Showing posts with label Florence and The Machine. Show all posts
Showing posts with label Florence and The Machine. Show all posts

06 March 2018

Francamente, David!... Depois de Love This Giant (a meias com St. Vincent) e Here Lies Love (com Florence Welch, St. Vincent, Candie Payne, Tori Amos, Martha Wainwright, Nellie McKay, Cyndi Lauper, Allison Moorer, Ganda Suthivarakom, Charmaine Clamor, Róisín Murphy, Camille, Theresa Andersson, Sharon Jones, Alice Russell, Kate Pierson, Sia, Santigold, Nicole Atkins, Natalie Merchant e Shara Worden), não te parece absolutamente idiota um pedido de desculpa? (ou existe uma lei das quotas que, retroactivamente, também desvalorizará uma imensa parte da história da música?)

15 March 2010

DANCING QUEEN



David Byrne & Fatboy Slim - Here Lies Love

David Byrne não é um tipo normal. E, nada de confusões, isto é, só pode ser, um elogio. O género de criatura – músico, artista e polímato irreprimível – que, logo na primeira página do booklet em que explica detalhadamente a génese e intenções de Here Lies Love, faz questão de referir que aquilo que o atraiu para a personagem de Imelda Marcos não foi muito diferente do que o fascinou ao ler The Emperor, o livro de Ryszard Kapuściński acerca da corte do imperador da Etiópia, Haile Selassie, e, em particular, as páginas em que era descrita a função do “portador das almofadas reais”, o funcionário capaz de, em cada momento, adivinhar o desejo de Sua Majestade se sentar e de lhe oferecer, sem atraso, o confortável apoio para os semidivinos glúteos: “Estas descrições recordaram-me a dramaturgia não-naturalista de muito do teatro e dança contemporâneos assim como o teatro ritual do Oriente, do Japão, China, Bali e Indonésia”.



Em Here Lies Love, o musical/opereta que Byrne, a quatro mãos com Fatboy Slim/Norman Cook (o enciclopédico DJ, produtor e músico originário dos Housemartins que, entre os alter-egos de Freak Power e Brighton Port Authority e a banda sonora de Moulin Rouge, se transformou na fonte de sabedoria e conhecimento sobre dance beats que o ex-Talking Heads procurava), acaba de publicar, existe também muito dessa estetização deliberadamente amoral da personalidade e da biografia da ex-primeira dama das Filipinas, mulher do brutal ditador, Ferdinand Marcos, no poder de 1965 a 1986, encarada como uma figura de Maria Antonieta oriental, perversa, porém ingénua, cujo sonho – como em todas as Vilar de Maçada deste mundo, frequentemente, acontece –, afinal, era escapar ao modesto provincianismo da Leyte natal e viver uma vida de brilho e fantasia disneyana.



E porque o sonho se tornou realidade e, para além de frequentadora habitual dos Studio 54 e Regine’s, de Nova Iorque, a ex-Miss Filipinas e Iron Butterfly (de cognome) se transformou em socialite e "disco-queen" excêntrica - alojou uma discoteca no último piso do palácio presidencial, exigiu que os Beatles fossem deportados das Filipinas por aí se terem recusado a actuar, mandou construir uma mansão integralmente feita de cocos e, quando vítima de uma tentativa de assassinato, apenas se queixou de que a arma do crime “era muito feia, devia ter, pelo menos, umas fitas coloridas” -, difícil seria que David Byrne conseguisse subtrair-se ao canto da sereia de Manila. O arco narrativo incluiria ainda o contraponto com a figura de Estrella Cumpas, a sua ama de infância que, impiedosamente, abandonaria, e todas as peças ficariam, definitivamente, arrumadas quando Byrne tropeçou na frase “here lies love” que a ainda viva Imelda deseja ver inscrita sobre o seu túmulo.



Para essa demanda do “êxtase e da extinção do eu, inerente a muita música de dança enquanto espelho da auto-percepção das figuras poderosas que se encaram como entidades simbólicas vivas”, David Byrne recorreu também a um numeroso cast de vozes femininas/Imeldas (a própria, quando tomou conhecimento do projecto, terá chegado a telefonar, oferecendo-se para o papel…) onde se incluem St. Vincent, Alice Russell, Natalie Merchant, Florence Welch, Shara Worden, Camille, Tori Amos, Sharon Jones, Cyndi Lauper, Róisin Murphy, Kate Pierson e Santigold (entre quase tantas outras) e entregou-se à confecção de um cocktail de house, funk, disco e techno com os previsíveis condimentos afro-latinos. E, aí, se apenas raramente, tema a tema, se identificam clássicos instantâneos do cânone-Byrne, todos contribuem de modo eficaz para o fluxo narrativo da peça integral que, no entanto, dir-se-ia claramente ansiar pela sua transposição para uma encenação de palco e não conviver de modo totalmente feliz com o encarceramento no espaço fechado de um duplo CD.

(2010)

23 August 2009

INDIE (DE "INDUSTRIAL")



Florence + The Machine - Lungs

Florence Welch tem, de facto, atrás de si, uma máquina. Que, mesmo nestes anos do estertor final da indústria discográfica dominada pelas majors tal como as conhecíamos (à indústria e às majors), continua a carburar de acordo com as antigas normas e ainda mantém o engenho suficientemente lubrificado para, aqui e ali, ir produzindo resultados. No caso de Florence, o design do projecto é absolutamente transparente: conceber um "ersatz" de estrela indie com motor turbo industrial. Calculado ao pormenor, diga-se. Primeiro, a biografia: filha de Evelyn Welch – historiadora de arte norte-americana e habituée do Studio 54 – e do publicitário Nick Welch, com infância e juventude protegidas mas apropriadamente "perturbadas" e passagem pelo Camberwell College of Art no currículo, o que fica sempre bem no retrato de uma "would-be-pop-star" com pedigree. Naturalmente, alguém cuja mãe-historiadora de arte baptizou como Florence só poderia ser devota da arte do Renascimento italiano e, em particular (oh quão popmente conveniente!), da Circuncisão de Cristo, de Mantegna. Ou assim os "spin doctors" discográficos nos pretendem fazer crer.



A composição da personagem pula, depois, sem grandes sobressaltos, para um registo pré-rafaelita destrambelhado com imprescindíveis laivos "góticos", referências dispersas a Edgar Allan Poe e Tim Burton e a informação adicional de que Miss Welch iniciou a carreira cantando em casamentos e funerais de família, "mas especialmente, funerais". Nada disto teria o mínimo problema – indústria é indústria e, de Tin Pan Alley aos ABBA, muito devemos à pop industrial – se Lungs fosse luva de dimensão adequada a esta mão e, como nos garantem, descendente directo de uma ilustre linhagem que incluiria Nick Cave, Tom Waits, Björk, Kate Bush e Siouxsie. A última, conceda-se, é marginalmente plausível: "Kiss With a Fist", o primeiro single, é uma tentativa, vá lá, decente, de cruzar os Banshees com os White Stripes. Bastante mais difícil é engolir que, de um composto de "riot grrrl" pop caricatural, garage rock com esteróides, soul-baunilha e os menos recomendáveis traços de uma Patti Smith de cartoon, todos cerzidos em canções com títulos como “Cosmic Love” ou “My Boy Builds Coffins”, possa resultar algo de vagamente associável ao quinteto supra mencionado e não apenas uma ruiva, giraça, de pernas até ao pescoço e com um vozeirão que berra histórias de lobisomens e corações em sangue.

(2009)