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06 December 2023

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXXIX)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)
Harold Budd - "The Gunfighter" (de Lovely Thunder, na íntegra aqui)

Cocteau Twins/Harold Budd - "Sea, Swallow Me" (de The Moon and the Melodies, na íntegra aqui)

Robert Fripp and the League of Crafty Guitarrists - Live

David Sylvian - "Taking The Veil" (de Gone To Earth, na íntegra aqui)

17 September 2008

VER O SOM, OUVIR A IMAGEM



Hector Zazou et Bernard Caillaud - Quadri+Chromies

Hector Zazou é bem o paradigma do músico contemporâneo que, definitivamente, se desembaraçou de todos os compromissos estéticos, "de escola" ou género, e encara o universo sonoro — todo o universo sonoro — como um potencial campo de descoberta e experimentação. Desde os capítulos iniciais na série "Made To Measure" (da Crammed Disc) até aos magníficos painéis transcontinentais e transmusicais de Les Nouvelles Polyphonies Corses e Songs From The Cold Seas, passando pela sublime releitura de Rimbaud, Sahara Blue, por Strong Currents ou pelas inúmeras colaborações com Laurie Anderson, Bill Laswell, Sandy Dillon, John Cale, Harold Budd ou Peter Gabriel, Zazou tem feito do desdobramento de personalidade uma escola de pensamento autónoma. Quadri+Chromies (CD e DVD em colaboração com o físico e pintor Bernard Caillaud, morto em 2004) aventura-se ainda por um outro território: o da sinestesia, através do qual, procura "dar a ver o som e escutar as imagens".



Segundo Zazou, o que interessava Caillaud "era a pintura cinética, como a de Vasarely, as bandas de cores, os círculos, as formas geométricas e a maneira de trabalhar estas formas no espaço. Em seguida, pensou como poderia ser interessante colocar estas imagens em movimento e começou a conceber equações matemáticas para poder animar as cores e as formas. Passou para equações cada vez mais sofisticadas à medida que os próprios computadores — começou com um Amiga rudimentar — se sofisticavam também. O resultado foi aquilo a que chamou 'pintura algocinética' (de 'algoritmo' e 'cinética')". Com Brian Eno, David Sylvian, Peter Buck (R.E.M.) e Ryuichi Sakamoto integrados na tripulação, Quadri+Chromies actua como uma espécie de mandala audiovisual em permanente e assombroso processo de reconfiguração, sumetido a regras estritas ("Não partimos de uma imagem existente, como na música para o cinema, mas da ideia de uma imagem. Decidíamos, por exemplo, ir das linhas aos rectângulos, depois pensávamos no ritmo das mudanças de formas e, enfim, nas modificações de cor no interior de cada tema") e conduzido por "duas grandes inspirações: Derrida e Deleuze; utilizámos os princípios por eles enunciados: colocar ao centro o que se encontra na margem... do ponto de vista musical, por exemplo, numa melodia, não conservando o acorde mas apenas a ressonância do acorde". Agora em directo e a cores, queiram, por favor, abandonar a caverna de Platão.

(2006)

12 September 2008

LUGARES DE FICÇÃO



Hector Zazou/Vários - Chansons des Mers Froides
/Songs From The Cold Seas

Em Chansons des Mers Froides, penetramos noutra realidade. Aquela que Hector Zazou (depois das Nouvelles Polyphonies Corses e Sahara Blue) "filmou" para um disco em que as tradições musicais da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das Ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia e da ilha japonesa de Hokaido propõem uma visão de outro mundo onde as vozes tradicionais de Lioudmila Khandi, Elisha Kilabuk, Värttinä, Catherine-Ann McPhee, Lena Willemark ou Tokiko Kato se equivalem às de Björk, Siouxsie Sioux, Suzanne Vega e Barbara Gogan ou às contribuições de John Cale, Harold Budd ou do Balanescu Quartet.



Com concepção gráfica de Russell Mills (revejam-no ao lado de Brian Eno ou David Sylvian), num conjunto de doze postais - um para cada tema - incluindo fotografias de Philippe Romeo e textos de Zazou, sejam bem-vindos a um universo glacial, lugar de ficção e ilusão, no qual gelo e neve se transformam numa boa definição do paraíso na terra.

(1995)

11 September 2008

UM PINHEIRO DE NATAL



Quando, em tempos, pediram a Hector Zazou a receita para um álbum como Sahara Blue, ele explicou que "no início, estavam as palavras escolhidas pelo seu ritmo e som. Depois, a música: a princípio, apenas um pano de fundo vagamente colorido. A seguir, as vozes: tubos de côr para desenhar uma linha, um quadrado, um círculo. Vai-se, então, para a tela, modifica-se o fundo, pinta-se, de novo, as formas, recorta-se os quadrados, alarga-se os círculos, quebra-se as linhas, segue-se por outras vias que obrigam a usar outros ritmos e contrastes. Pode ter de se modificar completamente o fundo e começar tudo de novo: colocar a voz de outro modo, trabalhar cada elemento como uma matéria-prima e consolidá-lo através da contribuição dos músicos". Em pessoa, Zazou exprime-se à imagem da sua música: pausadamente, medindo cada palavra, exprimindo mais dúvidas do que certezas. Enquanto levanta um pouco o véu sobre o sucessor de Sahara Blue, o novo Songs From The Cold Seas, há dois anos em preparação.

Numa entrevista, a propósito de Sahara Blue, afirmava que não se tratava de um disco de rock nem de world music. Se gravações como essa ou Les Nouvelles Polyphonies Corses, onde se cruzam músicos e sonoridades de todo o mundo, não são world music, o que é para si a world music?
O problema é saber se a world music é uma mistura ou se é música profundamente ancorada numa cultura e que se serve de outros elementos. Acerca das Nouvelles Polyphonies Corses, estou de acordo, será world music no sentido tradicional do termo. É música com identidade própria a que se acrescenta elementos exteriores. Mas pode haver outra definição: a do cruzamento de elementos de todos os países e, aí, ter-se-à algo que não é culturalmente identificável, com diversos aromas e paladares, mas de que não se pode dizer se é africano, japonês ou francês. Por isso, não existe uma resposta definitiva.

Recordo-me de uma vez ter dito que, se desenhasse um retrato de si próprio, seria uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo. O que me parece uma bela metáfora para um conceito de world music...
Voltei a pensar sobre isso e já posso ser mais preciso. Não estou muito certo de que a música "pura" seja menos interessante nem de que os cruzamentos sejam uma solução de futuro. Discutia isso com um amigo e dizia-lhe que uma floresta é suficientemente bela em si mesma, não ganha nada em ser domesticada. E ele respondeu-me que o que eu fazia não era uma árvore numa floresta mas um pinheiro de Natal (risos). O que é verdade: a árvore está lá, mas cheia de decorações. É uma definição que me assenta ainda melhor.



Quando entrevistei Jean-Pierre Lanfranchi, que trabalhou consigo nas Nouvelles Polyphonies Corses, ele disse-me que esse género de encontros era realmente interessante mas não afectaria em nada a tradição sobre que se exercia...
Sem dúvida. Se as tradições locais forem suficientemente fortes, isso não as abalará. É até possível que essas experiências tenham um lado um pouco "gadget".

De qualquer modo, como procede, habitualmente, nesse terreno: procura contrastes, identidades ou explorar uma linguagem comum?
Procuro uma linguagem comum. Não me interessa criar choques. Tento encontrar espaços harmoniosos onde um pianista japonês como Ryuichi Sakamoto possa entrar sem perturbação e colocar a sua cultura e sensibilidade ao serviço, por exemplo, da voz de Jean-Pierre Lanfranchi nas Nouvelles Polyphonies Corses, num diálogo que não atraiçoa um nem o outro.

Nesse disco ou no próximo Songs From The Cold Seas sobre as músicas do Norte, como actua: investiga profundamente as tradições sobre que vai trabalhar ou reage-lhes apenas instintivamente como um ouvinte exterior?
Em cada caso é diferente. Em Songs From The Cold Seas, nada sabia dessas músicas. Foi a imagem dos mares gelados que me atraiu e me fez desejar saber como seriam as músicas desses países. Durante mais de dois anos desloquei-me aos lugares, procurei discos e cassetes, contactei músicos. A pouco e pouco, construí uma imagem dessas músicas, procurei descobrir pontos de contacto. A segunda etapa foi descobrir os instrumentos que os enquadrassem. No caso da Córsega, tentei saber se aquela fortíssima tradição "a cappela" aguentava um suporte instrumental. Não existe um método global.



Quando foi publicado um dos seus discos com Bony Bikaye, a síntese da sua biografia indicava como influências os Platters, Shadows, as revoltas estudantis francesas, Satie, a ópera e Raymond Roussel. São essas, de facto, as fontes de que se alimenta?
Foram. A partir de certa altura, no entanto, essas influências começaram a dissolver-se e apareceram outras. Agora, quando me envolvo num projecto, é quase como se se tratasse de uma tese universitária. Leio imenso, escuto muita música, mergulho por inteiro nele. As revoltas estudantis influenciaram não apenas a música mas toda a minha vida. Ensinaram-me, por exemplo, que a técnica de um músico não é o mesmo que a criatividade pela qual ele afirma a sua independência perante um sistema musical. O que, se calhar, me leva a adorar agora um disco como o dos Nine Inch Nails que é o género de música que eu nunca faria mas que ousa contrariar asregras.

Em Songs From The Cold Seas, participarão Björk, Siouxsie Sioux, Jane Siberry, Suzanne Vega, Mark Isham, John Cale, Jerry Marotta, Harold Budd e muitos outros. Voltando ao princípio, pode, neste caso, falar-se de world music?
Não pretendi fazer um disco étnico. Assim, tanto é a minha visão dos mares gelados completamente inventada, como tem raízes locais. Se a Jane Siberry e a Björk cantam canções tradicionais canadianas e islandesas, no caso da Suzanne Vega e da Siouxsie é mais uma invenção romântica da minha visão dos mares do Norte. Na realidade, vão ser publicados três discos: um em que predomina essa visão mais cinematográfica em que todos os estilos se combinam um pouco, como aconteceu em Sahara Blue; outro em que eu não intervenho, totalmente "a cappela", somente com cantores (uns intervêm no primeiro, outros não, nomeadamente, as cantoras dos Hedningarna) e um terceiro, extremamente violento, apenas com xâmanes da Sibéria. Vão ser editados em sequência, muito próximo uns dos outros.

(1994)