Showing posts with label Hedningarna. Show all posts
Showing posts with label Hedningarna. Show all posts

23 February 2026

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (CII

 (com a indispensável colaboração do R & R)
 
(clicar na imagem para ampliar; ver e ouvir aqui)

06 April 2023

"Veri" (feat. Paleface)

(sequência daqui) Enquanto Ensemble Gamut! entregaram-se, pois, à articulação de instrumentos clássicos, tradicionais e electrónicos aplicados à invenção de intersecções entre música medieval, do Renascimento, folk, improvisada e abstraccionismos ambientais. O álbum de estreia, UT (2020), invocava a primeira nota da escala guidoniana, mais tarde substituída pelo “Dó”, e alargava o espectro a referências extra-nórdicas – Hildegard von Bingen, Martin Codax, Landini, Ockeghem. Agora, o segundo, apropriadamente RE, dirige o alcance sonoro da voz de Aino Peltomaa (e, em ‘Veri’, do rapper xamânico Paleface) e dos "soittu", "jouhikkos", "G-violone", flautas de bisel, harpa e electrónica de Heinonen e Myllylä, sobre reportório oriundo de manuscitos medievais, da tradição finlandesa, das contaminações sueca e russa e do canto rúnico da Karelia. Puríssima folia dançante em "Lapsed Caicki Laolacatt (Personent Hodie)", levitação quase imóvel em "Trina Caeli Hierarchia" ou realidade fantasmática no original "Puu", desde os Hedningarna e Värttinä que as luzes do Norte não brilhavam tão intensas.

02 January 2018

CODA


Se, numa lista de 10, escasseiam vagas para aquilo que, em ano de farta colheita musical, mais estimulou os tímpanos, 52 semanas são também intervalo de tempo verdadeiramente insuficiente para, uma a uma, se ir destapando tudo o que, no dilúvio da edição discográfica, merece não passar despercebido. O que transforma o início de cada novo ano numa espécie de coda do anterior na qual, por entre justificações mal amanhadas (ler as linhas acima) e actos de contrição perante a desatenção que conduziu a ignorar o que não devia ser ignorado, se procura remediar as falhas. Sejam, então, bem-vindos à coda 2017/2018, a abrir, justissimamente, com uma daquelas peças que, só por si, comprovariam a urgência de prolongamento do calendário gregoriano: Last Leaf, do Danish String Quartet. 




Sem cair na armadilha dos intérpretes de formação clássica que, ao deixar-se tentar pela abordagem de idiomas populares, tendem a desvalorizar a própria identidade, Rune Tonsgaard Sørensen (violino, harmonium, piano, glockenspiel) Frederik Øland (violino), Asbjørn Nørgaard (viola de arco) e Fredrik Schøyen Sjölin (violoncelo) – reconhecidos como virtuosos exploradores das partituras de Bartók, Beethoven, Shostakovich, Brahms, Haydn, Mozart, Sibelius e Schnittke – propuseram-se, agora, investigar “a rica fauna das melodias folk nórdicas”. Recuando até "Dromte Mig en Drom" – a mais antiga canção secular escandinava presente na última folha do Codex Runicus (c. 1300) –, guiam-nos por 16 pontos de paragem, num fantástico périplo de dimensão equiparável (embora com as coordenadas distintivas de um quarteto de cordas clássico) ao que os Hedningarna de Kaksi! (1992) nos haviam oferecido.


A tradição musical popular é, igualmente, a matéria-prima das Sopa de Pedra, colectivo vocal feminino a capella, do Porto, e uma das mais recentes peças de um "puzzle" onde já se encontravam Cramol, Segue-me à Capela e Maria Monda (todas, aliás, reunidas em Novembro do ano passado no concerto “De Viva Voz”)




Cinco anos de gestação foram necessários para dar à luz Ao Longe Já Se Ouvia, belíssimo painel de temas maioritariamente do reportório tradicional da Beira-Baixa, Alentejo,Trás-os-Montes e Açores (acrescidos de dois de Amélia Muge e outro de José Afonso) em gloriosas polifonias corais.


O extraordinariamente intitulado Adiós Señor Pussycat constitui, enfim, o inesperado regresso de uma das lendas secretas da escrita de canções pop britânica: Michael Head (com a Red Elastic Band), ele dos Pale Fountains, Shack e The Strands, que o “New Musical Express” chegou a coroar como “our greatest songwriter”, mas a quem, uma particularmente infeliz combinação de azares e múltiplos vícios sempre impediu de se erguer acima do estatuto de culto.

Aparentemente, de novo com a cabeça fora de água, canções como "Queen Of All Saints", "Josephine", "What’s The Difference", "Wild Mountain Thyme", "Adiós Amigo" ou "Rumer", recuperam sem perdas aquele precioso e aromático "pot-pourri" de Byrds, Love e Nick Drake.

16 January 2013

SALTOS DE PRANCHA 
















O Experimentar - 2: Sagrado e Profano

Para quem leva religiosamente a sério as proverbiais listas e balanços de fim de ano (que fique assente, de uma vez por todas: nunca são organizadas de ânimo leve mas, se em vez de terem ficado definitivamente estabelecidas numa sexta-feira à tarde, sob temperatura de 14ºC, isso tivesse acontecido noutro dia e a outras horas e temperatura, é assaz provável que não fossem exactamente iguais), convém dizer já que, se 2: Sagrado e Profano não constou da que, no que à música portuguesa diz respeito, poderia, facilmente, tê-lo sido. Tal como – e uma vez que de deambulações pelos trilhos das músicas tradicionais se trata – os volumes 2 e 3 das “diversões” das Unthanks, The Unthanks With Brighouse And Rastrick Brass Band e Songs From The Shipyards (desgraçadamente não distribuídos por cá), não precisariam de qualquer tipo de lobbying para assegurar lugar na lista internacional. Não porque qualquer deles necessitasse, verdadeiramente, de tal legitimação.


2: Sagrado e Profano, em particular, segunda encarnação do que, antes, se designava por O Experimentar Na M'Incomoda, é uma magnífica descendência do que a Banda do Casaco, Chuchurumel, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Campanula Herminii e, muito em especial, a Sétima Legião de O Sexto Sentido (para referências exteriores, procurar em Hedningarna, Transglobal Underground ou Loop Guru), foram inventando tomando a tradição popular como potente prancha de salto. No caso, a da música dos Açores, partindo de matéria-prima sonora previamente recolhida e, entre Copenhaga, Lisboa e o Faial, transfigurada por Pedro Lucas e cúmplices (Carlos Medeiros, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, Miguel Machete, Nicolaj Høj) em algo de, simultaneamente, arcaico e contemporâneo, local e fulgurantemente global. 

01 July 2008

OTHER WORLD MUSIC



Hedningarna - Kaksi!

Existem discos literalmente inclassificáveis e só temos de lhes ficar eternamente gratos por serem assim mesmo. Há bastante tempo (provavelmente, desde o fabuloso Sahara Blue, de Hector Zazou) que não passava pela experiência de escutar uma gravação para a qual todas as categorias à disposição se revelam desprovidas do menor sentido. Kaksi!, dos sueco-finlandeses Hedningarna, é o último e mais impressionante desses casos. Imaginem um colectivo de cinco músicos que se dedica à reinvenção da música tradicional da Escandinávia (só de escrever isto já estou a simplificar demais...) e que, quando entrevistado pela "Folkroots", à primeira insinuação, responde: "Say 'folk' and I think... yuk!".



Depois, considerem a informação segundo a qual, no final de cada concerto, lhes leva mais tempo a arrumar as disquetes dos computadores e os samplers do que a guardar nos estojos as sanfonas, alaúdes, hardanger fiddles, gaitas de foles, kanteles finlandeses ou percussões árabes. Finalmente, fiquem a saber que a sua interpretação de "Ful Valsen" não é, para o grupo, exactamente um momento de dança de salão mas, sim, pretexto para um incendiário tributo a Jimi Hendrix, afogado em dilúvios de alaúde distorcido por pedal wah-wah. Ou ainda que "Aivotan" congrega, no mesmo corpo musical, uma melodia canadiana, um texto retirado do Kanteletar e um desenho rítmico de polca sueca.



Confusos? Mais maravilhosamente entontecidos ficarão ainda se escutarem o resultado material dessa vertigem de sonoridades que faz da declinação estética do lema "think global, act local" algo de mil vezes mais fundamental que o respeito pelas partituras ou a destreza técnica. Por sinal, ambos existem aqui e em elevada percentagem, rebuscados nas prateleiras da Academia Sibelius e conquistados na prática de todas as músicas. Mas, entendidos e aplicados de um modo tal que, deste mergulho imenso na eternidade das tradições, explode algo de infinitamente contemporâneo, enérgico e exuberante.



Nunca antes se ouviram instrumentos de origem popular ou erudita soar desta forma, nunca antes foi tão difícil identificar com precisão o que provém de ressonâncias acústicas e aquilo que se gera nas entranhas de circuitos electrónicos, colide com as cordas, sopros e percussões e regressa ao coração das máquinas para desencadear outras associações. à superfícia, as vozes. De Sanna Kurki Suonio e Tellu Paulastu, duas finlandesas que inscrevem a memória agreste do canto de Ingamanland, na Carélia, neste remoínho de sons tão genuinamente novos como os instrumentos que Anders Stake inventa para o grupo (um exemplo: o cruzamento laboratorial de uma sanfona com um "string drum" electricamente amplificado). Na falta de categorias viáveis, resta completarmos também a nossa parte do trabalho e criarmos outras. Que tal "other world music"?

(1993)

17 April 2008

SUPERMELODRAMA


Devotchka - A Mad And Faithful Telling

Tudo começou há vinte e tal anos com as experiências de fusão entre pop e “world music” de Paul Simon, David Byrne, Peter Gabriel ou Hector Zazou. Em rigor, terá começado, talvez, bastante antes disso, por impulso do Tropicalismo brasileiro – mas, como os ingredientes “world”, no caso, decorriam da natureza dos próprios músicos de quem partira a iniciativa da experiência, nem sempre é contabilizada como tal. Se insistirmos mesmo em colocar-lhe uma data fundadora, então, terá, inevitavelmente, de ser a de 29 de Junho de 1987 quando, no pub do norte de Londres, "Empress Of Russia", três dezenas de “media operators” cunharam a designação “world music".


Mas, no entanto, em todos os inúmeros exemplos que, desde aí, ocorreram, nas mais desvairadas declinações – dos Transglobal Underground e Loop Guru às “jams” de Lee Ranaldo com os Master Musicians Of Jajouka, aos Saqqara Dogs, Hedningarna ou Gaiteiros de Lisboa –, persistia um excesso de “desejo de autenticidade” e ausência de descaramento genuinamente “fake” que lhes impedia (quer o desejassem ou não) o acesso claro e indiscutível ao universo pop. Foi, justamente, isso que, provavelmente, começou a mudar nos últimos tempos com o aparecimento de diversas bandas que, não sentindo a menor necessidade de exibir “pedigree” na coisa folk/world, se apropriaram, sem cerimónias, do que imaginam – com “autenticidade” infinitamente variável – serem as diversas tonalidades das músicas do mundo e, como tal, as incorporaram naquilo que vão engendrando. Enumerem-se, pois, Vampire Weekend, A Hawk And A Hacksaw, Balkan Beat Box, Gogol Bordello, Beirut, Black Ox Orkestar, Golem, The World Inferno Friendship Society e, agora, os Devotchka. Por algum motivo, com excepção dos Vampire Weekend, todos garimpam na mesma mina eslava/balcânica/cigana e, a partir daí, em modo estético-do-it-yourself, inventam regiões demarcadas pop alternativas que dão por nomes como “gypsy punk”, “world culture clash” ou, segundo os Devotchka, “supermelodrama”.



A quem, por ínvios caminhos, o selo de garantia pop nunca poderá ser negado: originários de Denver, no Colorado, incluem um cantor-compositor de ascendência siciliana e cigana, um baterista-trompetista de raíz punk, devoto de mariachi e educado a escutar polcas lituanas, uma baixista/sopradora de sousafone com currículo em bandas revivalistas da Guerra Civil e um violinista de formação clássica. No muito promissor início de carreira, acompanharam os espectáculos de strip-tease “burlesque” da ex-Mrs Marilyn Manson, Dita Von Teese, num inesperado salto quântico, encarregaram-se da mui louvada banda sonora do oscarizado Little Miss Sunshine (2006) e, agora, com A Mad And Faithful Telling (título inspirado em Edgar Allan Poe), a banda portadora de um nome surripiado à Laranja Mecânica de Kubrick propõe-nos mais um soberbo pitéu de “post-millenial multiculturalism” que seria insensato recusar. Um dia, o filão de leste também há-de esgotar-se mas, por enquanto, o empreendimento até nem está a correr nada mal. (2008)

09 December 2007

OUTRA ILUMINAÇÃO



Sigur Rós - Heima




Sigur Rós - Hvarf-Heim

Num ponto incerto da primeira metade da década de noventa do século passado – por comodidade, simplifiquemos bastante considerando que começámos a reparar nisso quando Björk, em 1993, publicou Debut –, a música do extremo Norte da Europa iniciou um gradual e quase ininterrupto processo de afirmação no exterior das suas fronteiras nacionais. Havia, é verdade, o longínquo precedente dos ABBA (e de mais uns quantos outros praticantes menores), mas esta “segunda vaga” optou antes por desbravar território habitualmente assinalado como “indie” e zonas afins. De facto, não existia nenhum motivo plausível para que aquela que é, muito provavelmente, a zona civilizacionalmente mais avançada do planeta não fosse capaz de gerar música dotada de uma identidade própria mas, ao mesmo tempo, totalmente em sintonia com o ar dos tempos. Foi, por isso, inteiramente natural que, dos Hedningarna às Värttinä, dos Gus Gus a Anja Garbarek, Jimi Tenor, Ai Phoenix, Stina Nordenstam, Jens Lekman, Hanne Hukkelberg, Kings Of Convenience, Jagga Jazzist, Múm, Irene, Sondre Lerche, Röyksopp, Benni Hemm Hemm e mais uns (consideráveis) quantos, a Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia – a Dinamarca mantem-se conspícua e misteriosamente ausente – tivessem começado a hastear bandeiras em domínios anteriormente sob quase total hegemonia anglo-americana. Bastante mais interessante, no entanto é que, de um modo geral, praticamente todos eles (independentemente da avaliação dos resultados) se furtassem deliberadamente à tendência “copy+paste” dominante e procurassem sublinhar traços de personalidade autónomos. Era exactamente a isso que se referia Georg Holm, baixista dos islandeses Sigur Rós, quando, por altura da edição de Agætis Byrjun (1999), afirmava “O que me deixa perplexo quando desembarco em Inglaterra, é até que ponto a música é urbana, frustrada, sem alegria. Nunca tem o ar de gastar um minuto a reflectir ou de oferecer qualquer matéria para reflexão”. E propunha um programa: "Apagar o quadro onde se distribuem todas as etiquetas musicais e deixar apenas um grande espaço em branco onde só se possa ler 'música'".



Quase uma década depois, ninguém duvidará que o objectivo foi atingido, embora as opiniões se possam dividir entre quem vê nos Sigur Rós apenas uma declinação da “new age” em variante “indie rock” escandinavo (e o apetite devorador com que inúmeros documentários, séries televisivas e filmes se lançaram sobre a música do grupo sempre que se tratou de retratar a “transcendência”, o “insondável maravilhoso” e a “imensidão” são, acerca disso, eloquentes) e quem os encara como a mais sublime oferenda dos deuses aos humanos desde os Pink Floyd.



Heima (duplo DVD) e Hvarf-Heim (duplo CD) não servirão para pôr fim ao debate mas, introduzem, pelo menos, alguns dados novos: concretizados no intervalo entre o final da digressão mundial que se seguiu a Takk (2005) e a pausa para reflexão pré-novo álbum, num recolhem-se as imagens de uma curta volta de concertos gratuitos pela Islândia (em modelo-filme-propriamente-dito e sob a forma de documentário) e, no outro, uma colecção de temas inéditos, versões alternativas e revisões acústicas de peças já conhecidas da banda. Se, no(s) filme(s), a assombrosa “coincidência” entre imagens e música (e a Islândia oferece o género de paisagem onde o director de fotografia mais sapateiro se transforma instantaneamente em inspiradíssimo poeta telúrico e toda a avalanche de preconceitos sobre a natureza “vulcânica” e “glaciar” da música dos Sigur Rós encontra a previsível confirmação) e a calorosa convivialidade dos concertos – ao ar livre, em centros sociais e paroquiais, fábricas de conservas desactivadas, minúsculas igrejas, perante as várias gerações de famílias das reduzidas populacões locais ou no confronto com “cromos” indígenas – são, à partida, apostas esmagadoramente ganhas, é, porém, nas releituras via vibrafone, pianos de brinquedo, marimbas de lousa, ensemble de cordas, harmónios de fole e banda de sopros em trânsito do palco para a rua (saúde-se aqui a porosidade entre filme e registo áudio), contra a formulaica estética eléctrica “fogo e gelo” de espirais “orgásmicas” em crescendo/diminuendo, que alguma “food for thought” desponta. E isso é bom e, se calhar, muito inesperadamente iluminador. (2007)

14 September 2007

“ÉTNICO” É O QUÊ?



Tomahawk - Anonymous

1) Geronimo, de Walter Hill (1993): aos 12’44”, quando os tenentes Charles B. Gatewood e Britton Davis se aprestam para, em nome do Exército dos EUA, aceitar a rendição do bravo guerreiro Apache, Geronimo, vêmo-lo irromper por trás de uma colina, majestoso, a cavalo, envolto pela música que Ry Cooder compôs para o filme. E que escutamos? Cantos guturais-bifónicos tradicionais de Tuva, na Sibéria, emoldurados por percussão e flauta supostamente índios. Mais tarde e durante o resto da narrativa, à imagem sonora do índio, colar-se-ão ainda, manipulações electrónicas diversas e, entre outros, o timbre de um alaúde chinês. Atentado à “autenticidade étnica” da orgulhosa cultura “native-American”? Nada de novo e, acima de tudo, nada que uma famosa formulação de Jerry Goldsmith – “what is ethnic is what Hollywood has made ethnic” – não chegue para legitimar. Mas onde, apesar de tudo, Cooder assinalava um desejo de ruptura com os velhos estereótipos da “film-music” que, durante décadas (socorrendo-se daquilo a que Michael Pisani chamou “uma caixa de ferramentas pronta-a-usar sempre que os compositors europeus do século XIX ou os compositors americanos de formação europeia pretenderam abordar o tópico Índio”), com poucas excepções, se haviam limitado a simbolizar o “outro/étnico/selvagem” através do sempre prestável batuque quaternário de serviço – “TUM-tum-tum-tum, TUM-tum-tum-tum” –, dos nativos da imaginária Skull Island, no King Kong original (1933), aos Maias de Apocalypto (2006), onde James Horner optou ainda por os caracterizar recorrendo à trombeta marina medieval e a um alargado arsenal de instrumentos tradicionais suecos, ugandeses, eslovacos, sírios e turcos assim como à voz de Rahat Nusrat Fateh Ali Khan.

A etnomusicologia (e as publicações dos inúmeros catálogos de world music) bem poderão ter remado contra a corrente mas música “asiática”, “árabe”, “medieval”, africana” ou as múltiplas variedades de música “índia” existentes, aos ouvidos de milhões de cinéfilos, tornaram-se no que, durante praticamente um século de cinema sonoro, “Hollywood decidiu que elas eram”.



2) No número de Julho/Agosto da revista “Songlines” (que, logo na página 7, nos informa que o cavaquinho é “um tipo de ukulele brasileiro”), trava-se uma intensa disputa estético/ideológica a propósito da atribuição do prémio de world music-2007 (secção norte-americana) da BBC-Radio 3 aos Gogol Bordello. Os argumentos de Garth Cartwright (contra) e Max Reinhardt (a favor) centram-se na decisiva questão da “autenticidade” cigana do “gypsy punk”, com o último a procurar explicar como tais arroubos de purismo conduzidos às suas naturais consequências, apagariam inevitavelmente da história quase toda a música popular do século XX. Eugene Hütz, esse, resmunga apenas que “passou anos a cuspir fogo contra a designação de ‘world music’”.


3) Anonymous, dos Tomahawk (designação de um machado índio, de vários modelos de aviões e mísseis e de uma das várias bandas e actividades paralelas – Fantômas, Mr. Bungle, Hemophiliac, John Zorn – do multivalente Mike Patton), resultou de uma “visita de estudo” do guitarrista Duane Denison por diversas reservas índias e complementar consulta de volumes de recolha e transcrição da música tradicional (do final do século XIX) das numerosas tribos nativas. Mas, como seria, talvez, inevitável (e, diria eu, desejável), não só a sequência destes treze temas de autor anónimo aspira a uma dimensão verdadeiramente cinemática como, apesar das precauções de “autenticidade”, Anonymous é, de facto, muito mais uma obra dos Tomahawk do que um cerimonioso exercício de mumificação etnográfica no qual os seus longínquos autores primordiais se devessem necessariamente reconhecer. Steeleye Span, Pogues, Hedningarna, Gogol Bordello... ou os Rolling Stones nunca fizeram, afinal, outra coisa. Razão pela qual se “War Song” é um fresco épico apocalipticamente encenado, “Mescal Rite 1” tem perfil de missa negra, “Mescal Rite 2” evoca irremediavelmente os Massive Attack (e “Red Fox” traz à memória Tricky em-pé-de-guerra), “Cradle Song” tem perfil de “lullabye” para berço forrado a estilhaços de vidro e “Sun Dance” é puríssimo Patton espasmódico, nada disso deverá servir como pretexto para apontar mais uma vez a metralha autenticista da “pureza original” profanada contra um belíssimo álbum que tem, aliás, o cuidado de se apresentar como “original arrangements inspired by Native-American material from the late 19th century”. (2007)