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15 September 2016

13 September 2016

ESTILHAÇOS 


Amadeus (1984), de Milos Forman – vertendo para o cinema a peça homónima de Peter Shaffer –, dificilmente poderia conter maior número de imprecisôes históricas e efabulações fantásticas acerca da biografia de Mozart. Mas isso não o impediu de se tornar no retrato eventualmente mais revelador do precoce génio musical de Viena (aliás, Praga, no filme), capaz, por exemplo, de nos fazer adivinhar que o autor do avassalador Requiem era exactamente o mesmo de peças tão desabridas como o canone “Leck Mich Im Arsch” (traduzindo, preventivamente, em inglês, “Lick My Ass”). Florence Foster Jenkins, de Stephen Frears, é, sem dúvida, infinitamente mais fiel à história real da celebrada “pior cantora que alguma vez pisou o palco do Carnegie Hall” do que Marguerite, de Xavier Giannoli, que, confessadamente, apenas “se inspirou” nela. E não somente isso: mudou-lhe o nome (subtraído a Margaret Dumont, uma partenaire dos irmãos Marx), a nacionalidade (de norte-americana para francesa) e convidou-a a recuar duas décadas (dos anos 40 para os 20 do século passado). Ao fazê-lo, porém, não se limitou a evitar a armadilha do "biopic": libertou um imenso espaço para a criação de uma personagem paralela, que, através de Marguerite Dumont, permite ver muito para além de Florence.


Se, na (brilhante) encarnação de Meryl Streep, ela é quase só uma extravagante, patética e tragicómica burguesa rica, espécie de avestruz ululante e "clown" involuntário da boa sociedade nova-iorquina, a baronesa Dumont, de Giannoli, ainda que não menos trágica, abre um portal sobre um outro universo no qual a Paris dos dadaístas, a encara enquanto porta-estandarte da profanação das soirées burguesas e protagonista de actos de provocação com a ‘Marselhesa’ em fundo, destinados, como diria Marcel Janco, a “chocar o bom senso, a opinião pública, as instituições, os museus, o bom gosto, em suma, toda a ordem vigente”. Mal ouviu uma gravação de Jenkins, Giannoli pensou imediatamente “que se tratava de uma performance artística, reflecti sobre o que era a arte e o absurdo. Fugir aos códigos aceites do que é belo não é uma forma de desconstrução, um estilhaço dadaísta? Será mais importante cantar com afinação perfeita ou investir totalmente no desejo (até no delírio) mesmo que se cante mal?” Há-de ser por esse motivo que nos recordaremos sempre do filme de Frears como uma história excêntrica muito bem contada mas Marguerite nos deixará a pensar no “rugido de cores tensas, o abraço de opostos, contradições, grotescos e inconsistências” de Tristan Tzara.

11 November 2015

O SUBLIME (POR INVERSÃO) 



Florence Foster Jenkins, a figura real que inspirou a ficcional “Marguerite” do filme homónimo de Xavier Giannoli (e que será objecto de "biopic", de Stephen Frears, com Meryl Streep e Hugh Grant), é a mais célebre de um restrito mas precioso grupo de divas do bel canto que tinham em comum um entendimento pessoalíssimo dos conceitos de afinação, ritmo e andamento, na interpretação do reportório operático, em particular, e da arte vocal, em geral. Espíritos mais perversos acusa-las-iam de esquartejar a sangue frio árias de ópera, "Lieder" e temas populares, em exuberantes espasmos de estridência, vertiginosas espirais de uivos e gorgolejos, e chilreios frenéticos em descomandada derrapagem. Houve, no entanto, sempre quem, sob pretextos vários, lhes tenha prestado a merecida atenção. Foi o caso de Gregor Benko que, em 2004, no CD The Muse Surmounted: Florence Foster Jenkins and Eleven of Her Rivals, compilou as oferendas líricas de todas aquelas para quem “a dedicação e inabalável sinceridade transcendiam os meros detalhes auditivos”



É um verdadeiro universo sonoro paralelo que aí se revela nas contribuições de Foster Jenkins mas também no festim de coruscantes Castafiores como Alice Gerstl Duschak, Betty-Jo Schramm, Tryphosa Bates-Batcheller, Olive Middleton, Norma-Jean Erdmann-Chadbourne, Sylvia Sawyer, Vassilka Petrova, Mari Lyn, Sari Bunchuk Wontner, a sobrenatural Natália de Andrade e a também lusa e injustamente ignorada, Rosalina Mello. Na verdade, há poucas atitudes mais desgraçadamente incompreendidas do que a do autêntico, sincero amante das diversas variedades de kitsch: não uma pose superiormente condescendente mas de genuíno pasmo perante o que se suporia humanamente impossível, coisa exactamente simétrica do assombro provocado por manifestações de genialidade – gente em tudo igual a nós, perpetrando aquilo de que nunca seríamos capazes. Uma experiência (por inversão) do sublime, igualmente pronta a ser desfrutada no CD Sem Fronteiras, do ex-eurodeputado Mendes Bota (1992), nos saudosos anos de ouro do Festival da Eurovisão, em Café Poesia 2012 - Uma Noite de Poesia no Palácio de Belém, nas obras literárias de William McGonagall e Amanda McKittrick Ros (fãs na primeira fila: Aldous Huxley, C.S. Lewis e Mark Twain), nas modas e bordados de Joana Vasconcelos ou nesse cume temível do contorcionismo vocal, de 1997, que é Mary Schneider Yodelling the Classics.

27 June 2010

NA CAPA DA "PÚBLICA" DE HOJE, A CASTAFIORE LUSA,
NATÁLIA DE ANDRADE (+ 12 MERECIDÍSSIMAS PÁGINAS
COM A SUA LENDÁRIA BIOGRAFIA E ICONOGRAFIA VÁRIA)


Rewind para "The Natália de Andrade Experience" e evocação da sua rival Florence Foster Jenkins.


(2010)