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19 December 2011

ESTILHAÇOS DO BIG BANG



B Fachada - B Fachada




Osso Vaidoso - Animal

Quando houver recuo suficiente para se fazer a história da música popular portuguesa nas primeiras décadas do século XXI, há-de ser inevitável dedicar um extenso capítulo – de certeza, o mais importante – à improbabilíssima aventura dupla FlorCaveira/Amor Fúria, episódio de imprevisíveis raízes cristãs remontando às cisões no empório do Vaticano do século XVI, entre o magnífico papa ateu, Giovanni di Lorenzo de Medici, aliás, Leão X (ele que afirmava “Quantum nobis prodeste haec fabula Christi”, isto é, “Quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Cristo” mas, igualmente, o genial criador do Seguro de Pecado Vitalício conhecido como “Taxa Camarae”), e o teutónico e aborrecidíssimo Martinho Lutero. Alegadamente, protestantes/baptistas uns, católicos os outros – e não estamos propriamente habituados a estabelecer este tipo de clivagens no que ao pop/rock diz respeito –, inegável é que, após demasiado tempo de domínio de roqueiros lusos travestidos de naturais do eixo UK/USA, o terreno estava preparado para a germinação de uma estirpe de renascentistas dedicados a reactivar o ADN – Heróis do Mar, Variações, GNR, Sétima Legião, até a geração prévia dos cantautores – que havia permanecido em estado de latência desde o início de 90. E se, até agora, daí não emergiu ainda nenhum A Um Deus Desconhecido ou Os Homens Não Se Querem Bonitos, já nesse santíssimo ventre foram gerados alguns belos nacos de música e de palavras bem saboreáveis.



Como, por exemplo (para além do que pariram Tiago Guillul, João Coração, Os Golpes, Samuel Úria ou Os Pontos Negros), a discografia bianual de Bernardo Fachada, espécie de desarrumado artesanato salta-pocinhas entre a música tradicional e as muitas declinações da pop: ora Reininho, ora Gainsbourg, aqui Giacometti, ali Godinho, concentrado no estudo quase entomológica do sapiens local, observado do exterior ou encarnado na primeira pessoa do singular, em perfurantes tiradas multireferenciais do jeito de "Vou casar discretamente e ser um belo pai presente, ter pouca vida social e ser senhor de Portugal, vou candidatar-me à presidência, vou fazer concertos de Natal, vou insistir na persistência, eu vou ser o Zappa nacional". Com temíveis desvios infanto-juvenis adicionais (B Fachada É Pra Meninos, 2010) e oferendas estivais (o EP Deus, Pátria e Família, 2011) em modo de imprecação diante das muralhas da cidade: “Portugal está para acabar, é deixar o cabrão morrer, sem a pátria para cantar, sobra um mundo para viver”. B Fachada (indistintamente intitulado da mesma forma que o opus de 2009), entretanto, não será motivo para celebrar com foguetório o décimo volume em quatro anos e meio de discografia: desta vez, em registo autêntica ou ficcionalmente confessional, se a agilidade verbal se deixa reconhecer desde o primeiro instante (“Noutro tempo, noutra configuração, eu dedicava-me ao roque, só tocava distorção, entretinha as raparigas com letras de pressão, uma cassete das antigas, pelas garagens do Monte Abraão”), a moldura musical – piano escolar, coros esquemáticos, percussão residual – reduz ao menor denominador comum uma sequência de canções melodicamente letárgicas, francamente muito pouco memoráveis e de rumo errático, que dificilmente puxarão o lustro ao CV de Fachada.



Se, no entanto, recuarmos até ao tal Big Bang da pop nacional, pelo caminho, tropeçaremos naquele instante em que, tal como se fala dos Pink Floyd com e sem Syd Barrett, nos deveremos referir aos GNR com e sem Alexandre Soares (embora com danos colaterais consideravelmente mais atenuados na banda do Porto): de coração pop e sistema nervoso experimental, os GNR devem-lhe algumas das mais preciosas jóias da primeira e melhor fase (só um exemplo: o alinhamento integral de Os Homens Não Se Querem Bonitos), pecúlio estético que transportaria, primeiro, para o seu The Madcap Laughs, a solo (Um Projecto Global, 1988), e que, mais tarde, integrado na tripulação dos Três Tristes Tigres – onde se cruzaria com Ana Deus –, voltaria a reconfigurar em formato de nave pop com radares apontados à estratosfera, em Guia Espiritual (1996), e Comum (1998). É, justamente, o núcleo Soares/Deus que, agora (metabolizadas obscuras etapas intermédias universalmente desconhecidas sob os nomes de Nadadores de Inverno e D. Chica), regressa, muito apropriadamente, sob a designação de Osso Vaidoso.



Porque a primeira sensação é a de tratar-se de uma reencarnação apenas um pouco menos sonoramente anoréctica dos Young Marble Giants: melodias telegráficas, traçado rítmico de electrocardiograma, espessura harmónica espalmada no quase único contraponto de voz e guitarra, com os eventuais adereços remetidos à percussão-Mo Tucker de "Cacofonia", às interferências siderais de "Animal" ou aos abstraccionismos cenográficos de "Ponto Morto". Caso absolutamente eloquente de quão produtiva pode continuar a ser a atitude "less is more", há, mesmo assim, que reconhecer o valioso contributo dos textos de Regina Guimarães (o terceiro tigre retornado à selva, aqui literaturando a partir dos estímulos de Nina Simone, Charles Cros e de interlocutores de diversas e insondáveis proveniências – é favor dar uso útil à ficha técnica), dos outros de Alberto Pimenta e Valter Hugo Mãe, da semi-invisível mas indispensável aguada tímbrica dos teclados de João Pedro Coimbra (dos Mesa, e outro tigre episódico), das percussões de Gustavo Costa e da electricidade de Tó Trips que, apesar de apenas presente numa só faixa, terá, aparentemente, reanimado o espectro Velvet Underground que Alexandre Soares mantinha sequestrado dentro de si e que ioniza com minerais radioactivos o frágil tecido conjuntivo, esplendorosamente descarnado, do Osso deste Animal.

(2011)

01 June 2011

NOBRE POVO

















Os Golpes - G


















Os Velhos - Velhos

Numa daquelas releituras dos clássicos que sempre ajudam a refrescar as ideias, pode acontecer tropeçarmos numa crónica jornalística de Fernando Pessoa (para o nº6 de “O Jornal”, de 1915) em que, apelando ao cultivo da “desintegração mental como uma flor de preço” e à construção de “uma anarquia portuguesa”, depois de caracterizar o sapiens lusitano (“O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela”), proclamava: “Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado, Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles vêm? As poucas figuras que, de vez em quando, têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido”. E Fernando Pessoa é muito bem-vindo à conversa não apenas por aquilo de que, com os sinais vitais razoavelmente mantidos, cada um se pode, facilmente, aperceber mas, aqui, em particular, no que diz respeito a alguma música portuguesa.



Irmã teologicamente adversa da FlorCaveira, a Amor Fúria, ao surgir, em 2007, não se limitou a publicar discos: perante o universo, anunciou-se como movimento “espontâneo, total, (...) um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários. Assumem a vontade de dançar um país diferente, e das ruínas de Portugal, dos seus ícones e bandeiras, desafiam o futuro, roubam o nome a uma canção dos Heróis do Mar, para se devolverem na partida ‘em busca de um país de árvores’. Eles são os Amantes Furiosos e proclamam as palavras de Carlos Drummond de Andrade (‘Chegou um tempo em que não adianta morrer, chegou um tempo em que a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação’)”.



Aparentemente, não na totalidade mas em boa parte e, sobretudo, no espírito, Heróis do Mar e regiões limítrofes (gente, por acaso, também de inspiração inicial assaz pessoana), acabaria por ser o conceito operativo. Porque, do “exército de rapazes e raparigas” – algo como o partido musical doutrinariamente unificado de candidatos a indisciplinadores -, o que mais notoriamente emergiria, seriam Os Golpes, revisão actualizada e (reconheça-se) algo melhorada da banda de Pedro Ayres de Magalhães e Rui Pregal da Cunha. “Com Portugal encravado na espinha e no coração” e um Quinto Império no bairro, reeditam, agora, em versão expandida, um EP lançado no final do ano passado, no qual, sem surpresa, participa... Rui Pregal da Cunha e se escuta uma enérgica releitura de "Paixão", dos Heróis, navegando o total das oito canções por águas esteticamente afins onde, certamente, se identificam as ruínas dos ícones e bandeiras mas o desafio ao futuro ainda se assemelha consideravelmente ao passado. O auto-D. Sebastião de Os Velhos, por outro lado, situa-se algures entre a primeira Sétima Legião e o punk de garagem, menos trágico-marítimo e mais urbano-épico, em cenários de três acordes e textos concisamente literatos. Num e no outro caso, porém, “o início de um novo tempo” continua em atraso.

(2011)

08 April 2011

PEGADAS



Aquaparque - Pintura Moderna

Abandonar o centro para, após o ter relocalizado noutro lugar geométrico, o voltar a ocupar. Não é estratégia nova nem sequer extraordinariamente distante daquela outra que, há várias décadas, Bryan & Brian raptaram para o perímetro pop e designaram como "Re-Make/Re-Model". É, aliás, sintomático que Brian (Eno) apareça no ramalhete de alusões estéticas que acompanha a publicação de Pintura Moderna, ao lado de tão diversa gente quanto Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Vince Clarke e Bill Laswell. E costuma ser também o procedimento através do qual sucessivas gerações pop mudam de pele - tal como no embrulho-manifesto se alega - acercando-se dos velhos materiais para reproduzir-lhes os códigos, trocando-lhes a lógica.



Pedro Magina (voz, Casio Tonebank, Yamaha DS55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra), gente de Santo Tirso com percursos paralelos e anteriores (enquanto Aquaparque haviam já editado, em 2009, É Isso Aí), redescobrem, então, as pegadas que, em outros anos, levaram Pop Del’Arte ou Mler Ife Dada a desenhar um distinto perfil para a música moderna lusa (e que, sob diferentes ângulos e iluminações, inspiraram também o eixo FlorCaveira/Amor Fúria), manipulam, desfiguram, realinham e fragmentam abstracções digitais, enovelam melodias, perplexidades e distorção, e, um pouco à maneira rigorosamente caótica de uns Animal Collective, inventam um privado e luminoso labirinto sonoro onde já começa a ser perigosamente apetecível perder-se. É diamante ainda em bruto de cuja lapidação – a ser realizada com precaução mas não exagerado desejo de perfeição – bem poderá resultar mais uma jóia da coroa.

(2011)

17 August 2010

ESFORCEMO-NOS, SIM



GNR - Retropolitana

Tudo pediria para colocar o teclado em piloto automático e deixá-lo escrever sozinho “oito anos após o último álbum de originais, Do Lado dos Cisnes, saúda-se o regresso dos GNR, com Retropolitana”. Tudo pediria mas não vale a pena incomodar-se a pedir. Porque, ainda que o percurso dos GNR, desde o brilhante trio de partida – Independança (1982), Defeitos Especiais (1984) e Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) –, tenha tido algum perfil de montanha russa, nunca, verdadeiramente, como neste disco se aproximou tanto do que se assemelha perigosamente a um plano inclinado final. Não traz felicidade nenhuma fazer profecias destas: poucas bandas se podem orgulhar de ter contribuído de modo tão decisivo para a gramática da pop lusa como o grupo de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão (sem esquecer o génio de Alexandre Soares nos capítulos iniciais).



Dos textos de Reininho (escrevi e não me arrependo que, no último meio século, apenas Alexandre O’Neill e Caetano Veloso coreografaram a língua portuguesa como ele) à tradução da new wave e do pós-punk para o perímetro entre Minho e Guadiana, não foi, obviamente, por acidente que os novíssimos pop-rockers do eixo FlorCaveira/Amor Fúria incluíram os GNR no seu panteão de divindades tutelares. A pequena tragédia é que Retropolitana tem muito pouco ou quase nada que o redima. Musicalmente raso, naquele registo de preguiçosa modorra-FM desesperantemente resignada e previsível, o que ainda resta de aventureirismo descobre-se apenas numa ou noutra curva das palavras e, mesmo aí – embora Reininho esteja geneticamente impossibilitado de escrever uma má letra –, a considerável distância das gloriosas gincanas semânticas a que tão mal fomos habituados. Esforcemo-nos, então, por acreditar que não é ainda a descida final da montanha russa mas só aquela queda arrepiante antes da escalada seguinte.

(2010)

13 August 2010

TEEN SPIRIT



Os Pontos Negros - Pequeno Almoço Continental

Eles dizem “Não sei ler escalas em clave de sol, e muito menos em clave de fá, para Mozart, Chopin e Ravel, sou um mal agradecido do pior que há” e não poderia existir melhor cartão de visita: de um só golpe, inscrevem-se, instantaneamente, na grande tradição de uma outra música clássica, a iniciada por Elvis Presley que também, muito descontraidamente, declarava “Não sei ler música, no meu ramo de actividade não é necessário”. E os Pontos Negros parecem ser a mais recente confirmação da tese: de obscura banda de garagem chocada no viveiro das catacumbas da Igreja Baptista de Queluz e dada à costa na grande maré FlorCaveira/Amor Fúria de 2008, rapidamente saltou para a arena do circo das multinacionais, desesperadas por entrever um oásis no meio do infindável deserto de uma crise que, para elas, chegou muito antes da crise-propriamente-dita, tal como uns valentes milhões de desempregados a conhecem.



E irão os moços dar uma enorme alegria – regional, portuguesa, portanto, não tão enorme assim, mas quem dá o que tem… – a Doug Morris, o CEO do Universal Music Group? Não é impossível. Pelo menos, desde o anterior Magnífico Material Inútil, é obrigatório reparar que, se o “teen spirit” permanece integralmente presente, aquele lado mais desagradável das borbulhas do acne parece definitivamente resolvido. Nem tudo é perfeito mas há condimentos simpaticamente vampireweekendianos enxertados na matriz panque (mantenhamo-nos fiéis à terminologia das origens), um bem apreciável e inteligente domínio da dinâmica da besta pop/rock e, particularmente, em "Se O Variações Fosse O Meu Barbeiro" – todo um programa, como se imagina –, uma assaz promissora derrapagem para a electricidade descontroladamente em roda-livre que não lhes fica nada mal. A seguir com muita, muita atenção.

(2010)

24 May 2010

MELHOR DO QUE QUALQUER SARAMAGO COMUM



Tiago Guillul - V

Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.



A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto“não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.



E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.

(2010)
DERRUBAR AS MURALHAS DE JERICÓ



Quase dois anos após o vírus FlorCaveira - aquela peculiar combinação de “religião & panque roque” que apresentou à sociedade Tiago Guillul, João Coração, B Fachada, Samuel Úria, Diabo na Cruz e os Pontos Negros - ter contaminado praticamente toda a imprensa, estou, de novo, na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica, perante Tiago Guillul, locomotiva editorial e teológica da conspiração, à beira de publicar (em vinil e CD) o novo álbum V. E, agora que o contingente FC já, definitivamente, não compete na categoria “new kids on the block”, só lhe posso perguntar se isso, para ele(s) é uma desgraçada fatalidade ou um alívio: “Estamos felizes por o pó ter assentado. Há um lado que eu diria cavaquista que é o de que mostrámos trabalho. Independentemente do fenómeno real, na medida em que se falou dele, foi também um fenómeno muito circunscrito à imprensa. A minha vida continua tão anónima como antes”.



Sim, Tiago Cavaco/Guillul assegura que ainda não é perseguido nas ruas por jovens fãs tresloucadas: “Eu também tenho pouco perfil para isso, pai de filhos e tal... quem tem mais esse perfil na FlorCaveira é o Samuel Úria, aquele ar mais romântico. Mas, se pensarmos no que se passou depois desse momento de descoberta, toda a gente continuou a gravar, apareceu o Diabo na Cruz... quem achava que aquilo seria, necessariamente, um fogacho, não acertou. É nesse sentido que eu digo que foi uma resposta um bocado cavaquista: dissemos ‘deixem-nos trabalhar’ e nós trabalhámos. Espero que não seja só o Portugal do betão mas estradas onde as pessoas possam andar e dizer que valeu a pena”.



O balanço mais interessante deste tempo terá sido, entretanto, o facto de a percepção que se tinha desta associação de exegetas bíblicos, praticantes de “roque enrole” e “compagnons de route” vários, ter saltado as fronteiras de apenas um grupo de gente "cool" mas oriunda de uma religião “exótica”: “Parece-me que há muitas pessoas a descobrir-nos independentemente desse fenómeno de imprensa. Reparei especialmente nisto a propósito do teledisco que fizemos para o ‘Sete Voltas’. De repente, o 'Record' quer falar comigo porque uns amigos criaram um grupo no Facebook a anunciar que esta devia ser a música oficial da selecção para o Mundial!... A culpa é minha porque eu fiz uma piada com isso (a canção, na verdade, é sobre o episódio bíblico das muralhas de Jericó) e, se calhar, o problema deste país é que ninguém pode fazer piadas porque as pessoas não percebem a ideia. Mas com o Samuel Úria, com o Diabo na Cruz e com este efeito do teledisco, sinto que há, de facto, pessoas novas a descobrir-nos”.



A verdadeira questão, no entanto, é: perdida essa aura de cristãos-militantes-nas-catacumbas-de-Roma, não correrão o risco de começar a haver quem pense “you’re no fun anymore?” “Reconheço que, como este é um país tão pouco tocado pela diversidade religiosa, por mais que nos apeteça que falem de outra coisa, isto irá continuar a ser jornalisticamente forte. Mas, mesmo quando as pessoas se aperceberam do nosso lado ‘National Geographic’, apesar de tudo, falaram da música. Isso, para mim, é um alívio. Na verdade, continuar a sobrevalorizar esse aspecto do ‘exotismo’ religioso será um caso de ‘it’s no fun anymore’. Isso já é notícia, seguramente, de 2008. Até porque, às vezes, a melhor maneira de encenarmos tolerância ou civilização é termos uns espécie de bobos da corte que era como, se calhar, a FlorCaveira aparecia”. Neste V, na realidade, o segundo álbum de Guillul para o mundo, que só o descobriu com o IV (“Isto, agora, é uma categoria um pouco kierkegaardiana... e a piada é essa. Ir assumindo números que, aos olhos da maior parte das pessoas, são virtuais”), a grande maioria das canções é construída sobre “uma amostra de” – batidas rítmicas, excertos de outras músicas... afinal, uma estratégia de auto-defesa:



“Se me armasse em grande cantor ou grande tocador e chamasse uma banda para servir as minhas canções, não funcionaria. Também por ser, simbolicamente, a primeira vez que iria trabalhar canções minhas em estúdio, tentei arranjar balizas para arrepiar caminho. E boa parte das balizas foi criada ou roubando excertos de batidas ou – apenas em dois casos – de música de bandas evangélicas portuguesas dos anos 80 e 90. Senti-me confortável ao pensar que, se ia gravar um disco em estúdio, e se reconhecia que não iria conseguir fugir ao feeling anos 80, ao menos, levoava migalhas da música que me permitiu chegar aqui. Umas vezes, o processo já estava quase concluído e era só um argumento rítmico para juntar; outras, o argumento rítmico estimulava-me a inventar a canção. Por outro lado, é a minha maneira humilde (ou falsamente humilde, também existe esse risco) de invocar outras vozes na hora de trazer a minha”. A excepção é uma canção “construída sobre a indignação resultante de declarações de Mário Soares”: “Se os evangélicos, coitados, não têm grande voz perante um gigante da nossa democracia como o dr. Mário Soares, na minha maneira patética, achei que me devia pronunciar. Numa palestra, ele referiu-se ‘às novas religiões que nos chegam’, falou em ‘evangélicos fanatizados’, aquele eterno clima de suspeição... o Mário Soares não precisa de ser católico para, na estranheza perante as confissões socialmente rebaixadas, numa atitude, de facto, racista, insinuar que não devemos ter nada a ver com essa classe média-baixa dos brasileiros, africanos e ciganos que chegam cá com essa ‘balbúrdia’ de cultos”.



E, a emprestar uma tonalidade comum a todo o disco... uma peculiar forma de pornografia: “Sim, é verdade, há clichés dos anos 80 por todo o lado. Sem querer sociologizar demais, as nossas fronteiras de pudor com o passado, quando estamos numa fase em que precisamos de muita auto-estima – que são, tipicamente, os anos da universidade –, mais tarde, desaparecem. E, aí, pensamos: quais foram as canções que, quando era miúdo, me marcaram? Por isso, é que há esta sede pela nostalgia. Numa canção, eu digo que é a nova pornografia, porque é uma luta espiritual minha e passa por ir ao YouTube procurar os anúncios que via quando era pequeno e que assume um poder idólatra e mentiroso em relação ao passado”.

(2010)

27 December 2009

DEPOIS DA CORRIDA AO OURO



B Fachada - B Fachada




Samuel Úria - Nem Lhe Tocava

Um ano depois de o petardo mediático FlorCaveira/Amor Fúria rebentar, ter-se-à tudo esfumado como acontece, regularmente, com as modas sazonais, ou haverá estilhaços valiosos para recolher? Quando, por essa altura, Tiago Guillul declarava “Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos”, estava apenas a tirar partido dos megafones que lhe eram colocados à frente ou, durante os doze meses seguintes, justificou – por obras, além de palavras – aquilo que afirmava?



Dos manifestos da Amor Fúria (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”), emergiram, de facto, destacamentos poéticos armados, de carne e osso? Será que o que Samuel Úria escreveu acerca de B Fachada (“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”) teve consequências práticas? O que o próprio Úria confessou sobre si mesmo (“já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") eram só "soundbytes" rimados ou confirmou-se?



Nada como fazer o balanço: um belíssimo devaneio estival de João Coração (Muda Que Muda); vários EP, compilações e elucubrações artesanais a ensaiar sementeiras diversas; duas ou três estreias com índices de acerto no alvo variáveis (Pontos Negros, Smix Smox Smux, Os Golpes); uma colecção de polaróides de figurões urbano-rurais de B Fachada (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado); um EP de “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo” (Meio Disco, de Os Quais); e uma longa pausa de Tiago Guillul que, ainda assim, não o impediu de, aqui e ali, ir opinando com imponderável sabedoria (exemplo: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"). Chega, agora, o momento em que os piores receios de Guillul (“Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade crítica em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho é um certo prazer em fazer inimigos”) se irão concretizar: Nem Lhe Tocava, de Samuel Úria, e B Fachada (apesar de publicado pela Mbari e já não pela incubadora FlorCaveira), irão fazer muitos amigos e a respeitabilidade crítica está a bater-lhes à porta.



Por mui óptimas razões, aliás: se, nem um nem outro perderam aquela faceta de artesãos que preferem lidar com materiais recolhidos no quintal das traseiras ou em que tropeçaram, acidentalmente, numa investida pelo sótão, tudo atingiu já, um grau mínimo de perfeição de acabamentos que, sem tresandar a produto industrial, também não é, decididamente, apenas coisa de amador jeitoso. Fachada é o diletante que respiga na tradição e a evapora ("Responso Para Maridos Transviados"), quase incorpora o espírito do primeiro Kevin Ayers ("Tempo Para Cantar"), joga ao toca-e-foge com o ié-ié tal como Rui Reininho, em dia de folga, o pratica ("Estar à Espera Ou Procurar"), gainsbourgiza-se levianamente ("Setembro" e "A Bela Helena"), pisca o olho a Vitorino, Cesariny e (no grafismo da capa) aos Trovante e, de tudo isso, constrói uma personagem inteiramente singular de quem não esperamos senão que debite aforismos como “É bom ter má fama, dá para ter vazia a cama, e nesta solidão de Kant, é bom ter de fundo o que anda nas bocas do mundo” e mais uma mão cheia de outros de igual quilate.



Nem Lhe Tocava é um sinuoso, virtuoso e vertiginoso exercício de mimetismo em que, sobre uma camaleónica pele inconfundivelmente lusa, se projectam as sombras do tango, do blues, de Elvis Presley, Johnny Cash, caricaturas de Prince e daquele género de soul gingada nos arraiais de Verão, revisteirices de coreto, sobras da mesa do rock português de 80, e por tão repetidas e rápidas sobreimpressões, transpira nacos de língua em estado de graça nos quais, Úria se confessa (“Pôr sal nas minhas feridas e acordes nos meus brados, derramar mel nas saudades, verter choros sincopados”), se desenha (“Eu nunca fui do prog-rock, sou neo-retro-redneck, nasci num antro só de Enters, já nem sei carregar num Rec”) e, no ultra-waitsiano "Batuta e Batota", abre completa e magnificamente o jogo: “Ou em berço de ouro, ou em disco de prata, brotei já artista ou fiz-me pirata? Um Messias pop, freewheelin com dono, se me biografo ou revisiono”.

(2009)

22 November 2009

AS "TESES DE ROMA" DO PRESIDENTE RATZINGER


"O Papa Bento XVI recebeu ontem 260 artistas aos quais pediu que não tenham medo de dialogar com os crentes, garantindo ao mesmo tempo que a Igreja quer 'restabelecer a amizade com os artistas'. (...) O Papa pediu também aos artistas que transmitam a verdadeira beleza da arte, recusando as formas de 'propaganda' e ilusão que ela por vezes traduz. 'Trata-se de uma beleza sedutora mas hipócrita, que desperta' a vontade de poder, de 'prepotência sobre o outro', assumindo o rosto da 'obscenidade, transgressão ou provocação'.

Oh quão delicioso e santíssimo matrimónio estético/teológico entre o pensamento filosófico português do Diácono Remédios e as Teses de Yenan do Presidente Mao Tsé-Tung!... *

"O poeta José Tolentino Mendonça, um dos convidados presentes, resumiu ao 'Público' a forma como leu o discurso de Ravasi [Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura]: "Ele criticou alguma arte contemporânea auto-referenciada e fechada nos seus próprios limites, mas disse também que a Igreja deixou de lado a questão estética e tem repetido acriticamente modelos do passado e não tem construído uma estética moderna e contemporânea". (aqui)

Enquanto aguardamos, então, com mal disfarçada ansiedade, o "Livrinho Vermelho" do Presidente Ratzinger, sugere-se que, numa manifestação de abertura ao "diálogo inter-confessional", o Sumo Patífice aceite considerar a proposta FlorCaveira:



* "Some works which politically are downright reactionary may have a certain artistic quality. The more reactionary their content and the higher their artistic quality, the more poisonous they are to the people, and the more necessary it is to reject them" (Teses de Yenan, Mao Tsé-Tung).

(2009)

05 September 2009

DEPOIS DA LUSOFOBIA


Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense

Quando, em 1989, os Tina & The Top Ten se apresentaram como "the first all portuguese fake american rock’n’roll band", o caldo de cultura de então na pop-rock portuguesa possuía o equilíbrio de microorganismos exactamente adequado para que o gesto de João Paulo Feliciano (aliás, Dr. Top), Tina Costa, Johnny "Scratch" Money, Captain M. D., Lee "Beaty" Deasy, Cosmic Rita e Plastic Mimi pudesse ser facilmente interpretado enquanto acto de ironia arty, um "scherzo" conceptual em torno das velhas categorias do "autêntico" e do "falso", encenado, de princípio a fim, como se, por um golpe de magia, num universo alternativo, os Sonic Youth – com quem, para adensar a trama do argumento, os T&TTT viriam a estreitar relações e a actuar conjuntamente, em 1993, no Campo Pequeno, em Lisboa – tivessem nascido para o mundo não em Nova Iorque mas algures entre Lisboa e as Caldas da Rainha. E uma das razões porque, nessa altura, não existiriam muitas dúvidas acerca do sentido estético da banda era o facto de, à época – dos GNR aos Mler Ife Dada, dos Rádio Macau aos Pop Dell’Arte – ser absolutamente insólito pretender simular-se uma identidade pop com registo de nacionalidade diferente daquele que o BI exibia.


Nada de extraordinário, afinal: das cantigas de amigo medievais, ao fado, ao amarrotado nacional-cançonetismo ou à geração imediatamente anterior dos cantautores como José Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a norma “espontânea” (em todas as suas infinitas variações e contaminações) sempre foi a de, com maior ou menor dose de tempero patrioteiro, se compor e interpretar música portuguesa e em português. É, talvez, por isso, que soa um pouco bizarra alguma perplexidade actual perante a inevitabilidade de, após o curto interregno de domínio anglófono iniciado pelos Silence 4 em meados da década de 90, a pop lusa – essencialmente, através das independentes FlorCaveira e Amor Fúria, mas não exclusivamente – ter voltado a proferir frases como “beijas como uma freira” em vez de portentosos absurdos do género “I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on”. E duplamente interessante é também, neste preciso instante, darmos com o regresso de João Paulo Feliciano, desta vez, ao leme do Real Combo Lisbonense.



O manifesto/declaração de princípios (com contextualização histórica incluída: “Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade. Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança”) não podia ser mais sério, reivindicando-se dos “clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa”, das “tradições da canção ligeira e romântica”, dos “sons e ritmos oriundos da América do Sul”, do “ twist, (d)o yé-yé e (d)o rock’n’roll”.



E, sem se rir, João Paulo (Hammond, piano, guitarra), Ana Brandão (voz), Bernardo Barata (baixo), Ian Mucznik (voz, guitarra, percussões), João Leitão (guitarra), João Pinheiro (bateria), Márcia Santos (voz, percussões), Mário Feliciano (Farfisa, percussões, voz), Rui Alves (percussões, voz), Sérgio Costa (piano, piano eléctrico, flauta, saxofone) e Tomás Pimentel (trompete, fliscorne), numa atitude “congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural”, apelam a que “novos e menos novos, ricos, pobres e remediados”, dançando, participem da “recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer”. Traduzindo: aquilo que, em versão caricatural, Os Tornados, de Twist do Contrabando (ed. Arthouse/Valentim de Carvalho), ensaiam e os OqueStrada, de Tasca Beat, cinematizam e gloriosamente baralham, o Real Combo Lisbonense, assumindo a pose de "first all portuguese fake fifties dance band", junta as pontas soltas do imenso baú de tesouros que as edições Portugal Deluxe começaram a revelar (e que, no plano internacional, a monumental enciclopédia Ultra Lounge arrancou das trevas), puxa o lustro a meia dúzia de suaves frivolidades de Eugénio Pepe, Frederico Valério, Artur Ribeiro, Carlos Canelhas, Byron Gay e Mário Simões (o insano surrealismo de casino de "A Borracha do Rocha") e, tão naturalmente como quem, todos os dias tropeça em Thurston Moore à porta da tabacaria, projecta-as como novas para o enorme coreto do arraial pós-neo-alter-moderno do admirável mundo velho.

(2009)

20 July 2009

FILOSOFIA ESTIVAL



João Coração - Muda Que Muda

João Coração é uma espécie de JP Simões mais chique e menos trágico, que substituiu a monodieta de Chico Buarque por uma ementa mais diversificada que privilegia a culinária francesa dos grandes chefs como Gainsbourg ou Delerm. Nada, porém, que o impeça (aliás, à imagem dos mestres) de incluir um ou outro alimento mais substancial recolhido nos menus do Sul dos EUA, naqueles mais saborosos desperdícios da cuisine pop que sobraram da mesa dos Talking Heads ou até de repastos não tão distintos de veia proletariamente cançoneteira. O que em Nº1 Sessão de Cezimbra havia ainda de gravitas faustiana (da linhagem Bordalo Dias), menos de um ano depois, vaporizou-se aqui quase integralmente em puro devaneio de filosofia estival (“enquanto houver algum sossego eu não descanso, não me deixo embalar pela inércia das cadeiras ocidentais”), epicurismo requintado e luxo artesanal. E, não esquecer, não é qualquer um que se permite o luxo de, na banda, ter Walter Benjamin curvado sobre os teclados.

(2009)

05 July 2009

BOLONHA



Smix Smox Smux - Eles São Os Smix Smox Smux

Apanhar um comboio já em bom andamento tem vantagens e desvantagens: tanto pode servir para tirar partido do movimento iniciado como, face aos restantes passageiros a bordo, o jogo de comparações não ser o mais favorável. A locomotiva bimotor – FlorCaveira/Amor Fúria – que, durante os últimos meses, tem puxado pela reactivação do pop/rock nacional possui um belo jogo de trunfos para exibir mas isso não deverá ser motivo suficiente para que qualquer nova publicação seja automaticamente louvada. Os Smix Smox Smux, trio da academia-pós-punk de Braga, concluiram a licenciatura (versão-Bolonha) mas ainda lhes falta notoriamente o mestrado e o doutoramento.



A música e a estenografia dos textos – salpicados de referências à coisa-pop de raiz local – têm a cabeça e o coração nos sítios certos, a onda sonora (aqui punk-punk, ali Pavement, acolá, eixo Manchester-Liverpool primeira forma) ainda denuncia demasiado a caligrafia dos mestres e, ao longo de um álbum de treze canções, repara-se bastante que a elasticidade estética e a amplitude do vocabulário musical não são exactamente grandes. Mas antes mil vezes eles que um qualquer outro produto laboratorial-industrial.

(2009)

15 June 2009

"RICH KIDS WANNA HAVE FUN"



Os Golpes - Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco

Muito e mui justamente foi escrito acerca da recuperação da melhor época do pop-rock português (e em português) pela dupla de editoras teologicamente irmãs/desavindas FlorCaveira/Amor Fúria. Nem tudo – coloquemos os devidos pontos nos exactos "i" – estaria à altura do verdadeiramente óptimo IV, de Tiago Guillul, mas o ímpeto global do empreendimento estético apontava na direcção certa e, mesmo os mais filosoficamente agnósticos/ateus de entre nós, se renderam à singularidade planetariamente anómala de a reanimação da pop nacional se ver entregue a uma dupla brigada de militantes baptistas/católicos.



Agora, se não se incomodam, um ponto de ordem: o álbum de Os Golpes é bom mas – e isso importa e está na cara – totalmente derivativo do nacionalismo dos Heróis do Mar e pós-punk coevo. Mas, mais decisivo, et pour cause, muito melhor do que eu poderia dizê-lo, afirma-o Tiago Guillul no seu blog, "Voz do Deserto": "Sexta-feira passada, o concerto dos Golpes no Santiago Alquimista mostrou que também os "rich kids wanna have fun". Até para alguém politicamente conservador, como eu, era desconfortável o ambiente. Umas centenas de miúdos bem nascidos ansiosos para fazer daquele 1 de Maio o seu 25 de Abril. No que diz respeito à luta de classes, Marx não se enganou. Existe. E eu vi-a, irremediavelmente favorecendo os verdugos do proletariado, em compasso quaternário com estes olhos que a terra há-de comer". Como diria o ateu Lenine, "que fazer?".

(2009)

25 May 2009

COM BI E MORADA



B Fachada - Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado

Das onze canções, cinco têm título com nome de gente. Mas todas, de um modo ou de outro, acabam por ser micronarrativas em torno de figuras ou personagens com BI e morada – reais ou ficcionados – facilmente identificáveis. Uma delas, o “Zappa Português”, é ele próprio, Bernardo Fachada, com declaração de intenções e plano de acção irónica e minuciosamente detalhado: "Vou casar discretamente e ser um belo pai presente, ter pouca vida social e ser senhor de Portugal, vou candidatar-me à presidência, vou fazer concertos de Natal, vou insistir na persistência, eu vou ser o Zappa nacional". As outras - da "Conceição" ("com tanta fufa que há para aí, tu tinhas logo que ir com essa"), à "Soraia", prestadora de apoio afectivo em quartos de hotel, ou ao "Zé", gabiru do género-"pai, sou ministro!" - encadernadas em artesanato folqueiro com ocasional vibração eléctrica, abrem mais uma janela na cabana FlorCaveira de onde, lançando o olhar sobre "a selva", Fachada gargalha a lengalenga "já toquei na Zé dos Bois, Zé dos Bois, Zé dos Bois".

(2009)
NÃO PARAR DE DAR AOS BRAÇOS



Na contracapa de Um Fim de Semana no Pónei Dourado, do lado direito do logo da FlorCaveira, lê-se “Religião e panque-roque desde 1999”. E, à esquerda, “Advertência: este fonograma não contém ortodoxia cristã”. Teve de ser assim mesmo – com humor e ironia necessariamente incluídos – porque, na menos canónica editora Baptista do planeta, B Fachada, como ele próprio confessa, é “o pagão da FlorCaveira”. Foi também a “contratação” mais tardia do plantel. Desafiado por um amigo a assistir a um concerto de Tiago Guillul, hesitou, desconfiou mas “cheguei lá e confirmei, assim com os olhos esbugalhados. Aquilo custou-me muito a engolir. No entanto, não há volta a dar em relação aquele disco. É completamente consistente, pop é pop, não tem de ser sério nem tem de ser a brincar. Até porque me deparo também, às vezes, com esse problema das pessoas que não conseguem lidar com o tragicómico, de falar a brincar de coisas sérias ou o inverso”.



Tem, aliás, as referências e as coordenadas musicais muito bem arrumadas: “Eu divido a música em três: a erudita, a tradicional e a pop. A erudita e a tradicional são artes e a pop é artesanato. A erudita e a pop têm autores individuais e a tradicional tem um autor colectivo. Na tradicional, interessa-me muito o processo do inconsciente colectivo; na erudita, os métodos de construção, para jogar e brincar com eles; e, depois, da pop, que foi o que ouvi mais frequentemente (embora, hoje, escute mais música erudita), é que me vem a memória colectiva. Estou no meio deste triângulo a ser puxado para um lado e para o outro. Que era, mais ou menos, o que o Frank Zappa fazia. Claro que ele era uma figura quase genial (não gosto de dizer genial porque ele trabalhava quinze horas por dia, aquilo não lhe saía do cachimbo)...”. Do que decorrem, inevitavelmente, um método e um plano: “De pop, normalmente, oiço um disco de cada coisa: o Pet Sounds (e mais nada dos Beach Boys), o Sargeant Pepper’s (e mais nada dos Beatles), do Zappa e do Tom Waits, tudo, dos Magnetic Fields, basta-me o 69 Love Songs. Mas o que escuto mais avidamente é música erudita e jazz. Na maneira de trabalhar, o meu role model é o Zappa. Porque, a nível musical, não sei muito bem de onde vêm as melodias, as harmonias… sei que, às vezes, tento puxar para a Nina Simone que é a minha referência escondida, tenho quase vergonha de dizer que a tomo como referência, ela canta e toca tão bem... ‘isso querias tu!...’ Mas importantes são o Zappa e o Waits, no artesanato, no labor, na cena de ‘toco muito e, se der aos braços, venho à tona’. Não posso é parar de dar aos braços, sempre a escrever canções, a fazer dois discos por ano... já tenho as gravações e o lançamento do segundo disco marcados”.



Não seria obrigatório mas isso está tudo muito bem explicadinho num dos temas do álbum, “Zappa Português”, uma das várias personagens cujo nome próprio é título de canção. Como é o caso do “Zé” (“Chamo-me Zé, vim para aqui a pé e agora tenho um Cadilac”), criatura autárquico-arrivista que auxilia a desvendar a minúcia do método de B Fachada, estudante de literatura em modo-escritor de canções: “O nome da personagem é estudado, a maneira como fala, o primeiro e o último verso, a ordem das palavras, o centro da canção, todas essas coisas são pensadas. É uma personagem económica, tem de ser definida através de muito pouco, cada palavrinha tem de servir aquela ficção. É uma canção acerca de um animal que vence na vida e está contente com isso”.



Do triângulo pop-erudita-tradicional, é a última que, decididamente, lhe espevita o discurso: “A música do mundo, como as outras músicas, sempre fez parte da minha formação. Mas, a certa altura, tive o contacto com a literatura tradicional portuguesa e com o Romanceiro e foi isso que despertou em mim o interesse pela tradição enquanto processo, pela maneira como a tradição oral funciona enquanto biblioteca de um conhecimento comunitário, que é um tipo de conhecimento muito específico que não funciona através de regras, nem por raciocínio, ideia ou argumento. É uma coisa que flui muito directamente a um nível animal do humano, em que a componente social parece ser aí incluída”. Um pouco depois de ter andado a estudar a tradição, o realizador Tiago Pereira convidou-se para fazer um documentário sobre ele: “Achei que ele estava a gozar comigo. Insistiu e explicou que o queria fazer porque achava que eu ‘era a tradição oral contemporânea’, um conceito que ele tinha inventado. Aquilo bateu-me porque fiquei com a ideia de que ele estava, mais ou menos, a entender o que eu faço. Aliás, no fim do filme, ele explica que se dirigiu a mim porque ouvia as minhas canções e tinha a sensação de já as ter ouvido antes”.



Foram para Trás os Montes onde, próximo de figuras locais como Adélia Garcia (“que há trinta e tal anos tinha sido gravada pelo Giacometti”), cantou e ouviu cantar. “Ao contrário do que nós pensamos, ela tem uma noção perfeita do que é a tradição oral e do que é armazenar aí conhecimento. Ela cantava um romance com quinhentos anos, que ela sabia que tinha quinhentos anos, e, logo a seguir, cantava um fado da Amália que tinha ouvido na televisão, de que tinha gostado e que tinha decorado. Já tinha variado tudo – letra, melodia, tudo – mas cantava-o. O que é, evidentemente, o método tradicional. O Tiago diz que chegou ao fim do documentário com a sensação de que, se a Adélia vivesse em Lisboa, gravava discos para a FlorCaveira e era autora. E, se eu vivesse em Caçarelhos, não era autor e cantava o Romanceiro. Na cidade, tenho esta pressão ocidental, estúpida, para ser original e para criar e ela não: está no meio de uma comunidade e a pressão é apenas para expandir, receber e filtrar o conhecimento da comunidade. Ensinou-me também algumas canções como a ‘Dona Filomena’ que canto neste disco. A verdade é que dei um concerto no castelo de Algoso para as pessoas da aldeia, expliquei que ia cantar canções minhas que, em vez de histórias dali, eram histórias de Lisboa e, com as minhas heresias e as minhas canções eróticas, acharam aquilo perfeitamente normal. Era a história da experiência de uma personagem qualquer, num sítio qualquer”.

(2009)

03 February 2009

O NOSSO PASTOR BAPTISTA PREFERIDO *
(ou, in his own words , "esse Padre Borga versão dois ponto zero")



* (que, por acaso, escreveu uma "review" do álbum do Springsteen quase tão boa como a minha: "Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa.
Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"
- aqui)

ps 1 - mrs. Guillul é gira

ps 2 - mas não leiam só os trechos hippies do Good Book... os
naughty bits também são, como dizer?... filhos de deus.

(2009)

04 January 2009

ARREGALAR OLHOS



The Welcome Wagon - Welcome To The Welcome Wagon




Sufjan Stevens - Astral Inter Planet Space Captain Christmas Infinity Voyage

Umas continhas rápidas: aos 33 anos, do projecto – iniciado em 2003, com Greetings From Michigan, The Great Lake State – de gravar um álbum para cada um dos 50 estados norte-americanos, Sufjan Stevens, até agora, conta apenas com esse e Come On Feel The Illinoise, de 2005. Ora, mesmo que ele arrepie caminho e, daqui em diante, disciplinadamente, passe a gravar um por ano, será a um venerável octogenário que a grande nação americana deverá prestar a devida homenagem por altura da conclusão desse imenso painel musical. Longa vida, muito longa, pois, a Sufjan. Talvez, até necessariamente mais prolongada do que isso uma vez que, se o padrão em curso não se modificar, as cinco décadas irão ser francamente insuficientes: nestes últimos três anos, apenas publicou, em 2006, The Avalanche: Outtakes and Extras from the Illinois Album e a caixa de cinco EP, Songs for Christmas, e, este ano, Astral Inter Planet Space Captain Christmas Infinity Voyage (mais sete “Christmas carols” em formato “weird-Stevens) e, acima de tudo, Welcome To The Welcome Wagon - estreia do duo familiar Welcome Wagon mas, essencialmente, um novo álbum de Sufjan Stevens-sob-um-outro-nome que nele desempenhou as tarefas de produtor, engenheiro de som, arranjador e orquestrador.



Apresente-se, primeiro, as personagens envolvidas: Vito e Monique Aiuto, casal vizinho de Sufjan, em Brooklyn. Ambos naturais de Tecumseh, no Michigan, ela licenciada em Belas-Artes pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, ele escritor, poeta, estudante de Teologia em Princeton, e actualmente, pastor presbiteriano na Ressurection Presbyterian Church de Brooklyn a quem, em Greetings From Michigan, Stevens (conheceram-se quando frequentavam os dois um curso de escrita criativa, em 1999, na New School de Nova Iorque) dedicou "Vito's Ordination Song" que cantou durante a cerimónia da sua ordenação. Uma outra peça do puzzle já conhecida mas que convém aqui recordar: Sufjan Stevens, para além de candidato actual “most likely” ao trono de Brian Wilson, é também figura destacada da “pop cristã” norte-americana. Somemos, então, dois mais dois e, se nos apetecer especular desvairadamente um bocadinho, é altura de arregalar olhos agnósticos e ateus perante a intrigante coincidência de, entre a febril Brooklyn e os subúrbios de Lisboa, entre Presbiterianos novaiorquinos e Baptistas de Queluz, entre a Asthmatic Kitty e a FlorCaveira, ocorrerem algumas das mais surpreendentes aventuras musicais contemporâneas.



Porque Welcome To The Welcome Wagon, não dissimulando a “inspiração cristã” do que era, originalmente, a sua “traditional bluegrass Jesus music”, não hesita em incluir versões de temas dos Smiths (“Half A Person”) e dos Velvet Underground (apropriadamente... “Jesus”) pelo meio do programa de “pastor and wife join voices in sacred folk songs for all ages” que a capa anuncia mas no qual é obrigatório referir a gloriosa cenografia orquestral de Stevens que, à “naïveté” de Vito e Monique acrescenta bandas de sopros, coros gospel, alusões morriconianas e inúmeros outros detalhes de ourivesaria sonora que o transformam, indiscutivelmente, em coisa sufjiana. Exactamente o mesmo que acontece (a começar logo pelo título) em Astral Inter Planet Space Captain Christmas Infinity Voyage onde as sete “carols” – em particular, a primeira, “Angels We Have Heard On High”, espécie de consoada no Forbidden Planet de Louis e Bebe Barron – viram delirante e saborosa matéria-prima de “sci-fi” cristã.

(2009)

28 December 2008

FUTURO AQUI?



Enquanto o mundo, primeiro, invisivelmente, depois, de forma estrondosa, assegurava que, de uma vez por todas, atribuíssemos o verdadeiro sentido a “It’s The End Of The World As We Know It” (sem que, no entanto, fossemos capazes de, imperturbavelmente, lhe pronunciar o anexo “and I feel fine”...), uma canção dos R.E.M. com 21 anos, no admirável universo da música era apenas “business as usual”. Um “business” que, sem dúvida, “as we knew it”, caminha, inexoravelmente, para o seu declínio – a queda nas vendas de fonogramas físicos aprofunda-se, muito insuficientemente compensada pelas vendas legais “online” e em gigantesca devantagem face aos “downloads” ilegais – mas que nem assim se sentiu verdadeiramente estimulado para, perante a hecatombe, mudar radicalmente de processos. Enquanto indústria e enquanto manifestação estética, em 2008, a música pareceu continuar a viver estranhamente isolada no interior de uma bolha impermeável aos abalos externos, reciclando-se infinitamente, rapando o último fundo aos catálogos, persistindo em métodos de uma idade bem anterior à emergência da Internet, continuando a publicar-se belíssima música (e, naturalmente, também excremento sonoro em abundância) mas nada a partir de onde se pudesse enxergar sinais de futuro. Negro ou luminoso, mas, pelo menos, futuro.



Curiosamente, num cenário onde, entre legiões de melancólicos aspirantes a descendentes de um “one night stand” de Woody Guthrie com June Carter numa cabana das Apalaches e sucessivos e vertiginosos revivalismos, o único fenómeno genuinamente inesperado – a relativamente nova “cena de Brooklyn”, dos Vampire Weekend aos High Places, parece ter potencial renovador mas Nova Iorque sempre foi terreno reconhecidamente fértil –, deste ponto de vista onde nos situamos, foi o que eclodiu nos subúrbios de um diminuto lugar periférico, à beira de mais outra fatal depressão. A saber, Portugal, de Queluz a S. Domingos de Benfica, das caves de Igrejas Baptistas para um circuito alternativo ao alternativo, compondo, em português, “panque-roque” e tosco “folque” artesanal, com epicentro em editoras como a FlorCaveira e AmorFúria e protagonistas de nome Tiago Guillul, Pontos Negros, Samuel Úria, João Coração ou B Fachada. Pop “povera” e a que repugnam os “valores de produção”, vivendo de um excesso de convicção e, por aí mesmo, sinal dos tempos e matéria de proclamações, provocações e manifestos. Por uma vez, se surpresas houve, nasceram aqui e não sabemos como evoluirão. E isso é muito bom. Porque o destino de quase todo o resto não poderia ser mais previsível.

(2008)

17 December 2008

PRENDAS & COISO



Vários - A FlorCaveira Apresenta o Advento

Se não podemos livrar-nos do Natal, experimentemos substituir a versão católica por outra protestante-Baptista. Na companhia da trupe FlorCaveira, explicam-nos que “é banal trabalhar para resgatar o Cosmos, resta saber quem nos salvará da Salvação do Mundo”. Tiago Guillul, João Coração, Samuel Úria & Cº num Natal anti-papista ao som de “Come o Papa, Joana, come o Papa”.




Tiago Guillul - IV

Natal Baptista nº 2 ou as “95 Teses” de Tiago Guillul em vinte canções (as quinze da publicação original mais cinco de bónus nesta segunda edição) de panque-roque psicadelicamente evangélico. Se, como garantia Kevin Smith no genérico inicial de Dogma, o ornitorrinco é a demonstração de que Deus possui sentido de humor, é escusado insistir no “Jingle Bells”.




Samuel Úria - Em Bruto

“Gravações caseirinhas”, “evocações variaçónicas”, “sintetizadores manhosos”, “temas marginais e desalinhados”, “guitarras de três contos” e, genericamente, um novo sentido para a designação “lo-fi”, em confissões (“nunca fui do prog-rock, eu já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") de um Baptista enviado de Tondela.




B Fachada - Viola Braguesa

“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”, escreveu Samuel Úria sobre B Fachada que, de si, revela tocar braguesa, cestas de molas e o dicionário de neerlandês-francês.

(2008)