Showing posts with label Hector Zazou. Show all posts
Showing posts with label Hector Zazou. Show all posts

30 April 2023

RYUICHI SAKAMOTO (1952-2023) 

(sequência daqui)

“Nunca desejei ser músico nem famoso. Comecei a estudar música em criança e frequentei um curso superior de música mas nunca imaginei vir a pratica-la profissionalmente. Juntei-me à Yellow Magic Orchestra porque me apeteceu trabalhar com aqueles dois músicos (Haruomi Hosono e Yukihiro Takahashi) imensamente talentosos. A banda, de súbito, tornou-se muito conhecida. Por isso, para mim, foi um acidente, não era um objectivo que tivesse. A música está sempre presente e sempre esteve ao meu lado, mas também gosto de literatura, de cinema e de outras áreas. Pensava ser capaz de escrever romances ou de realizar filmes”, confessou Ryuichi Sakamoto à “Criterion”, em 2017. 

 "Fechar-me num único género, a longo prazo, deveria ser bastante aborrecido... Não era capaz. Gosto de vários estilos porque gosto da música em geral e ela comporta diversos, da música antiga à contemporânea, da África ao Japão, através do tempo e do espaço"

Por essa altura, estava convalescente do cancro oro-faríngeo que lhe fora diagnosticado três anos antes e acabara de publicar async o álbum no qual desejou “incorporar os sons ‘naturais’ na música de um modo simultaneamente caótico e unificado”, extensão do que, há mais de 30 anos, declarara: “Não digo que devamos regressar à natureza mas interessa-me a erosão da tecnologia, os seus erros, falhas e ruídos”. Entre um e outro momentos, publicara duas dezenas de álbuns a solo, 11 ao vivo, cerca de meia centena de bandas sonoras para cinema e televisão, e incontáveis colaborações com músicos como Fennesz, Alva Noto, Bill Laswell, Rodrigo Leão, Arto Lindsay, Massive Attack, Caetano Veloso, Hector Zazou, Iggy Pop, David Sylvian, Virginia Astley, Japan, Aztec Camera, Marisa Monte e DJ Spooky. Conquistaria um Oscar, um Golden Globe e um Grammy para a BSO de O Último Imperador (1987), de Bernardo Bertolucci, e seria nomeado para (ou ganharia) outros 12 prémios internacionais. O tema musical de Merry Christmas Mr Lawrence, de Nagisa Ōshima (1983) – regravado como "Forbidden Colours", com a voz de David Sylvian –, não apenas venceria o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) para Melhor Música para Cinema como – justa ou injustamente – se transformaria numa espécie de documento de identidade de Sakamoto. 

Em Janeiro de 2021, anunciaria que a maldição oncológica progredira para uma recidiva de grau 4 (o mais avançado). exigindo cirurgia e hospitalização. Dois meses depois, “voltaria, ocasionalmente, a tocar no teclado e a gravar pequenos esboços sonoros, como quem escreve um diário. Apenas desejava banhar-me num chuveiro sonoro. Parecia-me que poderia ter um pequeno efeito curativo no meu corpo e espírito arruinados”. O álbum que daí resultaria chamou-se 12. “Até que o meu corpo ceda de vez, irei, provavelmente, manter esta espécie de diário. Espero poder fazer música durante algum tempo mais”. Fê-la até ao passado dia 28 de Março.

06 September 2021

FRONTEIRAS, ORIGENS
 

Desde que, na noite 29 de Junho de 1987, no Empress of Russia (um já defunto pub de Islington, no Norte de Londres), um grupo de representantes de editoras independentes, organizadores de concertos e jornalistas – correndo, embora, o risco de guetização de tudo o que não era ocidental, pop, rock ou jazz – cunhou a designação “world music” para englobar o que, até aí, se chamava “folk”, “trad” ou “roots”, todo um novo espaço se abriu e nos permitiu o acesso mais fácil a preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, a experiências de cruzamento multicultural como Les Nouvelles Polyphonies Corses (de Hector Zazou) ou a muito do que a Real World, de Peter Gabriel, ou a Luaka Bop, de David Byrne, publicaram. Com períodos de maior ou menor fulgor, nos últimos anos, o ritmo de descobertas valiosas tem-se intensificado com os belíssimos álbuns de Sam Lee, Elaha Soroor & Kefaya, Cocanha, San Salvador, The Rheingans Sisters, Lankum, Stick In The Wheel ou até 33EMYBW, Hai Qing & Li Xing, e Guzz da quase totalmente ignorada China. Vulture Prince, de Arooj Aftab, é mais outro óptimo exemplo de uma forma de abordar a música que, se ignora as fronteiras, conhece bem as suas origens. (daqui; segue para aqui)
 
"Mohabbat"

09 February 2021

Rimbaud por Henri Fantin-Latour, pormenor de Un Coin de Table, 1872

(sequência daqui) De Benjamin Britten a Léo Ferré ou ao belíssimo Sahara Blue, de Hector Zazou, a escrita do adolescente provocador cujo alvo era “tornar-se visionário através de um longo, imenso e ponderado desregramento de todos os sentidos” já a muitos assombrara. Em particular, Bob Dylan (o retrato do miúdo de Charleville pintado por Henri Fantin-Latour bem poderia figurar na capa de Blonde On Blonde) a quem quatro palavras – “Je est un autre” viraram a vida do avesso. (segue aqui)

 
Capa de Blonde On Blonde, fotografia de Jerry Schatzberg, 1966

19 November 2019

GRAVIDADE ZERO 


Lina (aliás, Lina Rodrigues, ex-Carolina), nasceu em Hamburgo mas veio muito cedo para Bragança, de onde, aos 15 anos, seguiu para o Porto com a intenção de estudar canto no conservatório local. Porém, apesar de ter arriscado alguns passos precoces no domínio da ópera, quando a professora lhe repetia que “Os sopranos não cantam de olhos fechados”, compreendeu que aquele nunca viria a ser o lugar onde iria sentir-se feliz. Foi em Lisboa, nas casas de fado, que, com Amália como estrela polar, descobriu, enfim, o rumo certo. Raül Refree (aliás, Raül Fernandez Miró), músico, compositor e produtor catalão oriundo da cena musical alternativa de Barcelona, enquanto jovem aluno de piano, deu-se igualmente mal com os professores que lhe calharam uma vez que não conseguia adaptar-se à rígida disciplina militar das escalas e arpejos de que a pedagogia clássica não abdica. “No género popular, também se abusou da técnica e do virtuosismo. É como se lançássemos pazadas de terra sobre uma canção e a tapássemos. A minha mão movimenta-se sozinha. Toco como me sai”, diz ele, agora que, vinte e poucos anos depois de ter entrado pela primeira vez num estúdio com os Corn Flakes para gravar Ménage, conta já uma dezena de álbuns a solo, outras tantas bandas sonoras para cinema e televisão, um ilustre CV na qualidade de produtor de gente ilustre – Lee Ranaldo (Sonic Youth), Josh Rouse, Sílvia Pérez Cruz, Rosalia – e uma mão bem cheia de colaborações e prémios. 


Não era inevitável mas existiam afinidades suficientes para que, movidas as pedras necessárias, Lina e Raül viessem a cruzar-se. Seria, no entanto, bastante difícil adivinhar que, do encontro, pudesse surgir algo de tão luminoso e imponderável como Lina_Raul Refree, uma radical transfiguração do reportório de Amália Rodrigues que dir-se-ia saída das mãos de Brian Eno ou Hector Zazou: sem a sombra de uma guitarra à vista mas rodeados de sintetizadores “vintage”, Moogs, Arps, Oberheims, Rolands e piano, Refree e Lina descarnam até ao osso onze fados clássicos, numa espécie de a cappella envolta em neblina na qual, pela voz em estado de graça, vão passando a coreografia aérea de "Gaivota" em gravidade zero e debruada a teclados minimais, os ameaçadores atonalismos heréticos de "Maldição", o tempestuoso rasgão hiper-oxigenado de "Quando Eu Era Pequenina", a paralizante assombração de "Medo" ou a moldura transparente de "Sta Luzia", transportando Amália a paragens onde ela nunca sonharia chegar. (22 de Novembro – São Luíz Teatro Municipal, Lisboa; 23 de Novembro – Centro Cultural e Congressos das Caldas Da Rainha; 24 dde Bovembro Convento de S. Francisco, Coimbra; 27 de Novembro – Theatro Circo, Braga)

03 April 2012

 ARTHUR RIMBAUD (II)

(de Sahara Blue - Hector Zazou/John Cale)  

Si j’ai du goût, ce n’est guère
Que pour la terre et les pierres.
Je déjeune toujours d’air,
De roc, de charbons, de fer.

Mes faims, tournez. Paissez, faims,
Le pré des sons.
Attirez le gai venin
Des liserons.

Mangez les cailloux qu’on brise,
Les vieilles pierres d’églises ;
Les galets des vieux déluges,
Pains semés dans les vallées grises.

Le loup criait sous les feuilles
En crachant les belles plumes
De son repas de volailles:
Comme lui je me consume.

Les salades, les fruits
N'attendent que la cueillette;
Mais l'araignée de la haie
Ne mange que des violettes.

Que je dorme ! que je bouille
Aux autels de Salomon.
Le bouillon court sur la rouille,
Et se mêle au Cédron.  
(Une Saison En Enfer)

02 April 2012

CANAL DE HISTÓRIA PUNK

 
















Os Passos Em Volta - Até Morrer 



  














Kimo Ameba - Rocket Soda 

















Pega Monstro - Pega Monstro

Aos dezassete anos, Arthur Rimbaud tinha claramente definido um programa de vida: “através de um longo, prodigioso e progressivo desregramento dos sentidos” tornar-se “vidente”, isto é, poeta. Três anos depois, publicara já Le Bateau Ivre, Une Saison En Enfer e Illuminations – a totalidade da obra poética a que se deverão acrescentar as anteriores Poésies (1869–1873) –, encerrara definitivamente a sua aventura literária e escancarara as portas do infinito a Dylan Thomas, Allen Ginsberg, T.S. Eliot, Van Morrison, Cesariny, Bob Dylan, Patti Smith, Salinger, Hector Zazou, Sérgio Godinho, Leo Ferré ou Godard (para nos ficarmos por uma lista muito abreviada). Assombrado por David Bowie, Roddy Frame contava dezasseis anos quando gravou os primeiros singles, com os Aztec Camera, e dezanove por altura da edição do formidável primeiro álbum, High Land, Hard Rain. Foi também aos dezasseis anos que Laura Marling se mudou para Londres e integrou a tripulação dos Noah & The Whale – aos vinte e um, já havia registado o magnífico trio, a solo, Alas, I Cannot Swim (2008), I Speak Because I Can (2010) e A Creature I Don’t Know (2011). E o rol de grandes, pequenos e médios talentos adolescentes poderia alongar-se indefinidamente.



É por estes e por outros que não poderia ser mais insuportavelmente condescendente e paternalista lançar bênçãos e hiperbólicos louvores sobre álbuns como as estreias das Pega Monstro, Kimo Ameba e Os Passos Em Volta (a salva inicial de lançamento da indie, Cafetra Records), em virtude de, alegadamente, se tratar de manifestos sonoros de “como os putos se sentem hoje”. Porque “os putos de hoje” (como “os putos” de sempre) sentem-se de mil e uma formas diferentes, não vêem unanimemente a necessidade de se exprimir numa versão lowest of the lo-fi do rock de garagem e não vivem todos devastados por tempestades metafísicas da ordem de grandeza de “Tenho uma afta na boca, já não como ananás, tenho uma afta na boca, como é que fui capaz?” ou “Hoje em dia faz tudo tão mal, não comas peixe, carne ou vegetal”.



A pátria poderá ser um penico, Lisboa um dedal e a pirâmide demográfica estar dramaticamente invertida mas, seguramente, existem ainda sub-20 capazes de produzir música que nos poupe ao patético espectáculo de avaliações críticas de gente adulta com os joelhos a tremer de emoção perante bandas com o potencial de, comparativamente, elevarem os Sex Pistols ao estatuto da Filarmónica de Berlim. E a cláusula-insolência punk/atitude-DIY, para além de já velhota e para lá do período fértil, quando expressa por catraiada urbana universitária ou pré, em termos de “não quero ir à escola, não quero virar lixo como os tios” (os tios que, provavelmente, cantavam “We don’t need no education”...) e “se isto não é música, então faz tu uma canção, se eu desafino, canta lá tu ó meu cabrão”, soa bastante, como dizer?... postiça. A chinfrineira será muito catártica, duas ou três gerações acima imaginarão que regressaram ao pátio do liceu mas, por Rimbaud!, não se alucinem genialidades onde só há uma emissão do Canal de História Punk de festa de finalistas. 

01 March 2009

TERRA (QUASE) INCÓGNITA

Né Ladeiras - Essência: Os Anos Valentim de Carvalho 1982–1983
Por esta altura, deverá começar a ficar cada vez mais nítida a ideia de que foi no último terço do século XX que a música popular portuguesa conheceu aquilo que se costuma designar por “anos de ouro”. Após décadas do chamado “nacional-cançonetismo” (no qual, em consequência da associação automática aos tempos do Estado Novo, uma boa mão cheia de standards dignos de figurar em qualquer songbook de pergaminhos ilustres foi, durante demasiado tempo, bastante mal amada), de proletarismos de Parque Mayer, de folclorismos de propaganda oficial, da lenta mutação da matriz do fado e do caricatural “yé-yé” paleolítico – com a desejavelmente esquecível baladeirice “de protesto” em fugaz interregno –, no final dos anos 70, fruto do impacto em terreno local dos estilhaços da explosão punk e do arejamento com que as gravações de José Mário Branco e Sérgio Godinho haviam despoluído a atmosfera, iniciou-se claramente uma nova era. O cânone dos clássicos de então – dos GNR, Pop Dell’Arte e Mler Ife Dada aos Xutos, Variações e Sétima Legião – está suficientemente estabelecido mas, ainda assim, restam ainda uma ou duas zonas obscuras que, no processo de reavaliação, foram ficando, descuidadamente, esquecidas.
 
 

A discografia de Né Ladeiras, dos mais recentes Da Minha Voz (2001), Todo Este Céu (1996, dedicado às canções de Fausto) e Traz-os-Montes (1994, em torno da tradição do Nordeste) aos primeiros álbuns a solo, após a participação em registos da Brigada Vitor Jara e da Banda do Casaco, é um desses territórios virtualmente ignorados que apenas sobrevivem na (melhor) memória de quem, na altura, os escutou. Se Corsária (1989, acto de veneração perante a lendária Greta Garbo, produzido por Luís Cília) ainda foi confidencialmente publicado em CD, o EP Alhur (agora, em Essência, reunido ao mini-LP de 1983, Sonho Azul, que também já conhecera meteórica existência digital), continuou, durante vinte e sete anos, ausente em parte incerta, no limbo do vinil. Dificilmente se poderia ter cometido maior delito por omissão: nas suas quatro faixas (“Húmus Verde”, “Holoteta”, “Essência” e “Alhur”), redescobre-se, agora, o intrigante lugar onde – com produção de Ricardo Camacho, textos de Miguel Esteves Cardoso e mão-de-obra instrumental dos Heróis do Mar – os ecos da música tradicional portuguesa se deixam devorar pelo fantasma de uma Nico gentilmente rústica e as polifonias vocais serranas fazem sobrenatural raccord com a claustrofobia sonora da estética Martin Hannett/Joy Division. 
 
 

Um ano depois, Sonho Azul mudava radicalmente de cenário: entre a reinvenção da canção "easy/lounge" e uma amabilíssima dance music de salão, com pontes imaginárias lançadas para os vetustos universos do swing e da "torch song" ligeira, os oito temas escritos a quatro mãos por Pedro Ayres de Magalhães e Né (em especial, “Os Sinos”, “Em Coimbra Serei Tua” e “Sonho Azul”) e cinzelados por Mário Laginha, Carlos Martins, Tomás Pimentel, António Emiliano e Ricardo Camacho eram um exercício de estilo deliciosamente frívolo que, lamentavelmente, não deixou descendência. Verdadeiramente digna de medalha no 10 de Junho – para além da reedição integral do que falta repor em circulação – seria a exumação do mítico "lost album" da cantos populares religiosos começado a produzir por Hector Zazou em 1999, na igreja de Montemor-o-Velho, e abruptamente interrompido devido às proverbiais “divergências”. Qualquer que fosse o estado de finalização, mesmo enquanto work in suspended progress, faria, decerto, a felicidade de muitos. (2009)

07 November 2008

MUDAR O MUNDO? *



Hector Zazou - Songs From The Cold Seas

"Se a música não serve para mudar o mundo, então serve para quê?" é a interrogação que coloca Hector Zazou no momento em que, após uma série de publicações, se aventura à transmutação das tradições dos mares gelados, ao mesmo tempo que trabalha numa nova instrumentação da Arte da Fuga, de Bach. Podíamos passar a pergunta a Laurie Anderson e ouvi-la responder que "a função da arte não é fazer do mundo um lugar mais justo mas apenas um lugar mais maravilhoso". O que, se não transforma radicalmente os termos do problema, pelo menos, desloca o centro de gravidade da ética para a estética. E, nessa circunstância, ajuda um pouco a responder ao que Zazou sugere: mesmo que não tendo outra utilidade (Oscar Wilde, recorde-se, ia bastante mais longe: "All art is quite useless"), contribui para determinar a visão que construímos do mundo. Isto é, a sua representação individual e subjectiva, em última análise, virtual.


Värttinä - "Emoni Ennen"

Assentemos os pés no chão: quantos cidadãos do planeta podem verdadeiramente afirmar que conhecem em profundidade a vida e a cultura da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia, da ilha de Hokaido? Certamente, demasiado poucos para constituir sequer uma minoria significativa. Mas todos os que, de agora em diante, escutarem Songs From The Cold Seas passarão a ser capazes de imaginar uma atmosfera de sons e ambientes que circularão pelas vozes e instrumentos de Björk, Siouxsie, John Cale, as Värttinä, Jane Siberry, Suzanne Vega, Barbara Gogan, Balanescu Quartet e Harold Budd. De uns, sabemos quase tudo. Dos outros (e há muitos mais) aprenderemos que Lena Willemark é uma das maiores cantoras tradicionais suecas, que a gronelandesa Marina Schmidt se inspira em Bob Dylan e nos xâmanes de Tulé, que Lioudmila Khandi é uma voz espectral do norte da Sibéria, que Elisha Kilabouk e Koomook Nooveya praticam os cantos Inuit do Grande Norte canadiano, que Tokiko Kato interpreta canções da minoria ainu de Hokaido como uma Juliette Greco do Sol Nascente ou que Vimme Saari é um notável representante das melopeias "joiking", da Lapónia. Porque, de facto, nesta sua visão pessoal das canções dos mares frios, Hector Zazou repetiu o procedimento que, nas Nouvelles Polyphonies Corses e em Sahara Blue, tinha utilizado: recolher um determinado material "em bruto" e propô-lo como pretexto para a colaboração com uma infinidade de músicos das mais diversas origens. A saber, todos os anteriores e ainda Marc Ribot, B.J. Cole, Mark Isham, Renault Pion, Budgie (Banshees), Brendan Perry (Dead Can Dance), Sara Lee (ex-Gang Of Four), Catherine-Ann McPhee, Jerry Marotta, Lightwave, as Angelyn Titot e outros demasiado numerosos para referir exaustivamente.


Värttinä - "Yötulet"

Como surge, então, este cenário que supomos árido e glacial traduzido para a linguagem sonora contemporânea? A pergunta quase contém a resposta: se existem discos onde a intemporalidade e a mais absoluta modernidade se cruzam em perfeitíssimo exercício de geometria, Songs From The Cold Seas é, decerto, um deles. Poderia ser dissecado faixa por faixa mas o tríptico de abertura é suficiente para lhe identificar a direcção e o sentido: "Annukka Suaren Neito", com a energia vocal das Värttinä sobre um fervilhante tapete rítmico de electrónica e percussões (Budgie, Brendan Perry e as Angelyn Titot), a espessa distorção das guitarras e o grito do trompete de Mark Isham, cede, insensivelmente, o lugar a "Visur Vatnsenda-Rosu" onde a voz de Björk flutua liberta da gravidade, à superfície de uma imóvel melodia infinita, mergulhada na ondulação dos teclados de Zazou e do clarinete de Renault Pion. Em contraste, a seguir, "The Long Voyage - com música de Zazou e texto retirado do poema "Silhouettes", de Oscar Wilde -, apresenta-se como uma reafirmação do rumo da trajectória nas vozes de Suzanne Vega e John Cale, em plena ebulição rítmica no interior de um sonho: "Ocean is a voyage, a long, long voyage, going up, up, up". É o sinal para o prosseguimento desta expedição estética que se concluirá com uma ofegante "Song Of The Water" canadiana, depois do Balanescu Quartet se ter enleado nas cordas de um koto japonês sob a acrobacia do "yodel" de Lioudmila Khandi, de Catherine-Ann McPhee ter voado sob o piano imponderável de Harold Budd e de Siouxsie ter recitado palavras de Wilford Gibson enxertadas no tecido de um canto xamânico. E é também a revelação de um novo mundo definitivamente transfigurado a partir da sua matéria sonora, sempre disponível para todas as mutações.

* (não faço a menor ideia qual o motivo porque, em 1995, escrevi três textos acerca de Songs From The Cold Seas; como o anterior nem era particularmente brilhante, repesco, agora, este - poupo-vos ao terceiro)

(1995)

03 November 2008

O ESTETA NÓMADA



Hector Zazou & Swara - In The House Of Mirrors




Hector Zazou & Katie Jane Garside - Corps Electriques

Quando, a 8 de Setembro passado, Hector Zazou morreu, devorado, em meses, por uma neoplasia do sistema linfático, desapareceu muito mais do que um músico invulgar. Com ele, extinguiu-se também todo um universo sonoro particularíssimo que, se foi suficientemente celebrado na devida altura – à escala, naturalmente, de uma música que nunca viveu de cortejar multidões –, não se poderá exactamente afirmar que deixou descendência. Olhado de forma desatenta, poderia afirmar-se que se tratou apenas de um teórico-prático (e, não deixando de ser fertilmente prático, Zazou gostava, de facto, de teorizar intensamente) da “world music” encarada sob uma perspectiva intelectual, quase académica. Observado – e, sobretudo, escutado – mais de perto, no entanto, o que descobrimos é uma espécie de Brian Eno de raio planetário que, embora preferindo trabalhar sobre as diversas tradições musicais locais, não se restringia a elas e as encarava a todas essencialmente como matéria-prima sonora, pronta para ser reconfigurada, moldada e subtilmente desterritorializada.



Ajuda um pouco conhecer melhor a biografia de Zazou, aliás, Pierre Job, nascido na Argélia em 1948 e, no início da década de 60, emigrado com os pais “pieds-noirs” (mãe francesa, pai espanhol) para Marselha. Casa de partida, a meias com Joseph Racaille, nos muito beefheartianos e “soixant-huitards”, Barricades, rapidamente reconvertidos em ZNR, agora, alimentados a Satie e “krautrock”. Pausa para o regresso de Pierre Job, jornalista, chefe de redacção da “Actuel” dos anos 80, a revista dos tópicos “nouveaux et intéressants”, do novo cosmopolitismo nómada e do “futurismo primitivo”. É durante uma viagem pelo Congo e Zaire com o director; Jean-François Bizot, que Zazou, o músico, reemerge e, ao lado do zairense Bony Bikaye, percorre as primeiras etapas da sua aventura transcultural.



Ele que se descreveu como “uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo”, entre intervalos de neo-classicismo, prosseguiria com as Nouvelles Polyphonies Corses, Sahara Blue, Songs From The Cold Seas e Strong Currents, onde, em improvável mas surpreendentemente coerente coabitação, se reuniram John Cale, Gerard Depardieu, David Sylvian, Björk, Rimbaud, Laurie Anderson, Ryuichi Sakamoto, Lisa Germano, corais corsos, Khaled, Suzanne Vega, Harold Budd, Siouxsie Sioux, Bill Laswell, Jane Birkin, Sussan Deyhim, xâmanes do Ártico, Jon Hassel, Barbara Gogan, Manu Dibango, as Värttinä ou Lisa Gerrard. Mas, paralelamente e em simultâneo, estimulado pelo pensamento de Raymond Roussel, Deleuze e Derrida, colaboraria também com o físico e pintor Bernard Caillaud, produziria Sandy Dillon, a siberiana Sainkho, a tibetana Yungchen Lhamo, a uzbeque Sevara Nazarkhan, deixaria a meio – por divergências de rumo estético – um mítico “lost album” de Né Ladeiras, e seria escutado ao lado de Robert Fripp, Brian Eno e Peter Buck.


Katie Jane Garside

In The House Of Mirrors e Corps Electriques, os seus dois últimos álbuns (ambos de 2008), são a derradeira demonstração desse compulsivo nomadismo mental. No primeiro, colocou frente a frente instrumentistas virtuosos da Índia e do Uzbequistão (violino, alaúde, tambur), um violinista húngaro, o pianista de flamenco, Diego Amador, o gaiteiro e flautista galego, Carlos Nuñez e o trompetista norueguês, Nils Petter Molvær, e, de acordo com um programa ímplicito (“Ir ao coração do som, ver o tecido sonoro como através de um microscópio, apreender as notas por meio de um processo de ampliação de certos elementos: notas e ressonâncias formam vagas que obrigam o instrumentista a mergulhar para além da superfície da onda até ao interior do próprio som”) e uma piscadela de olho a The Lady From Shanghai, de Orson Welles, abriu generosos espaços para a respiração dos timbres e para a predominância de um espírito de austeridade estética – dir-se-ia que se limitou a propor a atmosfera acústica adequada –, só, aqui e ali, subtilmente desviada por quase indetectáveis “loops” de percussão, aguadas e “glitches” electrónicos que potenciam magnificamente o pretendido jogo de espelhos. Corps Electriques, de novo com Molvær e os fidelíssimos Lone Kent e Bill Rieflin, entrega o primeiro plano à voz de Katie Jane Garside, veterana “riot grrrl” (Daisy Chainsaw e Queen Adreena, com passagem pelos Test Department), performer e fotógrafa, que, aqui, inventa uma personagem extrema, entre Lydia Lunch e a Björk de Vespertine, numa sucessão de cenários distópicos próximos dos de Blade Runner, distorções e estridências, imponderabilidades inquietantes e inalações narcóticas de pós-trip hop. A perfeita despedida (dupla) de Zazou.

(2008)

23 October 2008

MATÉRIA EM VIBRAÇÃO



Ryuichi Sakamoto - Heartbeat

No meu dicionário, "world" continua a significar "mundo". E "mundo", tanto quanto parece, é um conceito que não exclui continentes nem regiões mas, pelo contrário, os inclui a todos. É por isso que, a despeito da tendência para ver a "world music" como uma emanação sonora de paragens exóticas e distantes, de preferência não-europeias e não-ocidentais, a sua exacta concretização tem passado mais pelas mãos de quem entende o coração musical do planeta como um organismo único, mesmo que pulsando a ritmo diferente de acordo com as latitudes geográficas que anima.

Sempre chegado à área da pop mas nunca se deixando limitar por ela, Ryuichi Sakamoto é daqueles músicos para quem a ideia de ecletismo constitui uma segunda natureza: música é matéria em vibração e não importa a origem de que provém. Não é, decerto, um acaso que (para além da educação clássica formal) as referências fundamentais para a sua formação musical que nunca deixa de citar sejam nomes tão diversos quanto Beethoven, os Beatles, John Coltrane, António Carlos Jobim ou John Cage.


YMO - "Rydeen"

Como, há poucos meses, escrevia a "Keyboards", para ele, "Tóquio é um subúrbio de Nova Iorque, a música de dança combina-se com a herança de Debussy, o piano solista coexiste com o techno-pop e a música não é senão um meio, entre outros, de fazer cinema". Enquanto síntese seria quase perfeita se não se desse o caso de ser impossível resumir a actividade de Sakamoto em tão poucas linhas. Só em termos discográficos, uma escolha "selectiva" (muito "selectiva", acrescento eu) incluída nesse número da revista contabilizava, entre 1978 e 1992, dezassete álbuns editados. Depois, há ainda o passado com a Yellow Magic Orchestra, as composições para dança (com Molissa Fenley) e para o cinema (onde também intervém como actor), as publicações de dois livros de diálogos com os filósofos Shozo Ohmori e Yujo Takahashi (See The Sound, Hear The Time e The Long Call) e as múltiplas colaborações como executante, compositor ou produtor que vão de Hector Zazou a David Sylvian ou Virginia Astley.

Heartbeat, o álbum a solo acabado de sair, corre, pois, o sério risco de se ver afogado num dilúvio de projectos paralelos, portador do perverso efeito de empalidecer o brilho daquela que é já uma da edições marcantes de 1992. Nada seria mais injusto. Na sequência lógica da estética pancultural consagrada, em 1990, com o excelente Beauty, Heartbeat recusa a repetição de uma fórmula mas confirma a mesma visão: o mundo da música e as músicas do mundo coincidem no mesmo espaço e conjugam-se no tempo presente. É indiferente a proveniência negro-americana da batida house ou a matriz melódica japonesa de "Sayonara". Pouco conta a coabitação dos Super DJ Dimitry e Jungle DJ Towa Towa (dos Deee Lite) com Youssou N'Dour ou com "samples" de Jimi Hendrix. Não é fundamental olhar para o lugar de onde partiram David Sylvian, Marco Prince, John Lurie, Arto Lindsay, Ingrid Chavez ou Bill Frisell, cantem, toquem ou falem inglês, português, francês e japonês ou se exercitem no rap, no disco ou no swing. A todos reúne o mesmo "heartbeat", aquela pulsação cardíaca primordial que Sakamoto, em "Tainai Kaiki II", traduz para o esperanto planetário como "returning to the womb". É essa a corrente subterrânea que articula a ossatura de todo o álbum e, finalmente, reduz à impotência qualquer tentativa de o dividir em partes.



Tão "étnica" é a primeira metade (devotada à "club culture") quanto a segunda (onde as dimensões atmosférica, europeia e extra-ocidental cruzam caminhos). Satie pode dialogar com os Soul II Soul e a electrónica invadir o Islão. Nem por isso as leis básicas da acústica universal se modificam ou o vocabulário sofre torsões radicais. É tudo uma questão de identificar a raíz comum e partir daí para o ensaio das declinações locais, onde as era se confundem e as linguagens convergem na celebração das diferenças. Entre o arabismo estratosférico de "Nuages", o "eastern disco" de "Sayonara", a indeterminação geográfica de "Borum Gal", o impressionismo de "Song Lines" ou o funk minimal de "Cloud nº9", bem poderia ser a voz subliminar de Cage - que aflora em "Heartbeat (Tainai Kaiki II)" - a recitar o conceito unificador de todo o disco, que a faixa de abertura prefere entregar ao canto de Dee Dee Brave: "Break the code and read the message, speak directly to the center".

(1992)

10 October 2008

PARA FORA
(retomando daqui)



Sainkho - Out Of Tuva

Dizemos o quê quando falamos de world music, rock, jazz, folk, pop ou música contemporânea? A verdade nua e crua é que, hoje, para o que, de facto, importa, não falamos literalmente de nada. Pelo menos, não falamos de nada realmente substancial que seja capaz de resistir a uma análise metódica. Não terá sido sempre assim: houve um tempo em que não só cada uma dessas categorias como as suas diversas associações (jazz/rock, folk/rock, jazz/folk...) ainda faziam plenamente sentido. Mas cada vez mais se torna insustentável persistir nos velhos hábitos de arrumação musical. Sem pretender ser insanamente radical, é claro que, mesmo agora, não será sempre tão nítida essa pulverização dos antigos conceitos. No entanto, é mais do que evidente a persistente acumulação de discos que não oferecem outra alternativa que arremessar todos os velhos vícios mentais às urtigas e nos convidam a encarar a música como um único fenómeno, com naturais facetas e particularidades mas que são inclassificáveis em qualquer das gavetas estéticas que a preguiça intelectual tão eficazmente forrou.



Out Of Tuva, o disco da sul-siberiana Sainkho Namtchylak, não podia ser mais eloquente na exibição da plasticidade de uma música que, originária da república de Tuva, aceitou sem perdas todas as filtrações e reformulações que os tormentos estético-políticos da sua autora foram determinando, entre os anos de 1986 e 1983, período que documenta. Propondo, na origem, uma interpenetração de elementos tradicionais (inspirados no folclore religioso e xamânico local, politicamente incorrecto para as autoridades soviéticas da altura) com um vocabulário musical contemporâneo, todo o disco reproduz esse percurso de avanços e recuos, até à actualidade.



Passa pelas diversas etapas, da música popular às presentes colaborações com Hector Zazou, com capítulos intervalares nas gravações com orquestra ou com o colectivo experimental de Moscovo, Tri-O, em qualquer dos casos demonstrando a exuberante energia de uma música de matriz vocal que nunca se sabe quando é mais vibrantemente expressiva: se nas explorações atmosféricas que o contacto mais recente com o universo da Crammed Records lhe proporcionou (Zazou e os produtores Vincent Kenis e Gilles Martin), se no contágio de voz e instrumentos à beira do ruído hipnótico com os Tri-O, se no folclorismo - alucinantemente puro ou sofisticado na componente orquestral - que as primeiras gravações oferecem. Qualquer deles, porém, aproxima os movimentos vocais de Sainkho de outros que ouvimos a Meredith Monk ou Diamanda Galás e faz pensar numa certa continuidade oculta entre a memória de todas as tradições e o horizonte futuro para que outras pós-vanguardas apontam. Out Of Tuva é para ser lido à letra: para fora, em direcção ao resto do mundo, aberto a todos os cruzamentos imagináveis.

(1993)

07 October 2008

A VOZ TODA



Sainkho Namtchylak - Freedom Now (DVD)

“Quando estou a cantar, acontece-me entrar num estado em que deixo de ver, não tenho nenhuma sensação, nem boa nem má, não tenho noção do tempo nem nenhuma referência... também me acontece cantar e, ao mesmo tempo, estar a pensar numa sanduíche!”. Esta confissão é o único momento dos 44 minutos de Freedom Now em que Sainkho Namtchylak, para além de cantar, revela algo acerca de si e da sua música.


do documentário Sainkho: A Voice On The Edge
- A Journey Of Extremes
de Erica V. Moeller (2003)


Nos restantes (numa co-produção de La Huit, do canal Mezzo e do festival Banlieues Bleues), vêmo-la e escutamo-la exercitando a voz, decifrando partituras e, em palco, com o baterista Hamid Drake e o contrabaixista William Parker, naquela pessoalíssima combinação do canto gutural bifónico da sua Tuva natal com as “extended vocal techniques” contemporâneas, uma exploração microscópica de todos os registos e possibilidades expressivas da voz – do grito estridente ao sussurro, à sujidade tímbrica ou aos virtuosísticos golpes rítmicos de glote –, numa atitude muito mais radicalmente experimental do que a que exibia em Out Of Tuva (o álbum de 1993, produzido pelo recém desaparecido Hector Zazou) que a revelou ao Ocidente.

(2008)

17 September 2008

VER O SOM, OUVIR A IMAGEM



Hector Zazou et Bernard Caillaud - Quadri+Chromies

Hector Zazou é bem o paradigma do músico contemporâneo que, definitivamente, se desembaraçou de todos os compromissos estéticos, "de escola" ou género, e encara o universo sonoro — todo o universo sonoro — como um potencial campo de descoberta e experimentação. Desde os capítulos iniciais na série "Made To Measure" (da Crammed Disc) até aos magníficos painéis transcontinentais e transmusicais de Les Nouvelles Polyphonies Corses e Songs From The Cold Seas, passando pela sublime releitura de Rimbaud, Sahara Blue, por Strong Currents ou pelas inúmeras colaborações com Laurie Anderson, Bill Laswell, Sandy Dillon, John Cale, Harold Budd ou Peter Gabriel, Zazou tem feito do desdobramento de personalidade uma escola de pensamento autónoma. Quadri+Chromies (CD e DVD em colaboração com o físico e pintor Bernard Caillaud, morto em 2004) aventura-se ainda por um outro território: o da sinestesia, através do qual, procura "dar a ver o som e escutar as imagens".



Segundo Zazou, o que interessava Caillaud "era a pintura cinética, como a de Vasarely, as bandas de cores, os círculos, as formas geométricas e a maneira de trabalhar estas formas no espaço. Em seguida, pensou como poderia ser interessante colocar estas imagens em movimento e começou a conceber equações matemáticas para poder animar as cores e as formas. Passou para equações cada vez mais sofisticadas à medida que os próprios computadores — começou com um Amiga rudimentar — se sofisticavam também. O resultado foi aquilo a que chamou 'pintura algocinética' (de 'algoritmo' e 'cinética')". Com Brian Eno, David Sylvian, Peter Buck (R.E.M.) e Ryuichi Sakamoto integrados na tripulação, Quadri+Chromies actua como uma espécie de mandala audiovisual em permanente e assombroso processo de reconfiguração, sumetido a regras estritas ("Não partimos de uma imagem existente, como na música para o cinema, mas da ideia de uma imagem. Decidíamos, por exemplo, ir das linhas aos rectângulos, depois pensávamos no ritmo das mudanças de formas e, enfim, nas modificações de cor no interior de cada tema") e conduzido por "duas grandes inspirações: Derrida e Deleuze; utilizámos os princípios por eles enunciados: colocar ao centro o que se encontra na margem... do ponto de vista musical, por exemplo, numa melodia, não conservando o acorde mas apenas a ressonância do acorde". Agora em directo e a cores, queiram, por favor, abandonar a caverna de Platão.

(2006)

16 September 2008

MELANCOLIAS SIDERAIS



Hector Zazou - Strong Currents/Sonora Portraits 2

Les Nouvelles Polyphonies Corses, Sahara Blue, Songs From The Cold Seas. Um, enraizado na tradição vocal mediterrânica, outro, em torno da biografia e da figura de Rimbaud, o último, oferecendo múltiplas declinações da atmosfera musical à volta do Norte gelado. Mas, todos eles, o género de amplos painéis musicais que atraíam para o seu interior a maior diversidade de cúmplices e colaboradores que Hector Zazou se encarregava de compatibilizar e, do confronto de personalidades, extrair a imensa mais valia estética que cada álbum continha. A marca-Zazou, essa, deixava-se ficar não só nesse muito discreto "managing" estético das diferenças e identidades como também no sofisticado "design" de arranjos e recorte global que articulava milagrosamente impressionismos debussy-satieanos, modernismo electrónico e vestígios "étnicos". Strong Currents — uma encomenda da Materiali Sonori — é Zazou quase puro. E esse "quase" decorre apenas do facto de praticamente todos os textos serem da autoria das vozes femininas que os interpretam. A saber: Laurie Anderson, Jane Birkin, Melanie Gabriel, Lori Carson, Emma Stow, Nina Hynes, Caroline Lavelle, Sarah-Jane Morris, Catherine Russell, Lisa Germano, Nicola Hitchcock e Irene Grandi. Há ainda (entre bastantes outros) os fiéis da "bande à Zazou", Ryuichi Sakamoto, Renaud Pion, Lone Kent. E é um universo interior de enorme delicadeza e fragilidade que daqui resulta, um jogo de luzes e reflexos entre o fantasma da "torch song" e melancolias siderais, cenários digitais e timbres calorosamente acústicos, a carcassa do trip-hop e o "after taste" do romantismo em formato minimal. Se Julie London, Björk, os Portishead, This Mortal Coil e Ravel se tivessem cruzado num qualquer "time-warp" para criar música em conjunto, não teriam inventado nada de muito melhor que Strong Currents.

(2003)

12 September 2008

LUGARES DE FICÇÃO



Hector Zazou/Vários - Chansons des Mers Froides
/Songs From The Cold Seas

Em Chansons des Mers Froides, penetramos noutra realidade. Aquela que Hector Zazou (depois das Nouvelles Polyphonies Corses e Sahara Blue) "filmou" para um disco em que as tradições musicais da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das Ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia e da ilha japonesa de Hokaido propõem uma visão de outro mundo onde as vozes tradicionais de Lioudmila Khandi, Elisha Kilabuk, Värttinä, Catherine-Ann McPhee, Lena Willemark ou Tokiko Kato se equivalem às de Björk, Siouxsie Sioux, Suzanne Vega e Barbara Gogan ou às contribuições de John Cale, Harold Budd ou do Balanescu Quartet.



Com concepção gráfica de Russell Mills (revejam-no ao lado de Brian Eno ou David Sylvian), num conjunto de doze postais - um para cada tema - incluindo fotografias de Philippe Romeo e textos de Zazou, sejam bem-vindos a um universo glacial, lugar de ficção e ilusão, no qual gelo e neve se transformam numa boa definição do paraíso na terra.

(1995)

11 September 2008

UM PINHEIRO DE NATAL



Quando, em tempos, pediram a Hector Zazou a receita para um álbum como Sahara Blue, ele explicou que "no início, estavam as palavras escolhidas pelo seu ritmo e som. Depois, a música: a princípio, apenas um pano de fundo vagamente colorido. A seguir, as vozes: tubos de côr para desenhar uma linha, um quadrado, um círculo. Vai-se, então, para a tela, modifica-se o fundo, pinta-se, de novo, as formas, recorta-se os quadrados, alarga-se os círculos, quebra-se as linhas, segue-se por outras vias que obrigam a usar outros ritmos e contrastes. Pode ter de se modificar completamente o fundo e começar tudo de novo: colocar a voz de outro modo, trabalhar cada elemento como uma matéria-prima e consolidá-lo através da contribuição dos músicos". Em pessoa, Zazou exprime-se à imagem da sua música: pausadamente, medindo cada palavra, exprimindo mais dúvidas do que certezas. Enquanto levanta um pouco o véu sobre o sucessor de Sahara Blue, o novo Songs From The Cold Seas, há dois anos em preparação.

Numa entrevista, a propósito de Sahara Blue, afirmava que não se tratava de um disco de rock nem de world music. Se gravações como essa ou Les Nouvelles Polyphonies Corses, onde se cruzam músicos e sonoridades de todo o mundo, não são world music, o que é para si a world music?
O problema é saber se a world music é uma mistura ou se é música profundamente ancorada numa cultura e que se serve de outros elementos. Acerca das Nouvelles Polyphonies Corses, estou de acordo, será world music no sentido tradicional do termo. É música com identidade própria a que se acrescenta elementos exteriores. Mas pode haver outra definição: a do cruzamento de elementos de todos os países e, aí, ter-se-à algo que não é culturalmente identificável, com diversos aromas e paladares, mas de que não se pode dizer se é africano, japonês ou francês. Por isso, não existe uma resposta definitiva.

Recordo-me de uma vez ter dito que, se desenhasse um retrato de si próprio, seria uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo. O que me parece uma bela metáfora para um conceito de world music...
Voltei a pensar sobre isso e já posso ser mais preciso. Não estou muito certo de que a música "pura" seja menos interessante nem de que os cruzamentos sejam uma solução de futuro. Discutia isso com um amigo e dizia-lhe que uma floresta é suficientemente bela em si mesma, não ganha nada em ser domesticada. E ele respondeu-me que o que eu fazia não era uma árvore numa floresta mas um pinheiro de Natal (risos). O que é verdade: a árvore está lá, mas cheia de decorações. É uma definição que me assenta ainda melhor.



Quando entrevistei Jean-Pierre Lanfranchi, que trabalhou consigo nas Nouvelles Polyphonies Corses, ele disse-me que esse género de encontros era realmente interessante mas não afectaria em nada a tradição sobre que se exercia...
Sem dúvida. Se as tradições locais forem suficientemente fortes, isso não as abalará. É até possível que essas experiências tenham um lado um pouco "gadget".

De qualquer modo, como procede, habitualmente, nesse terreno: procura contrastes, identidades ou explorar uma linguagem comum?
Procuro uma linguagem comum. Não me interessa criar choques. Tento encontrar espaços harmoniosos onde um pianista japonês como Ryuichi Sakamoto possa entrar sem perturbação e colocar a sua cultura e sensibilidade ao serviço, por exemplo, da voz de Jean-Pierre Lanfranchi nas Nouvelles Polyphonies Corses, num diálogo que não atraiçoa um nem o outro.

Nesse disco ou no próximo Songs From The Cold Seas sobre as músicas do Norte, como actua: investiga profundamente as tradições sobre que vai trabalhar ou reage-lhes apenas instintivamente como um ouvinte exterior?
Em cada caso é diferente. Em Songs From The Cold Seas, nada sabia dessas músicas. Foi a imagem dos mares gelados que me atraiu e me fez desejar saber como seriam as músicas desses países. Durante mais de dois anos desloquei-me aos lugares, procurei discos e cassetes, contactei músicos. A pouco e pouco, construí uma imagem dessas músicas, procurei descobrir pontos de contacto. A segunda etapa foi descobrir os instrumentos que os enquadrassem. No caso da Córsega, tentei saber se aquela fortíssima tradição "a cappela" aguentava um suporte instrumental. Não existe um método global.



Quando foi publicado um dos seus discos com Bony Bikaye, a síntese da sua biografia indicava como influências os Platters, Shadows, as revoltas estudantis francesas, Satie, a ópera e Raymond Roussel. São essas, de facto, as fontes de que se alimenta?
Foram. A partir de certa altura, no entanto, essas influências começaram a dissolver-se e apareceram outras. Agora, quando me envolvo num projecto, é quase como se se tratasse de uma tese universitária. Leio imenso, escuto muita música, mergulho por inteiro nele. As revoltas estudantis influenciaram não apenas a música mas toda a minha vida. Ensinaram-me, por exemplo, que a técnica de um músico não é o mesmo que a criatividade pela qual ele afirma a sua independência perante um sistema musical. O que, se calhar, me leva a adorar agora um disco como o dos Nine Inch Nails que é o género de música que eu nunca faria mas que ousa contrariar asregras.

Em Songs From The Cold Seas, participarão Björk, Siouxsie Sioux, Jane Siberry, Suzanne Vega, Mark Isham, John Cale, Jerry Marotta, Harold Budd e muitos outros. Voltando ao princípio, pode, neste caso, falar-se de world music?
Não pretendi fazer um disco étnico. Assim, tanto é a minha visão dos mares gelados completamente inventada, como tem raízes locais. Se a Jane Siberry e a Björk cantam canções tradicionais canadianas e islandesas, no caso da Suzanne Vega e da Siouxsie é mais uma invenção romântica da minha visão dos mares do Norte. Na realidade, vão ser publicados três discos: um em que predomina essa visão mais cinematográfica em que todos os estilos se combinam um pouco, como aconteceu em Sahara Blue; outro em que eu não intervenho, totalmente "a cappela", somente com cantores (uns intervêm no primeiro, outros não, nomeadamente, as cantoras dos Hedningarna) e um terceiro, extremamente violento, apenas com xâmanes da Sibéria. Vão ser editados em sequência, muito próximo uns dos outros.

(1994)

10 September 2008

CURTO-CIRCUITOS



Hector Zazou/Vários - Sahara Blue

Entre os incontáveis tesouros da Library Of Congress, de Washington, acha-se um pouco conhecido registo do pianista Jelly Roll Morton (gravado em 1938 por Alan Lomax) onde este, muito à sua maneira, conta como "inventou" o jazz. E fá-lo explicando que ele provém de Itália (tocando o "Miserere", de Il Trovatore, em versão "hot"), de França (executando uma quadrilha swingada) e de Espanha (ensaiando uma "Paloma" em registo bluesy), necessitando apenas da visão globalizadora de um génio para eclodir. Isto é, ele mesmo, portador de um cartão de visita onde, ao lado do nome real - Ferdinand Joseph La Menthe -, se apresentava como "criador do jazz, blues e swing". Foi a propósito da audição de uma dessas gravações que, em 1971, o compositor contemporâneo Luciano Berio, num texto ("Commentaire au rock") escrito para a "Musique en Jeu", observou que, tanto o jazz como o rock (e a pop em geral), eram, essencialmente, géneros heterogéneos, nascidos no grande caldeirão da música universal e em permanente curto-circuito entre as noções de "alta" e "baixa" cultura. Por outras palavras, entidades musicais construídas sobre os detritos de outras pré-existentes (e ele enumerava-as: blues, charleston, canção ocidental, soul, sea-shanties, hinos religiosos, música isabelina, indiana, árabe...) que, no próprio processo de agregação e integração das suas componentes, desenvolveram procedimentos e estilos próprios. Era, então, relativamente cedo para que Berio pudesse medir inteiramente o alcance das suas palavras. Mas os vinte anos que se seguiram não vieram senão dar-lhe razão.



A verdade é que, pelo meio das mais diversas "fusões", cruzamentos e interferências sonoras de que a chamada "world music" é o derradeiro exemplo, esse movimento de intersecção de áreas musicais continuou a gerar sucessivos híbridos e formas mutantes para os quais é cada vez menos fácil descobrir designações adequadas. Consequência também, afinal, das próprias trajectórias imprevisíveis dos músicos que os produziram, virtualmente oriundos de todos os quadrantes do espectro musical. Sahara Blue, projecto de Hector Zazou, não poderia ser, acerca disto, mais elucidativo.


Arthur Rimbaud

Concebido em co-produção de La Grande Halle de La Villette com a Crammed Records por ocasião do centésimo aniversário da morte do poeta francês Arthur Rimbaud, comemorado há um ano, constitui quase um manifesto, um discurso de balanço sobre o estado do internacionalismo musical contemporâneo. Um pouco na sequência do notável álbum anterior de Zazou - Les Nouvelles Polyphonies Corses - onde, a pretexto da elaboração sobre a raíz da música tradicional da Córsega, convocava um verdadeiro batalhão de executantes dos quatro cantos do mundo, este, agora, toma como ponto de partida a poesia de Rimbaud e, como lema, as palavras de "L'Impossible", bandeira das almas sem pátria: "Le monde n'a pas d'âge. L'humanité se déplace simplement. Vous êtes en Occident mais libre d'habiter dans votre Orient... et d'y habiter bien. Ne soyez pas un vaincu". E é a prática activa dessa liberdade de, em qualquer local, se poder assumir como cidadão de todos os outros que define as estratégias de escolha dos integrantes deste disco, prova indiscutível de como o espírito da poesia habita os lugares e os corpos que decidiu devorar sem cuidar de fronteiras.



Chamados por Zazou compareceram Gérard Depardieu, John Cale, Cheb Khaled, Bill Laswell, Tim Simenon (Bomb The Bass), Anneli Marian Drecker (Bel Canto), David Sylvian, Ryuichi Sakamoto, Barbara Gogan (dos extintos Passions), Sammy Birnbach e Malka Spiegel (Minimal Compact), Steve Shehan, Keith Leblanc, Yuka Fujii, Nabil Khalidi, Ketema Mekonn, Richard Bohringer e ainda outros tantos. A resultante é a declinação da visão alucinada do filho de Charleville em todos os modos e idiomas, a sua projecção para a atmosfera sonora de um universo onde as palavras ressoam e se reflectem em múltiplos planos e tonalidades e "les sauvages qui dansent sans cesse la fête de la nuit" descobrem, cem anos mais tarde, outros territórios para inundar de luz. Não faz de todo sentido falar de ambientalismos, alusões "étnicas", malabarismos tecnológicos. Sahara Blue é já um novo corpo, um organismo vivo poliglota mas possuidor de uma alma única, uma ópera involuntária, interiormente ancorada na difusa biografia de uma errância de iluminações.

(1992)
HECTOR ZAZOU
(11 Julho 1948 - 8 Setembro 2008)




(2008)