Versão gay/colectivista de uma peça vintage dos GNR ("Por ela assalto a caixa de esmolas, atirem-me água benta") com alto patrocínio da Vaticano S.A.
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09 May 2026
09 January 2026
28 February 2024
... e eis-nos chegados, literalmente, à política da cueca, verdadeiro eixo conceptual-simbólico do pensamento neo-facho
Edit (29/02/2024) - ... e um neo-facho fã de Rui Reininho: "Por ela assalto a caixa de esmolas, atirem-me água benta"
10 August 2020
FÁBULAS DO INFERNO
Há 11 anos, por altura da publicação de Um Fim de Semana no Pónei Dourado, evocando, muito provavelmente, o camiliano anjo caído, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, nascido na aldeia de Caçarelhos, B Fachada dizia: “Se eu vivesse em Caçarelhos, não era autor e cantava o Romanceiro. Na cidade, tenho esta pressão ocidental, estúpida, para ser original e para criar”. Uma dúzia de EP e álbuns depois, supõe-se que – embora com pausas, por vezes, prolongadas – até não se tenha dado demasiado mal com a “pressão ocidental”. Dir-se-ia mesmo que os esquemas mentais com que triangulava a matéria prima (“Eu divido a música em três: a erudita, a tradicional e a pop. A erudita e a tradicional são artes e a pop é artesanato. A erudita e a pop têm autores individuais e a tradicional tem um autor colectivo. Estou no meio deste triângulo a ser puxado para um lado e para o outro”) deixaram de ser tão inflexíveis: aquele que, então, se via como “o pagão da FlorCaveira” – o meteórico conglomerado de gentes que, no início do novo século, por insondáveis designos teológicos e sob o alto patrocínio do papa antipapista, Tiago Guillul, se reuniu para, agarrar pelas tripas a música portuguesa –, sempre abençoado pelos santos tutelares Fausto, Afonso e Godinho, parece ter descoberto o lugar geométrico onde os três eixos se confundem e geram outros sentidos.
Rapazes e Raposas, o sucessor de B Fachada (2014), prossegue o minucioso estudo antroposanfoneiro dos espécimes que povoam o pedaço, observados a partir de Mértola, de Março a Maio de 2020 DC (“Durante o Confinamento”). E, por entre chulas-punk, enlevos pastoris e teclados de feira, desfilam profetas apocalípticos (“A cada mais cem anos que hão de vir, hão de vir mais maldades e agonia, hão de vir mais injustiças e azar, nunca vão faltar o desgosto e abandono”), proclamam-se manifestos anti-tudo (“Sou anti-Freud, sou anti-Marx, não há truque semiótico, eu sou anti-patriótico, faço o direito em cepa torta, sou anti-basta e anti-corta”), glosa-se a “horrorosa Natureza pseudo-mãe” (“A noite é negra, o vento só ajuda os predadores à matança, à luz das estrelas piam todas as corujas, às escuras dormem as crianças”) e, mesmo “sem a graça do Camilo, sem as barbas do Antero” e com engarrafamentos silábicos (“A baleia ainda tem duvidas quanto ao sobrenatural, mas nunca foi mais indiferente às questões de identidade nacional”), o cenário destas fábulas não é de deixar ninguém descansado: “o Inferno está tão cheio que até o Diabo se mudou”.
22 April 2020
50º aniversário do Dia da Terra, e a Ana Teresa está muito zangada com o sapiens, e não pára de enviar-lhe avisos, e... chiça!... A Ana Teresa não pensa, não tem vontade própria nem objectivo, não é "mãe", é pseudo-mãe, e a isto chama-se evolução das espécies através da selecção natural!
GNR - "Agente Único"
14 October 2014
Mais um grande momento da História pátria: aquele em que o Tó filosofa sobre a insignificância do sapiens perante a horrorosa natureza pseudo-mãe e o Crato de Schrödinger, mesmo moribundo, garante que ainda pode vir a estar vivo
03 May 2012
QUEM NÃO ESQUECEMOS
Sétima Legião - Memória
Nos idos de 80, quando o pop/rock luso, pareceu, por momentos, ir dispor de um futuro farto e próspero, para além de um pequeno enxame de frenéticas abelhas – umas desabridamente mercenárias, outras ferozmente "independentes" e "alternativas" – que a História apenas estatisticamente registará, os campos dividiram-se de modo razoavelmente claro: de um lado, a frente aventureira-experimental dos Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte; do outro, a pop mais ou menos literário-conceptual dos Heróis do Mar e GNR; no centro, a oficina roqueira dos Xutos & Pontapés; por fim, sozinha no seu universo privado, a Sétima Legião. Sim, é simplificação, mas bastante menos abusiva do que possa parecer. E, agora que se celebram os trinta anos da fundação da banda de assombrosa estreia em álbum com A Um Deus Desconhecido (1984), mais óbvio se torna o espaço absolutamente singular (e fértil) que ela ocupou.
Com o ADN da Factory nos genes mas rapidamente mestiçada pelo contágio com as tradições populares portuguesas, galegas, irlandesas (mais pelo eixo-Pogues do que por outros), tão “nacionalista” e “trágico-marítima” quanto os Heróis mas muito menos caricatural, não só deixou uma imaculada discografia de estúdio em seis volumes (obrigatórios: o primeiro e o último, Sexto Sentido, 1999) como dela, em diversas direcções, e com vário sucesso estético, emergiriam os Madredeus, Gaiteiros de Lisboa e, a solo, Rodrigo Leão. Como todas as colectâneas, esta persegue a síntese impossível mas, no caso da Sétima, particularmente dificultada pela uniformemente superior qualidade da obra. Tudo o que aqui está é muito bom, tudo o que ficou de fora também. E o DVD que regista o concerto no Pavilhão Carlos Lopes, de 29 de Dezembro de 1990 (mais 8 videoclips), é o diamante na coroa. (amanhã, no Coliseu de Lisboa, às 21.30)
19 December 2011
ESTILHAÇOS DO BIG BANG
B Fachada - B Fachada
Osso Vaidoso - Animal
Quando houver recuo suficiente para se fazer a história da música popular portuguesa nas primeiras décadas do século XXI, há-de ser inevitável dedicar um extenso capítulo – de certeza, o mais importante – à improbabilíssima aventura dupla FlorCaveira/Amor Fúria, episódio de imprevisíveis raízes cristãs remontando às cisões no empório do Vaticano do século XVI, entre o magnífico papa ateu, Giovanni di Lorenzo de Medici, aliás, Leão X (ele que afirmava “Quantum nobis prodeste haec fabula Christi”, isto é, “Quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Cristo” mas, igualmente, o genial criador do Seguro de Pecado Vitalício conhecido como “Taxa Camarae”), e o teutónico e aborrecidíssimo Martinho Lutero. Alegadamente, protestantes/baptistas uns, católicos os outros – e não estamos propriamente habituados a estabelecer este tipo de clivagens no que ao pop/rock diz respeito –, inegável é que, após demasiado tempo de domínio de roqueiros lusos travestidos de naturais do eixo UK/USA, o terreno estava preparado para a germinação de uma estirpe de renascentistas dedicados a reactivar o ADN – Heróis do Mar, Variações, GNR, Sétima Legião, até a geração prévia dos cantautores – que havia permanecido em estado de latência desde o início de 90. E se, até agora, daí não emergiu ainda nenhum A Um Deus Desconhecido ou Os Homens Não Se Querem Bonitos, já nesse santíssimo ventre foram gerados alguns belos nacos de música e de palavras bem saboreáveis.
Como, por exemplo (para além do que pariram Tiago Guillul, João Coração, Os Golpes, Samuel Úria ou Os Pontos Negros), a discografia bianual de Bernardo Fachada, espécie de desarrumado artesanato salta-pocinhas entre a música tradicional e as muitas declinações da pop: ora Reininho, ora Gainsbourg, aqui Giacometti, ali Godinho, concentrado no estudo quase entomológica do sapiens local, observado do exterior ou encarnado na primeira pessoa do singular, em perfurantes tiradas multireferenciais do jeito de "Vou casar discretamente e ser um belo pai presente, ter pouca vida social e ser senhor de Portugal, vou candidatar-me à presidência, vou fazer concertos de Natal, vou insistir na persistência, eu vou ser o Zappa nacional". Com temíveis desvios infanto-juvenis adicionais (B Fachada É Pra Meninos, 2010) e oferendas estivais (o EP Deus, Pátria e Família, 2011) em modo de imprecação diante das muralhas da cidade: “Portugal está para acabar, é deixar o cabrão morrer, sem a pátria para cantar, sobra um mundo para viver”. B Fachada (indistintamente intitulado da mesma forma que o opus de 2009), entretanto, não será motivo para celebrar com foguetório o décimo volume em quatro anos e meio de discografia: desta vez, em registo autêntica ou ficcionalmente confessional, se a agilidade verbal se deixa reconhecer desde o primeiro instante (“Noutro tempo, noutra configuração, eu dedicava-me ao roque, só tocava distorção, entretinha as raparigas com letras de pressão, uma cassete das antigas, pelas garagens do Monte Abraão”), a moldura musical – piano escolar, coros esquemáticos, percussão residual – reduz ao menor denominador comum uma sequência de canções melodicamente letárgicas, francamente muito pouco memoráveis e de rumo errático, que dificilmente puxarão o lustro ao CV de Fachada.
Se, no entanto, recuarmos até ao tal Big Bang da pop nacional, pelo caminho, tropeçaremos naquele instante em que, tal como se fala dos Pink Floyd com e sem Syd Barrett, nos deveremos referir aos GNR com e sem Alexandre Soares (embora com danos colaterais consideravelmente mais atenuados na banda do Porto): de coração pop e sistema nervoso experimental, os GNR devem-lhe algumas das mais preciosas jóias da primeira e melhor fase (só um exemplo: o alinhamento integral de Os Homens Não Se Querem Bonitos), pecúlio estético que transportaria, primeiro, para o seu The Madcap Laughs, a solo (Um Projecto Global, 1988), e que, mais tarde, integrado na tripulação dos Três Tristes Tigres – onde se cruzaria com Ana Deus –, voltaria a reconfigurar em formato de nave pop com radares apontados à estratosfera, em Guia Espiritual (1996), e Comum (1998). É, justamente, o núcleo Soares/Deus que, agora (metabolizadas obscuras etapas intermédias universalmente desconhecidas sob os nomes de Nadadores de Inverno e D. Chica), regressa, muito apropriadamente, sob a designação de Osso Vaidoso.
Porque a primeira sensação é a de tratar-se de uma reencarnação apenas um pouco menos sonoramente anoréctica dos Young Marble Giants: melodias telegráficas, traçado rítmico de electrocardiograma, espessura harmónica espalmada no quase único contraponto de voz e guitarra, com os eventuais adereços remetidos à percussão-Mo Tucker de "Cacofonia", às interferências siderais de "Animal" ou aos abstraccionismos cenográficos de "Ponto Morto". Caso absolutamente eloquente de quão produtiva pode continuar a ser a atitude "less is more", há, mesmo assim, que reconhecer o valioso contributo dos textos de Regina Guimarães (o terceiro tigre retornado à selva, aqui literaturando a partir dos estímulos de Nina Simone, Charles Cros e de interlocutores de diversas e insondáveis proveniências – é favor dar uso útil à ficha técnica), dos outros de Alberto Pimenta e Valter Hugo Mãe, da semi-invisível mas indispensável aguada tímbrica dos teclados de João Pedro Coimbra (dos Mesa, e outro tigre episódico), das percussões de Gustavo Costa e da electricidade de Tó Trips que, apesar de apenas presente numa só faixa, terá, aparentemente, reanimado o espectro Velvet Underground que Alexandre Soares mantinha sequestrado dentro de si e que ioniza com minerais radioactivos o frágil tecido conjuntivo, esplendorosamente descarnado, do Osso deste Animal.
(2011)
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17 August 2011
MASSACRE

GNR - Vôos Domésticos
Não deveriam existir grandes preconceitos nem oposições de princípio perante a hipótese de versões do Pierrot Lunaire, de Schoenberg, para cavaquinho, gamelã balinês e "tin whistle", ou do reportório dos Led Zeppelin para "consort" de sopros renascentista. Em qualquer dos casos, em última análise, o resultado final do
empreendimento estético haveria de ser sempre decisivo e o excessivo respeitinho relativamente à hipotética degola das vacas sagradas nunca deveria ultrapassar a condição de mera nota de rodapé. Já se escutaram exercícios de violenta iconoclastia (cometidos, por exemplo, sobre Kurt Weill, Cole Porter ou Burt Bacharach) dos quais imenso bem veio ao mundo e muitos outros, carregados de cerimónia e infinita veneração, que a História da música, mui justamente, ignorou. Por maioria de razão, quando a iniciativa da profanação parte dos próprios autores, mais forte será a legitimidade.
Acontece que nada disto serve para absolver ou ser usado como atenuante relativamente ao massacre que, perante todos nós, e com o previsível sucesso comercial, os GNR acabam de perpetrar sobre catorze temas do seu património privado. Recorde-se: nos seus melhores momentos, a pop-rock portuguesa deve-lhes algumas das mais preciosas jóias da sua coroa numa quase perfeita síntese entre new wave, experimentalismo, engenho literário no formato-canção e insolência pop. Reencadernadas por eles mesmos, por ocasião do 30º aniversário da banda, exibem todos os sinais de uma cirurgia plástica que correu desastrosamente mal: as arestas e “imperfeições” lustrosa e arrepiantemente polidas, os arranjos vertidos para um idioma inexplicavelmente de bar de hotel, a pica original castrada e “sofisticadamente” amansada. Resta o consolo de que, pelo Outono, a discografia do grupo, tal como as muito boas memórias a recordam, será integralmente reeditada.
(2011)
GNR - Vôos Domésticos
Não deveriam existir grandes preconceitos nem oposições de princípio perante a hipótese de versões do Pierrot Lunaire, de Schoenberg, para cavaquinho, gamelã balinês e "tin whistle", ou do reportório dos Led Zeppelin para "consort" de sopros renascentista. Em qualquer dos casos, em última análise, o resultado final do
empreendimento estético haveria de ser sempre decisivo e o excessivo respeitinho relativamente à hipotética degola das vacas sagradas nunca deveria ultrapassar a condição de mera nota de rodapé. Já se escutaram exercícios de violenta iconoclastia (cometidos, por exemplo, sobre Kurt Weill, Cole Porter ou Burt Bacharach) dos quais imenso bem veio ao mundo e muitos outros, carregados de cerimónia e infinita veneração, que a História da música, mui justamente, ignorou. Por maioria de razão, quando a iniciativa da profanação parte dos próprios autores, mais forte será a legitimidade.
Acontece que nada disto serve para absolver ou ser usado como atenuante relativamente ao massacre que, perante todos nós, e com o previsível sucesso comercial, os GNR acabam de perpetrar sobre catorze temas do seu património privado. Recorde-se: nos seus melhores momentos, a pop-rock portuguesa deve-lhes algumas das mais preciosas jóias da sua coroa numa quase perfeita síntese entre new wave, experimentalismo, engenho literário no formato-canção e insolência pop. Reencadernadas por eles mesmos, por ocasião do 30º aniversário da banda, exibem todos os sinais de uma cirurgia plástica que correu desastrosamente mal: as arestas e “imperfeições” lustrosa e arrepiantemente polidas, os arranjos vertidos para um idioma inexplicavelmente de bar de hotel, a pica original castrada e “sofisticadamente” amansada. Resta o consolo de que, pelo Outono, a discografia do grupo, tal como as muito boas memórias a recordam, será integralmente reeditada.
(2011)
17 August 2010
ESFORCEMO-NOS, SIM

GNR - Retropolitana
Tudo pediria para colocar o teclado em piloto automático e deixá-lo escrever sozinho “oito anos após o último álbum de originais, Do Lado dos Cisnes, saúda-se o regresso dos GNR, com Retropolitana”. Tudo pediria mas não vale a pena incomodar-se a pedir. Porque, ainda que o percurso dos GNR, desde o brilhante trio de partida – Independança (1982), Defeitos Especiais (1984) e Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) –, tenha tido algum perfil de montanha russa, nunca, verdadeiramente, como neste disco se aproximou tanto do que se assemelha perigosamente a um plano inclinado final. Não traz felicidade nenhuma fazer profecias destas: poucas bandas se podem orgulhar de ter contribuído de modo tão decisivo para a gramática da pop lusa como o grupo de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão (sem esquecer o génio de Alexandre Soares nos capítulos iniciais).
Dos textos de Reininho (escrevi e não me arrependo que, no último meio século, apenas Alexandre O’Neill e Caetano Veloso coreografaram a língua portuguesa como ele) à tradução da new wave e do pós-punk para o perímetro entre Minho e Guadiana, não foi, obviamente, por acidente que os novíssimos pop-rockers do eixo FlorCaveira/Amor Fúria incluíram os GNR no seu panteão de divindades tutelares. A pequena tragédia é que Retropolitana tem muito pouco ou quase nada que o redima. Musicalmente raso, naquele registo de preguiçosa modorra-FM desesperantemente resignada e previsível, o que ainda resta de aventureirismo descobre-se apenas numa ou noutra curva das palavras e, mesmo aí – embora Reininho esteja geneticamente impossibilitado de escrever uma má letra –, a considerável distância das gloriosas gincanas semânticas a que tão mal fomos habituados. Esforcemo-nos, então, por acreditar que não é ainda a descida final da montanha russa mas só aquela queda arrepiante antes da escalada seguinte.
(2010)
GNR - Retropolitana
Tudo pediria para colocar o teclado em piloto automático e deixá-lo escrever sozinho “oito anos após o último álbum de originais, Do Lado dos Cisnes, saúda-se o regresso dos GNR, com Retropolitana”. Tudo pediria mas não vale a pena incomodar-se a pedir. Porque, ainda que o percurso dos GNR, desde o brilhante trio de partida – Independança (1982), Defeitos Especiais (1984) e Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) –, tenha tido algum perfil de montanha russa, nunca, verdadeiramente, como neste disco se aproximou tanto do que se assemelha perigosamente a um plano inclinado final. Não traz felicidade nenhuma fazer profecias destas: poucas bandas se podem orgulhar de ter contribuído de modo tão decisivo para a gramática da pop lusa como o grupo de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão (sem esquecer o génio de Alexandre Soares nos capítulos iniciais).
Dos textos de Reininho (escrevi e não me arrependo que, no último meio século, apenas Alexandre O’Neill e Caetano Veloso coreografaram a língua portuguesa como ele) à tradução da new wave e do pós-punk para o perímetro entre Minho e Guadiana, não foi, obviamente, por acidente que os novíssimos pop-rockers do eixo FlorCaveira/Amor Fúria incluíram os GNR no seu panteão de divindades tutelares. A pequena tragédia é que Retropolitana tem muito pouco ou quase nada que o redima. Musicalmente raso, naquele registo de preguiçosa modorra-FM desesperantemente resignada e previsível, o que ainda resta de aventureirismo descobre-se apenas numa ou noutra curva das palavras e, mesmo aí – embora Reininho esteja geneticamente impossibilitado de escrever uma má letra –, a considerável distância das gloriosas gincanas semânticas a que tão mal fomos habituados. Esforcemo-nos, então, por acreditar que não é ainda a descida final da montanha russa mas só aquela queda arrepiante antes da escalada seguinte.
(2010)
24 May 2010
MELHOR DO QUE QUALQUER SARAMAGO COMUM

Tiago Guillul - V
Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.
A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto – “não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.
E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.
(2010)
Tiago Guillul - V
Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.
A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto – “não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.
E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.
(2010)
14 December 2009
"FELIZMENTE QUE A NOITE SAI,
AINDA BEM QUE HÁ NÉVOA POR AÍ,
ESTOU CONTENTE SE A LUZ SE ESVAI
E UMA SOMBRA INVADE ESTE LUGAR,
SIM, EU DECLARO MORTE AO SOL"

2ª Feira, 14 de Dezembro de 2009
Tempo frio, com céu pouco nublado ou limpo.
Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) de nordeste, soprando moderado (20 a 35 km/h) no litoral e temporariamente forte (35 a 45 km/h) nas terras altas. Formação de geada, em especial nas regiões do interior.
Temperaturas máximas previstas:
PORTO - 11ºC
LISBOA - 09ºC
FARO - 14ºC
(aqui)
Está quase no ponto. Menos 4 ou 5 graus, vento mais rijo, nevoeiro cerrado, uma nevezita, e era o ideal para, às dez para as onze da noite, ir fazer o último reabastecimento de SG Filtro, em mangas de camisa, com o frio a ferrar na pele.
(2009)
AINDA BEM QUE HÁ NÉVOA POR AÍ,
ESTOU CONTENTE SE A LUZ SE ESVAI
E UMA SOMBRA INVADE ESTE LUGAR,
SIM, EU DECLARO MORTE AO SOL"
2ª Feira, 14 de Dezembro de 2009
Tempo frio, com céu pouco nublado ou limpo.
Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) de nordeste, soprando moderado (20 a 35 km/h) no litoral e temporariamente forte (35 a 45 km/h) nas terras altas. Formação de geada, em especial nas regiões do interior.
Temperaturas máximas previstas:
PORTO - 11ºC
LISBOA - 09ºC
FARO - 14ºC
(aqui)
Está quase no ponto. Menos 4 ou 5 graus, vento mais rijo, nevoeiro cerrado, uma nevezita, e era o ideal para, às dez para as onze da noite, ir fazer o último reabastecimento de SG Filtro, em mangas de camisa, com o frio a ferrar na pele.
(2009)
01 November 2009
"SHE LICKS, SHE SUCKS, 'QUE RICO'"
(GNR - "Hardcore 1º Escalão")
(GNR - "Hardcore 1º Escalão")
"New research published in the online journal PLoS ONE demonstrates for the first time that a non-human adult animal species regularly engages in oral sex behavior. While the behavior has been seen in juvenile animals before, this is the first time it has been observed in adult animals. Though it has been observed previously in bonobos (both heterosexually and homosexually), this behavior generally has been confined to juvenile animals, the authors of the new study note. The field research, which was conducted in Guangzhou City, China, reveals that in the case of the greater short-nosed fruit bat (Cynopterus sphinx) female species-on-male species oral sex now has been documented as a regular occurrence. Scientists observed that in instances where oral sex was performed, copulation time increased". (texto integral aqui)
(2009)
05 September 2009
DEPOIS DA LUSOFOBIA
Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense
Quando, em 1989, os Tina & The Top Ten se apresentaram como "the first all portuguese fake american rock’n’roll band", o caldo de cultura de então na pop-rock portuguesa possuía o equilíbrio de microorganismos exactamente adequado para que o gesto de João Paulo Feliciano (aliás, Dr. Top), Tina Costa, Johnny "Scratch" Money, Captain M. D., Lee "Beaty" Deasy, Cosmic Rita e Plastic Mimi pudesse ser facilmente interpretado enquanto acto de ironia arty, um "scherzo" conceptual em torno das velhas categorias do "autêntico" e do "falso", encenado, de princípio a fim, como se, por um golpe de magia, num universo alternativo, os Sonic Youth – com quem, para adensar a trama do argumento, os T&TTT viriam a estreitar relações e a actuar conjuntamente, em 1993, no Campo Pequeno, em Lisboa – tivessem nascido para o mundo não em Nova Iorque mas algures entre Lisboa e as Caldas da Rainha. E uma das razões porque, nessa altura, não existiriam muitas dúvidas acerca do sentido estético da banda era o facto de, à época – dos GNR aos Mler Ife Dada, dos Rádio Macau aos Pop Dell’Arte – ser absolutamente insólito pretender simular-se uma identidade pop com registo de nacionalidade diferente daquele que o BI exibia.
Nada de extraordinário, afinal: das cantigas de amigo medievais, ao fado, ao amarrotado nacional-cançonetismo ou à geração imediatamente anterior dos cantautores como José Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a norma “espontânea” (em todas as suas infinitas variações e contaminações) sempre foi a de, com maior ou menor dose de tempero patrioteiro, se compor e interpretar música portuguesa e em português. É, talvez, por isso, que soa um pouco bizarra alguma perplexidade actual perante a inevitabilidade de, após o curto interregno de domínio anglófono iniciado pelos Silence 4 em meados da década de 90, a pop lusa – essencialmente, através das independentes FlorCaveira e Amor Fúria, mas não exclusivamente – ter voltado a proferir frases como “beijas como uma freira” em vez de portentosos absurdos do género “I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on”. E duplamente interessante é também, neste preciso instante, darmos com o regresso de João Paulo Feliciano, desta vez, ao leme do Real Combo Lisbonense.
O manifesto/declaração de princípios (com contextualização histórica incluída: “Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade. Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança”) não podia ser mais sério, reivindicando-se dos “clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa”, das “tradições da canção ligeira e romântica”, dos “sons e ritmos oriundos da América do Sul”, do “ twist, (d)o yé-yé e (d)o rock’n’roll”.
E, sem se rir, João Paulo (Hammond, piano, guitarra), Ana Brandão (voz), Bernardo Barata (baixo), Ian Mucznik (voz, guitarra, percussões), João Leitão (guitarra), João Pinheiro (bateria), Márcia Santos (voz, percussões), Mário Feliciano (Farfisa, percussões, voz), Rui Alves (percussões, voz), Sérgio Costa (piano, piano eléctrico, flauta, saxofone) e Tomás Pimentel (trompete, fliscorne), numa atitude “congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural”, apelam a que “novos e menos novos, ricos, pobres e remediados”, dançando, participem da “recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer”. Traduzindo: aquilo que, em versão caricatural, Os Tornados, de Twist do Contrabando (ed. Arthouse/Valentim de Carvalho), ensaiam e os OqueStrada, de Tasca Beat, cinematizam e gloriosamente baralham, o Real Combo Lisbonense, assumindo a pose de "first all portuguese fake fifties dance band", junta as pontas soltas do imenso baú de tesouros que as edições Portugal Deluxe começaram a revelar (e que, no plano internacional, a monumental enciclopédia Ultra Lounge arrancou das trevas), puxa o lustro a meia dúzia de suaves frivolidades de Eugénio Pepe, Frederico Valério, Artur Ribeiro, Carlos Canelhas, Byron Gay e Mário Simões (o insano surrealismo de casino de "A Borracha do Rocha") e, tão naturalmente como quem, todos os dias tropeça em Thurston Moore à porta da tabacaria, projecta-as como novas para o enorme coreto do arraial pós-neo-alter-moderno do admirável mundo velho.
(2009)
01 January 2009
MÚSICA 2008 - REEDIÇÕES
Karen Dalton - "It Hurts Me Too"
Karen Dalton - In My Own Time e Green Rocky Road
Bill Fay - Bill Fay
Laura Nyro - More Than A New Discovery
Marianne Faithfull - Come My Way
Weekend - Live At Ronnie Scott’s
Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking
GNR – Independança
Caetano Veloso - Tropicália
Caetano Veloso – Caetano Veloso
Caetano Veloso - Araçá Azul
Laurie Anderson - Big Science
(2008)
Karen Dalton - "It Hurts Me Too"
Karen Dalton - In My Own Time e Green Rocky Road
Bill Fay - Bill Fay
Laura Nyro - More Than A New Discovery
Marianne Faithfull - Come My Way
Weekend - Live At Ronnie Scott’s
Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking
GNR – Independança
Caetano Veloso - Tropicália
Caetano Veloso – Caetano Veloso
Caetano Veloso - Araçá Azul
Laurie Anderson - Big Science
(2008)
18 December 2008
POESIA DE INSPIRAÇÃO CRISTÃ (II)
Vídeo Maria
(Rui Reininho/GNR)Tarde de chuva, a península inteira a chorar
Entro numa igreja fria como um círio cintilante
Sentada, imóvel, fumando em frente ao altar
Silhueta, esboço, a esfinge de um anjo fumegante
Há em mim um profano desejo a crescer
Sinto a língua morta e o latim vai mudar
Os santos do altar devem tentar compreender
O que ela faz aqui fumando
Estará a meditar?
Ai, ui, atirem-me água benta
Ajoelho-me, benzo-me, arrependo-me, esconjuro-a
Atirem-me água fria
Por ela assalto a caixa de esmolas
Atirem-me água benta
Com ela eu desço ao inferno de Dante
Atirem-me água fria
Ai, ui, atirem-me água benta
Por parecer latina calculo que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da nossa fantasia
Por parecer latina suponho que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da nossa fantasia
(2008)
Vídeo Maria
(Rui Reininho/GNR)Tarde de chuva, a península inteira a chorar
Entro numa igreja fria como um círio cintilante
Sentada, imóvel, fumando em frente ao altar
Silhueta, esboço, a esfinge de um anjo fumegante
Há em mim um profano desejo a crescer
Sinto a língua morta e o latim vai mudar
Os santos do altar devem tentar compreender
O que ela faz aqui fumando
Estará a meditar?
Ai, ui, atirem-me água benta
Ajoelho-me, benzo-me, arrependo-me, esconjuro-a
Atirem-me água fria
Por ela assalto a caixa de esmolas
Atirem-me água benta
Com ela eu desço ao inferno de Dante
Atirem-me água fria
Ai, ui, atirem-me água benta
Por parecer latina calculo que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da nossa fantasia
Por parecer latina suponho que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da nossa fantasia
(2008)
14 December 2008
CANÇÕES DE PROTESTO *

No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.

“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:

“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.

Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.

A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia”). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.

O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'”.

Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.

Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.

Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.

Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.
* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)
(2008)
No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.
“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:
“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.
Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.
A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia”). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.
O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'”.
Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.
Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.
Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.
Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.
* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)
(2008)
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27 October 2008
BEM-VINDOS AO RENASCIMENTO!

Tiago Guillul - IV

João Coração - Nº 1 Sessão de Cezimbra

Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil
O pop/rock português não teve, praticamente, Pré-História. Escutaram-se apenas uns vagidos inaugurais (que, volta e meia, são reeditados “por causa da nostalgia”) em versão mimética e pobrezinha do que, de Elvis aos Beatles, Shadows e horrores “prog” avulsos, se fazia no grande mundo e, por esse motivo, queimando etapas, no final dos anos 70/início de 80, saltámos directamente do Homo habilis para a Idade Clássica. Entrámos, naturalmente, pela porta do punk/new wave mas, rapidamente, recuperámos os milénios perdidos através de bandas, editoras “independentes” e lugares capazes de – à dimensão local – constituir uma vigorosa “cena” esteticamente autónoma das referências iniciais, com rosto próprio e espaço suficiente para “mainstream” e aventuras marginais. Entre os Pop Dell’Arte e os GNR, a Ama Romanta e as “majors” que surfaram a onda, os Mler Ife Dada e os Xutos & Pontapés, a Sétima Legião, o Rock Rendez Vous e os Heróis do Mar, o Quinto Império de Vieira parecia chegar, de guitarra eléctrica em punho e carregado de saudades do futuro. Porém, como o dos Césares, também este acabaria por ajoelhar às mãos dos bárbaros, adoptar o idioma e os costumes do invasor e mergulhar numa prolongada Idade das Trevas que a emergência de um ou outro herético não bastaria para pôr termo. A imaginação da espécie, como se sabe, é limitada e a História (para o pior e para o melhor) repete-se. Aproveitemos, então, estes dias: parece ter, finalmente, soado a hora do Renascimento e da recuperação dos valores clássicos!
Tiago Guillul - "Beijas Como Uma Freira"
A Florença do pop/rock luso situa-se algures entre Queluz e S. Domingos de Benfica – com derivações para outras coordenadas – e os seus mecenas e artistas (que, por vezes, coincidem) são gente animada daquele espírito que conduz a redigir manifestos e proclamações (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”). O quartel-general/laboratório aloja-se nas editoras FlorCaveira e Amor Fúria e, se lhe quisermos identificar um porta-voz, escolhamos Tiago Guillul que, a si mesmo (em página do MySpace), se define como cidadão “casado, monogâmico, pai de três filhinhos, pregador baptista, escreve em cantos obscuros da imprensa”, adopta como lema “religião e panque-roque” e refere como influências “o Evangelho do Senhor Jesus e o Roque-Enrole”. Atenção: aqui não existe uma gota de comédia! Há, certamente, ironia e sarcasmo de sobra mas todas as declarações devem ser levadas a sério. A quarta publicação de Guillul (antecedida de Fados Para o Apocalipse Contra a Babilónia, 2002, Mais Dez Fados Religiosos de Tiago Guillul, 2003,e Tiago Guillul Quer Ser o Leproso Que Agradece, 2004, todos publicados pela FlorCaveira) é o género de OVNI estético que sobrepõe sem problemas apostolado tão convicto quanto verrinoso (“Igrejas Cheias ao Domingo”, “Pior Que Gente Devassa É Um Clero Com Preguiça”) ácido sulfúrico “à la Dylan” (“murmuras modelo em Madonna mas tu beijas como uma freira”), imprecações literalmente incendiárias (“se o país tivesse de arder seria pela minha mão, Portugal tornar-se-ia a lareira da Europa”) e infantilidades surrealmente dementes, em gloriosa encenação sonora que faz ricochete do “panque” para o arraial “cool”, da tasca para o altar.
João Coração - "Dobra"
Pelo meio de um arquipélago densamente povoado de outros nomes – Ninivitas, Manuel Fúria, Os Lacraus, Almirante Ramos, Samuel Úria –, em Nº1 Sessão de Cezimbra, João Coração entrega-se a um estilo de canção acústica com iluminuras “bruitistas”, nascida da improvável intersecção de um Chet Baker sonâmbulo com um Fausto perdidamente romântico, embora ele prefira falar de outros (Arvo Part, Bob Dylan, Camané, Tom Waits, Will Oldham, Erik Satie, Fiona Apple, Cohen, Caetano, Nick Drake, Variações) e de cinema (Godard, Truffaut, Vincent Gallo, Tarkovski, Cassavettes, Murnau). Muitas vezes mais balbuciada e suspirada do que propriamente cantada, é uma pequena música de crepúsculos cujo melhor exemplo, a mui waitsiana “Fado do Bolo Alimentar”se encontra na sua página do MySpace.
Por fim, do lado do neo-punk “teen”, Magnífico Material Inútil, dos Pontos Negros, não será ainda exactamente a “ponte para esse longínquo oásis da cantiga certeira do roque português” que o produtor Guillul anuncia mas, nesta variante de Strokes com infusão bíblica e “crítica social” ingénua gerada na cripta de uma igreja baptista, há francamente mais energia e futuro do que em mil e um produtos formatados com que a indústria se entretém.
(2008)
Tiago Guillul - IV
João Coração - Nº 1 Sessão de Cezimbra
Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil
O pop/rock português não teve, praticamente, Pré-História. Escutaram-se apenas uns vagidos inaugurais (que, volta e meia, são reeditados “por causa da nostalgia”) em versão mimética e pobrezinha do que, de Elvis aos Beatles, Shadows e horrores “prog” avulsos, se fazia no grande mundo e, por esse motivo, queimando etapas, no final dos anos 70/início de 80, saltámos directamente do Homo habilis para a Idade Clássica. Entrámos, naturalmente, pela porta do punk/new wave mas, rapidamente, recuperámos os milénios perdidos através de bandas, editoras “independentes” e lugares capazes de – à dimensão local – constituir uma vigorosa “cena” esteticamente autónoma das referências iniciais, com rosto próprio e espaço suficiente para “mainstream” e aventuras marginais. Entre os Pop Dell’Arte e os GNR, a Ama Romanta e as “majors” que surfaram a onda, os Mler Ife Dada e os Xutos & Pontapés, a Sétima Legião, o Rock Rendez Vous e os Heróis do Mar, o Quinto Império de Vieira parecia chegar, de guitarra eléctrica em punho e carregado de saudades do futuro. Porém, como o dos Césares, também este acabaria por ajoelhar às mãos dos bárbaros, adoptar o idioma e os costumes do invasor e mergulhar numa prolongada Idade das Trevas que a emergência de um ou outro herético não bastaria para pôr termo. A imaginação da espécie, como se sabe, é limitada e a História (para o pior e para o melhor) repete-se. Aproveitemos, então, estes dias: parece ter, finalmente, soado a hora do Renascimento e da recuperação dos valores clássicos!
Tiago Guillul - "Beijas Como Uma Freira"
A Florença do pop/rock luso situa-se algures entre Queluz e S. Domingos de Benfica – com derivações para outras coordenadas – e os seus mecenas e artistas (que, por vezes, coincidem) são gente animada daquele espírito que conduz a redigir manifestos e proclamações (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”). O quartel-general/laboratório aloja-se nas editoras FlorCaveira e Amor Fúria e, se lhe quisermos identificar um porta-voz, escolhamos Tiago Guillul que, a si mesmo (em página do MySpace), se define como cidadão “casado, monogâmico, pai de três filhinhos, pregador baptista, escreve em cantos obscuros da imprensa”, adopta como lema “religião e panque-roque” e refere como influências “o Evangelho do Senhor Jesus e o Roque-Enrole”. Atenção: aqui não existe uma gota de comédia! Há, certamente, ironia e sarcasmo de sobra mas todas as declarações devem ser levadas a sério. A quarta publicação de Guillul (antecedida de Fados Para o Apocalipse Contra a Babilónia, 2002, Mais Dez Fados Religiosos de Tiago Guillul, 2003,e Tiago Guillul Quer Ser o Leproso Que Agradece, 2004, todos publicados pela FlorCaveira) é o género de OVNI estético que sobrepõe sem problemas apostolado tão convicto quanto verrinoso (“Igrejas Cheias ao Domingo”, “Pior Que Gente Devassa É Um Clero Com Preguiça”) ácido sulfúrico “à la Dylan” (“murmuras modelo em Madonna mas tu beijas como uma freira”), imprecações literalmente incendiárias (“se o país tivesse de arder seria pela minha mão, Portugal tornar-se-ia a lareira da Europa”) e infantilidades surrealmente dementes, em gloriosa encenação sonora que faz ricochete do “panque” para o arraial “cool”, da tasca para o altar.
João Coração - "Dobra"
Pelo meio de um arquipélago densamente povoado de outros nomes – Ninivitas, Manuel Fúria, Os Lacraus, Almirante Ramos, Samuel Úria –, em Nº1 Sessão de Cezimbra, João Coração entrega-se a um estilo de canção acústica com iluminuras “bruitistas”, nascida da improvável intersecção de um Chet Baker sonâmbulo com um Fausto perdidamente romântico, embora ele prefira falar de outros (Arvo Part, Bob Dylan, Camané, Tom Waits, Will Oldham, Erik Satie, Fiona Apple, Cohen, Caetano, Nick Drake, Variações) e de cinema (Godard, Truffaut, Vincent Gallo, Tarkovski, Cassavettes, Murnau). Muitas vezes mais balbuciada e suspirada do que propriamente cantada, é uma pequena música de crepúsculos cujo melhor exemplo, a mui waitsiana “Fado do Bolo Alimentar”se encontra na sua página do MySpace.
Por fim, do lado do neo-punk “teen”, Magnífico Material Inútil, dos Pontos Negros, não será ainda exactamente a “ponte para esse longínquo oásis da cantiga certeira do roque português” que o produtor Guillul anuncia mas, nesta variante de Strokes com infusão bíblica e “crítica social” ingénua gerada na cripta de uma igreja baptista, há francamente mais energia e futuro do que em mil e um produtos formatados com que a indústria se entretém.
(2008)
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Tiago Guillul
21 January 2008
Qualquer pretexto é bom para uma expedição de assalto às caves onde se arquivam os fundos de catálogo: os tempos não estão para aventuras e tudo o que possibilite contabilizar uns últimos tostões através da recuperação, reavaliação e reciclagem de vetustas “masters” há muito a acumular pó nas prateleiras – uma qualquer efeméride, um filme que vem mesmo a propósito, uma súbita infatuação de alguém subitamente em destaque ou… coisa nenhuma – há que ser aproveitado para, tanto quanto ainda é possível (e cada vez é menos possível), acrescentar algum valor positivo à contabilidade de uma indústria que nunca sonhou ter alguma vez de se reconverter tão rápida e drasticamente como agora, irremediavelmente, deverá acontecer. O que, se tende a fazer acumular robustas pilhas de discos a que não é fácil prestar a devida atenção no decurso do período de edições correntes, por outro lado (entre o inevitável entulho que, por arrasto, é desenterrado nesse processo), permite, muitas vezes, oferecer uma segunda vida a gravações que já não andariam propriamente na ponta da lingua da maioria dos seus potenciais apreciadores.
Control – o óptimo filme de Anton Corbijn em torno da figura de Ian Curtis – foi, sem dúvida, o rastilho para o “repackaging” em formato “collector’s edition”
História inteiramente diferente é a de In My Own Time (1971), segundo e último álbum de Karen Dalton, de quem foi também já reeditada a estreia It’s So Hard To Tell Who’s Going To Love You The Best (1969), e que, provavelmente, ficarão como aquilo que de melhor alguma vez ficaremos a dever a Devendra Banhart e Joanna Newsom que contribuiram para gerar o “buzz” em torno desta figura trágica e praticamente ignorada da Greenwich Village dos anos 60. Venerada por Dylan (que, nas suas Chronicles, se refere a ela como “a minha cantora preferida da club scene”), por Nick Cave
Um quase idêntico estatatuto de “revelação” poderão ter para muitos os quatro álbuns de Caetano Veloso agora igualmente reeditados – Caetano Veloso (Tropicália) (1967), Caetano Veloso (1969), Caetano Veloso (A Little More Blue) (1971) e Araçá Azul (1972). Se os dois primeiros, contemporâneos da eclosão do Tropicalismo, incluem futuros clássicos como “Alegria, Alegria”, “Soy Loco Por Ti América”, “Tropicália”, “Clarice”, “Atrás do Trio Eléctrico”, “Não Identificado” ou “Os Argonautas”
Naturalmente, por cá (embora reeditar não seja um hábito instituído), a colecção “Do Tempo do Vinil” também apostou nesse filão, recuperando cinco títulos “perdidos”: Alibi, de Manuela Moura Guedes (1982), essencialmente interessante pela participação da “backing band”/equipa de compositores – os GNR, com Vitor Rua – e pela inclusão do “single”
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