Em Dezembro de 2012, David Peschek, de “The Quietus”, a propósito da publicação de Bish Bosch, tentava explicar a transfiguração de Scott Walker desde os tempos dos Walker Brothers até à actualidade dizendo que seria algo semelhante a um dos miúdos dos One Direction converter-se numa combinação de John Zorn, Diamanda Galás, Ligeti e Sunn O))). No mesmo número, em conversa com Walker, John Doran confidenciava-lhe que o álbum – em imagem que o próprio reconhecia como não muito feliz – o fazia pensar numa orquestra de zombies assassinando-se com os instrumentos, escutada por um público igualmente composto por zombies que, em vez de gritar “Brains! Brains!”, urrava “Brahms! Brahms!” Scott terá soltado uma rara gargalhada e respondido: “Obrigado. Acabou de compor o meu álbum seguinte”. Poucas vezes uma publicação terá sido tão profética. Soused, acabado de editar, é uma gravação a meias com os Sunn O))) – os espectros de Zorn, Galás e Ligeti nunca foram parentes demasiado afastados do Scott Walker que saiu da crisálida com Tilt (1995) e, em The Drift (2006) e Bish Bosch, completou a metamorfose numa aterradora borboleta nocturna – e, se a comparação de Doran era, talvez, excessivamente gráfica, a verdade é que essa atmosfera crepuscular de assombração sempre foi o habitat natural de Walker.
Aparentemente predestinados para, um dia, se cruzarem, a voz e os demónios de Scott e as guitarras de Stephen O'Malley e Greg Anderson (herdeiros de Rhys Chatham e Glenn Branca numa variante glacial da estética do "drone" sonoro que os inventores de etiquetas classificam – entre outros rótulos "prêt-à-porter" – como "heady metal") coabitam da forma mais desejavelmente desconfortável, entregues à edificação de desmedidos painéis de um pavor quase táctil, imensas catedrais de cinzas habitadas por uma multidão de clones do coronel Kurtz, trasladado dos fotogramas de Coppola e condenado para toda a eternidade a viver “the horror... the horror”. Não por acaso, a primeira das cinco longas faixas tem o título de "Brando" e, nela, Scott Walker, qual penitente de missa negra S&M, uiva “A beating would do me a world of good”. Uma maré alta do mais puríssimo mal ameaça transbordar e não é aqui que encontrará algum obstáculo.
How does an aspiring artist bridge the gap between distribution and commerce? Francis Ford Coppola: We have to be very clever about those things. You have to remember that it’s only a few hundred years, if that much, that artists are working with money. Artists never got money. Artists had a patron, either the leader of the state or the duke of Weimar or somewhere, or the church, the pope. Or they had another job. I have another job. I make films. No one tells me what to do. But I make the money in the wine industry. You work another job and get up at five in the morning and write your script.
This idea of Metallica or some rock n’ roll singer being rich, that’s not necessarily going to happen anymore. Because, as we enter into a new age, maybe art will be free. Maybe the students are right. They should be able to download music and movies. I’m going to be shot for saying this. But who said art has to cost money? And therefore, who says artists have to make money?
In the old days, 200 years ago, if you were a composer, the only way you could make money was to travel with the orchestra and be the conductor, because then you’d be paid as a musician. There was no recording. There were no record royalties. So I would say, “Try to disconnect the idea of cinema with the idea of making a living and money.” Because there are ways around it. (aqui)
(2012)
10 January 2012
UI, UI, UI, UI, UI!... ELE MALTRATOU O PADRINHO!!!...
Jorge Silva Carvalho usou Maçonaria para um projecto de ambição pessoal”:"Segundo a tradição maçónica, o iniciado tem o dever de prestar informações e pedir conselhos ao seu padrinho. Mas Silva Carvalho cedo deixou de cumprir essa obrigação. 'Pelo contrário', diz Anes. 'Ele maltratou o padrinho, dentro e fora da Maçonaria, e começou a fazer o contrário do que eu lhe dizia'".
"Fonte próxima de Durão Barroso afirmou ao 'Expresso' que 'na hora certa, as pessoas certas farão os telefonemas certos para explicar ao líder do PSD que o OE tem que ser aprovado'" ("Expresso" de hoje)
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXVI)
"Continuo a não pagar mais de sete dólares por um fato. No princípio, quando ia para a estrada, era muito supersticioso; usava no palco o mesmo fato que vestia fora dele. Muitas vezes, partíamos de manhã, muito cedo. Detestava todo aquele ritual de ter de me vestir. Por isso, na maioria das vezes, deitava-me na cama de fato e sapatos, pronto a levantar-me a qualquer hora. Puxava o cobertor por cima de mim e dormia vestido. Fiz isso durante muitos anos. Só parei quando me casei. A minha mulher não vê isso com bons olhos. Sempre que ela sai por uns dias, visto um fato e meto-me na cama. Mas ela dá sempre por isso.
(...)
"A minha teoria é que as canções têm de ser anatomicamente correctas. Precisam de ter um clima, o nome de uma cidade e, habitualmente, alguma coisa que se coma — no caso de sentirmos fome.
(...)
"Tenho aqui algumas respostas. Poderão não ser adequadas às suas perguntas mas não é por isso que deixam de ser respostas.
(...)
"Ouvi 'Nessun Dorma' uma noite, na cozinha dos Coppola com o Raul Julia, e essa ária mudou a minha vida para sempre. Nunca a tinha ouvido. O Coppola perguntou-me se a conhecia, disse-lhe que não, e foi como se lhe tivesse dito que nunca tinha comido esparguete com almôndegas — 'Oh meu deus, oh meu deus!'. Pegou em mim, levou-me até ao jukebox (havia um jukebox na cozinha), pôs o disco a tocar e deixou-me ali. Foi como dar um charuto a um puto de cinco anos. Fiquei todo azul e chorei que nem uma Madalena.
(...)
"Thelonious Monk dizia que não existem notas erradas, é só uma questão de saber como as resolver. Ele quase soava como um puto a ter lições de piano. Comprendi isso perfeitamente quando comecei a tocar piano, porque ele desconstruía a música à medida que a ia tocando. Como que desmistificava a música pois há sempre uma certa veneração tanto em relação ao jazz como às outras músicas, a ponto de, a partir de certa altura, ser um bocado como o código da estrada, a música passa a ser secundária em relação às regras. É como a fotografia aérea que nos diz como devemos fazer as coisas. Acontece o mesmo com a folk. Experimentem tocar com um grupo de bluegrass e tentar introduzir ideias novas... Mais vale esquecer. Olham para ti como se fosses comunista.
(...)
1999
(2007)
25 October 2007
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XIX)
"O Troubadour, em Los Angeles, era o lugar certo para tocar, nos anos 70. Punham uma grande fotografia nossa na vitrine e, se esgotássemos a lotação, estávamos em grande. O nosso nome era anunciado, um foco ilumináva-nos ao pé da máquina dos cigarros e acompanháva-nos até ao palco. Doug Weston, o patrão, aparecia e declamava 'The Love Song Of J. Alfred Prufrock'. Depois, havia tipos a tripar que queriam contar histórias. Era como o programa do Ed Sullivan sem o Ed. Chegava a haver gente que viajava até lá à boleia só para estar vinte minutos em palco.
(...)
"Houve provavelmente mais canções de Small Change do que de outros discos que continuei a cantar em concerto. Há canções que se escrevem e nunca mais queremos saber delas. Outras, cantamo-las todas as noites e continuamos a perguntar o que querem dizer. 'Tom Traubert's Blues' foi, decerto, uma das canções que mais cantei e com que encerrava os concertos.
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"Na altura em que o Francis Ford Copolla me convidou para escrever as canções de One From The Heart, já tinha decidido afastar-me dessa cena 'lounge'. Quando ele me sugeriu uma opereta 'lounge', pensei 'chegaste com dois anos de atraso'. Para mim, isso estava no fim. Tive de voltar atrás e trazer tudo de volta. Foi como estar a crescer e bater com a cabeça no tecto. As pessoas têm uma imagem de nós a partir da qual nos definem e sabem o que hão-de exigir. É complicado mudar de atitude e operar mudanças no clima. Transportamos connosco a percepção que o público tem de nós.
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"Não sei se consegui conciliar muito bem essa tensão entre canções agrestes e suaves. Apetecia-me mais misturá-las do que colocá-las lado a lado. Ou, se calhar, é como rebentar uma parede a murro e, depois, pedir desculpa, o reflexo alcoólico. Provavelmente, tem mais a ver com as festas a que ia quando era adolescente. Havia quatro ou cinco canções rápidas e, a seguir, uma mais lenta em que se convidava as raparigas para dançar. Nunca me devo ter esquecido desse ciclo musical. Os DJs também funcionam assim. Está relacionado com o ritmo cardíaco. Há canções mais rápidas que o ritmo do coração e outras mais lentas. Acho que sempre distingui as duas.
(...)
"Para onde quer que se vá, o lugar terá de nos afectar. Em Nova Iorque, andei mais pelos clubes onde a mistura musical era maior. Em Greenwich Village, partilhava um quarto com o John Lurie e o Evan, o irmão dele. Escrevíamos canções até às tantas. O problema, quando se tem putos, é que se pode ficar a pé até às cinco da manhã mas é preciso voltar a casa para lhes dar de comer.
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"Muito do mérito em Swordfishtrombones foi da minha mulher, Kathleen. Esse disco foi o primeiro que fizemos sem um produtor externo. Foi ela que me disse que eu era capaz de o fazer. Estava convencido que era milionário e não tinha mais de 20 dólares no banco. A Kathleen ouviu os meus discos e percebeu que havia muitos géneros musicais que me interessavam e que eu nunca tinha explorado. Ela é uma DJ fantástica. Fez-me ouvir imensos discos. Foi ela quem, realmente, co-produziu esse disco. Eu andava à procura de música que se ajustasse melhor às personagens das canções em vez de as vestir todas com o mesmo fato como acontecia até aí.