* na verdade, a ordem é razoavelmente arbitrária...
(2009)
28 September 2009
SANGUE POLAR
Hanne Hukkelberg - Blood From A Stone
Em 2007, Hanne Hukkelberg tinha acabado de editar Rykestrasse 68 e caracterizava a sua atitude perante a criação musical assim: “Quando estou a compor, penso de uma forma muito visual, crio imagens e filmes na minha cabeça acerca das músicas que vou compor e da direcção em que as vou conduzir”. O que, na altura, tanto valia para esse álbum como para o anterior Little Things (2005), duas preciosas jóias de relojoaria sonora que, integrando instrumentação convencional e "found sounds" diversos, acolhiam microuniversos que apenas se deixavam infinitamente revelar após prolongado e atento convívio. Em Blood From A Stone, talvez se possa dizer que – se nada de verdadeiramente radical aconteceu relativamente ao modus operandi – Hanne Hukkelberg passou a pensar as canções mais exactamente enquanto canções e, sem lhes amputar a dimensão visual, é, agora, uma lógica propriamente musical que comanda todo o processo.
Na origem, terá estado a velha paixão adolescente pelos Pixies – dos quais, em Rykestrasse 68, já incluíra uma versão de "Break My Body" –, por Siouxsie & The Banshees e, acrescentaria eu, o lado menos véus-e-rendas dos Cocteau Twins. Gravado na ilha de Senja, na costa noroeste da Noruega, e voltando a contar com a colaboração do fidelíssimo produtor Kåre Vestrheim, é um pouco como se a atmosfera polar tivesse puxado para a superfície o lado mais agreste e angulosamente art-punk de Hukkelberg – os "found sounds" (frigoríficos, fogões, pedras) permanecem mas solidamente embutidos na arquitectura global –, acentuando asperezas e um ímpeto rítmico primordialmente visceral.
01 - Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Horsedrawn Wishes – Rollerskate Skinny; disse dele coisas do tipo “o melhor disco de todos os tempos (passados, presentes e que hão-de vir)”, depois de os ter visto, ao vivo, em Dublin; continua a ser muito bom (tive de o downloadar porque, entretanto, perdi-o!...) mas parece-me que, na altura, fui um bocadinho hiperbólico...
02 - Um disco que seja muito importante agora + razão.
Um é difícil. Mas qualquer coisa algures entre os três álbuns da Hanne Hukkelberg, o Poème, de Ernest Chausson (um romântico francês do sec XIX que eu nem fazia ideia que tinha existido e descobri a ouvir rádio), pelo Itzhak Perlman e Zubin Mehta, e The Bairns, de Rachel Unthank & The Winterset. Todos por causa daquela insubstituível sensação de “mas de onde é que isto saiu?...”
03 - Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
Não é “um disco”, é a discografia completa dos ABBA (álbuns, singles, DVDs) e “o resto do mundo” até tende a estar do meu lado; “o resto do mundo” do suposto “bom gosto” – com ilustríssimas excepções – é que lhe torce o nariz. Ah… e oMamma Mia é um grande filme.
04 - A capa de disco favorita.
Resposta impossível. São imensas. Mas, assim de repente, em jacto de memória, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress.
05 - Mais CD ou mais vinil? Porquê?
De certeza, mais CD. Tive a minha fase de fundamentalista do vinil mas a pressão da realidade venceu. Continuo, no entanto, a não dominar a técnica de retirar o CD do celofane (a cena da Mira Sorvino, no Lulu On The Bridge, do Paul Auster, a debater-se com o mesmo problema sempre me falou ao coração). E a caixa de plástico dos CD deve ser o exemplo de design mais mal amanhado da História.
06 - Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
Não me lembro (quero dizer, comprado mesmo por mim e não financiado por fontes externas). Mas pode ter sido ou o Saucerful Of Secrets, dos Pink Floyd (mais dois ou três álbuns e ficaram prontos para o matadouro – a propósito, nunca consegui ouvir o Dark Side Of The Moon até ao fim) ou o Stormbringer, de John & Beverley Martin, ou o Astral Weeks, do Van Morrison. Por aí.
07 - Qual o último disco que comprou?
Renaissance Dance (Susato, Morley, Praetorius, Mainerio) – The Early Music Consort Of London/David Munrow; em Fevereiro de 2008, Sevilha. Andava há anos atrás dele (o meu velho vinil já estava imprestável) e, de surpresa, acabei por descobri-lo ali.
08 - Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
Não faço a menor ideia.
09 - Qual é o artista mais representado na colecção?
Há vários de que tenho as discografias completas ou quase. Mas há-de ser qualquer coisa entre, Richard Thompson, Tom Waits, Van Morrison, Laurie Anderson, Leonard Cohen, Elvis Costello e Nick Cave.
10 - De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Sendo que “comprar”, comigo, é um conceito bastante relativo (a esmagadora maioria é-me enviada pelas editoras/distribuidoras), diria Leonard Cohen. Que, como se sabe, mesmo quando os discos aparentam ser menos que óptimos, trata-se apenas de engano e ilusão.
11 - Que projectos tem em mãos actualmente?
Aplico toda a minha energia no imenso objectivo de nunca ter projectos.
(2009)
19 October 2008
DE VIAGEM
Lonely Drifter Karen - Grass Is Singing
Se, num maravilhoso universo paralelo, tivesse passado pela cabeça de François Truffaut convidar Tom Waits para, a meias com Björk, compor a banda sonora de um filme musical seu – avisando-os, porém, que as partes vocais deveriam ser interpretadas, à vez, por Jolie Holland, Lhasa de Sela e Doris Day (sim, sim) –, o resultado final, muito provavelmente, não andaria assim tão longe de Grass Is Singing.
Neste menos maravilhoso universo, há que contar a história da austríaca Tanja Frinta que, de viagem entre Viena e Barcelona, via Gotemburgo, se cruzou com o teclista maiorquino Marc Sobrevias e com o percussionista italiano Giorgio Menossi, constituindo um trio baptizado com o nome de uma personagem de Os Idiotas, de Lars Von Trier. Como, de certo modo (mas de modos diferentes), acontecia também nos óptimos álbuns de Jesca Hoop, Hanne Hukkelberg e Phoebe Killdeer, somos instantaneamente capturados por uma suave vertigem onde “chanson”, cabaret, “nursery rhymes”, Wurlitzers, “film noir” e a Boadway coexistem no interior do espírito de uma Mary Poppins delicadamente demente e nem por um único instante nos apetece tão cedo sair de lá.
(2008)
30 July 2008
FANTASMAS E DEMÓNIOS
(departamento THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (VI) *, no caso especial dos Halloween, Alaska - * segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")
Anja Garbarek - Briefly Shaking
Halloween, Alaska - Halloween, Alaska
Logo no início de 2001, Smiling & Waving, de Anja Garbarek, formulou algo de muito próximo de uma perfeitíssima síntese das diversas vias para a canção-pop "pós-clássica": aluna confessadamente atenta de Rickie Lee Jones, Kate Bush, Billie Holiday, Laurie Anderson e Meredith Monk e rodeada de adeptos da aguarela electro-acústica como Mark Hollis (dos Talk Talk) Steve Jensen e Richard Barbieri (dos Japan) ou Robert Wyatt, o terceiro álbum da filha de Jan Garbarek — após uma estreia apenas distribuída na Noruega e Balloon Mood, de 1996 — parecia ser o lugar de convergência de tudo o que, antes, havia sido esboçado e/ou estabelecido por David Sylvian, Björk, Portishead, Laub, Stina Nordenstam, Leila ou Alpha.
Podemos dizê-lo agora também, um antepassado quase directo da sublime poética electrocardiográfica de Little Things, de Hanne Hukkelberg, publicado no ano passado. Briefly Shaking não altera nada de fundamental no funcionamento do engenho da caixa de música mas, na filigrana sonora em que todas as canções são urdidas, é claramente perceptível que alguns dos fios de oiro e prata utilizados nas anteriores foram, agora, substituídos por arame farpado. Há, em diversos temas (inspirados pelo assombro e os rigores da maternidade), uma aspereza metálica, quase "industrial", as combinações tímbricas puxam, frequentemente, pela acidez dos contrastes (cordas e sopros líricos lado a lado com "wurlitzer", duras programações rítmicas, theremin, "bruitage" electrónica e até um "sample" da banda sonora de The Forbidden Planet, de Bebe e Louis Barron) e, de um modo geral, um espírito de "lullabies" assombradas, surdamente claustrofóbicas ("I breathe in and out while I try to focus, when I feel ok I twist my mouth to save what little air is left").
Halloween, Alaska - versão de "I Can't Live Without My Radio" de LL Cool J.
Há fantasmas e demónios idênticos a pairar sobre o segundo álbum dos Halloween, Alaska. O de Sylvian, certamente, mas, sobretudo, a sombra azul-cobalto dos Blue Nile, a cenografia de veludo-pop dos Prefab Sprout, a imponderável transparência de alguns momentos de Up, de Peter Gabriel. James Diers canta como um Mark Eitzel capturado pelas imagens de um filme de Atom Egoyan, as canções (incluíndo uma versão espectral de "State Trooper", de Springsteen), entre sintetizadores em movimentos de maré, linhas de baixo circulares e um ou outro estilhaço de luz da guitarra, dissolvem-se como neblina, e todo o disco desce como um requiem noturno ("A boy with such sad wings should stay off tall buildings and keep away from high wires, no circus left to join, nobody, just Des Moines") sobre a "skyline" paralisada das cidades.
(2005)
07 February 2008
A COLÓNIA DE INSECTOS
Silje Nes - Ames Room
O filão dos “originais escandinavos” não dá o menor sinal de se esgotar tão cedo. E, seja qual for a valorização que se atribua a cada publicação, será quase sempre muito difícil enquadrá-las em qualquer dos diversos rebanhos estéticos (e muito menos no dos copistas ao serviço da indústria da “remake”) que pastam ronceiramente nos amarelecidos prados da pop. Por comodidade e idêntica origem geográfica, seria tentador associar Silje Nes a Hanne Hukkelberg: ambas norueguesas em deriva por Berlim e, tanto uma como outra, praticando um tipo de pop electro-acústica, feita de minuciosas construções sonoras laboratorialmente intrincadas. Escutando com maior atenção, no entanto, pouco mais do que isso terão em comum. Se Hukkelberg prefere optar por algo que se poderia designar como instantâneos de alta-definição, Silje Nes parece trabalhar com a lente de um microscópio dirigido sobre uma colónia de insectos musicalmente activos e disciplinadamente organizados em ensembles de câmara que, para ela em exclusivo, actuam no canto mais escondido de uma caixa de brinquedos. Só lhe devemos ficar gratos por, secretamente, os ter registado para nós. (2008)
01 January 2008
MÚSICA 2007 - IV (CD & DVD)
(a classificação, por ordem decrescente, deverá ser vastamente relativizada)
1 - THE NATIONAL - BOXER
2 - Robert Wyatt – Comicopera
3 - Rachel Unthank & The Winterset – The Bairns
4 - Hanne Hukkelberg – Rykestrasse 68
5 - Mirah & Spectratone International – Share This Place: Stories And Observations
6 - Beirut – The Flying Club Cup
7 - Gogol Bordello – Super Taranta
8 - Jens Lekman – Night Falls Over Kortedala
9 - The Fiery Furnaces – Widow City
10 - Bruce Springsteen – Magic
O álbum que marcou indelevelmente 2007 – In Rainbows, dos Radiohead – nunca entraria numa lista dos 50 melhores, do ponto de vista estritamente musical. Porque, não tendo sido, mais uma vez, um ano em que fosse possível identificar sinais proféticos de alguma transformação germinando profundamente nas entranhas da pop – qual foi a última vez que isso aconteceu? quando voltará a ocorrer? –, a verdade é que, se seleccionar um top-10 foi um acto de consagração da sobreexcelência da dezena eleita, não foi menos uma violenta injustiça para muitos dos que acabaram por ter de ser excluídos. Que conste, pois: todas as fúrias do inferno deverão justissimamente abater-se sobre quem optou por não incluir aí Sweet Warrior, de Richard Thompson, Shades of Dorian Gray, de Danny Cohen, Kismet, de Jesca Hoop, Population, de The Most Serene Republic, The Unfairground, de Kevin Ayers, Apples, de June Tabor, Armchair Apocrypha, de Andrew Bird, Les Piqûres D’Araignée, de Vincent Delerm, A Love Of Shared Disasters, dos Crippled Black Phoenix, The Great Unwanted, dos Lucky Soul, Lucas, dos Skeletons And The Kings Of All Cities ou, para não agravar perigosamente demais o caso, White Chalk, de PJ Harvey. Mas não houve mesmo nada, nadinha, que se possa dizer ter sido “a marca” de 2007? Pronto, para não estragar as festas, façam então o favor de reparar na emergência do factor eslavo/balcânico dos Beirut e Gogol Bordello.
(2008)
09 December 2007
OUTRA ILUMINAÇÃO
Sigur Rós - Heima
Sigur Rós - Hvarf-Heim
Num ponto incerto da primeira metade da década de noventa do século passado – por comodidade, simplifiquemos bastante considerando que começámos a reparar nisso quando Björk, em 1993, publicou Debut –, a música do extremo Norte da Europa iniciou um gradual e quase ininterrupto processo de afirmação no exterior das suas fronteiras nacionais. Havia, é verdade, o longínquo precedente dos ABBA (e de mais uns quantos outros praticantes menores), mas esta “segunda vaga” optou antes por desbravar território habitualmente assinalado como “indie” e zonas afins. De facto, não existia nenhum motivo plausível para que aquela que é, muito provavelmente, a zona civilizacionalmente mais avançada do planeta não fosse capaz de gerar música dotada de uma identidade própria mas, ao mesmo tempo, totalmente em sintonia com o ar dos tempos. Foi, por isso, inteiramente natural que, dos Hedningarna às Värttinä, dos Gus Gus a Anja Garbarek, Jimi Tenor, Ai Phoenix, Stina Nordenstam, Jens Lekman, Hanne Hukkelberg, Kings Of Convenience, Jagga Jazzist, Múm, Irene, Sondre Lerche, Röyksopp, Benni Hemm Hemm e mais uns (consideráveis) quantos, a Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia – a Dinamarca mantem-se conspícua e misteriosamente ausente – tivessem começado a hastear bandeiras em domínios anteriormente sob quase total hegemonia anglo-americana. Bastante mais interessante, no entanto é que, de um modo geral, praticamente todos eles (independentemente da avaliação dos resultados) se furtassem deliberadamente à tendência “copy+paste” dominante e procurassem sublinhar traços de personalidade autónomos. Era exactamente a isso que se referia Georg Holm, baixista dos islandeses Sigur Rós, quando, por altura da edição de Agætis Byrjun (1999), afirmava “O que me deixa perplexo quando desembarco em Inglaterra, é até que ponto a música é urbana, frustrada, sem alegria. Nunca tem o ar de gastar um minuto a reflectir ou de oferecer qualquer matéria para reflexão”. E propunha um programa: "Apagar o quadro onde se distribuem todas as etiquetas musicais e deixar apenas um grande espaço em branco onde só se possa ler 'música'".
Quase uma década depois, ninguém duvidará que o objectivo foi atingido, embora as opiniões se possam dividir entre quem vê nos Sigur Rós apenas uma declinação da “new age” em variante “indie rock” escandinavo (e o apetite devorador com que inúmeros documentários, séries televisivas e filmes se lançaram sobre a música do grupo sempre que se tratou de retratar a “transcendência”, o “insondável maravilhoso” e a “imensidão” são, acerca disso, eloquentes) e quem os encara como a mais sublime oferenda dos deuses aos humanos desde os Pink Floyd.
Heima (duplo DVD) e Hvarf-Heim (duplo CD) não servirão para pôr fim ao debate mas, introduzem, pelo menos, alguns dados novos: concretizados no intervalo entre o final da digressão mundial que se seguiu a Takk (2005) e a pausa para reflexão pré-novo álbum, num recolhem-se as imagens de uma curta volta de concertos gratuitos pela Islândia (em modelo-filme-propriamente-dito e sob a forma de documentário) e, no outro, uma colecção de temas inéditos, versões alternativas e revisões acústicas de peças já conhecidas da banda. Se, no(s) filme(s), a assombrosa “coincidência” entre imagens e música (e a Islândia oferece o género de paisagem onde o director de fotografia mais sapateiro se transforma instantaneamente em inspiradíssimo poeta telúrico e toda a avalanche de preconceitos sobre a natureza “vulcânica” e “glaciar” da música dos Sigur Rós encontra a previsível confirmação) e a calorosa convivialidade dos concertos – ao ar livre, em centros sociais e paroquiais, fábricas de conservas desactivadas, minúsculas igrejas, perante as várias gerações de famílias das reduzidas populacões locais ou no confronto com “cromos” indígenas – são, à partida, apostas esmagadoramente ganhas, é, porém, nas releituras via vibrafone, pianos de brinquedo, marimbas de lousa, ensemble de cordas, harmónios de fole e banda de sopros em trânsito do palco para a rua (saúde-se aqui a porosidade entre filme e registo áudio), contra a formulaica estética eléctrica “fogo e gelo” de espirais “orgásmicas” em crescendo/diminuendo, que alguma “food for thought” desponta. E isso é bom e, se calhar, muito inesperadamente iluminador. (2007)
17 June 2007
68, MORADA IMAGINÁRIA
A atmosfera de duas cidades – Oslo e Berlim – transportada para o interior de duas prodigiosas caixas de música cujo mecanismo é accionado por uma novíssima autora-compositora norueguesa. Isto é, Little Things e Rykestrasse 68, primeiro e segundo volumes da já preciosa obra de Hanne Hukkelberg, lugar de escuta da relojoaria interior do mundo por um ouvido privilegiado.
Pelo que pude descobrir, começou a tocar e cantar por volta dos três anos... É verdade. Tanto a minha mãe como o meu pai são músicos, por isso, viver mergulhada em música foi sempre uma coisa muito natural. A minha irmã, o meu irmão e eu íamos para todo o lado com os pais e já tocávamos também. Mais tarde, na escola, fiz parte de bandas de rock, de metal e jazz e acabei por me inscrever numa academia de música onde estudei durante quatro anos.
Rock, metal, jazz... eram-lhe indiferentes os estilos? Os meus pais eram músicos clássicos mas nós, evidentemente, crescemos a ouvir imensa pop. A banda de metal foi um acaso. Mas o rock, a pop e o jazz tinham tudo a ver com aquilo que, na escola, me influenciava. Como me apercebi que nunca seria uma cantora clássica, o jazz era a única alternativa que tínhamos na escola.
No entanto, nos seus dois álbuns, utiliza uma série de “found sounds” (máquinas de escrever, ruídos de electrodomésticos ou de aros de rodas de bicicletas, copos de vidro friccionados...) que derivam mais dos procedimentos da “musique concrète”. O seu currículo académico também passou por aí? Sim e não. Tive dois excelentes professores que não só me ajudaram a saber lidar com os diversos materiais sonoros como a descobrir a minha identidade musical. Por isso, quando comecei a trabalhar com o meu produtor, Kåre Vestrheim, integrar todos esses “found sounds” no corpo das canções pareceu-me uma coisa quase óbvia.
Os seus dois álbuns parecem muito enraizados nas atmosferas de duas cidades específicas: Little Things, em Oslo, e Rykestrasse 68, em Berlim. Concorda? Sim, é verdade. Ainda que, no caso de Little Things, ele não tenha sido deliberadamente concebido dessa forma. Já, em Rykestrasse 68, esse foi mesmo um ponto de partida. Concorri a uma bolsa do Estado norueguês para viver durante uma temporada em Berlim e, uma vez que tenho lá vários amigos – não gosto especialmente de viver sozinha – e já lá tinha ido diversas vezes, era uma cidade perfeita para poder explorar melhor e funcionar como cenário para este disco.
Sente que, se tivesse sido concebido num outro qualquer lugar, este seria um disco diferente? Sem dúvida. É um álbum realmente dedicado a Berlim e que reflecte muita da energia que a cidade me ofereceu e que eu absorvi.
É verdade que não existe o número 68, na Rykestrasse? (risos) É verdade, é... eu nem sequer vivia na Rykestrasse. A minha casa era na Danzigerstrasse (que é uma artéria pouco interessante e com imenso trânsito) mas, como a janela dava para a Rykestrasse que é muito mais bonita, decidi que todos os sons de rua da cidade que iria gravar seriam os dali. A numeração da rua, de facto, só vai até ao número 67 mas resolvi que o disco deveria ter a minha morada imaginária, no 68.
Pela forma como, na sua música, integra tanto os inúmeros “found sounds” como uma imensa diversidade de timbres instrumentais, ela acaba por ser bastante visual, quase cinematográfica... está de acordo? Quando estou a compor, penso de uma forma muito visual, crio imagens e filmes na minha cabeça acerca das músicas que vou criar e da direcção em que as vou conduzir. Às vezes, penso que deveria compor para filmes... o que também já fiz mas não é, de todo, a minha actividade principal.
O videoclip de “Cheater’s Armoury”, do ponto de vista visual, é praticamente uma narrativa autónoma e paralela em relação à canção... Claro. A linguagem convencional dos videoclips não me interessa muito. Nesse caso, a música conta uma história, o texto conta outra e o vídeo ainda uma terceira. Que, todas reunidas, dão origem a mais outra, inteiramente diferente.
Ainda em relação à sua utilização dos “found sounds”: regista-os de modo mais ou menos aleatório e só depois decide quais escolher para cada canção ou recolhe-os já a pensar numa ou noutra canção específica? Hmmm... é uma pergunta difícil porque não tenho uma forma definitiva de proceder nem gostaria de a ter. Prefiro manter os sentidos despertos para me ir apercebendo das várias formas como isso pode acontecer. É isso que, para mim, conserva a magia do que é fazer música. Por vezes, posso ter um objecto qualquer na mão, um copo, e aperceber-me de que está ali uma fonte sonora potencialmente interessante...
Um exemplo concreto: enquanto falamos, os meus três gatos estão a observar-me muito atentamente através do vidro da porta da sala. Foi uma situação semelhante que a levou a incluir o ronronar de gatos numa canção deste álbum? (risos) Fui criada com gatos e adoro-os. Quando era miúda, se não conseguia dormir, ia buscar um gato, encostava o meu ouvido ao focinho dele para o ouvir ronronar e rapidamente adormecia. Recordei-me dessa sensação tão intensa e confortável e pedi ao meu pai para pegar no gato dele ao colo e fazer-lhe festas enquanto eu, de microfone na mão, o gravava durante uns bons minutos. Essa foi realmente planeada. Ainda não sabia bem em que canção utilizaria a gravação mas tinha mesmo de o fazer.
Em palco, irá procurar reproduzir a complexidade sonora dos álbuns ou optará por outra solução? Nuns casos, serão idênticas às gravações, noutros, não. Têm-me dito que escutar os álbuns e assistir aos meus concertos são duas coisas inteiramente diferentes. Como não podemos trazer todos os instrumentos que utilizamos no álbum, concentrar-nos-emos apenas em alguns deles e na voz. (2007)
17 May 2007
A MÚSICA NO FEMININO
Patti Smith - Twelve
Laura Veirs - Saltbreakers
Mary Timony Band - The Shapes We Make
Hanne Hukkelberg - Rykestrasse 68
A música popular nunca foi um território de absoluta hegemonia masculina. Mas, durante a maior parte do século XX, das divas da “torch song” e do jazz vocal às “starlets” e “pin-ups” pop, o papel reservado às mulheres nunca andou demasiado longe dos estereótipos generalizados através de cuja lente o mundo se encarregou de identificar o “perfil feminino” e de lhe atribuir um lugar: lolita inocente e/ou devassa, deusa intangível, trágica à beira do abismo, sedutora perversa, “sex-toy” descerebrado ou mãe-de-família-como-deve-ser (não esquecendo, na era dos anos 60 em diante, a folclórica silhueta adjacente da “groupie”), para todas as categorias se perfilou uma extensa lista de candidatas, voluntária ou involuntariamente dispostas a ocupar uma vaga. Edith Piaf, Doris Day, Julie London, Marianne Faithfull, Billie Holiday, Bessie Smith, Sandie Shaw, Jane Birkin e um interminável cortejo de outras exemplificam bem vários desses retratos-robot que, embora tenham persistido até hoje apesar das diversas vagas de feminismo e pós-feminismo (uma leitura em diagonal das tabelas de vendas mundiais é esclarecedora), sofreram os primeiros abanões a sério com o aparecimento de figuras como Janis Joplin, Yoko Ono ou Grace Slick (Jefferson Airplane), perderam o equilíbrio com a vaga inicial de singer-songwriters da linhagem de Joni Mitchell, Judee Sill ou Sandy Denny e, de Patti Smith às bandas do pós-punk (Slits, Au Pairs, Raincoats, Delta 5) ou ao motim “riot grrrls” do princípio dos anos 90, redefiniram de modo inexorável a percepção que temos das diversas formas que pode assumir – seja isso aquilo que for – “o feminino” na música. O que tanto escancarou as portas da edição discográfica a um número de autoras e intérpretes incomparavelmente maior do que antes acontecia como obrigou à aceitação de personagens – Björk, Diamanda Galás, Laurie Anderson, Lydia Lunch – definitivamente pouco dadas a deixar-se enquadrar pelas coordenadas antigamente em vigor.
Talvez seja por isso que incomoda um pouco depararmos com uma das pioneiras da insureição – Patti Smith – em pleno momento de capitulação perante as regras da indústria: o pretexto alegado é uma homenagem transgeracional a todos os ícones e heróis de que se constituiu a sua memória pop/rock (Jimi Hendrix, Kurt Cobain, George Harrison, Grace Slick, Doors, Rolling Stones, Allman Brothers, Bob Dylan, Paul Simon, Neil Young, Stevie Wonder e (?) Tears For Fears) mas é bastante difícil não entender Twelve como mais uma das manobras actualmente em curso no subsector do “álbum de versões” (Dylanesque, de Brian Ferry, A Tribute To Joni Mitchell, Do It Again: A Tribute To Pet Sounds ou o anunciado CD de foguetório em torno do 40º aniversário de Sgt. Peppers). Coisa que, em si mesma, nem seria reprovável se as várias releituras que Patti Smith realiza acrescentassem um ponto de vista diferente aos originais ou permitissem reescutá-los sob um novo ângulo. A verdade é que isso apenas ocorre com “Smells Like Teen Spirit”, dos Nirvana (convertido em desvairado “freak-out” de bluegrass), e, em muito menor grau, “Are You Experienced?”, de Hendrix.
As sobrantes dez são resignados exercícios de uma “covers band” competente (os históricos Lenny Kaye, Jay Dee Daugherty e Tony Shanahan e participações avulsas de Tom Verlaine, Flea e Sam Shepard... em banjo), isto é, justamente aquilo que todos eles menos precisavam e mereciam como adenda ao currículo.
O testemunho, porém, já foi passado e encontra-se em óptimas mãos. As de Laura Veirs, por exemplo, que, após Carbon Glacier e Year Of Meteors, em Saltbreakers retoma o fio ao seu “songwriting” literário e de um “naturalismo mágico” que, recombinando materiais punk e folk com as contribuições extaterritoriais de Bill Frisell e Eyvind Kang e a arte-final da produção de Tucker Martine (cujo instinto rítmico ajuda a dinamizar e vertebrar o corpo das canções), desta vez, recorre a AS Byatt (o romance Possession) e a José Saramago (Ensaio Sobre A Cegueira) enquanto combustível e detonadores para um ciclo de temas à volta da ideia de expiação e redenção através da purificação pelas forças elementares (“Drink deep my love, for the water is gasping for your mouth”).
As credenciais de Mary Timony identificam-se, talvez, em linha mais directa com as origens históricas de Patti Smith: veterana das escaramuças “riot-grrrl” na cena punk/hardcore de Washington D.C. enquanto activista, em 1990, das Autoclave, e, a seguir nos Helium, desde 1997, a solo ou com a Mary Timony Band, tratou de deixar poucas dúvidas que, se Laura Veirs é uma folk/punk com duas licenciaturas (Geologia e Línguas Chinesas), a ela ninguém haverá de negar o “pedigree” na “Duke Ellington School of The Arts”, de Washington (guitarra e viola de arco), e mais outra licenciatura (daquelas com toda a documentação em ordem, nada de confusões...) em Literatura Inglesa, pela Universidade de Boston.
A ética e a estética punk bem podem ter vociferado “Learn how to NOT play your instrument!” que Timony, mesmo que o desejasse, na música que pratica, não conseguiria dissimular de onde provém: The Shapes We Make é rock submetido a um formato razoavelmente elástico de canção mas denso, texturado, explosivo e harmónica e timbricamente complexo (tal como os Sonic Youth o continuam a dilatar e distorcer), sem, contudo, pisar o risco proíbido da mórbida obesidade “prog”.
Do lado de cá do Atlântico, entretanto, Rykestrasse 68, segundo álbum da norueguesa Hanne Hukkelberg depois do precioso Little Things (2005), é o segundo capítulo de um luminoso universo musical e poético absolutamente singular:
em cada canção, Hanne praticamente nos convida a observar à lupa o modo pelo qual costura toda a intrincada anatomia sonora de um imponderável organismo (feita de flexíveis fibras de jazz, circuitos nervosos onde se atropelam Bach, os Pixies e estilhaços de electrónica, um sistema circulatório activado pela batida cardíaca de uma máquina de escrever Remington, pelo ronronar de gatos e por uma polifonia de electrodomésticos e “found sounds” urbanos) que voa contra um fundo de banjo, acordeão, violoncelo, violino, celesta, piano, guitarra e flauta e, inadvertidamente, vai registando instantâneos da paisagem sobre a qual se desloca: “Picking dry and crispy paintflakes off a large bricket wall, while I stare out of my window, stare at my neighbours balcony: old bullet holes behind wild botany”. Não deveria ser necessário dizer que, na Rykestrasse de Berlim, não existe o número 68. (2007)
21 January 2007
Hanne Hukkelberg - Little Things
Um caderno de exercícios de geometria descritiva convertidos em poesia sonora nas entranhas de um realejo. As migalhas que sobraram de todos os discos de Björk, Tom Waits e Stina Nordenstam sopradas em câmara lenta sobre uma ventoínha em rotação irregular. Thelonious Monk no jardim infantil, Joni Mitchell no estúdio de Robert Moog, Robert Wyatt no Quartier Latin, Billie Holiday em apneia. Uma orquestra de jazz lunar com um elenco de banjo, tuba, violino, pedal-steel, acordeão, wurlitzer, glockenspiel, theremin, harpa, trem de cozinha, raios de rodas de bicicleta, flutes de champanhe e desenhos de saxofone para colorir.
Valsas, improbabilidades atonais, dixieland boreal, "torch songs" tal como Ornette Coleman as escreveria, ourivesaria electrónica num sonho de Erik Satie, os caligramas de Apollinaire enquanto partitura virtual. Máquinas de sonhar em hieróglifos, música para labirintos de Liliput, coreografias de silhuetas num holograma de marionetes. Little Things: a voz e o amavelmente perturbado laboratório mental de Hanne Hukkelberg; Jaga Jazzist, Kaada, Kiruna, Shining e Exploding Plastix em levitação; o mapa de Oslo como roteiro de auscultação cardíaca do universo. Uma memória descritiva do futuro redesenhando a canção no interior da "musique concrète", reordenando a anatomia do jazz, estilhaçando a pop em poalha de luz. "I wish I could convert to waves and become the sea". Sim, foi exactamente isso que aconteceu. (2005)