(ver aqui)
Showing posts with label Flannery O'Connor. Show all posts
Showing posts with label Flannery O'Connor. Show all posts
20 July 2023
Labels:
Don Paterson,
Dylan,
Elvis Presley,
Flannery O'Connor,
identidade,
linguagem,
literatura,
PJ Harvey,
poesia,
poetas,
Robert Louis Stevenson,
Ryuichi Sakamoto,
William Barnes,
William Blake
09 November 2021
"You Was Born To Die" (feat. Kyshona, Margo Price, & Jason Isbell)
(sequência daqui) Agora, com A Southern Gothic – variação negro-americana sobre o género literário que os branquíssimos Faulkner e Flannery O’Connor brilhantemente praticaram –, Victoria (“singer-songwriter, blues poet, folklorist, historian, and sociologist“) alarga o horizonte: “Não me interessa a História contada sob o ponto de vista dos conquistadores. Interessam-me as pessoas cujas histórias foram silenciadas. Gostaria que a minha música fizesse reflectir sobre a forma como caminhamos pelo mundo e como o mundo caminha através de nós”. Escoltada nessa reflexão por T-Bone Burnett (produtor imaculado), Mason Hickman, Margo Price, Jason Isbell, Kyshona e Matt Berninger (The National), Southern Gothic é um perfeitíssimo mosaico de farrapos de História ("Magnolia Blues"), hipnótica pop de câmara ("Please Come Down") e "murder ballads" em registo "trip hop" ("Deep Water Blues"). E o infinitamente mais que exige ser descoberto.
Labels:
Adia Victoria,
blues,
Flannery O'Connor,
História,
identidade,
Jason Isbell,
Kyshona,
literatura,
Margo Price,
Mason Hickman,
Matt Berninger,
T-Bone Burnett,
videoclips,
William Faulkner,
words and music
09 April 2019
NÃO BASTA O MUNDO
Oito cavas arcadas de violoncelo sobre um "drone" de cigarras digitais preparam o cenário para o que, em menos de dois minutos, ficará nietzscheanamente resolvido: “First of all, there is no god, ‘cause I went out and killed my god and laid his body in the dirt, I killed him clean, so it did not hurt”. Mais à frente, em registo de "lounge jazz" sideral, a necessária consequência: “Oh darling, I am a heathen, oh, evil hearted me, something lower than dirt, I hear ‘em callin’ me heathen, oh, like they think it hurts”. Quase no final, o funk cubista serve de gatilho para o disparo: “I wanna break free from my body, shaken loose my skin, 'cause I had a thought I am a god, of this I am convinced”, escuta-se em "Dope Queen Blues". Sim, blues. Por muito que Silences soe a assombrosa ópera lynchiana escrita por uma Fiona Apple urdindo uma "wall of sound" filigranada, Adia Victoria – negra, da Carolina do Sul, educada no opressivo fervor Adventista do 7º Dia ¬, ao “New York Times”, jura que se trata de blues: “Quero tornar os blues perigosos outra vez. Não é apenas uma sonoridade. Os brancos cometeram um erro crasso ao supor que lhes tinham desvendado o mistério e podiam pô-los a render. É nessa altura que aparece sempre uma negra esperta a subverter tudo de novo. E aqui estou eu”.
Na verdade, foi tudo um pouco mais complexo. Ao produtor, Aaron Dessner (The National), Adia propôs um enigma: “Como seria se Billie Holiday se perdesse no interior de uma canção dos Radiohead?...” Billie seria encontrada, encarcerada num "loop" de "Lady Sings the Blues", nos últimos 60 segundos de "The City", mas as coisas não ficariam por aí. De quem foi buscar o título do primeiro album – Beyond the Bloodhounds – ao livro de memórias de Harriet Jacobs, Incidents in the Life of a Slave Girl (1861), para Silences, recorreu à obra homónima (1978) de Tillie Olsen (sindicalista, comunista, escritora e feminista), interpretou canções de Gainsbourg, Portishead e Robert Johnson, e ajoelha perante Nina Simone, Flannery O’Connor e a poetisa surrealista Joyce Mansour, só podia aguardar-se algo à altura do que, em "Devil Is a Lie", proclama: “They say the weak shall inherit the earth, but the world was never enough”. O primeiro enorme álbum de 2019 é bastante mais alto do que isso. E só lhe fica bem ser assinado por quem não hesita em afirmar “Não acredito em música apolítica. Tomamos posição e comentamos o que se passa no mundo. Toda a música e arte são políticas”.
Labels:
Aaron Dessner,
Adia Victoria,
ateismo,
Billie Holiday,
blues,
Fiona Apple,
Flannery O'Connor,
identidade,
Joyce Mansour,
livros,
Nietzsche,
Nina Simone,
política,
Portishead,
Radiohead,
Serge Gainsbourg,
videoclips
26 May 2015
12 July 2013
BESTIÁRIO
Dêem-lhe corda e, enquanto tiver fôlego,
Tom Waits é capaz de, interminavelmente, debitar nacos de improvável sabedoria
sobre o mundo animal: "Sabia que se deitar uma gota de álcool em cima de
um escorpião, ele enlouquece e pica-se até morrer? E sabia que as moscas só
vivem duas semanas? Eis uma coisa a ter em conta quando matamos moscas. Serão
velhas? Terão acabado de nascer? E sabia que os mosquitos preferem as crianças
aos adultos e as loiras às morenas? Não sei se são capazes de distinguir as
loiras naturais das outras mas acredito que alguns já devem ter sido capazes de
evoluir até esse ponto. E as formigas espreguiçam-se quando acordam (já foram
vistas a fazê-lo ao microscópio!) e também bocejam. E, depois do trabalho, vão
a uns barzinhos pequeninos onde bebem um néctar que as põe um bocadinho tontas.
Só para acabar (não o quero maçar com mais histórias destas), os mosquitos são
mais atraidos pelo azul do que por qualquer outra cor. O que quer dizer que,
nos trópicos, convém usar camisas vermelhas”. Brett e Rennie Sparks (aka The Handsome Family) não costumam fazer
o mesmo mas o seu último álbum, Wilderness, reúne uma dúzia de canções em que
o título de cada uma é o nome de um animal (“Flies", "Frogs", "Octopus", "Lizard"...). Não se trata, contudo, de ampliar a outras espécies o subgénero
da folk-entomológica inaugurado por Mirah em Share This Place (2007).
Deles – sobre quem Greil
Marcus afirmou “O seu surrealismo do quotidiano não tem paralelo na escrita de
canções contemporânea” – ninguém espera algo de tão confortável: durante os já
vinte anos de percurso desde que o ex-cristão "born again" estudioso de música medieval e a
ex-"acid head"
adolescente que acredita ter sido Hildegard von Bingen a maior "songwriter"
de sempre se encontraram (quando ela lhe entregou um cartão com manchas de
sangue e uma citação de Thomas Pynchon), habituaram-nos a patinar sobre aquele
terreno escorregadio em que Flannery O’Connor reescreve os pesadelos de Kafka
e, algures entre o gótico sulista e a devoção pelos Beatles, o imprevisível
equilíbrio se descobre. Desta vez, porém, talvez seja mais apropriado falar de
um universo filmado, em simultâneo, por dois David (Lynch e Attenborough) com texto e
música de Hank Williams e Edgar Allan Poe: o que o "bear hug" com que o barítono
profundo de Brett nos envolve vai narrando são a gastronómica beleza do cadáver
do general Custer tal como as moscas o viram nas pradarias de Montana (“there’s
a Wal-Mart now where once the grizzlies roamed”), a história de Mary Sweeney, a
louca do Wisconsin, que, em 1896, se aplicava a estilhaçar vidros de janelas
(“She was a woodpecker, she couldn’t help but free all the things that hide
inside all the pretty trees”) ou a daquela outra mulher que, atingida por um
raio, acaba aprisionada num casulo tecido por lagartas (“Keeping time with
every rumble, every quiver of the earth, and she slowly changes shape with the
turning of the world”). Em matéria de folk "noir"
vertida no registo de bestiário sobrenatural assombrado pelo espectro das "murder ballads", durante muito tempo, não
irá haver melhor.
16 November 2011
RESSURREIÇÃO

Os Lacraus - Os Lacraus Encaram O Lobo
Como qualquer pessoa sofrivelmente culta sabe, só por imoderada arrogância (e a isso devemos estar infinitamente gratos) se continuou a escrever depois da Bíblia, do Épico de Gilgamesh ou do Mahabharata. Não por qualquer motivo de superioridade religiosa, teológica ou espiritual – nesse ponto, equivalem-se exactamente às crenças dos caçadores-recolectores do Sudeste Asiático, que acreditavam que o deus do trovão perdia as estribeiras se visse alguém a pentear o cabelo durante uma tempestade ou se encontrasse quem tivesse assistido a um acasalamento de cães – mas porque todas, literalmente todas, as histórias da desgraçada tragicomédia humana (nas suas incontáveis possibilidades e combinações), aí ficaram definitivamente registadas.
A Bíblia – em particular, o Antigo Testamento, esse portentoso repositório de divina violência gore, traição, inveja, pornografia, ficção-científica, incesto, irracionalidade e ódio –, por nos ser culturalmente mais próxima, desde a Idade do Bronze até hoje, permaneceu como matriz (aceite ou repudiada) de considerável parte da cultura popular e erudita, e não é sequer preciso evocar Leonard Cohen, Dylan, Springsteen ou toda a soul para nos apercebermos disso. Tiago Cavaco/Guillul/Lacrau é pastor Baptista mas não é por isso que, nesta muito apropriada ressurreição dos Lacraus, se aspiram odores bíblicos (ainda que subliminares) em todas as faixas: eles estão geneticamente impressos na natureza profunda desta antiquíssima música – rock’n’roll, variante punk – que praticam e que os autoriza a dedicar (mui excelentes) epístolas a Alexandra Lencastre ou Flannery O’Connor, a traduzir "Children Of The Revolution" para "Filhos da Ressurreição" ou a erguer, em "L.A.C.R.A.U.S.", o equivalente luso e perigosamente infecto-contagioso de "G.L.O.R.I.A.". Com arte final pop q.b., para ainda maior proveito de crentes, agnósticos e ateus.
(2011)
Os Lacraus - Os Lacraus Encaram O Lobo
Como qualquer pessoa sofrivelmente culta sabe, só por imoderada arrogância (e a isso devemos estar infinitamente gratos) se continuou a escrever depois da Bíblia, do Épico de Gilgamesh ou do Mahabharata. Não por qualquer motivo de superioridade religiosa, teológica ou espiritual – nesse ponto, equivalem-se exactamente às crenças dos caçadores-recolectores do Sudeste Asiático, que acreditavam que o deus do trovão perdia as estribeiras se visse alguém a pentear o cabelo durante uma tempestade ou se encontrasse quem tivesse assistido a um acasalamento de cães – mas porque todas, literalmente todas, as histórias da desgraçada tragicomédia humana (nas suas incontáveis possibilidades e combinações), aí ficaram definitivamente registadas.
A Bíblia – em particular, o Antigo Testamento, esse portentoso repositório de divina violência gore, traição, inveja, pornografia, ficção-científica, incesto, irracionalidade e ódio –, por nos ser culturalmente mais próxima, desde a Idade do Bronze até hoje, permaneceu como matriz (aceite ou repudiada) de considerável parte da cultura popular e erudita, e não é sequer preciso evocar Leonard Cohen, Dylan, Springsteen ou toda a soul para nos apercebermos disso. Tiago Cavaco/Guillul/Lacrau é pastor Baptista mas não é por isso que, nesta muito apropriada ressurreição dos Lacraus, se aspiram odores bíblicos (ainda que subliminares) em todas as faixas: eles estão geneticamente impressos na natureza profunda desta antiquíssima música – rock’n’roll, variante punk – que praticam e que os autoriza a dedicar (mui excelentes) epístolas a Alexandra Lencastre ou Flannery O’Connor, a traduzir "Children Of The Revolution" para "Filhos da Ressurreição" ou a erguer, em "L.A.C.R.A.U.S.", o equivalente luso e perigosamente infecto-contagioso de "G.L.O.R.I.A.". Com arte final pop q.b., para ainda maior proveito de crentes, agnósticos e ateus.
(2011)
08 July 2011
A MANSIDÃO E A IRA
Nick Cave - Let Love In, Murder Ballads, The Boatman’s Call, No More Shall We Part
Quando Matt Berninger, dos National, afirma que “nas nossas canções, existem, de certeza, trevas e melodrama mas também bastante humor e optimismo. Não estarão saturadas de felicidade mas isso também lá está. Descrevem-nos como lúgubres e depressivos mas temos também uma outra faceta que, por vezes, passa despercebida”, não temos razões para supor que ele não estará a dizer a verdade mas, sem dúvida, não seria exactamente aquilo que esperaríamos ouvir.
Já, no caso de Nick Cave, é preciso nunca ter escutado Murder Ballads (1996) para não duvidarmos por um segundo que, pelo meio de todo o devastador Sturm und Drang da discografia integral, fermenta um sentido de humor – negríssimo, ácido, psicótico, é verdade – que, deliberadamente, opera em sentido oposto aquele para que os primeiros indícios apontariam. É bem capaz de ser por isso que Murder Ballads nunca colheu a unanimidade dos fãs de Cave: não se admite que um soturno perfil de romantismo tardo-gótico (como em Byron, Shelley, Allan Poe ou Flannery O’Connor e não Sisters Of Mercy) tão desveladamente alimentado, possa ser assim demolido pelo próprio criador, numa épica "opera buffa gore", repleta de assombrosa violência de "cartoon" e um fabuloso elenco de 64 cadáveres (mais Kylie Minogue, no papel da Ophelia, de John Everett Millais, e PJ Harvey e Shane MacGowan e uma versão de "Death Is Not The End", de Dylan, que diz precisamente o contrário do que parece).
Mas que, não por acaso, é um dos mais indiscutivelmente excelentes álbuns de Cave & Bad Seeds, portentosa multinacional musical cujo PREC (Processo de Reedição Em Curso), entra, agora, no terceiro quarto da sua carreira – entre 1994 e 2001 –, com todos os habituais bombons para coleccionador: remasterização, faixas/versões inéditas, videoclips, raridades, filmes-colecção-de-depoimentos-abonatórios, etc. Imediatamente antes de Murder Ballads, viera Let Love In (1994), muito provavelmente, a gravação que corporiza a melhor síntese entre a fase anterior a The Good Son (1990), toda ela Inferno & Apocalipse, e a posterior reconfiguração clássica de tudo isso, em expedição de redescoberta dos contornos da canção, uma espécie de incubadora de monstros ("Red Right Hand", "Do You Love Me?", "Nobody’s Baby Now") morbidamente sedutores, da qual, haveriam de sobrar "O’ Malley’s Bar" e "Song Of Joy" para o álbum seguinte.
The Boatman’s Call (1997), resolve a disputa entre estrondo e melodia, demência e melancolia, pela vitória (sempre precária) dos mansos sobre os irados, em registo de câmara ("Into My Arms", "People Ain’t No Good", "Far From Me"), que, quatro anos depois, No More Shall We Part, repetiria com o tipo de profundidade de campo (responsável principal: o violinista Warren Ellis) que associamos a Scott Walker e Leonard Cohen. Não custa muito a entender o motivo por que, após o corrente “desvio”-Grinderman, Nick Cave comece a confessar saudades dos Bad Seeds.
(2011)
22 February 2011
A GLORIOSA PÁTRIA
PJ Harvey - Let England Shake
Passava alguma coisa das nove da manhã do domingo 18 de Abril do ano passado, quando, no programa de Andrew Marr, da BBC One, PJ Harvey, dedilhando apenas uma autoharp mas utilizando como fundo o "loop" de um "sample" de "Istanbul (Not Constantinople)" (um êxito de 1953, dos Four Lads), cantou perante o ainda então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown (o entrevistado do dia), palavras que não o deverão ter deixado excessivamente confortável no sofá: “The West’s asleep, let England shake, weighted down with silent dead, I fear our blood won’t rise again, England’s dancing days are done, another day, Bobby, for you to come home and tell me indifference won”. Um mês depois, o Labour – e Brown com ele – sofria a mais pesada derrota eleitoral desde 1931.
Real. Seamus Murphy
Não se tratou, seguramente, de praga que PJ Harvey lhe tivesse lançado mas da consequência inevitável dos dez anos de hipocrisia política do “New Labour” que, em Junho de 2007, Tony Blair lhe depositara no colo. Até porque, durante aqueles embaraçosos minutos no interior do estúdio da BBC, Harvey nem sequer destilara o fel mais amargo que o álbum que agora publica acabaria por conter: Brown foi poupado, por exemplo, a "The Glorious Land" (onde, sob um clarim militar de alvorada, se escuta “what is the glorious fruit of our land? Its fruit is orphaned children”), também a "England" (o enlace arrepiante de uma voz búlgara com um desespero folk que entoa “I live and die through England, it leaves sadness, it leaves a taste, a bitter one”), e, de um modo geral, livrou-se dos quarenta e tal minutos de Let England Shake, um aterrador cenário de devastação e morte – “death was in the staring sun, fixing its eyes on everyone” – que, se, aparentemente, toma como pretexto diversos episódios da absurda carnificina da Primeira Guerra Mundial, na verdade, fala tanto deles como da Inglaterra e do mundo contemporâneos.
Real. Seamus Murphy
Polly Jean (em entrevista à “Pitchfork”) confirma-o e explica como, neste segundo capítulo da inflexão iniciada com o anterior White Chalk (2007) que a conduziu de um universo herdeiro do punk e dos blues via-Beefheart e Patti Smith (com referências a Flannery O’Connor e Salinger interpoladas) até aos lívidos fantasmas da Olde England, se deixou submergir pelos Desastres da Guerra, de Goya, os quadros de Dali acerca da Guerra Civil espanhola, Paths Of Glory e Barry Lyndon, de Kubrick, poesia e ensaios políticos de Harold Pinter, música dos Pogues, Velvets, Doors e diversas tradições populares do mundo e, colocando-se na situação de “song correspondent from the front-line”, se decidiu erguer esta desmedida imprecação sobre a “gloriosa pátria” (“How is our glorious country ploughed? Not by iron ploughs, our land is ploughed by tanks and feet marching”), a fétida Albion (“Let me walk through the stinking alleys, to the music of drunken beatings”), a obscenamente imperial Britannia (“people throwing dinars at the belly-dancers, in a sad circus, beside a trench of burning oil”). Em registo folk contra-pastoral (Mick Harvey e John Parish avinagrando o tempero), com sarcásticos implantes de reggae ("Blood And Fire", de Niney the Observer) e dos "Summertime Blues", de Eddie Cochran, imprevisível e tremenda Guernica resultante da colisão de London Calling com "A Hard Rain’s A Gonna Fall" numa tela remendada.
(2011)
Labels:
arte,
Beefheart,
cinema,
Dylan,
Eddie Cochran,
Flannery O'Connor,
J. D. Salinger,
Kubrick,
Patti Smith,
PJ Harvey,
Pogues,
política,
Seamus Murphy,
The Clash,
The Four Lads,
Velvet Underground
12 February 2011
INTO A HOLLOW SKY
(sequência daqui)
PJ Harvey - "Joy"
"The song 'Joy' was inspired by Flannery O'Connor's short story, 'Good Country People', from the book, A Good Man Is Hard To Find".
Joy was her name
A life un-wed
Thirty years old,
Never danced a step
She would have left these red hills
Far behind if not for her condition
Would have left these red hills
Long ago if not for my condition
Pitiful joy
She looked away
Into a hollow sky
Came face to face
With her own innocence surrounding her
Until it never was a question
Innocence so suffocating
Now she cannot move, no question
No hope for joy
No hope or faith
She wanted to go blind
Wanted hope to stay
"I've been believing in nothing since I was born
It never was a question"
No !
(2011)
(sequência daqui)
PJ Harvey - "Joy"
"The song 'Joy' was inspired by Flannery O'Connor's short story, 'Good Country People', from the book, A Good Man Is Hard To Find".
Joy was her name
A life un-wed
Thirty years old,
Never danced a step
She would have left these red hills
Far behind if not for her condition
Would have left these red hills
Long ago if not for my condition
Pitiful joy
She looked away
Into a hollow sky
Came face to face
With her own innocence surrounding her
Until it never was a question
Innocence so suffocating
Now she cannot move, no question
No hope for joy
No hope or faith
She wanted to go blind
Wanted hope to stay
"I've been believing in nothing since I was born
It never was a question"
No !
(2011)
10 February 2011
FLANNERY O'CONNOR: A VIOLENT FEMME
(sequência daqui)
"The Violent Femmes' 1984 album Hallowed Ground is basically a Flannery O' Connor teleplay for an episode of Unsolved Mysteries. 'Never Tell' is the sound of one man snapping, wallowing in a miasma of paranoiac rage, screaming, babbling, intimidating, promising some really uncouth form of adolescent revenge:
Don't you know nothin'
You never tell on someone
What are you gonna do, ya gonna turn rat fink?
What do you wanna do?
Do you wanna see, wanna see what it's like to sink?"
"Country Death Song"
"If 'Never Tell''s unglued antihero is the misfit teenager of our story, 'Country Death Song' is his adulthood. It's exactly what it claims to be — a countrified tale of hard work, poverty, and ennui ('I was thinkin' and a thinkin' 'til there's nothin' I ain't thunk, breathin' in the stink, 'til finally I stunk') that culminates in his daughter's grisly demise. It's Amateur Night at the Grand Guignol, and lead Femme Gordon Gano has brought along a banjo. 'Country Death Song' is as unsettling as any Johnny Cash murder-confession, even before the drums make their ferocious entrance at the end". (aqui)
(2011)
(sequência daqui)
"The Violent Femmes' 1984 album Hallowed Ground is basically a Flannery O' Connor teleplay for an episode of Unsolved Mysteries. 'Never Tell' is the sound of one man snapping, wallowing in a miasma of paranoiac rage, screaming, babbling, intimidating, promising some really uncouth form of adolescent revenge:
Don't you know nothin'
You never tell on someone
What are you gonna do, ya gonna turn rat fink?
What do you wanna do?
Do you wanna see, wanna see what it's like to sink?"
"Country Death Song"
"If 'Never Tell''s unglued antihero is the misfit teenager of our story, 'Country Death Song' is his adulthood. It's exactly what it claims to be — a countrified tale of hard work, poverty, and ennui ('I was thinkin' and a thinkin' 'til there's nothin' I ain't thunk, breathin' in the stink, 'til finally I stunk') that culminates in his daughter's grisly demise. It's Amateur Night at the Grand Guignol, and lead Femme Gordon Gano has brought along a banjo. 'Country Death Song' is as unsettling as any Johnny Cash murder-confession, even before the drums make their ferocious entrance at the end". (aqui)
(2011)
09 February 2011
CHRIST-HAUNTED
Bruce Springsteen - "The River" *
"I think it is safe to say that while the South is hardly Christ-centered, it is most certainly Christ-haunted. The Southerner, who isn’t convinced of it, is very much afraid that he may have been formed in the image and likeness of God". (Flannery O'Connor, The Grotesque in Southern Fiction - daqui)
* "Fascinated by director John Huston’s 1979 movie, Wise Blood, recommended by [manager Jon] Landau, Springsteen read the Flannery O’Connor novel that it was based on and then many of her short stories as well. He took the titles of two of her stories, 'The River', and 'A Good Man is Hard Find,', and turned them into song titles. Soon he was employing not just her titles but her techniques as well". (Born In The USA, Geoffrey Himes)
(2011)
Bruce Springsteen - "The River" *
"I think it is safe to say that while the South is hardly Christ-centered, it is most certainly Christ-haunted. The Southerner, who isn’t convinced of it, is very much afraid that he may have been formed in the image and likeness of God". (Flannery O'Connor, The Grotesque in Southern Fiction - daqui)
* "Fascinated by director John Huston’s 1979 movie, Wise Blood, recommended by [manager Jon] Landau, Springsteen read the Flannery O’Connor novel that it was based on and then many of her short stories as well. He took the titles of two of her stories, 'The River', and 'A Good Man is Hard Find,', and turned them into song titles. Soon he was employing not just her titles but her techniques as well". (Born In The USA, Geoffrey Himes)
(2011)
12 October 2010
NOIR LIGHT
Cherry Ghost - Beneath This Burning Shoreline
Existia aqui, talvez pela primeira vez, o concentrado de ingredientes necessário que permitiria dar o passo decisivo do conceito (já um pouco estafado) de “banda sonora para filme imaginário” para o de “banda sonora para filme imaginário que dispensa por completo o imaginário filme”. Se o primeiro e muito louvado álbum dos Cherry Ghost (Thirst For Romance, 2007), nas palavras de Simon Aldred, "mastermind" da banda, fora concebido segundo as coordenadas “Willie Nelson meets Walt Disney”, este opta por se situar em pleno centro do território onde o "southern gothic" faz um pacto de sangue com o "film noir", abençoado pela figura tutelar de Ken Loach. Afinal, nada de exótico ou anacrónico, di-lo, em Film Noir and The Cinema Of Paranoia (2009), Wheeler Winston Dixon, sem nunca ter ouvido os Cherry Ghost: “Esta é a idade do 'film noir'. Apesar de o género datar do final dos anos 1930 e início dos 1940, as suas obsessões com o desespero, o falhanço, o engano e a traição são, sob muitas formas, mais premonitórias no século XXI do que na sua origem”. E, porque Aldred escreve como quem via O Terceiro Homem e escutava a leitura de Flannery O’Connor enquanto mamava no biberão (“In a certain light, your face could launch a bareknuckle fight” ou “we sleep on stones, there’s a killer in our homes thar drives the night in” não são para todos) e tem as referências certas e devidamente catalogadas, existem argumento completo, personagens definidas e cenários escolhidos. O que falha, então? Tragicamente, a banda sonora: onde se deveriam escutar Cash, Cave, Scott Walker ou Tindersticks, o empolamento orquestral escorrega, desastradamente, para a ligeireza Coldplay. Sim, tão grave quanto isso. Quase apetece suplicar: vá, tentem lá outra vez.
(2010)
15 September 2009
NA FLORESTA COM UM MAPA DE LONDRES

Nick Cave & The Bad Seeds - From Her To Eternity

Nick Cave & The Bad Seeds - The Firstborn Is Dead

Nick Cave & The Bad Seeds - Kicking Against The Pricks

Nick Cave & The Bad Seeds - Your Funeral... My Trial
Pouco depois do início do segundo capítulo do documentário Do You Love Me Like I Love You, de Iain Forsyth e Jane Pollard – equitativamente dividido pelos quatro DVD que acompanham a reedição remasterizada do quarteto inaugural da discografia de Nick Cave & The Bad Seeds –, o jornalista e biógrafo de Cave, Max Dax, invoca o conceito de "cross-mapping", do realizador e romancista alemão, Alexander Kluge, para caracterizar o quase fetichismo literário de Nick Cave (em particular, de The Firstborn Is Dead, de 1985, em diante) pelos temas e autores do Sul norte-americano. Australiano, emigrado de Melbourne para Inglaterra, gravando no antigo salão de baile nazi dos estúdios Hansa, imaginando-se na pele de Faulkner, Carson McCullers ou Flannery O’Connor, Cave era como alguém que “caminhava pelo interior de uma floresta com um mapa de Londres nas mãos”.
Já, a propósito de From Her To Eternity (1984) – primeira faixa do primeiro álbum em nome próprio: "Avalanche", de Leonard Cohen – , alguém havia definido a transição dos Birthday Party para os Bad Seeds como uma mudança estético-táctica, do “carpet bombing” sonoro e literário para um “bombardeamento mais cirúrgico”, algo como “Elvis Presley meets Johnny Cash, meets the Sex Pistols”, com “melhor conteúdo poético”. Não desvalorizando a obra propriamente musical de Nick Cave, permitam-me sugerir que ele nunca foi mais "sulista" e "faulknercullerso’conneriano" do que no cinema, em The Proposition (2005), de John Hillcoat, para o qual escreveu o argumento e a banda sonora, onde, o regresso à Austrália colonial, lugar de nenhuma redenção e de todas as irremediáveis condenações, se desenhava como espaço de confronto, sem vencedores e só com derrotados, entre a implacável natureza e o imenso pior (e apenas o hipotético melhor) da espécie humana.
Limpo o pó das espiras de vinil e puxado o lustro à primitiva tecnologia digital, tanto esses dois álbuns como Kicking Against The Pricks e Your Funeral My Trial (ambos de 1986) – um, segundo Simon Reynolds, a conversão de “xâmane, à maneira de Jim Morrison e Iggy Pop, em showman”, o outro, uma experiência de “tentar não ser tão esquisito”, nas palavras de John Darnielle, dos Mountain Goats –, regressam, agora, em toda a sua glória original, rememorando os anos em que apenas Mick Harvey conseguia segurar as desvairadas pontas de um bando de junkies em roda livre, o produtor, Flood, operava milagres improváveis com tempo de estúdio limitado e (de acordo com os depoimentos de fãs, cúmplices, jornalistas, gente alucinada e colaborante dos Einstürzende Neubauten e Die Haut, roadies, editores, e outros santos e apóstolos) uma seita que fazia questão de nada ter a ver com a mitologia do rock’n’roll e lhe preferia as assombrações de John Lee Hooker e Blind Lemon Jefferson, o kitsch de Gene Pitney e dos Seekers ou os pesadelos no ventre da besta de Jack Henry Abbott, edificava um universo paralelo... do rock’n’roll. Do espectro do gémeo morto de Elvis Presley à memória das chain-gang songs, dos danados de Peckinpah a Edgar Allan Poe ou ao Huck Finn de Mark Twain revisto por Bukowski, com um único rumo: “This is the track of deception, leads to the heart of despair".
(2009)

Voto na urna: nulø, com a frase "ESTA GENTE É UM NOJO"
Nick Cave & The Bad Seeds - From Her To Eternity
Nick Cave & The Bad Seeds - The Firstborn Is Dead
Nick Cave & The Bad Seeds - Kicking Against The Pricks
Nick Cave & The Bad Seeds - Your Funeral... My Trial
Pouco depois do início do segundo capítulo do documentário Do You Love Me Like I Love You, de Iain Forsyth e Jane Pollard – equitativamente dividido pelos quatro DVD que acompanham a reedição remasterizada do quarteto inaugural da discografia de Nick Cave & The Bad Seeds –, o jornalista e biógrafo de Cave, Max Dax, invoca o conceito de "cross-mapping", do realizador e romancista alemão, Alexander Kluge, para caracterizar o quase fetichismo literário de Nick Cave (em particular, de The Firstborn Is Dead, de 1985, em diante) pelos temas e autores do Sul norte-americano. Australiano, emigrado de Melbourne para Inglaterra, gravando no antigo salão de baile nazi dos estúdios Hansa, imaginando-se na pele de Faulkner, Carson McCullers ou Flannery O’Connor, Cave era como alguém que “caminhava pelo interior de uma floresta com um mapa de Londres nas mãos”.
Já, a propósito de From Her To Eternity (1984) – primeira faixa do primeiro álbum em nome próprio: "Avalanche", de Leonard Cohen – , alguém havia definido a transição dos Birthday Party para os Bad Seeds como uma mudança estético-táctica, do “carpet bombing” sonoro e literário para um “bombardeamento mais cirúrgico”, algo como “Elvis Presley meets Johnny Cash, meets the Sex Pistols”, com “melhor conteúdo poético”. Não desvalorizando a obra propriamente musical de Nick Cave, permitam-me sugerir que ele nunca foi mais "sulista" e "faulknercullerso’conneriano" do que no cinema, em The Proposition (2005), de John Hillcoat, para o qual escreveu o argumento e a banda sonora, onde, o regresso à Austrália colonial, lugar de nenhuma redenção e de todas as irremediáveis condenações, se desenhava como espaço de confronto, sem vencedores e só com derrotados, entre a implacável natureza e o imenso pior (e apenas o hipotético melhor) da espécie humana.
Limpo o pó das espiras de vinil e puxado o lustro à primitiva tecnologia digital, tanto esses dois álbuns como Kicking Against The Pricks e Your Funeral My Trial (ambos de 1986) – um, segundo Simon Reynolds, a conversão de “xâmane, à maneira de Jim Morrison e Iggy Pop, em showman”, o outro, uma experiência de “tentar não ser tão esquisito”, nas palavras de John Darnielle, dos Mountain Goats –, regressam, agora, em toda a sua glória original, rememorando os anos em que apenas Mick Harvey conseguia segurar as desvairadas pontas de um bando de junkies em roda livre, o produtor, Flood, operava milagres improváveis com tempo de estúdio limitado e (de acordo com os depoimentos de fãs, cúmplices, jornalistas, gente alucinada e colaborante dos Einstürzende Neubauten e Die Haut, roadies, editores, e outros santos e apóstolos) uma seita que fazia questão de nada ter a ver com a mitologia do rock’n’roll e lhe preferia as assombrações de John Lee Hooker e Blind Lemon Jefferson, o kitsch de Gene Pitney e dos Seekers ou os pesadelos no ventre da besta de Jack Henry Abbott, edificava um universo paralelo... do rock’n’roll. Do espectro do gémeo morto de Elvis Presley à memória das chain-gang songs, dos danados de Peckinpah a Edgar Allan Poe ou ao Huck Finn de Mark Twain revisto por Bukowski, com um único rumo: “This is the track of deception, leads to the heart of despair".
(2009)
Voto na urna: nulø, com a frase "ESTA GENTE É UM NOJO"
29 March 2009
OBRIGADO, DIVINDADE FELINA!
Alela Diane - To Be Still
Headless Heroes - The Silence Of Love
Eu já tinha obrigação de saber que a suposta sageza contida nos provérbios populares não possui, propriamente, valor científico. Mas, porque estas coisas se infiltram desde o biberão e continuam a actuar subliminarmente, desta vez, por pouco me ia deixando rasteirar por um dos clássicos do género, o universalmente repetido “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Há que conceder a atenuante de que as circunstâncias eram favoráveis ao tropeção: jovem singer-songwriter, natural de Nevada City, como Joanna Newsom, e coberta de louvores por Joanna Newsom, caminha a passos largos para a santidade "freak-folk" à custa de um álbum criado numa cabana de montanha, em Portland, na companhia de um gato. Se acabei por escutar o disco e este texto foi escrito, só pode ter sido por causa do gato, já que, pelas restantes personagens e contornos da história, o evitei cuidadosamente durante dias.
Obrigado, divindade felina: To Be Still é uma belíssima colecção de canções e, ou muito me engano, ou Alela Diane Menig rapidamente deixará na merecidíssima sombra a seita "hippy/psych" do pé descalço. Espreitem-na, no Youtube, nos três clips da série “Concerts à Emporter” de La Blogotheque – cada vez mais um lugar de atribuição de credibilidade indie através do reconhecimento “intelectual” europeu –, vagueando, de guitarra na mão, entre as pedras de Notre-Dame e a Place St. Michel. Já que aí estão, procurem também “The Rifle” (cenário de assombração flannery o'connoriana genuinamente "old weird America") e “The Pirate’s Gospel” (“While some folks pray their path to Jesus, we're gonna sing the pirate's gospel” em atmosfera de mar e trevas noturnas), do álbum anterior.
Podem, agora, passar a To Be Still e descobrir uma legítima descendente de (peso cada palavra) Sandy Denny e – muito mais obliquamente – Nico, algures, numa bissectriz mais contemporânea, entre Nina Nastasia, Kristin Hersh e Neko Case, mas (levando a utilidade do "name-dropping" às últimas consequências) com aquele teor de anacrónica excentricidade que Jolie Holland e Jesca Hoop terão de passar a partilhar com ela. No DVD que acompanha o disco, em concerto de Novembro do ano passado no Olympia de Paris, entre banjos, guitarras e bandolins, podemos, por outro lado, descobrir a personalidade de quem, em cima de um palco, parece estar com o mesmo à vontade que no alpendre do tal refúgio de Portland.
Etapa seguinte: The Silence Of Love, álbum de versões produzido por Eddie Bezalel a que Alela empresta a voz e, na companhia de gente com currículo ao lado dos R.E.M., Beck ou Red Hot Chili Peppers, reinventa temas de Nick Cave, Jesus & Mary Chain, Linda Perhacs ou Jackson C. Frank. Nos melhores momentos (“True Love Will Find You In The End”, “Just Like Honey”, “Nobody’s Baby Now”), dir-se-ia Karen Dalton a bordo dos Mazzy Star; nos outros, poderá não se voar tão alto mas também nunca há danos irreversíveis a registar. E, caso os houvesse, Alela Diane seria sempre mui justamente absolvida.
(2009)
Labels:
Alela Diane,
Flannery O'Connor,
Jesca Hoop,
Jesus and Mary Chain,
Joanna Newsom,
Jolie Holland,
Karen Dalton,
Kristin Hersh,
Mazzy Star,
Neko Case,
Nick Cave,
Nico,
Nina Nastasia,
Sandy Denny
18 January 2008
THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN * (V)
(* segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")
O ESPÍRITO DO LUGAR
Buddy & The Huddle - Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree"
Na terminologia do espiritismo, a isto, chama-se "channelling": a abertura de um canal através do qual se torna possível a passagem e incorporação de um espírito noutro corpo físico. Foi exactamente isso que aconteceu com Roland Kopp e Michael Ströll, aliás, Buddy & The Huddle, em Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Sutree". Mas, neste caso, numa dimensão que excede claramente a superfície de uma mesa de pé de galo. O espírito que eles incorporaram foi o de uma cultura, de um lugar e de uma música inteiros. Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é a banda sonora imaginária para um filme imaginário realizado a partir de um potencial argumento real, o romance Suttree, do escritor sulista norte-americano Cormac McCarthy.
Cormac McCarthy
E foi justamente a paisagem geográfica, espiritual e humana desse mesmo Sul mítico de Faulkner ou Flannery O'Connor reencenada pela história e pelas personagens de McCarthy (em Knoxville, no Tenessee) que serviu de ponto de partida e de inspiração para o projecto de Kopp e Ströll. O detalhe mais desconcertante é que — como os seus apelidos deixam adivinhar — ambos são alemães, tendo-se deslocado propositadamente ao Tenessee para absorver a atmosfera local. Foi, decerto, aí que o "channelling" teve lugar. Kopp e Ströll deixaram-se literalmente possuir pelo espírito do lugar que já antes se entranhara em McCarthy (embora sulista pelo estilo, nasceu em Rhode Island) e criaram aquele que é, indiscutivelmente, um dos mais assombrosos álbuns genuinamente norte-americanos. Porque a verdade é que este Sul "fake" e virtual (tal como o de Paris, Texas do também alemão Wim Wenders) é mil vezes mais real do que a realidade.
Utilizando uma variedade de cordas, sopros e percussões tanto "locais" como "universais" (banjo, bandolim, lap-steel guitar, resophonic guitar, vibrafone, marimbafone, glockenspiel, acordeão, didgeridoo, sampling, guimbarda, sax, tuba, trompete, quartetos de cordas), a orientação nunca foi, contudo, a do documentarismo etno-antropológico. O mergulho na América profunda e no ambiente da narrativa de McCarthy é que determinou o rumo da criação musical e das diversas escolhas que se sucederam nesta sequência de vinte e cinco instantâneos musicais que obedecem exclusivamente a um ordenamento do tipo "stream of consciousness". Do country desolado e metafísico às trompetes mariachi, ao rockabilly e ao jazz/cabaret de fim de noite passando por paisagens sonoras que poderiam ter sido assinadas por Ry Cooder, Jon Hassell ou Tom Waits ou pelos "separadores" cirurgicamente extraidos do idioma minimalista, Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é uma permanente alucinação que paira sobre uma geografia paralela. Tanto mais perturbadora quanto se descobre como ela coincide ponto por ponto com a imagem que os verdadeiros mapas revelam. (1998)
31 October 2007
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XX)

"'Murder In The Barn' é como um conto da Flannery O'Connor. Compro os jornais locais todos os dias e eles estão cheios de acidentes de automóveis. Tudo depende do que nos atrai. Será o humor negro irlandês? A minha mulher também provém de uma família irlandesa.
(...)
"O Greg Cohen, o Robert Wilson e eu fomos ter com o William Burroughs a Lawrence, no Kansas. Parecia uma cimeira literária. Ele tirou-nos fotografias a todos no portão. Levou-me até à garagem, mostrou-me as suas pinturas à pistola e o jardim. Por volta das três, começou a olhar para o relógio à medida que se aproximava a hora dos cocktails. Pareceu-me muito sério e erudito. Era, evidentemente, um perito em cobras, insectos e armas de fogo. Para mim, foi uma influência tão grande como Kerouac. Em Pela Estrada Fora, ele era o Bull Lee, uma espécie de Mark Twain mais ousado. Parecia concebido para ocupar a posição de poeta laureado da nação. Tinha uma visão mais ampla, cheia de cinismo e maturidade com um grande sentido de ironia que ia direito ao coração da experiência americana.
(...)
"Hoje crio música muito mais agressiva do que quando tinha 23 anos? Pois é, estou sempre do lado errado. Deito fora o manual das instruções e, depois, fico a pensar como é que se monta o raio da geringonça... Não sei, talvez seja só eu a revoltar-me contra a luz que se vai apagando. Ou será, como se costuma dizer, que a juventude é desperdiçada nos jovens? Talvez, nos sintamos mais próximo desses sentimentos à medida que nos afastamos deles. O tempo não é uma linha recta ou uma estrada que nos vai afastando das coisas, é tudo exponencial. Tudo o que vivemos aos 18 anos permanece connosco. Todos os dias caem do espaço 43 milhôes de toneladas de poeira dos meteoros e o que isso terá a ver com isto, não faço a menor ideia.
(...)
"Quando se produz um disco que também se está a gravar, é preciso dividir as tarefas. Ou tratamos nós da quinta ou temos de subcontratar mão de obra. Nem sempre sou em quem trata da reparação do material eléctrico lá em casa, habitualmente chamo um especialista. Por isso, contratámos músicos profissionais, um grupo do qual, honestamente, não sei se farei parte... Crio as formas e, às vezes, atrevesso-me no meu próprio caminho. O essencial é trabalhar com gente capaz de sucumbir ao poder da sugestão. É uma espécie de experiência hipnótica em que, quando se pede aos músicos que toquem como se tivessem o cabelo a arder, eles sabem exactamente o que queremos dizer.
(...)
"Escrever canções com a minha mulher é assim: um segura no prego e o outro bate-lhe com o martelo. Colaboramos em tudo. Ela escreve mais inspirada por sonhos e eu pelo próprio mundo. Quando escrevemos canções, navegamos pelo meio da escuridão e não sabemos a direcção certa. Cinco minutos a mais e pode-se dar cabo de uma canção. Por isso, o tempo também participa do processo. Temos o nosso negociozinho familiar. Eu sou o prospector e ela cozinha. Eu trago o flamingo para casa e ela corta-lhe a cabeça. Eu meto-o na água e ela depena-o. Depois, ninguém lhe apetece comê-lo.
(...)
1999
(2007)
"'Murder In The Barn' é como um conto da Flannery O'Connor. Compro os jornais locais todos os dias e eles estão cheios de acidentes de automóveis. Tudo depende do que nos atrai. Será o humor negro irlandês? A minha mulher também provém de uma família irlandesa.
(...)
"O Greg Cohen, o Robert Wilson e eu fomos ter com o William Burroughs a Lawrence, no Kansas. Parecia uma cimeira literária. Ele tirou-nos fotografias a todos no portão. Levou-me até à garagem, mostrou-me as suas pinturas à pistola e o jardim. Por volta das três, começou a olhar para o relógio à medida que se aproximava a hora dos cocktails. Pareceu-me muito sério e erudito. Era, evidentemente, um perito em cobras, insectos e armas de fogo. Para mim, foi uma influência tão grande como Kerouac. Em Pela Estrada Fora, ele era o Bull Lee, uma espécie de Mark Twain mais ousado. Parecia concebido para ocupar a posição de poeta laureado da nação. Tinha uma visão mais ampla, cheia de cinismo e maturidade com um grande sentido de ironia que ia direito ao coração da experiência americana.
(...)
"Hoje crio música muito mais agressiva do que quando tinha 23 anos? Pois é, estou sempre do lado errado. Deito fora o manual das instruções e, depois, fico a pensar como é que se monta o raio da geringonça... Não sei, talvez seja só eu a revoltar-me contra a luz que se vai apagando. Ou será, como se costuma dizer, que a juventude é desperdiçada nos jovens? Talvez, nos sintamos mais próximo desses sentimentos à medida que nos afastamos deles. O tempo não é uma linha recta ou uma estrada que nos vai afastando das coisas, é tudo exponencial. Tudo o que vivemos aos 18 anos permanece connosco. Todos os dias caem do espaço 43 milhôes de toneladas de poeira dos meteoros e o que isso terá a ver com isto, não faço a menor ideia.
(...)
"Quando se produz um disco que também se está a gravar, é preciso dividir as tarefas. Ou tratamos nós da quinta ou temos de subcontratar mão de obra. Nem sempre sou em quem trata da reparação do material eléctrico lá em casa, habitualmente chamo um especialista. Por isso, contratámos músicos profissionais, um grupo do qual, honestamente, não sei se farei parte... Crio as formas e, às vezes, atrevesso-me no meu próprio caminho. O essencial é trabalhar com gente capaz de sucumbir ao poder da sugestão. É uma espécie de experiência hipnótica em que, quando se pede aos músicos que toquem como se tivessem o cabelo a arder, eles sabem exactamente o que queremos dizer.
(...)
"Escrever canções com a minha mulher é assim: um segura no prego e o outro bate-lhe com o martelo. Colaboramos em tudo. Ela escreve mais inspirada por sonhos e eu pelo próprio mundo. Quando escrevemos canções, navegamos pelo meio da escuridão e não sabemos a direcção certa. Cinco minutos a mais e pode-se dar cabo de uma canção. Por isso, o tempo também participa do processo. Temos o nosso negociozinho familiar. Eu sou o prospector e ela cozinha. Eu trago o flamingo para casa e ela corta-lhe a cabeça. Eu meto-o na água e ela depena-o. Depois, ninguém lhe apetece comê-lo.
(...)
1999
(2007)
Subscribe to:
Posts (Atom)