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15 December 2025

31 August 2025

"War" 

(sequência daqui) Se o primeiro a transformou em campeâ das línguas minoritárias, com direito a gigante street-art de homenagem em Cardiff, este que agora se inicia decorre de se ter apercebido de que "a forma como consegui escrever em inglês deve-se a reconhecer que não consigo traduzir muitas memórias. Achei muito importante explorar esta ideia. Se tivesse ficado em Gales e não tivesse vivido noutros lugares nem experienciado outras culturas, seria muito diferente, faria discos em galês. Mas saí de casa aos 16 anos. Sinto que, enquanto compositora, estou compelida a continuar a revirar tudo. Tudo é um registo diário para mim. E, ao escrever sobre tudo isto, desocultei o meu próprio caos”. Como observa no site da Heavenly Records, "Utopia evoca um momento de autodescoberta e exploração". O disco transita de temas dançantes a delicadas baladas ao piano, com a colaboração de Cate Le Bon, faz referência a William Blake, e a um poema de Edrica Huws e (não perguntem porquê...) ao autocarro n.º 73”.

27 August 2025

 TRADUZIR A MEMÓRIA
 
 
Não era, de todo, previsível que Gwenno Saunders - filha do poeta da Cornualha, Timothy Saunders, e de mãe galesa com cadastro policial por activismo político nacionalista -, se convertesse em adolescente primeira bailarina de "Lord Of The Dance", durante 2 anos, em Las Vegas, onde viveria num complexo de apartamentos "com piscina e ginásio mas pouco mais que fazer do que beber, tomar drogas e lidar com distúrbios alimentares". E, continua ela, "todos os sábados, íamos a um clube techno chamado Utopia e ficávamos completamente pedrados até segunda-feira quando tínhamos de voltar a trabalhar". Recorda-o porque o nome do clube iria inspirar o título do novo álbum e, ajudaria a assinalar os dois períodos da carreira de Gwenno: o primeiro, com Y Dydd Olaf (2014), Le Kov (2018) e Tresor (2022), todos cantados em galês e cornish; e o segundo, iniciado com este Utopia, predominantemente em inglês. (daqui; segue para aqui)
 
"Utopia"

23 August 2022

 
 
 
(sequência daqui) Descendente oblíqua do retrofuturismo dos Broadcast ou Stereolab e adepta do neopaganismo anarco-feminista de Monica Sjöö, neste novo manifesto (nove canções em "cornish" e uma em galês), Gwenno tanto recorre aos sinos de Santa Maria Della Salute, em Veneza, ou à sonoridade de um vetusto piano de cauda de um hotel de Viena como invoca Morricone, Agnés Varda, Maya Deren, Jodorowsky, Fellini e Sergei Parajanov. Com uma intenção que não poderia ser mais clara: “É como se fosse um livro de recortes, com coisas que vêm de todo o lado. Estou realmente obcecada pela Europa, num desespero por fazer parte dela. Não é porque desejemos ser insulares que exploramos a nossa cultura, fazemo-lo porque queremos fazer parte do mundo!”.

20 August 2022

COMO UM LIVRO DE RECORTES
Gravar um álbum que tem como público potencial um universo de pouco mais de 300 pessoas, não é, de certeza, um projecto habitual em lado nenhum. Mas foi exactamente a isso que Gwenno Saunders se lançou quando, há 4 anos, publicou Le Kov, uma colecção de canções cantadas em "cornish", um dialecto da Cornualha cujo último falante fluente morreu em 1777. Desde então considerado “extinto”, apenas em 2010 a UNESCO – na sequência da actividade da Cornish Language Partnership (CLP) – a faria subir um degrau para “em risco de extinção”, e a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias a reconheceria como “língua minoritária”. Segundo a CLP, o aumento de 15% no número de candidatos a exames de "cornish", em 2018, dever-se-ia em boa parte ao impacto de Le Kov e o Cornish Gorsedh Kernow – uma comunidade de bardos contemporâneos – acolhê-la-ia entre os seus “pelos serviços prestados à língua 'cornish' através da música e dos media”. Agora que, 20 anos após o reconhecimento oficial pelo governo britânico do estatuto do "cornish", Gwenno edita Tresor, podemos, finalmente, sossegar: tamanho ardor identitário não é sequer parente próximo do azedo nacionalismo do Brexit. (daqui; segue para aqui)