TONE POEM
Paddy McAloon - I Trawl The Megahertz
Para quem, publicando álbuns quase bissextamente, confessa ter cinco ou seis óperas e mais uma dúzia de musicais na gaveta, I Trawl The Megahertz não pode ser uma surpresa. E, sendo o seu autor o mesmo Paddy McAloon (dever-se-à dizer ex-Prefab Sprout?) que um dia me confessou "Detestaria que me vissem como um tipo antiquado. Na verdade, acho-me extremamente moderno. Simplesmente, não tenho o menor apreço pelo rumo que o mundo moderno seguiu", a surpresa ainda deveria ser menor. Mesmo assim, não é todos os dias que se depara com um gigantesco "tone-poem" orquestral deste calibre elaborado em torno de uma recolha de textos retirados de chat-shows e programas radiofónicos "de microfone aberto", dieta compulsiva de McAloon durante um período de cegueira temporária provocada por um descolamento de retina.
(o resto aqui)
Narrados friamente por Yvonne Connors, os textos - uniformemente excelentes — giram com deliberado distanciamento em torno de todos os "mal de vivre" existenciais ("repeat after me, happiness is only a habit") e alguma amável interrogação filosófica, e deixam-se conduzir pelos sofisticados encadeamentos harmónicos dos arranjos de David McGuiness interpretados pelo ensemble Mr McFall's Chamber, numa espécie de Laurie Anderson-meets-Ravel na mansarda de Debussy sob o olhar circunspecto de Zappa, Bernstein e Francis Lai. Há a oceânica faixa-título (vinte e tal minutos) e mais outras oito que prolongam e desdobram este delicadamente bizarro sinfonismo de câmara em todas as tonalidades. Dizer "genialmente fora de época" será uma redundância?
(2003)
(2003)