcionar. Sou realmente a favor do matriarcado”. É possível que isso tenha alguma coisa a ver com uma história que Iggy Pop conta sobre um dia em que ambos – é verdade, eles davam-se – se entretinham a ver anúncios classificados num jornal. Num deles, uma mulher desejava conhecer um homem “com o corpo de Iggy Pop e o espírito e a sensibilidade de Leonard Cohen”. A resposta seguiu por carta, com a assinatura de ambos.


É uma oportuna – ainda que oblíqua – deixa para varrer já do terreno um ou dois obstáculos que sempre obstruiram a porta de entrada para a obra de Cohen, dos quais, só há quatro anos, a propósito de Old Ideas, me apercebi com clareza. Perdoem se me repito: “À excepção da catedral em forma de abismo, Songs Of Love And Hate – e, mesmo aí, por motivos (sérios mas secundários) de ordem exclusivamente cenográfica –, nele, a música não tem a menor importância. Em qualquer dos doze álbuns que, desde 1967, registou, apenas duas coisas contam: os textos e a voz. No limite, poderia até dizer-se que toda a sua discografia é exclusivamente um exercício de "spoken word", musicalmente emoldurado, e isso também nos casos em que o que contém mais possa assemelhar-se a canções. Pelo que, não faz qualquer sentido valorizar ou desvalorizar cada disco de acordo com a sua suposta ‘qualidade’ musical: preferencialmente aconchegadas à austeridade folk ou enquadradas por arranjos de salão de baile pelintra (como se Leonard só soubesse salmodiar – isto é, entoar cânticos de louvor – demolindo a solenidade em atmosferas profanas de lupanar), voz e palavras precisam de pouco mais que um embalo para acharem a cadência exacta. Se possível, amparadas pelo sopro de coros femininos. Não por serem coros mas por serem femininos”.


Por coincidência (ou não, com Leonard Cohen nunca se deve estar demasiado seguro), são também de Old Ideas duas canções que ajudam muito a vê-lo mais de perto. Numa, "Going Home", falando de si para si, em solilóquio ironicamente auto-depreciativo, primeiro apresenta-se: “I love to speak with Leonard, he’s a sportsman and a shepherd, he’s a lazy bastard living in a suit, but he does say what I tell him, even though it isn’t welcome, he just doesn't have the freedom to refuse, he will speak these words of wisdom, like a sage, a man of vision, though he knows he’s really nothing but the brief elaboration of a tube”. E, logo a seguir, desmonta a caricatura: “He wants to write a love song, an anthem of forgiving, a manual for living with defeat, a cry above the suffering, a sacrifice recovering, but that isn’t what I need him to complete, I want him to be certain that he doesn’t have a burden, that he doesn’t need a vision, that he only has permission to do my instant bidding, which is to say what I have told him to repeat”. Na outra canção, "Darkness", antecipava, afinal, aquilo (“I caught the darkness drinking from your cup, I said is this contagious? you said just drink it up, I got no future, I know my days are few, the present's not that pleasant just a lot of things to do. I thought the past would last me but the darkness got that too”) que, quando notou que, para o entendermos, era necessário carregar no traço, reescreveu em forma de provocação: You Want It Darker.



Judeu quase involuntário (“De facto, não me foi oferecida a oportunidade de escolher entre ser franciscano ou judeu. É verdade que essa tradição era muito forte na minha casa. Mas nunca ninguém me disse que existia um deus e, se existia, o que pretendia de mim. Havia uma total ausência de tirania teológica. O que, vivendo eu numa cidade fortemente católica, contrastava imenso com as histórias de horror que os meus amigos me contavam sobre as suas relações com os padres. Cresci sem sentir quaisquer obrigações em relação a nenhum ser supremo”, confessava-me ele, em 1994, à beira de um café, em Madrid), atraído pelos místicismos cristãos, sufis, tântricos, “todos esses processos de união com deus que passam por uma metáfora sexual, por uma embriaguês com o ser amado, a ideia de me render como um ébrio perante esse mistério”, desde o início dos anos 60, tinha uma noção exacta de a quem se dirigia. Numa carta a um editor de poesia, identificava, então, os seus hipotéticos leitores: “inner-directed adolescents, lovers in all degrees of anguish, disappointed platonists, pornography-peepers, hair-handed monks, popists, French-Canadian intellectuals, unpublished writers and curious musicians”. Três anos depois de Madrid, pedi-lhe que explicasse o porquê de, na compilação que, por essa altura, publicava, incluir "The Great Event", um poema em prosa recitado por Victoria (uma voz "text-to-speech" dos MacIntosh da época) no qual anunciava que “o Grande Acontecimento que irá pôr fim ao louco mergulho da humanidade no sofrimento será o momento em que tocarei a ‘Sonata Ao Luar’ do fim para o princípio”. Jikan, o Pouco Convincente, monge zen no mosteiro de Mt. Baldy, aliás, o Fundador da Ordem do Coração Unificado e discípulo de Roshi com quem aprendeu a distinguir correctamente um Rémy Martin de um Courvoisier, respondeu-me “É uma metáfora para a esperança, para uma esperança desesperada e absurda. Uma esperança sem qualquer esperança a que todos temos de nos agarrar e que é tudo o que possuímos”. O também Field Commander Cohen, “patron saint of envy and the grocer of despair”, dizia que “a poesia é só uma prova de vida. Se a vida arde bem, a poesia é apenas as cinzas”. E, amavelmente, punha termo a uma conversa, declarando: “Quando me embrenho na escrita lenta e dolorosa de uma canção, há certas realidades maiores e melhores do que eu que se manifestam e que já não comando. O resto é só a minha vida pessoal, tola e caótica”.

20 January 2016

KHAO MANEE 


Na Tailândia, o Khao Manee – uma das três principais estirpes de gatos autóctones, em conjunto com o Siamês e o Korat – é venerado como uma quase divindade. O nome significa “jóia branca” (é também conhecido como “gato dos olhos de diamante”), caracteriza-se pelo pêlo imaculadamente branco e, na variedade mais rara e preciosa, possui olhos de cor diferente: um azul, outro amarelo-dourado, o que, por milagre da genética, o salva da surdez que é comum nos que têm ambos azuis. Naturalmente, como todos os gatos, dispõe de nove vidas.


David Robert Jones, de modo muito semelhante, viveu outras tantas. Na primeira, sob esse mesmo nome, muito cedo, adquiriu uma das características do Khao Manee: uma briga escolar, provocou-lhe a anisocoria que, para sempre, lhe deixaria os olhos com a fortíssima aparência de colorido diferente. Na segunda, a mais curta, após ter tropeçado em "Tutti Frutti", de Little Richard, declarou ter “ouvido deus”, chamou-se Davy Jones, recebeu como presente um saxofone de plástico, imaginou-se nos Beatles, Who, Stones e Velvet Underground e apresentou-se na televisão como porta voz da Society For The Prevention Of Cruelty To Longhaired Men. A terceira, espécie de enorme tela sobre a qual desenharia todas as seguintes, viveu-a sob o nome de David Bowie, apelido extorquido ao pioneiro norte-americano, Jim Bowie, ou, mais exactamente, ao punhal que celebrizou.


Foi logo no início dessa que se gerou a quarta, a de Major Tom, que voltaríamos a encontrar, intermitentemente, em "Ashes to Ashes", "Hallo Spaceboy" e "Blackstar", mas igualmente o momento em que surgiria a suspeita sobre se Lauren Bacall ou Marlene Dietrich se teriam apoderado do seu corpo nas capas de The Man Who Sold The World e Hunky Dory. Na verdade, a quinta vida seria a de Ziggy Stardust, entidade apocalíptica, profética e bissexual, gerada nas incubadoras de William Burroughs e Anthony Burgess, antecedente da sexta, protagonizada pelo esquizóide Aladdin Sane (“a lad insane”), híbrido de Iggy Pop e Jean Genet de relâmpago no rosto, e da sétima, na qual, evocando, por contraste, o “diamond eye cat”, Halloween Jack, chefia o gang Diamond Dogs, e encena um Orwell sci-fi, niilista e quase punk.



Na oitava vida, seria a vez de a “jóia branca” assumir a forma do Thin White Duke – aristocrata demente, zombie amoral ou glacial super-homem ariano –, ainda em embrião na "plastic soul" brandida pelos Young Americans mas, sob dieta exclusiva de leite e pó-dos-sonhos, rapidamente entrado na idade adulta em Berlim, onde o cirurgião Brian Eno lhe extrairia as três pedras da loucura (Low, Heroes e Lodger) que, desde Station To Station, o atormentavam. A nona e última, sempre sobre o pano Bowie de fundo, viu-o fugaz e alternadamente lunar como Pierrot, sob o heterónimo de Nathan Adler, investigando o “art-ritual murder” de Baby Grace Blue – e perplexo com a dúvida “It was definitely murder - but was it art?” –, pluralmente dançante, “vacilando entre ateísmo e gnosticismo”, filósofo da “pós-filosofia” (“Nos últimos 20 anos, a realidade transformou-se numa abstracção para muita gente. Coisas que eram vistas como verdades extinguiram-se e é como se agora pensássemos pós-filosoficamente. Não há conhecimento, apenas a interpretação dos factos com que nos inundam diariamente, sentimo-nos como que à deriva no mar. E as circunstâncias políticas ainda empurram o barco mais para longe”), crepuscular até ao final. “Ashes to ashes, funk to funky”. Foram óptimas nove vidas. Poderá ter sido mais bem escutado numas do que noutras. Mas, em todas, a visão bicolor do Khao Manee assegurou-lhe um magnífico ouvido.

24 December 2015

09 November 2013

O SEPARAR DAS ÁGUAS


Domingo, 27 de Outubro. “Sunday morning, and I'm falling, I've got a feeling I don't want to know”. Em poucas horas, mal a notícia da morte de Lou Reed, aos 71 anos, se espalhou, se isso servisse para alguma coisa, bem poderiam ter-lhe dito “watch out the world's behind you”: em brevíssimos "tweets", praticamente, sem palavras (Ryan Adams escreveu apenas “Lou Reed”), anónimos e notáveis, por todas as esquinas e becos das redes de comunicação, procuraram aliviar a irremediável sensação de perda. Lloyd Cole desabafou “Sem ele não existiria Bowie tal como o conhecemos. Eu? Seria provavelmente professor de Matemática” e até o cínico profissional, Luke Haines, não conseguiu dizer mais do que "Fuck, shit, Lou Reed. No". Não, o dia não era, de todo, perfeito. E Lou Reed também não.

Na segunda-feira, pelo meio dos inúmeros textos com que, dolorosamente, se faria o luto, o “Guardian” republicaria uma entrevista de Maio de 2003, realizada por Simon Hattenstone, em Stuttgart. Verdadeiro fã-desde-pequenino (mais exactamente, desde os nove anos, quando "Walk On The Wild Side" – a tal canção que, nos EUA, teve de ser editada, eliminando a frase “But she never lost her head, even when she was giving head”, para que Reed pudesse registar a sua única presença no top 40 do “Billboard” – lhe virou o seu pequeno mundo do avesso), Hattenstone descreve um penoso exercício de humilhação do qual estava muito longe de ser a primeira vítima. Enxotado da presença do músico durante a sessão de fotografia, quando, após mais outra hora de espera para o ensaio de palco, lhe faz uma pergunta sobre os textos de The Raven (publicado nesse mesmo ano), acidamente, ele responde-lhe “Não me vai pedir que lhos explique, pois não?” Interroga-o acerca da relação estética entre ele, Iggy Pop e David Bowie, nos anos 70, e ouve “Não faço a mínima ideia do que está a falar”. E, várias outras não-respostas tortas mais tarde, no momento em que, já praticamente em lágrimas, lhe confessa “Eu era um fã seu...”, é atingido por um intimidativo “Era?!!!...”


Estava lá tudo, desde o início, com os Velvet Underground. Primeiro, apenas Reed e John Cale, depois, os efémeros Angus MacLise e Walter de Maria e, enfim (antes de se iniciar o processo de expurgo constante que foi a história da banda), Nico, Sterling Morrison e Maureen Tucker, sob a tutela estética de Andy Warhol, na performance multimédia Exploding Plastic Inevitable – onde, como definia, aterrado, o “Chicago Daily News”, “desabrochavam as flores do mal”, nada era deixado à imaginação: “Estávamos em palco com chicotes, holofotes gigantes, seringas, arame farpado, enormes crucifixos de madeira. Antes de nós, quando se ouvia música, divagava-se ou associava-se aquilo em que se estava a pensar. Connosco havia uma imagem muito clara do que pretendíamos transmitir. O que chocava era a imaginação não ser suficientemente poderosa para conceber a ideia de pessoas chutando-se em palco, a ser crucificadas ou a lamber botas de cabedal”, contava Ronnie Cutrone, personagem da Factory, de Warhol, que, ao descrever o desempenho dos seus pupilos, afirmava “Nada poderia parecer tão estranho e tão novo sem que estivéssemos a rebentar alguma barreira. ‘É como a separação das águas do Mar Vermelho’, disse-me Nico, uma noite”.

Puríssima verdade: em pleno banho de pétalas do "flower power", os Velvets odiavam hippies (e diziam-no em voz alta), aos êxtases aromatizados a incenso preferiam a áspera dureza S&M, e, através de um álbum – The Velvet Underground & Nico, 1967 – que, nos primeiros cinco anos de publicação, mal vendeu 30 000 exemplares (em 2006, seria incluído na Library Of Congress), inventaram, de um só golpe, a estética punk, a ética indie e abriram de par em par a via para o art-rock. Porém, o “New York Times” descrevia-os como “Andy Warhol’s jazz band” e “uma combinação de rock’n’roll com dança do ventre egípcia”, e o respeitável Richard Goldstein, no “Village Voice”, embora concedendo que se tratava de “um grupo importante” e que "Heroin" eram “sete minutos de autêntico rock’n’roll dodecafónico”, insistia em caracterizá-los como “uma banda de que não é fácil gostar” e decretava que algumas das faixas eram “aborrecidas e repetitivas”, a voz de Lou soava aflitivamente ao “Bob Dylan inicial”, "There She Goes Again" era uma “cópia sem vergonha” de "Hitch Hike", dos Rolling Stones, e "Black Angel’s Death Song" e "European Son" chegavam a ser “insuportavelmente pretensiosas”.


A “pretensão” de Lou Reed, entretanto, era outra: “Eu não sou negro, não toco soul. Não sou um 'hillbilly', não toco country & western. Não ando pelas esquinas a cantar doo-wop. Era mais fácil pensarmos ‘vamos lá a ver como soamos’. E dei bastante importância às palavras na música, o que nunca tinha ouvido fazer antes. Isso parecia muito natural para alguém que, como eu, estudava literatura inglesa. Via todos aqueles 'songwriters' que só escreviam acerca de um domínio de experiências muito restrito. Parecia-me bastante evidente e muito fácil abordar as canções como um romancista, a ponto de não compreender o motivo por que ninguém o tinha feito. Peguemos no Crime e Castigo e transformemo-lo numa canção de rock’n’roll! Pode existir escrita literária a sério numa canção de rock se conseguirmos fazê-lo sem perdermos a noção do ritmo. Aquilo sobre que escrevo não pareceria nada de invulgar se surgisse num livro ou num filme”. E, apesar de, confessadamente, adorar Archie Shepp, Cecil Taylor, Don Cherry e Ornette Coleman – os dois últimos tocariam com ele, respectivamente em The Bells (1979) e The Raven –, um lema (que nunca seguiu, realmente, à letra) orientava-o: “Um acorde serve muito bem. Dois acordes é ir já longe. Três acordes e caímos no jazz”.


Essa espécie de primitivismo estético que dissimulava uma obsessão pela altíssima fidelidade, prosseguiria até ao fim da sua permanência nos VU e na posterior trajectória a solo que, sem o trampolim da produção de David Bowie em Transformer (1972), nunca saberemos se e como teria existido. Tudo o que viria a seguir – quase sempre controverso, raramente consensual – fez-lhe ganhar e perder adeptos. Nomeadamente, o lendário crítico Lester Bangs que, em 1975, na “Creem”, transcrevendo uma entrevista-sessão de pugilato verbal com Reed significativamente intitulada “Let Us Now Praise Famous Death Dwarves”, escreveria: “Lou Reed é o tipo que injectou dignidade e poesia e rock’n’roll na heroína, nas anfetaminas, na homossexualidade, no sadomasoquismo, no homicídio, na misoginia, na apatia e no suicídio e, a seguir, tratou de demolir todos estes feitos transformando tudo numa monumental piada de mau gosto”. Em causa estavam os álbuns Berlin (1973) e Metal Machine Music (1975). Dezassete anos mais tarde, numa conversa com o escritor britânico Neil Gaiman que, surpreendentemente, decorreu sem atritos (embora Gaiman, que roubara a entrevista a Martin Amis, fizesse questão de recordar o proverbial mau feitio no primeiro concerto de Lou a que assistira em Londres: “No final do concerto, disse-nos que tínhamos sido um público tão miserável que não merecíamos um encore. E não o fez“), ele daria a sua interpretação dessas flutuações de fidelidade: “Algumas pessoas ficaram para sempre paradas nos Velvet Underground, no Transformer ou no Rock’n’Roll Animal. Algures por aí. Enquanto eu estava apenas de passagem”.


Uma imperial passagem que, foi oferecendo diversos exemplos daquilo para que foi criada, justamente, a palavra “seminal”: Street Hassle (1978), The Blue Mask (1982), o portentoso New York (1989) – que, caso fosse ainda necessário, o instalaria no mesmo panteão dos poetas da cidade já habitado por Martin Scorsese e Woody Allen –, Songs For Drella (1990), o requiem por Warhol, executado a quatro mãos com John Cale, Magic And Loss (1992), Live MCMXCIII (1993), registo da fugaz reunião dos VU, e o magnífico duplo conceptual, The Raven (2003), inspirado pela obra de Edgar Allan Poe e ponto de encontro para quase três dezenas de "guest stars", de Bowie, Ornette, The Blind Boys Of Alabama e Kate & Anna McGarrigle a Steve Buscemi, Willem Dafoe ou a já então sua companheira, Laurie Anderson. Cruzou-se também, no teatro, com Robert Wilson, em Time Rocker (variação de 1996 sobre A Máquina do Tempo, de H. G. Wells) e POEtry (que, em 2000, seria o cadinho de The Raven; no cinema, com Wim Wenders (Faraway, So Close!, 1993) e Wayne Wang e Paul Auster (Blue In The Face, 1995, e Lulu On The Bridge, 1998); e, encarnando, por duas vezes, a tão odiada personagem do entrevistador, conversou com o seu herói literário, Hubert Selby, e com o fã de longa data, Vaclav Havel, na altura, presidente da (ainda) Checoslováquia recém-democrática, ambas publicadas na recolha de textos, Between Thought And Expression (1991). Na introdução desta última, conta como, na véspera de partir para Praga, tinha estado presente no estádio de Wembley, num concerto de homenagem a Nelson Mandela, dois meses após a sua libertação. Não chegou a encontrar-se com ele, viu-o apenas pela televisão. Mas interrogava-se: “Aos 71 anos, tinha um aspecto incrível. Como eu gostaria de, com essa idade, estar como ele...”

04 March 2013

HÉROUVILLE, 1971
(sequência daqui)


José Mário Branco conheceu José Afonso numa noite de 1969, em Paris. Um, emigrado político, cantava numa colectividade dos subúrbios, o outro, recém-chegado de Portugal, actuava no auditório do Foyer International des Étudiantes, no número 93, do Boulevard Saint Michel. Mas Branco não ousou desperdiçar a oportunidade de se encontrar com aquele que era já o nome maior da música popular portuguesa e uma das figuras da oposição ao Estado Novo. Contudo, embora, a partir daí, Afonso tenha passado a actuar como mensageiro entre José Mário e a editora Sassetti, através da qual Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades acabaria por ser publicado, só dois anos mais tarde a colaboração musical entre ambos se estabeleceria: José Mário Branco produziria Cantigas do Maio que, entre 11 de Outubro e 4 de Novembro de 1971, seria gravado nos Strawberry Studios do Chateau d’Hérouville, a 30 quilómetros de Paris, lugar com "pedigree": castelo do século XVIII, construído pelo arquitecto da escola de Roma, Gaudot, na proximidade dos campos onde Van Gogh pintou algumas das suas últimas obras, tinha sido comprado pelo compositor Michel Magne que o convertera em estúdio. Viria a ser utilizado pelos Pink Floyd, Grateful Dead, Gong, Jethro Tull, MC5, David Bowie e Iggy Pop e, nesse ano, por José Afonso que, ali, registaria um dos discos-chave da música portuguesa.


"Grândola Vila Morena" seria a quinta faixa do álbum. Quando Zeca apresentou a José Mário Branco, como costumava dizer, “uma coisa que inventei”, este sugeriu-lhe realizar não exactamente um arranjo mas antes uma encenação sonora, um exercício de estilo sobre o canto alentejano. Uma vez que a melodia se assemelhava a uma toada do Alto Alentejo (menos pesadas na letra e na música do que as do Baixo Alentejo), ela seria concretizada desse modo, para o que seria necessário trabalhar a letra no sentido de lhe impor as inversões de versos que lhe são típicas. A estrutura coral característica com o alto, o ponto (ambos cantados por José Afonso) e o côro (Zeca, Zé Mário, Francisco Fanhais e Carlos Correia/Boris) a responder, estabeleceria a forma final. Foi também proposta de José Mário Branco a inclusão da sonoridade dos passos (gravados pelos quatro, sobre a gravilha, no local das antigas cavalariças), replicando o que tinha visto, enquanto jovem, em Peroguarda, quando os camponeses vinham da monda, pela estrada, abraçados, arrastando um pé e pousando, um tipo de cadência de cantar, andando. Pelo meio, "Grândola" perderia uma quadra ("Capital da cortesia, não se teme de oferecer, quem for a Grândola um dia, muita coisa há-de trazer"), ganharia outra ("À sombra de uma azinheira, que já não sabia a idade, jurei ter por companheira, Grândola, a tua vontade") mas, acima de tudo, adquiriria o estatuto de ícone sonoro de um momento irrepetível.