The Art of Punk (III) - Black Flag - The Art of Raymond Pettibon
19 December 2016
"Do you know where the idea for the 40th anniversary of Punk London came from? A tourist board meeting, the idea was offered up at a brainstorming session in the board room at the Department of Cultural Tourism of the Greater London Authority and the office of the Mayor of London [Boris Johnson, Public Anus and ex Etonian and member of the Bullingdon Club, a club for the filthy filthy filthy rich whose initiation includes burning £50 notes in front of the homeless and whose sole arrogant purpose is to go to restaurants and literally smash them to shit then charge all the damage to Papa]. We investigated, and finally spoke to the decision maker, Mike Clewley, head of said department told us that as there was no royal wedding this year there was a problem, what could be used as a tourist feature, what could be flogged to tourists this year. Hmmmmmmm! Someone grabbed an almanac, noticed it was 40 years since the Pistols released 'Anarchy in the UK' and Hey Presto! (Burn Punk London - Open Letter to Henry Rollins)
Há três semanas, em Rakvere, na Estónia, teve lugar a terceira edição do foneticamente pitoresco Punklaulupidu, isto é, Festival da Canção Punk. Apoiado pelo Ministério da Cultura local, apresentava-se como “uma simbiose do tradicional festival da canção estónio com um grande número de coros e punk rock”. Antes do evento, o maestro Keijo Soome explicava: “As canções que iremos cantar terão arranjos corais polifónicos, embora menos complexos do que os da música coral mais sofisticada – mas é isso que torna tudo emocionalmente mais forte”. O bom amigo YouTube comprova-o: num fim-de-semana animado pensado para o saudável divertimento de toda a família, reviram-se os clássicos (“Anarchy In The UK”, dos Pistols, entusiasticamente cantado por avós, pais e netos de coloridos moicanos) e até o gesto insurreccional das Pussy Riot – a “Punk Prayer” anti-Putin que lhes valeu quase dois anos de prisão – foi reencenado na interpretação de um dinâmico duo de moças, de acordo com a norma marcopauliana, uma loira, outra morena.
O punk que, há três décadas e meia, Penelope Spheeris (então com 34 anos, ascendência grega, impecável linhagem "white trash", e cuja duvidosa coroa de glória seria Wayne’s World) descobriria em Los Angeles, era um bocadinho diferente: ia já no segundo ou terceiro vómito mas, com bandas como os Germs, Black Flag, X, Circle Jerks ou Fear, permanecia perigoso, imundo, brutal, irremediavelmente marginal, junky, anarca e fetidamente alcoólico. Spheeris capturá-lo-ia no primeiro volume do documentário The Decline Of Western Civilization (1981) que o chefe da polícia de LA desejou ver proibido. O segundo tomo, The Metal Years, lançado sete anos depois, é o sórdido retrato da javardice estética e existencial da cena heavy metal – de Alice Cooper aos WASP e Odin –, terminalmente misógina e ávida de vender o traseiro à indústria pela melhor oferta. O terceiro, de 98 (a trilogia acaba de ser publicada em caixa de 4 DVD), centra-se nos fãs de bandas como Naked Agression, Final Conflict ou Litmus Green, “punks de sargeta”, sem família nem abrigo, mendigos de “a quarter for disorder”, refugiados na parca identidade comum do ódio à polícia e do amor à embriaguez. Em Rakvere, provavelmente, não seriam muito bem recebidos.
07 May 2015
MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.
Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.
09 May 2014
VINTAGE (CCXI)
Black Flag - "I've Had It"
I can't go to work
The boss is a jerk
I ain't got time for this school
The fuckers are fools
I'm going to...explode
I've had it!
I lie around with the tv on
I don't do nothin', I just hang around
Waitin' for your call
But I don't know where to fall
I'm going to...explode
I've had it!
It's no use
I can't take no more abuse
I'm tired of the fuckin' lines
I'm losing my mind
I'm going to...explode
I've had it!
Killin' all your dreams
Really who remembers?
I play guitar for my car
And I won't get very far
I'm going to...explode
Na Casa dos Segredos, concurso dedicado à análise da cópula entre prostitutas loiras e grandes símios suburbanos, Diogo Cruz termina o seu noivado com Fanny, a princesinha de Oliveira de Azeméis.
Às onze da manhã e às cinco da tarde, no Opinião Pública da SIC Notícias, todos os desocupados do país erguerão as vozes em uníssono para denunciar a infausta repugnância lusitana pelo trabalho.
Enquanto não chega o Jornal das Nove — momento sempre elevado, com o beicinho trémulo do Crespo a beber as palavras venerandas do professor Carreira, do doutor Duque ou do Presidente da CIP (como ocorreu ontem, notem a coincidência) — abre-se nova janela de oportunidade para redigirmos sábios comentários em blogues e jornais online, apelando à união de todos os portugueses neste contexto difícil em que o Governo e a Europa tanto precisam de um esforço adicional.
Pela meia-noite visitaremos como sempre a TVI, onde outro macaco fode a princezinha de Oliveira de Azeméis em cenário de plástico colorido, para grande alegria da Júlia e consolo lúbrico das porteiras.
Ainda bem que acabou a greve. O país regressa à produtividade. (aqui)
(2011)
01 February 2010
AMÉRICA LENDÁRIA
Vários - We Are Only Riders: The Jeffrey Lee Pierce Sessions Project
Jeffrey Lee Pierce – jovem suburbano da periferia industrial de Los Angeles que, apesar de aluno brilhante, era dado a apresentar ensaios sobre Ernest Hemingway constituídos por dez páginas em branco –, no final dos anos 70, era crítico de música do fanzine punk, “Slash”, de Los Angeles, e escrevia sobre rockabilly, blues e reggae. Era também o presidente do clube de fãs dos Blondie e sonhava trabalhar para o departamento de música do Smithsonian Institute na pesquisa de velhas gravações de blues e country. Do mesmo remoinho do punk de LA que envolveria os X, Blasters, Circle Jerks, Germs e Black Flag, inventou The Gun Club, alucinação de vudu, psychobilly, Ornette Coleman, “Tales From The Crypt”, álcool, blues, heroína e country.
Fire Of Love (1981) iniciou o percurso que, em 1996, aos 37 anos, terminaria como conta Mark Lanegan: “No princípio de 96, foi para o Japão mas, imediatamente antes, tínhamos estado em casa da mãe dele a escrever canções. Parecia estar realmente em boa forma, o que nem sempre acontecia: por vezes, mal conseguia andar de tão desfeito que estava. Quando regressou do Japão, deixou-me meia dúzia de mensagens no atendedor de chamadas. Parecia completamente fora de si apesar de não estar embriagado. Uma coisa estranhíssima, dava a ideia de ter endoidecido. Alguém acabou por me contar que ele tinha voltado a beber, o fígado lhe havia intoxicado o organismo e sofria de dcemência. No hospital tinham-lhe dado alta dizendo que nada podiam fazer por ele. Pouco depois, recebo um telefonema: estava no Utah e, aparentemente, normal. Disse-me ‘Que raio, meu, toda a gente me diz que vou morrer, é sempre o mesmo’. Uma semana depois, entrou em coma e morreu”.
Nunca tendo alcançado verdadeiramente uma projecção universal (e, por hoje, razoavelmente esquecidos), os Gun Club e Jeffrey Lee Pierce deixaram, no entanto, um considerável culto em cujos fiéis se incluíram os R.E.M. White Stripes, Nick Cave, Wim Wenders, os Pixies ou Henry Rollins, entre diversos outros. Foi um deles, Cypress Grove (com Pierce, em 1992, gravaria Ramblin' Jeffrey Lee and Cypress Grove with Willie Love, essencialmente, um álbum de versões de blues de Howlin' Wolf, Lightnin' Hopkins e Skip James), que, ao arrumar gavetas, tropeçou numa cassete de maquetas e esboços que ambos haviam gravado pouco antes da morte de Jeffrey. A partir dali, iria ser possível reconstituir, então, a última parcela inédita da obra de Pierce, com a participação de fãs, discípulos e herdeiros, este We Are Only Riders. Porque o número de temas sobreviventes era escasso, alguns são objecto de duas e três interpretações mas, só pontualmente, as balas deste Gun Club parte-II falham o alvo.
Nick Cave, a solo e com Debbie Harry, em "Ramblin’ Mind" e "Free To Walk", é imperial, ela, sozinha, em "Lucky Jim", assina a sua melhor interpretação desde há muito, Mark Lanegan (com e sem Isobel Campbell), arrancam pelas tripas o Cash que se acoitava na alma de Jeffrey Lee, os Raveonettes projectam "Free To Walk" para um céu semeado de mazzy stars e Lydia Lunch, David Eugene Edwards, The Sadies, Johnny Dowd, Kid Congo Powers (ele, o nómada que circulou dos Gun Club para os Cramps, Die Haut, The Fall e Bad Seeds) Mick Harvey, Dave Alvin e os Crippled Black Phoenix (o inesperado único elo débil nesta colecção) – com aparições do fantasma da guitarra samplada de Pierce recuperada das cinzas – compõem aquilo que é tanto uma justíssima homenagem quanto um óptimo álbum de música daquela América "borderline" e lendária que nunca nos fatigaremos de escutar, ler e admirar.