Showing posts with label Henry Miller. Show all posts
Showing posts with label Henry Miller. Show all posts

14 November 2024

EXÍLIO MEDITERRÂNICO

 
Hydra é uma das ilhas Sarónicas do Mar Egeu na qual, mui civilizadamente, por lei, automóveis e outros veículos motorizados sáo proíbidos, apenas sendo autorizado o transporte por meio de burro, mula e cavalo. A aproximá-la um pouco mais do estatuto de micro-paraíso terrestre (ainda que não a salvo da marabunta turística) existe ainda a população de umas largas centenas de amistosos gatos vadios que se deixam venerar por locais e visitantes. Não espanta, pois, que, a convite de Lawrence Durrell, tenha sido escolhida como refúgio por Henry Miller (que a classificou como ""wild and naked perfection") enquanto escrevia O Colosso de Maroussi (1941) ou por Leonard Cohen que lá - na companhia da amantíssima Marianne Ihlen - comporia "Hey, That's No Way To Say Goodbye","'Bird on the Wire", e "So Long, Marianne". Terá sido, talvez, em busca da mesma inspiração de que se alimentaram tão ilustres antecessores que Nuala Kennedy e Eamon O’Leary optaram pelo aprazível exílio mediterrânico em Hydra, transformando uma oficina de tecelagem do século XVIII com vista para o oceano em estúdio de gravação do álbum que tomaria o nome da ilha. (daqui; segue para aqui)

26 September 2022

PART-TIME
 

15 álbuns de estúdio. 10 ao vivo. Uma dúzia de singles e EP. Mais de duas dezenas de presenças em compilações e colaborações várias. Gillian Welch vê nele “o herdeiro do escuro espelho emocional de Henry Miller, do queixume de três acordes de Townes Van Zandt e do minimalismo de Lou Reed”. Beck incluiu-o num top 10 pessoal para a “Rolling Stone”. John Peel passou um álbum inteiro dele no seu programa de rádio. Kurt Wagner (Lambchop) e Jeff Tweedy (Wilco) persignam-se perante ele. Leonard Cohen, Dylan, Johnny Cash, Neil Young e John Cale são apontados como os padrões face aos quais deverá ser avaliado. Mas, 30 anos após o primeiro álbum (Umbilical Chords), Simon Joyner permanece virtualmente desconhecido e feliz, sem manager, agente ou publicista, ocupado com o seu "day job" (antes, um negócio de antiguidades, agora, em parceria com o amigo e baterista Mychal Marasco, uma loja de discos, em Omaha, Nebraska) e sem nenhuns planos de mudança. (daqui; segue para aqui)

03 July 2018

UM OVO GIGANTE

  
Começaram por chamar-se Aurora, porque, enquanto banda de liceu, Fran Keaney, Joe White, Marcel Tussie e Tom e Joe Russo, eram de opinião que deviam adoptar um nome “que ficasse bem no estojo das canetas ou nas costas dos cadernos”. Depois, vá lá saber-se porquê, optaram por World Of Sport. Assentaram, por fim, em Rolling Blackouts Coastal Fever (não perguntem, mas, entre outras histórias, parece haver um maligno virus do Camboja envolvido). Se nos recordarmos como Robert Forster, em Grant & I: Inside and Outside The Go-Betweens, descrevia a banda (“Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”), talvez uma outra designação se lhes ajustasse melhor: The Huge Fabergé Egg. Porque – e os RBCF nem sequer tentam esquivar-se à comparação – a dívida do quinteto de Melbourne para com o grupo de Forster e Grant McLennan é imensa. Mas, e é isso que justificaria o “huge”, sem se limitarem a replicar a sonoridade deste: assente no trio de guitarras Keaney/Joe White/Joe Russo, em Hope Downs, álbum de estreia, dir-se-ia que, na sombra, Tom Verlaine dirige as operações. 



E, ao fazê-lo, amplia desmedidamente a jóia de Fabergé sobre a qual se projectam reflexos dos R.E.M., Feelies, dos primeiros Echo & The Bunnymen, ou até das magníficas insolações dos Triffids. Se "How Long?", "Time In Common", "Exclusive Grave", "Cappuccino City" (um rascunho de "Streets Of Your Town") ou "The Hammer" (Forster com entoação dylaniana) contêm um mais elevado índice-GB, "Mainland" é um exercício sobre a teoria da cor, de Klee (“And all I saw was burning blue fading into blinding white, wade out past the rotting pier, out to the open water, son of a red roof city, (…) and back on the mainland cool change was rolling over, black sky was getting lower on golden sand”) com tragédia migratória em fundo (“And we talked about the land of our fore-mothers, now that we've shut the gate, it would be funny if it didn't make you want to cry”), "An Air Conditioned Man" evoca o Air Conditioned Nightmare, de Henry Miller (“You walk past the wall you first kissed her against, how could you forget? (…) Did it ever matter in the first place? Does she still think about it now and then? In her air conditioned home, on her air conditioned street, in an air conditioned city”), e todo o resto, por entre vertiginosas espirais de guitarras, desenha “uma colecção de postais de um mundo cada vez mais estranho em que sentimos que a areia nos foge sob os pés”.

13 June 2013

FELTRINELLI POP


O cérebro humano é um órgão maravilhosamente absurdo. Se, em 1830, Joseph Smith, no Livro de Mórmon, procurou persuadir os seus seguidores que, no século VI a.C., três tribos judaicas emigraram por mar para a América do Norte, sendo elas, na realidade, os verdadeiros antepassados dos índios americanos aos quais, naturalmente, depois do episódio montypythoniano "Look on the bright side of life", Jesus foi pregar um novo Evangelho, cerca de 40 anos antes, já o galês John Evans havia partido em expedição para o Novo Mundo em busca das míticas tribos que, segundo a lenda do príncipe Madog – suposto descobridor da América com 3 séculos de avanço sobre Colombo –, falariam o dialecto galês. Porque, aparentemente, Evans seria distante antepassado de Gruff Rhys (figura singular originária dos peculiaríssimos Super Furry Animals), no Verão passado, este decidiu organizar a sua digressão pelos EUA, orientando-se por um dos mapas que Evans deixou. Mas, entretanto, tinha já entre mãos outro empreendimento também não exactamente vulgar: a reactivação do duo Neon Neon (com o produtor Bryan Hollon aka Boom Bip), criado para a gravação, em 2008, de Stainless Style, um biopic sonoro sobre John DeLorean – “inventor” do DeLorean DMC-12, o automóvel convertido em "time machine" no filme Back To The Future –, agora dedicado à história de outra personagem fascinante, Giangiacomo Feltrinelli.

     
Marquês de Gargnano, nascido numa das mais ricas famílias de Itália, durante a 2ª Guerra integrou a luta armada contra Mussolini e aderiu ao PCI, fundou a Feltrinelli Editore (que publicou, entre muitos outros, O Leopardo, de Lampedusa, Trópico de Câncer, de Henry Miller, e Doutor Jivago, início do azedar da relação com os seus camaradas comunistas), jogou basquete com Fidel Castro, popularizou a famosíssima foto de Che Guevara (por Alberto Korda) na capa dos Diários de Bolívia e, em 1969, fundou os GAP (Gruppi d'Azione Partigiana), contemporâneos das Brigadas Vermelhas nos Anos de Chumbo da guerrilha urbana em Itália. Morreria em 1972, por acidente com explosivos junto a um poste de alta tensão ou (as versões divergem) assassinado pela polícia e, embora com contornos assaz diferentes, de modo equiparável ao que se passou com o francês Jacques Mesrine (a autobiografia Instinto de Morte acaba de ser traduzida em português), entrou para o panteão dos fora-da-lei glorificados. A estratégia estética Neon Neon para Praxis Makes Perfect consistiu, então, em, sobre uma matriz de "synthpop" abstractamente "eighties" que funciona como tela de projecção neutra, cunhar vinhetas informativas em registo "fake-radio" entregues à voz de Asia Argento, ironizar pela citação e alusão subtis – “I've got the brains, you've got the looks”, de "Opportunities (Let's Make Lots Of Money)", dos Pet Shop Boys, vira “I’ve got the books, you’ve got the looks” cantado pela heroína "kitsch" italiana Sabrina Salerno, a do biquini indiscreto no videoclip de "Boys" – ou, em "Mid Century Modern Nightmare", inventar uma bissectriz entre os Magnetic Fields e Human League francamente viável. Tivesse sido Momus a pegar na ideia, e Praxis Makes Perfect seria, possivelmente, uma preciosidade. Com assinatura Neon Neon não deixa, ainda assim, de ser recomendável.

10 February 2011

30 LITERARY QUOTES THAT JUST MIGHT GET YOU LAID
(material de estudo e memorização)



Top 3

“For a fellow who’s not too much to look at, you have the instincts of a champion” (The Enchantress of Florence by Salman Rushdie - this man was once married to Padma Lakshmi. He must have done something right)

“She would lift her peignoir above her knees and say to her husband: ‘Give baby a kiss...’” (First Love by Isaac Babel - who enjoys saucy French words? Hopefully, your admirer does)

“What holds the world together, as I have learned from bitter experience, is sexual intercourse” (Tropic of Cancer by Henry Miller - infamous heartbreaker, that Henry Valentine)

(2011)

12 March 2008

MEFISTÓFELES COM ALGO DE DRUÍDA



John Jacob Niles - My Precarious Life In The Public Domain

Foi através de Bob Dylan - No Direction Home, o documentário de Martin Scorsese publicado no ano passado, que o mundo "at large" travou conhecimento com John Jacob Niles. As imagens de Woody Guthrie, Odetta ou de todos os restantes nomes lendários da folk norte-americana do século XX podiam ser impressionantes mas muito poucos estariam preparados para aquela verdadeira aparição de uma personagem de assombração, tocando dulcimer e cantando melodias tradicionais num sobrenatural falsetto. Essa boleia foi muito convenientemente aproveitada para a reedição deste conjunto de baladas (a edição original data de 1940) recolhidas pelo folclorista Francis James Child que Niles — nascido, em 1892, no Kentucky, possuía apurada formação musical académica e compôs diversas peças de música erudita — interpreta acompanhado por um dos cerca de trinta dulcimers que ele próprio construiu. Dylan chamou-lhe "a Mephistophelean character" e Henry Miller afirmava que "ele tinha uma voz que evocava memórias de Artur, Merlim e Guinevere, havia algo de druída nele". Tinham ambos razão.



(2006)

10 March 2008

PESADELO EM AR CONDICIONADO



Nick Cave & The Bad Seeds - Dig, Lazarus, Dig!!!

Nick Cave está em fúria. Uma fúria sagrada de profeta bíblico alucinado, que se descobre impotente para, citando-o, impedir a caminhada vitoriosa das “máquinas do mal”. É o próprio mundo que parece estar paralisado e obedecer sonambulamente a estímulos que não identifica nem controla e todas as personagens que o habitam dir-se-ia viverem no “pesadelo em ar condicionado” de que falava Henry Miller. Lázaro – o Lázaro, irmão de Marta e Maria Madalena, que o lendário Cristo, segundo o evangelho de João, terá ressuscitado dos mortos e que, de acordo com o “evangelho secreto” de Marcos (condenado por Clemente de Alexandria), seria o “jovem bem amado” de Jesus com quem este terá passado uma noite gymnon gymnō (“homem nu com homem nu”) – vagueia perdido por Nova Iorque, Los Angeles e S. Francisco, torna-se “increasingly neurotic and obscene” e, no fim da linha, “junky” e sem abrigo, é intimado a cavar de novo a sua sepultura;



Little Janie e Mr. Sandman (quase personagens do Greetings From Asbury Park, de Springsteen, que a música ecoa) protagonizam uma narrativa turva de assédio cuja moral é “something about the corruption of the working class”; o condutor-zombie da “road-song” “Moonland” sonha com a doce sensação de desaparecer e “to leave no trace at all”; e, em “We Call Upon The Author!”, depois de ter semeado alertas como “get ready to shield yourself from our catastrophic leaders”, Nick Cave interpela o hipotético demiurgo (o que vive no interior da sua cabeça ou o maligno criador do universo): “Who is this burdensome, slavering dog-thing that mediocres my every thought?” Emotiva, directa, tensa e suja, a intempérie sonora dos Bad Seeds troveja, ora distante, ora em pleno centro da acção, umas vezes recorda Dylan, outras (caso de “Hold On To Yourself”, mas, de um modo geral, sempre que a teia de “loops” de Warren Ellis se apodera do corpo das canções) sugere a ideia de ser apenas um segundo volume da assombrosa banda sonora de Cave/Ellis para Escolha Mortal/The Proposition. Do qual, vendo bem, Dig, Lazarus, Dig!!! não é senão a natural continuação. (2008)

19 March 2007

SONHOS, TUMORES E SOMBRAS

Em 1978, George W. S. Trow viu o futuro e ele era aterrador. Um mundo onde os media (e a televisão, em particular), lenta mas inexoravelmente, haviam corroído o humano e o social tal como, até aí, os conhecíamos, tinham degradado ao nível do cavernícola a cultura e a ideia que dela fazíamos, e, entre a "grelha do indívíduo" e a "grelha dos media", submetido ao que designava como "the aesthetics of the hit", o trabalho da televisão consistia em condicionar e alterar a percepção do real "estabelecendo falsos contextos e redigindo a crónica da decifração dos contextos existentes para, finalmente, instituir o contexto de nenhum contexto e a ele se dedicar". Quase trinta anos depois, a profecia de Within The Context Of No Context é o mundo em que vivemos, do qual a maioria do sapiens sapiens até, aparentemente, aprendeu a gostar e só muito dificilmente abdica. Trio: Songs And Stories, de Laurie Anderson, começa por citar George W. S. Trow — o qual, de certo modo, acaba por servir de conceito-oculto de todo o espectáculo — e, naquela forma casualmente informal (mas milimetricamente estruturada) que é habitual nos seus concertos/performances de "spoken word", deambula em zig-zag por entre uma rede de associações livres, saltos mortais entre sonhos e memória e choques frontais com o mundo-em-bruto.


Quando o castelo de Montemor-o-Velho foi edificado, no século X, Portugal ainda não existia. Quando, no passado sábado, Laurie Anderson nele entrou (pela Porta da Peste, na barbacã?), trazia para nos contar uma história acerca de bandos de pássaros que voavam em círculos sobre o vazio, quando nem sequer o espaço nem o tempo existiam. E como um deles, ao aperceber-se que não havia terra onde sepultar o pai, o enterrou na própria nuca, assim dando origem à memória. Sonho? Como o do flautista que, no estúdio, tocava completamente despido e coberto de insectos que eram, afinal, apenas minúsculos microfones? Ou como o dos colossais Underwear Gods que descem das paredes dos edifícios urbanos e caminham, como Godzilla, pelo meio das cidades? Ou memória?


Para The Waters Reglitterized (exposição de desenhos, gravuras e video de alta-definição inaugurada em Setembro do ano passado na Sean Kelly Gallery de Nova Iorque), Laurie conta como sentiu o desejo de começar a desenhar os sonhos e a familiarizar-se com a sua linguagem: "Sonhamos para recordar ou para esquecer? E para quê sonhar se quase sempre esquecemos os sonhos logo a seguir?". E, depois de citar Henry Miller ("Podemos olhar para as coisas durante toda a vida sem realmente as ver. Este 'ver' é, muitas vezes, uma forma de 'não ver'. Se formos vendados, podemos desenvolver os sentidos do tacto, olfactivo e auditivo e, assim, ver, pela primeira vez"), apresenta o seu projecto pessoal de reprogramação: "Reinventar o que já vimos, recriar a sua energia sensual animal. E reconhecê-lo como a ilusão que, na verdade, é. O meu objectivo secreto é começar a ver desta forma não apenas os sonhos mas também aquilo que penso quando estou acordada".Só é difícil no princípio. Por isso, recupera um elo de ligação com o anterior The End Of The Moon ("It's like stuttering. You're only afraid at the beginning. That's where the fear is. So you only st-st-stutter at the beginning of a word. When it's st-starting. I mean, nobody ever stutters at the end, there's no stuttering-ing-ing-ing-ing. Because by then it's too late to be afraid. By then there are only the regrets") e, pela mão de Trow, "life on a string", caminha sobre o arame, que começou a desenhar, desde a Institutional Dream Series dos anos 70 ("Tudo começou pelo facto de eu adormecer nas aulas de História de Arte. Nos sonhos, misturava a minha vida pessoal com a História de Arte. Passei, então, a ir para locais diferentes, como as sessões noturnas de um tribunal, um barco que estava atracado no porto de South Street, uma casa de banho de mulheres ou a biblioteca da universidade de Columbia e adormecia. Escrevia os sonhos e as associações que neles fazia com a instituição onde aconteciam. Era muito interessante. Especialmente os do tribunal. Era quase como olhar para uma história fotográfica") até The Waters Reglitterized e Trio.


E martela lugares-comuns até os desfazer em pó ("Only an expert can see the problem. And only an expert can deal with the problem. Sometimes an expert is part of the problem. But only an expert can deal with the problem"), dirige faróis de nevoeiro contra o mundo-fantasma dos zombies dos media, recoloca dois ou três pontos nos "i" ("Most of the time, when we say 'Hey America!', it's a small group we have in mind") e, eventualmente, tropeça na mesma precária conclusão a que já chegara em The End Of The Moon: "Maybe the answer is that life itself is just bad art". Skuli Sverrison (baixo), Peter Scherer (teclados) e os cantos guturais e as cordas dos Chirgilchin siberianos (assim como o violino, teclados e projecção de imagens de Laurie Anderson) foram apenas os adereços mínimos indispensáveis para um bloco operatório de sombras onde se tratava somente de extraír o mais profundamente alojado dos tumores: "And then, at the bottom of the heap, there's your subconscious. And it's always trying to communicate but the problem is it can't use words. And so it shows you things. See this blue? What does this remind you of? And you can spend years trying to figure this kind of thing out". (2006)