Há 10 anos, a propósito de Shields, dos Grizzly Bear, pareceu-me inevitável sublinhar que – tal como já acontecia em Veckatimest (2009) – o que mais seduzia naquela música que nos afectava “do pescoço para cima”, era “a intrincada inteligência da arquitectura de cada peça que, laboriosamente, edificam”, prova definitiva de que “na linha evolutiva da música do século XX, o prog-rock não desembocou, irremediavelmente, nem beco sem saída” e era perfeitamente possível “recusar o juramento-de-sangue punk e não acabar a tocar os Brandeburgueses para banda rock com a Filarmónica de Swindon”. Agora, coincidindo com a publicação de You Belong There, primeiro álbum a solo de Daniel Rossen (com Ed Droste, o motor criativo dos Bear, desde 2020, em pausa de duração imprevisível), este, em entrevista à “Uncut”, afirma que “Para mim, fazer música é nuito semelhante a construir mundos. Na minha opinião, faz sentido enquanto forma de criar objectos – a escrita confessional de canções não é, realmente, aquilo que faço”. (daqui; segue para aqui)
Não será particularmente arguto mas também não é indesculpavelmente idiota estabelecer alguma distinção entre aqueles tipos de música que nos afectam, predominantemente, do pescoço para cima ou da cintura para baixo (deixemos, por agora, de lado aquela zona que o capitão Renault, de Casablanca, quando lhe apontavam uma arma ao peito, designava como “o meu ponto menos vulnerável”). Existe, evidentemente, a que consegue carregar-nos nos botões certos de ambas as áreas e não é impossível que seja a mais estimável, apesar de esta ser matéria acerca da qual convém manter dúvidas e incertezas. Mas, concentrando-nos nos Grizzly Bear, não se há-de arriscar muito ao declarar que, na sua música – pelo menos, desde Veckatimest (2009) –, o que mais seduz é a intrincada inteligência da arquitectura de cada peça que, laboriosamente, edificam. Qualquer coisa (em não tão grandioso, claro) como o devastador orgasmo
mental que Andrew Wiles terá experimentado ao conseguir, por fim,
demonstrar o último teorema de Fermat.
A proeza dos Bear é, essencialmente, a de (como, por exemplo, também sucede com os Field Music ou Dirty Projectors) terem sido capazes de estabelecer, para além de todas as dúvidas razoáveis de uma severa "peer review", que, na linha evolutiva da música do século XX, o prog-rock não desembocou, irremediavelmente, nem beco sem saída: sim, é possível recusar o juramento-de-sangue punk e não acabar a tocar os Brandeburgueses para banda rock com a Filarmónica de Swindon. Shields – admirável pop em ocasional modo Nietzsche-zen (“No wrong or right, just do whatever you like”), tapeçaria de distorção psicadélica em harmonioso matrimónio com sinfonismo "à la" Van Dyke Parks, enoismos incidentais e sofisticação harmónica jazzy – é apenas mais uma eloquente prova disso.
05 December 2011
LUTA DE CLASSES
My Brightest Diamond - All Things Will Unwind
Meses antes de, a 10 de Outubro passado, o cidadão de Lower Manhattan, Lee Ranaldo, ter registado para a posteridade, no blog dos Sonic Youth, quatro minutos e dez segundos dos cânticos e palavras de ordem da multidão que ia e vinha do City Hall entregue à missão de ocupar Wall Street e, pelo menos, perturbar a digestão dos senhores do mundo, Shara Worden – "brooklynite" adoptiva – abandonava Nova Iorque e, de regresso ao Michigan natal, deparava com a devastação social de Detroit, cidade compulsivamente fantasma do pós-crash de 2008. O objectivo era “expor-me ao contraste entre a minha vida de artista em Nova Iorque e a violenta realidade de uma cidade onde praticamente não existem escolas públicas para as crianças e quase metade da população está no desemprego”. Acabou por aí ficar e, talvez porque lhe parecesse que aquele era um daqueles lugares onde se diria que “God’s away on business”, as palavras que lhe ocorreram para "There’s A Rat" (“There’s a rat in the kitchen and he’s eatin’ my cheese, there’s a snake in the cellar and he’s drinkin’ my wine, (…) a man at the door and his motive is wrong, Oh bankers, lawyers, thieves! Governors, mayors, police!”) não fossem muito diferentes das dessa canção teologicamente céptica de Tom Waits (“Who are the ones that we kept in charge? Killers, thieves and lawyers!”).
Deve dizer-se que Shara (aliás, My Brightest Diamond), nos três anos que decorreram desde o anterior segundo álbum, A Thousand Shark’s Teeth, esteve tudo menos inactiva: colaborou com Bryce e Aaron Dessner (dos National) no ciclo de canções multimédia, The Long Count, com os Clogs (de novo, Bryce, o violinista Padma Newsome e outros cúmplices) em The Creatures In The Garden Of Lady Walton, com Sarah Kirkland Snyder em Penelope, e com várias outras notabilidades como David Byrne, Sufjan Stevens, Matthew Barney ou Sarah Small. E – como informa o press-release da Asthmatic Kitty – preparou-se para gravar All Things Will Unwind“inspirada pelo facto de ter tido um filho, por conversas com Laurie Anderson, pelos discursos presidenciais de Obama e pela luta de classes”. Sim, a luta de classes, esse tópico, aparentemente sepultado nos anos do liberalismo mas que, de Wall Street a Detroit ou à estrebuchante Europa, teima em regressar.
Disfarçado do género de cabaret weilliano para jardim infantil que Jesca Hoop (mais outra Waits-"connection"...) poderia, facilmente, ter assinado, ele lá está em "There’s A Rat", logo a seguir, também em "High Low Middle" (“When you’re privileged, you don’t even know you’re privileged, when you’re not, you know”) e, minutos antes, no pouco menos que militantemente épico "Be Brave" (“This is going to hurt, be brave, dear one, be changed, be undone”). Tudo em registo de música de câmara contemporânea capaz de absorver a folk, timbres africanos, o jazz de New Orleans, o "lied" e explorações eruditas tal como o sexteto yMusic (artífices sonoros da intimidade de Björk, David Byrne, Grizzly Bear, Yo-Yo Ma ou St. Vincent) que a acompanha ágil e elegantemente os declinam. Não há que recear, porém, que Shara se tenha transformado num Woody Guthrie com diploma de conservatório: ela fala-nos de “flying neutrinos”, derrete melodias dedicadas à recente descendência, anuncia a participação na estreia de uma obra de David Lang sobre a morte da música clássica, a composição de uma peça para órgão e outra para um filme de Buster Keaton, recomenda PJ Harvey e St. Vincent e... ah!... numa sempre bem-vinda pescada de rabo na boca conceptual, revela que transporta Bad As Me, de Tom Waits, no iPod. Tudo gente boa, séria e da casa.
(2011)
07 November 2011
INTOCÁVEIS
St. Vincent - Strange Mercy
Laura Marling - A Creature I Don’t Know
Annie Clark diz “Não acontece todos os dias poder subir-se a um palco, vomitar toda a bílis misantrópica que temos cá dentro para cima de uma multidão e ouvi-la pedir ‘Mais!...’”. Laura Marling confessa “Não sou religiosa, não sou romântica, e vivo exclusivamente guiada pela lógica”. Clark (aliás, St. Vincent, por um motivo particular: foi no Saint Vincent’s Catholic Medical Center, de Manhattan, que Dylan Thomas, em 1953, morreu – “É o lugar onde a poesia vem morrer. Sou eu”), quando não emite opiniões como “Não penso, necessariamente, que os seres humanos tenham sido talhados para a monogamia”, gosta de largar pelas canções frases, mais ou menos heterodoxas, do género de “Jesus saves, I spend” ou “We'll do what Mary and Joseph did, without the kid”. Marling, que entende a escrita de canções enquanto pretexto para “manter uma conversa com pessoas com as quais não nos é possível conversar”, desenha, quase subliminarmente, autoretratos – “Cover me up, I’m pale as night, with a mind so dark, and skin so white” – tão exactos quanto inquietantes. E ambas, ao terceiro álbum (e, respectivamente, aos 29 e 21 anos), atingem aquele estatuto de intocabilidade que, habitualmente, exige um pedaço de carreira consideravelmente maior.
St. Vincent - "Cruel"
St. Vincent, é aquilo a que se poderia chamar “drop-out com uma causa”: após ter frequentado, durante três anos, o Berklee College Of Music, desistiu do curso alegando que “chega sempre um momento em que, depois de termos aprendido aquilo que pudermos, devemos esquecer e desaprender tudo para começarmos realmente a fazer música”. E, quando esse momento chegou, em 2003, alistou-se na tripulação dos Polyphonic Spree e, a seguir, na banda de Sufjan Stevens, para, em 2007 e 2009, publicar Marry Me e Actor, pequenos clássicos instantâneos de pop literata e barroca, com tanto de Bowie como de Robert Fripp, dos musicais da Disney (triturados por Tim Burton) ou do cinema de Godard em que uma Anna Karina texana, diante de Paris em chamas, murmurasse “Come sit right here and sleep while I slip poison in your ear”. Strange Mercy, sem contrariar verdadeiramente o que dela conhecíamos, abre mais espaço para a Annie Clark propriamente guitarrista – a que aceita de bom grado ser convidada a saltar na fogueira de versões dos Big Black – e para complexidades estruturais algures entre Björk, Grizzly Bear, Andrew Bird e Dirty Projectors, como luxuoso cenário de sequências de Rohmer vertidas em vocabulário S&M ("Chloe In The Afternoon"), evocações elípticas de Marilyn (“Best, finest surgeon, come cut me open”) e John Barry (a vénia a "You Only Live Twice" de "Surgeon"), e amáveis provocações (”I’ve had good times with some bad guys, I’ve told whole lies with a half smile”).
Laura Marling - "Night After Night"
Musa e diva da cena "nu-folk" londrina que, desde 2007, pariu Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale (“Não havia cena nenhuma, limitámo-nos a descobrir as colecções de discos dos nossos pais todos ao mesmo tempo”), Laura Marling, com os óptimos Alas I Cannot Swim (2008) e I Speak Because I Can (2010), apenas por dois anos não apeara Roddy Frame do posto de génio mais precoce de sempre da pop britânica. Mas, detalhes etários à parte, será muito difícil encontrar uma outra tão amadurecida digestão contemporânea dos êxtases materiais de Judee Sill e Leonard Cohen (a homenagem a este em "Night After Night" não poderia ser mais explícita) ou da ira da primeira PJ Harvey, transportada através de Neil Young, para a fluidez de Joni Mitchell, sob a aprovação insolente de Fiona Apple, do que este magnífico A Creature I Don’t Know.
(2011)
29 November 2010
A HERANÇA E OS HERDEIROS
Magic Kids - Memphis
All Delighted People - Sufjan Stevens
No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.
Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.
Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.
(2010)
23 May 2010
A BUMBLER, A STAGE DRIFTER
"He's [Matt Berninger] a bumbler, a stage drifter, sometimes lost, sometimes not. 'I'm just shy of total failure', he deadpans about his live shows. 'There's something awkward about what we're doing. Not by design, but it has an unpolished and borderline foolish and embarrassed exposure. Maybe that's what people relate to a little bit'. All this makes him stand out from his NYC nominal-rock-star peers. Julian Casablancas: too cool, too aloof. James Murphy: too jaded, too arch. The Grizzly Bear dudes: too soft, too gentle. Dave Longstreth: too cerebral, too academic. Karen O: too shrieky, too stylish. The Hold Steady's Craig Finn: too duuuude, too well read. Anyone in Interpol: too polished, too poised. Berninger flirts with all those qualities, but doesn't overplay any of them: a near-perfect mix of the personalities that surround us every day. The guy in your apartment building obsessed with his new new-media job. The trivia hound at the bar who's so sure Hanna-Barbera cartoons are art. The guy in film school who used to be a jock who made fun of film schools. The guy you slept with last night who hasn't called. The guy who wants you back. The guy who looks depressed and lonely as he reads novels you think you've heard of on the 2 train. The guy who says he loves you and means it; the guy who says he loves you and might not. The guy who hates himself but loves his biker rights. The guy who feels so alienated in a big city, finds the bright lights blinding and the noise deafening, but will never leave because he's too afraid to live anywhere else". (artigo integral aqui)
(2010)
20 March 2010
NUNCA UTILIZAR A EXPRESSÃO "SACERDOTE PEDÓFILO" (poderá ser, eventualmente, considerada uma redundância)
Sacerdote católico administrando o santíssimo sacramento da eucaristia tal como foi filmado por Andy Warhol
The Crystals - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"
He hit me and it felt like a kiss He hit me but it didn't hurt me He couldn't stand to hear me say That I'd been with someone new
Hole - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"
And when I told him I had been untrue He hit me and it felt like a kiss He hit me and I knew he loved me Cause if he didn't care for me I could have never made him mad
Grizzly Bear - "He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)"
He hit me and I was glad Baby won't you stay... He hit me and it felt like a kiss He hit me and I knew I loved him Cause when he took me in his arms With all the tenderness there is He hit me and he made me feel Baby won't you stay...
(2010)
11 January 2010
DEFINITIVAMENTE SEM LUVAS
Vampire Weekend - Contra
Desde o início da década de 80, momento de erupção do pós-punk, do mítico “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths) e do experimentalismo “industrial” de Sheffield (Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Human League), que não emergia nada com a semelhança de uma “scene”, incluindo o melhor que, quando autênticas, elas possuem: energia, diversidade, espírito de aventura e pouca vontade de se resignar aos padrões de criação e consumo dos "mainstreams" das várias épocas. O grunge de Seattle, o frenesim dançante de Madchester, a saturnidade de Bristol poderão ter tido, na origem, um código genético fértil mas demasiado rapidamente, de vítimas/cúmplices do hype, se converteram em marcas registadas, facilmente esterilizadas e normalizadas pelas cadeias de montagem da indústria discográfica. Não espanta, assim, que, quando os primeiros rumores acerca do surgimento de uma “Brooklyn scene” começaram a fazer cócegas nos ouvidos, a atitude sensata fosse ficar de pé atrás: outra???!!!...
Pois bem, dois anos e tal após os zunzuns, pode confirmar-se: sim, ela existe, é musicalmente rica como poucas, o espírito de rebanho parece encontrar-se higienicamente ausente e, realmente de comum – para além da localização geográfica no "borough" mais populoso de Nova Iorque – a músicos e bandas como St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens, Joan Wasser, My Brightest Diamond, Grizzly Bear, Dirty Projectors, The National ou High Places, apenas há o desejo de individualidade criativa sem mimetismos tribais. Ah!... e não esqueçamos os Vampire Weekend, com os National, talvez os casos de maior relevo de uma cena indie que – outra diferença – não se acanha excessivamente com a ideia de poder ser popular. E de ostentar currículos académicos. E de (ao contrário dos Strokes que levavam a mal o facto de serem encarados como punks betos) lhes carimbarem na testa o selo de – falo dos Vampire – "Columbia-rich-kid-afro-indie-pioneers". Eles são, sem dúvida, tudo isso e é para o lado que dormem melhor.
Em Janeiro de 2008, Vampire Weekend despia o último par de cerimoniosas luvas com que a pop – de Paul Simon a Peter Gabriel ou mesmo David Byrne – sempre manuseara a coisa “étnica”, dita "world music": uma serpentina de guitarras da Orchestra Baobab é tão respeitável quanto a hiperactividade dos Feelies, o "soukous" congolês não é incompatível com literatas ironias sobre intimidades chiques do Upper West Side e uma sequência de arpejos mozartianos não tem que se sentir incomodada por se descobrir reclinada sobre uma rede rítmica de "highlife". O álbum de estreia da banda de Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e Rostam Batmanglij era impuríssima matéria-pop em permanente celebração da inteligência, da "nonchalance" sofisticada e da urgência de inventar música, e adubou o terreno para que, mal surgiram, em Setembro passado, os primeiros indícios de que o segundo tomo estava para breve, meia Internet tenha uivado apelos a que, nas habituais esquinas mal frequentadas, algum dealer mais expedito permitisse que se espreitasse o tesouro. Uma semana antes da data oficial de publicação, porém, os próprios Vampire o colocaram, integralmente, em "streaming" na sua página do MySpace. Diga-se, então, que Contra refina esplendorosamente os sabores e aromas da investida inicial, em dois ou três instantes ("White Sky", "Diplomat’s Son", "I Think Ur A Contra"), viaja umas boas léguas adiante do que Paul Simon sonhou em Graceland e, na trovoada percussiva aspirada por túneis digitais de "Giving Up The Gun", deixa-o mesmo a perder de vista. Só isso já seria óptimo. Mas há ainda que reparar nos delirantes zigzags da arquitectura sonora, nas alusões barrocas, nos subtilíssimos reichianismos, nos divertimentos electro que Rostam carreou de Discovery ou na adrenalina ska-punk que borbulha, aqui e ali. Haveria melhor forma de inaugurar 2010?
(2019)
02 January 2010
UMA GRANDE DESORDEM SOB OS CÉUS
Após um julgamento que durou nove dias, a 17 de Abril, Peter Sunde, Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm e Carl Lundström, responsáveis pelo Pirate Bay – o maior site de download ilegal de ficheiros torrent – eram condenados por um tribunal de Estocolmo a pôr termo à sua actividade, a um ano de prisão e a pagar uma multa de cerca de 2 700 000 euros. Todos recorreram da pena aplicada e, um mês depois, o Pirate Party sueco (braço político do movimento a favor da liberalização completa do filesharing), conquistava 7.13% de votos e dois deputados nas eleições para o Parlamento Europeu. A 6 de Outubro, e na sequência de diversos contratempos e peripécias (só um exemplo: a 15 de Agosto, um uploader anónimo iniciou a partilha de um torrent contendo o índice integral do Pirate Bay), em local indeterminado, o site corsário estava, de novo, online. Entretanto, a 24 de Novembro passado, o Parlamento Europeu aprovou um pacote de medidas destinado a combater a pirataria na Web que prevê a possibilidade do corte, por parte dos fornecedores, do acesso à Internet de quem descarregue ilegalmente ficheiros, não especificando, porém, a quem caberá a decisão: se aos tribunais, se a uma entidade administrativa.
É bem possível que a indústria discográfica não concorde com a célebre afirmação de Mao Tsé Tung “Há uma grande desordem sob os céus, a situação é excelente”. Até porque – a menos que alguma solução milagrosa e inesperada surja –, até agora, cada tentativa de controlar as forças que se libertaram da caixa de Pandora da Internet foi sempre torneada por um agilíssimo jogo de cintura tecnológico que a todas anulou. Naturalmente, tudo isto terá consequências quanto aos recursos de que os músicos (e não apenas músicos: a partilha de ficheiros abrange livros, filmes, séries de televisão...) poderão dispor, numa conjuntura em que as editoras vêem os lucros a reduzir-se drasticamente. Sintomaticamente (ou não), porém, o que na pop parece acontecer é um período de laboração no interior de códigos mais ou menos clássicos, sem que nenhuma sublevação estética se anteveja: dos (admiráveis) neo-academismos de Sufjan Stevens, Grizzly Bear, St Vincent e Noah & The Whale, à folk redescoberta de Alela Diane e The Unthanks, aos segundos e terceiros fôlegos dos clássicos Dylan ou Springsteen ou às grandes operações industriais de reciclagem do passado e repackaging – de que a remasterização da discografia integral dos Beatles foi, este ano, o mais emblemático exemplo – tudo parece ter entrado num compasso de espera de duração imprevisível. A história da música, de certeza, não parou e o negócio discográfico precisa de tempo para inventar e amadurecer modelos viáveis de reconversão. Mas, por enquanto, tudo indica que, tão cedo, não vale a pena sonhar com estrondosas e fulgurantes rupturas e inovações que, de resto, a atmosfera global de pós(?)-crise também não parece favorecer.
Se, durante a década de 80, o refrão-de-serviço rezava que “já não se fazia música como nos 60s”, agora, dificilmente se atura a lenga-lenga segundo a qual “os eighties é que eram”. Claro que, para uma indústria de tanga, a rentabilização da nostalgia será sempre um dos últimos cartuchos a disparar. Mas, mesmo sem convulsões estéticas no horizonte, é impossível não reparar que – como sempre aconteceu – se publicou óptima música e que, para além do top-10 obrigatório, pelo menos o dobro, entre “velhos e “novos” (de Springsteen a Vincent Delerm, Alela Diane, Hanne Hukkelberg, Neko Case, Camera Obscura, Flat Earth Society, The Phantom Band, Christina Courtin, Elvis Costello, Gogol Bordello, Dylan ou Prefab Sprout), poderia, facilmente, figurar numa lista paralela e não menos ilustre.
(2010)
21 June 2009
SER DE BROOKLYN
Grizzly Bear - Veckatimest
Dirty Projectors - Bitte Orca
Aquilo que de, provavelmente, melhor a chamada "Brooklyn scene" tem é o facto de, em comum com as habituais "scenes", apenas partilhar, na realidade, o território geográfico do município de Nova Iorque baptizado a partir da cidade holandesa de Breukelen. Tirando isso – o "ser de Broolyn" ou viver lá – pouco mais se poderá encontrar de semelhante em bandas e músicos como Vampire Weekend, High Places, St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens ou My Brightest Diamond. Ou, agora, Grizzly Bear e Dirty Projectors.
Veckatimest – nomeado a partir de uma minúscula ilha deserta próxima de Cape Cod... pronto, estabeleçam, se assim o desejarem, a ligação com os Vampire a partir daqui –, terceiro álbum da banda de Daniel Rossen, Ed Droste, Chris Taylor e Christopher Bear, é uma pequena jóia de pop detalhadamente burilada que talvez possa ser mais facilmente circunscrita se se falar das afinidades que suscita. A saber, personalidades musicais tão diversas como Paul Simon ou os Radiohead que já declararam publicamente a sua devoção. Não seria impossível desenhar um ponto de intersecção entre as músicas de ambos – raíz folk sofisticadamente academizada e complexidade pop-rock – e, por aí, descobrir o território onde os Bear se sentem confortáveis, na companhia dos arranjos de cordas subliminarmente precisos de Nico Muhly e das imponderabilidades corais herdadas dos Beach Boys.
O fã ilustre de serviço dos Dirty Projectors é David Byrne mas, se a referência Talking Heads não é, de todo, despropositada, a formidável música da banda do diplomado em composição por Yale, Dave Longstreth, é algo de bastante menos definível, num bizarro polígono entre o aracnídeo "high-life" africano, Jimmy Page, as "disco car ad harmonies" das sereias Angel Deradoorian e Amber Coffman (pensem Nigéria em Bollywood) e, sim, acreditem, Nico.
(2009)