Quando, em 1997, Jeff Buckley morreu por afogamento no Wolf River - um afluente do Mississipi -, a sua discografia consistia de um e só um álbum de estúdio (Grace, 1994). Actualmente, sem que tenha sido registado algum fenómeno de ressurreição miraculosa, contam-se 10 álbuns de compilações, 11 ao vivo, 2 box-sets, 2 EP, e 5 videos, nos quais faltará ainda incluir outros cofres do tesouro que, na Wikipedia, recolhem inéditos como 'Dido's Lament' (uma ária de Dido e Æneas, de Henry Purcell, interpretada no Meltdown Festival de 1995, sob a direcção de Elvis Costello) ou "All Flowers In Time Bend Towards the Sun" (a colaboração de Buckley com Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins, que esta impediria de ser publicada considerando-a "inacabada" - ainda que acrescentando "Talvez eu não venha a ter essa ideia para sempre"). Responsável por tamanho dilúvio de material post mortem? Mary Guibert, a mãe adolescente do jovem génio Buckley, filho de outro Buckley genial, Tim, tão mais excepcional explorador dos infinitos sonoros quanto figura paternal distante e ausente. O qual, em It’s Never Over, Jeff Buckley (2025), o documentário de Amy Berg agora disponível, apenas de passagem é referido por Tim em à parte acri-doce: "O que herdei do meu pai? Pessoas que se lembram do meu pai... pergunta seguinte?" (daqui; segue para aqui)
Creio
que foi Lloyd Cole quem, contrariando o habitual lugar-comum segundo o qual
todos os críticos de música não passam de músicos frustrados, confessou que, no
caso dele, se passava exactamente o oposto. Não garanto que Sérgio Godinho
esteja disposto a afirmar outro tanto mas a verdade é que, durante quarenta
semanas, no ano passado, nas páginas do “Actual”, ele foi o colega da coluna do
lado, apresentando, uma a uma, as suas Caríssimas Quarenta Canções. O
pretexto era o igual número de anos da sua discografia – iniciada em 1971 com Os Sobreviventes – e, como pouco frequentemente acontece quando se desafia
músicos a escrever sobre música, as quatro dezenas de crónicas agora publicadas
em livro não só não envergonharam os ilustres pares cá da casa como
demonstraram ser "music-writing" do
bom. Quase salomonicamente divididas (16 peças lusófonas, 18 anglófonas, 4
francófonas, 2 em castelhano), exibem o rol de clássicos previsível (de Dylan,
a Presley, Beatles, José Afonso, Amália, Stones, Brel, Brassens, José Mário
Branco, Caetano Veloso – embora nem sempre pelo lado mais evidente: não se está
à espera que a entrada dos Beatles seja "Sexy Sadie" ou que Gainsbourg apareça
a cantar "Sous Le Soleil Exactement", com Anna Karina), outras nem por isso
(Klaus Nomi/Henry Purcell?...), umas quantas idiossincrasias particulares (António
Mafra, Tony de Matos, Frei Hermano da Câmara), e uma literalmente intrigante
(colega, a defesa de "Handle With Care", dos Traveling Wilburys, não me
convenceu...). Com as ilustrações de Nuno Saraiva a potenciar o processo, como
diz Godinho, “compreendemos sempre melhor os autores ao imaginarmos as frases
que, quanto a nós, ou disseram sem eles saberem, ou pensaram sem nós sabermos, exactement”.
01 December 2009
ATMOSFERA DE NOVA IORQUE
Shara Worden parece genuinamente surpreendida (e feliz) por receber, vindo de Lisboa, um telefonema de alguém interessado em conversar com ela sobre a música que, nos My Brightest Diamond, compõe e interpreta. E, assim que se lhe pergunta por que motivo alguém com irrepreensível formação clássica – da Universidade de North Texas, a Moscovo e Nova Iorque – “acaba” como elemento de uma banda pop, ri-se com vontade e responde: “Mas eu, enquanto estudava, cantava também em bandas de rock. Gosto muito de ópera e de música clássica mas o que realmente prefiro é compor e escrever canções. Acabou só por ser uma questão do que me sentia impelida a fazer”. É um belo ponto de partida. Porque a educação académica de Shara – essencialmente centrada no canto lírico e na música de Purcell e Debussy – parece tê-la imunizado contra os portentosos desastres que, no passado, decorreram das colisões frontais entre rock e música clássica.
Ela confirma e exemplifica: “Quando estava a compor A Thousand Shark’s Teeth, escutei bastante as canções de Samuel Barber e os primeiros quartetos de cordas de Webern, apetecia-me explorar essas áreas musicais. É por isso que, em ‘Apples’, há todos aqueles pizzicatos, a melodia das cordas se transfere de uma voz para outra... todos esses compositores do meio do século passado encaravam o colorido tímbrico como melodia em vez de se apoiarem sobretudo na harmonia para impulsionar a música. Foi algures por aí que procurei encontrar um terreno de compromisso: não estava a escrever música clássica, era pop, mas tentava descobrir uma forma de utilizar essa linguagem neste contexto. Por exemplo, em 'The Diamond', imaginei como poderia soar ali o crescendo das cordas do Adagio For Strings, do Barber”.
A verdade é que não é espécime único: um pequeno contingente de "meninas do conservatório" – Regina Spektor, Joan "As Police Woman" Wasser, Christina Courtin, St. Vincent/Annie Clark –, povoa a cena indie nova-iorquina: “Conheço-as, são todas minhas amigas. Há, de facto, aí, qualquer coisa especial. Aquela sensação de, quando encontramos alguém pela primeira vez, nos apercebermos logo de que temos algo em comum. Não que falemos muito acerca disso mas há, definitivamente, uma empatia a esse nível”. E corrige logo a minha imprecisão "de género": “Mas também há diversos homens. Não falando sequer no Sufjan Stevens (com quem ela colaborou), existem também o Bryce Dessner e o Padma Newsome (que foi meu professor), dos National; estudaram ambos em Yale: um, guitarra clássica e, o outro, composição e viola de arco. E o Rob Moose, que tem tocado comigo e com o Antony. Em Nova Iorque, respira-se uma atmosfera muito especial: há escolas como a Juilliard e a Manhattan School Of Music mas as pessoas estão expostas a uma tão grande diversidade de músicas que há, simultaneamente, um desejo enorme de experimentação e uma imensa disponibilidade de músicos excelentes. Apoiamo-nos muito uns aos outros, colaboramos em imensas coisas”. E, quando se encontram todos, entretêm-se com uns quartetos de Beethoven? “(gargalhada sonora) É... e eu canto umas canções do Pierrot Lunaire, do Schoenberg...”.
Dos dois álbuns dos My Brightest Diamond, o segundo – A Thousand Shark’s Teeth – estava, originalmente, destinado a ser uma continuação em versão-quarteto de cordas do primeiro, Bring Me The Workhorse. Mas, pelo caminho, os planos foram drasticamente alterados: “A primeira de várias questões importantes foi eu ter-me apercebido que, em A Thousand Shark’s Teeth, havia muito poucas canções que me apetecesse tocar ao vivo. Depois da digressão de Bring Me The Workhorse, tive de tomar decisões. Gravei, então, 'Inside A Boy', 'From the Top of the World' e 'Ice and The Storm' que são as canções mais upbeat do álbum e as mais capazes de ser interpretadas em palco. Existiam versões de ‘Dragonfly’ e ‘Disappear’ mais longas e menos rock’n’roll e interroguei-me por que caminho pretendia, realmente, levá-las. Foi por essa altura, que imaginei que um disco de canções só com um quarteto de cordas era mesmo o que desejava fazer. Mas, a partir de certo ponto, comecei a pensar que seria óptimo poder acrescentar uns sopros aqui e ali, umas percussões acolá, e dei comigo a adicionar, a adicionar... Mas muitas canções são reflexos de outras. Para mim, há paralelismos entre ‘Something Of An End’ e ‘Inside A Boy”, por exemplo. São canções que fazem parte da mesma família, que fazem um uso idêntico do texto, que partilham uma linguagem semelhante”.
A “família” das referências eruditas de Shara, no entanto, não está fechada a outras provenientes da pop: “Só para lhe dar um exemplo, Shark’s Teeth foi definitivamente influenciado pelo Alice, do Tom Waits, pela ‘côr’ geral dele. Descobri o engenheiro de som que tinha sido responsável pela gravação e mistura desse álbum e do Blood Money, o Husky Höskulds, e consegui que fosse ele também a gravar e masterizar o nosso. Queria aquelas tonalidades escuras – com muitas marimbas, violinos, saxofone, clarinete-baixo – que havia no Alice. Mas há também muitos artistas visuais como o Anselm Kiefer ou o Robert ParkeHarrison que sinto como importantes para que faço. Ambos têm como matéria de trabalho a procura da compreensão do lugar do homem no universo e de um sentido de responsabilidade para com o planeta e de uns para com os outros o que, certamente, estava presente em A Thousand Shark’s Teeth, juntamente com o tema da morte e com certos traços mais banais do trabalho humano: seja no que diz respeito às relações laborais ou aos aspectos mais prosaicos e aborrecidos das actividades diárias e ao desejo de lhes fugir. Pode dizer-se que metade desse disco foi escrita um pouco aleatoriamente e a outra metade teve uma intenção muito mais pronunciada de explorar esses temas”.
E, em palco *, poderemos sonhar com o pequeno luxo da orquestra de câmara? “(nova e espontânea gargalhada) Quem me dera, meu amigo!... No concerto de lançamento do disco, pude recorrer a uma orquestra de câmara. Mas, para estes concertos, será uma versão muito mais despojada: só bateria, baixo e eu, numa diversidade de instrumentos, alguns deles, electrónicos. Será uma imagem muito mais crua e descarnada capaz de estabelecer uma relação mais directa e imediata. Pelo menos, é o que eu espero que aconteça. Mas não sei, é melhor, depois, dizer-me como foi!...”
*2/12/09 Lisboa, São Luis; 4/12/09, Coimbra, Teatro Gil Vicente; 5/12/09 Espinho, Academia de Musica
(versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 28.11.09)
(2009)
05 June 2008
MAIS LEVE QUE O AR
The Montgolfier Brothers - The World Is Flat
Apesar do frenesim esquadrinhador dos caçadores de cabeças ao serviço da maçonaria do "hype", a pop britânica ainda encerra meia dúzia de segredos bem guardados que quase parecem fazer gala em permanecer eternamente ocultos. Roger Quigley e Mark Tranmer (que gravam quase indistintamente como Gnac ou The Montgolfiers Brothers) fazem parte dessa seita que, mais ou menos regularmente, vai publicando álbuns e espera, sem se esforçar muito por isso, que o resto do mundo lhe preste alguma atenção.
Se os Gnac — nome que desenterraram de um conto de Italo Calvino — se dedicam essencialmente à música instrumental, os Montgolfier Brothers (evocação poética dos pioneiros da aeronáutica) combinam os instrumentais "incidentais" com a canção de formato clássico apropriadamente mais leve do que o ar e devedora de uma lista de referências musicais que eles generosamente põem à disposição: começa-se em Baden Powell e segue-se por Henry Purcell, François de Roubaix, Kraftwerk, Momus, Ennio Morricone, Plaid, George Delerue, Kryzstof Komeda e Durutti Column. E, acrescentaria eu, Felt, YMG, Virginia Astley e um pouco da assexualidade cultivada dos Smiths. Já havia um pouco de tudo isso nos anteriores Friend Sleeping e Biscuit Barrel Fashion (dos Gnac) e Seventeen Stars (dos Montgolfiers) e agora, um tanto mais sonoramente encorpado, mas não demasiado, volta a emergir neste The World Is Flat. Poderá ser "bedsit poetry", no entanto, no género, ainda continua a ser do mais potável.
(2002)