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21 June 2009

SER DE BROOKLYN
 

  Grizzly Bear - Veckatimest
 
 

Dirty Projectors - Bitte Orca
 
Aquilo que de, provavelmente, melhor a chamada "Brooklyn scene" tem é o facto de, em comum com as habituais "scenes", apenas partilhar, na realidade, o território geográfico do município de Nova Iorque baptizado a partir da cidade holandesa de Breukelen. Tirando isso – o "ser de Broolyn" ou viver lá – pouco mais se poderá encontrar de semelhante em bandas e músicos como Vampire Weekend, High Places, St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens ou My Brightest Diamond. Ou, agora, Grizzly Bear e Dirty Projectors.
 

 
Veckatimest – nomeado a partir de uma minúscula ilha deserta próxima de Cape Cod... pronto, estabeleçam, se assim o desejarem, a ligação com os Vampire a partir daqui –, terceiro álbum da banda de Daniel Rossen, Ed Droste, Chris Taylor e Christopher Bear, é uma pequena jóia de pop detalhadamente burilada que talvez possa ser mais facilmente circunscrita se se falar das afinidades que suscita. A saber, personalidades musicais tão diversas como Paul Simon ou os Radiohead que já declararam publicamente a sua devoção. Não seria impossível desenhar um ponto de intersecção entre as músicas de ambos – raíz folk sofisticadamente academizada e complexidade pop-rock – e, por aí, descobrir o território onde os Bear se sentem confortáveis, na companhia dos arranjos de cordas subliminarmente precisos de Nico Muhly e das imponderabilidades corais herdadas dos Beach Boys. 
 

O fã ilustre de serviço dos Dirty Projectors é David Byrne mas, se a referência Talking Heads não é, de todo, despropositada, a formidável música da banda do diplomado em composição por Yale, Dave Longstreth, é algo de bastante menos definível, num bizarro polígono entre o aracnídeo "high-life" africano, Jimmy Page, as "disco car ad harmonies" das sereias Angel Deradoorian e Amber Coffman (pensem Nigéria em Bollywood) e, sim, acreditem, Nico. (2009)

25 March 2009

RAPTURE IS THE TRUE RUPTURE


Simon Reynolds

If you had tracked you music listening in 2008, what bands would we see in your top 10?

(...) If it was by band, Vampire Weekend would win by a long distance. But they are a band whose music has an intense playability to it, you can just listen to it over and over, day after day. There are other groups who are very impressive and have a powerful effect on you but are harder to integrate into everyday life. I really liked the Portishead album and admired it tremendously but it’s a little too heavy and intense for that kind of heavy rotation listening. You have to be in a certain mood. (...) There’s a cluster of energy in Brooklyn, kind of “ecstatic/experimental” is my shorthand for it — Animal Collective, Gang Gang Dance, High Places — groups that are all quite distinctive but have certain things in common, a ritualistic, tribal, often percussive aspect; an interest in combining folksiness or ethnic-ness with technology and modern dance rhythms...


Animal Collective - "My Girls"

I really enjoyed the Gang Gang Dance and High Places records from last year, and the new AC is lovely. But Gang Gang Dance are on their sixth album or something and AC have been going since about 2001 if not before and are on their, what, ninth? So it’s not exactly “new”. (...) “New” is not such a stringent or strident concern of mine these days. I don’t know if anyone really knows what “new” would look like these days. I will settle for rapture! Bliss and delight. Accordingly my favorite record from last year was Vampire Weekend. Although I actually think their sound is “new”, it just doesn’t correspond to any of our existing stereotypes of “new”, it’s not extreme. But extreme is old hat and predictable and meaningless, really. “Extreme” only signifies if something has an intense aesthetic or emotional effect you. And often the softest, gentlest, most euphonious music can do that. Nothing could be more extreme than being brought to tears or made to feel like you’re about to swoon, and most “extreme” music fails in that area. Rapture is the true rupture. (Simon Reynolds ao The Dumbing Of America)

(2009)

28 December 2008

FUTURO AQUI?



Enquanto o mundo, primeiro, invisivelmente, depois, de forma estrondosa, assegurava que, de uma vez por todas, atribuíssemos o verdadeiro sentido a “It’s The End Of The World As We Know It” (sem que, no entanto, fossemos capazes de, imperturbavelmente, lhe pronunciar o anexo “and I feel fine”...), uma canção dos R.E.M. com 21 anos, no admirável universo da música era apenas “business as usual”. Um “business” que, sem dúvida, “as we knew it”, caminha, inexoravelmente, para o seu declínio – a queda nas vendas de fonogramas físicos aprofunda-se, muito insuficientemente compensada pelas vendas legais “online” e em gigantesca devantagem face aos “downloads” ilegais – mas que nem assim se sentiu verdadeiramente estimulado para, perante a hecatombe, mudar radicalmente de processos. Enquanto indústria e enquanto manifestação estética, em 2008, a música pareceu continuar a viver estranhamente isolada no interior de uma bolha impermeável aos abalos externos, reciclando-se infinitamente, rapando o último fundo aos catálogos, persistindo em métodos de uma idade bem anterior à emergência da Internet, continuando a publicar-se belíssima música (e, naturalmente, também excremento sonoro em abundância) mas nada a partir de onde se pudesse enxergar sinais de futuro. Negro ou luminoso, mas, pelo menos, futuro.



Curiosamente, num cenário onde, entre legiões de melancólicos aspirantes a descendentes de um “one night stand” de Woody Guthrie com June Carter numa cabana das Apalaches e sucessivos e vertiginosos revivalismos, o único fenómeno genuinamente inesperado – a relativamente nova “cena de Brooklyn”, dos Vampire Weekend aos High Places, parece ter potencial renovador mas Nova Iorque sempre foi terreno reconhecidamente fértil –, deste ponto de vista onde nos situamos, foi o que eclodiu nos subúrbios de um diminuto lugar periférico, à beira de mais outra fatal depressão. A saber, Portugal, de Queluz a S. Domingos de Benfica, das caves de Igrejas Baptistas para um circuito alternativo ao alternativo, compondo, em português, “panque-roque” e tosco “folque” artesanal, com epicentro em editoras como a FlorCaveira e AmorFúria e protagonistas de nome Tiago Guillul, Pontos Negros, Samuel Úria, João Coração ou B Fachada. Pop “povera” e a que repugnam os “valores de produção”, vivendo de um excesso de convicção e, por aí mesmo, sinal dos tempos e matéria de proclamações, provocações e manifestos. Por uma vez, se surpresas houve, nasceram aqui e não sabemos como evoluirão. E isso é muito bom. Porque o destino de quase todo o resto não poderia ser mais previsível.

(2008)

26 November 2008

CADAVRES EXQUIS



High Places - 03/07-09/07




High Places - High Places

Mary Pearson e Rob Barber fabricam “cadavres exquis” sonoros em miniatura, construídos a partir da sobreposição de múltiplas lâminas transparentes de gelatina electro-acústica. No seu covil de Brooklyn, ela, menina de conservatório na classe de fagote, e ele, designer “free-lancer” e professor de História de Arte, com o único auxílio de um computador arcaico e de um programa de edição e montagem do tempo em que eles ainda vinham em disquetes, captam, desfiguram, multiplicam e distorcem sons de electrodomésticos, do virar das páginas dos livros, de chaleiras, do vento, dos dois gatos de Mary, do caminhar sobre folhas de árvores, de insectos, pássaros, e até de instrumentos musicais tal como nos habituámos a conhecê-los. No primeiro concerto que deram, ocuparam-no integralmente com uma versão de “Autobahn”, dos Kraftwerk, para glockenspiel e fagote.



Agora, em 03/07-09/07 (compilação de singles e dispersos avulsos) e em High Places, consideravelmente mais elaborados do que nessa estreia pública a que soam? A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia. A Young Marble Giants repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich. A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia e repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich. A Young Marble Giants tocando “steel drums” num palco subaquático. A Young Marble Giants perdidos no labirinto de uma colmeia e repetindo, incansavelmente, três compassos de uma partitura de Steve Reich, tocada em “steel-drums”, num palco subaquático. Muito bom.

(2008)