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09 July 2010

O CORAÇÃO DAS TREVAS



Laurie Anderson - Homeland

United States I-IV, 1984. Home Of The Brave, 1986. Homeland, 2010. Pelo meio, há só mais oito albums (vários ao vivo). Mas todos eles, de uma forma ou de outra, não fogem demasiado à regra programática instituída nos títulos do tríptico acima referido: Laurie Anderson escreve, fala, canta e compõe acerca da América, encena a América enquanto seu lugar de origem e gigantesca metáfora do mundo contemporâneo. Como ela própria esclarece, podem ocorrer oscilações de intensidade: “Sempre que aconteceu uma viragem à direita, tive tendência para escrever coisas mais políticas; quando viramos à esquerda, a poesia regressa; este está na fronteira, combina um pouco de ambas as coisas”.



Mas, ainda que em equilíbrio instável – a mesma Life On A String de que falava em 2001 –, desde a justificação para o título (“Ninguém usa a palavra ‘homeland’. Parece uma má tradução de um pequeno país balcânico. O Department of Homeland Security colocou uma palavra excessivamente sentimentalizada ensanduichada entre duas outras verdadeiramente burocráticas. No fundo, não se trata da ‘homeland’ nem de segurança, mas de um certo tipo de controlo governamental”), não sobram muitas dúvidas de que a privadíssima combinação de "spoken word", electronica, "stand-up comedy" e poesia de que Laurie registou a patente, aqui, tem um centro de gravidade não exclusiva mas acentuadamente político. E escutá-la (na companhia de John Zorn, Lou Reed, Kieran Hebden/Four Tet ou de músicos siberianos), na primeira pessoa ou sob o disfarce de Fenway Bergamot, dissecando o coração das trevas (“You thought there were things that had disappeared forever, things from the Middle Ages, beheadings and hangings and people in cages, and suddenly they’re alright, welcome to the American night”) é um privilégio demasiado raro para ser desperdiçado.

(2010)

04 January 2008

FÉRTEIS TORSÕES



Pedro - You, Me & Everyone

A filiação é na escola de pensamento musical Four Tet/Prefuse 73/Manitoba – a tal que, para o bem e para o mal, ficaria conhecida como “folktronica” – mas que ninguém ouse dizer isso a James Rutledge (aliás, Pedro, “nom de plume”) que ele trepa instantaneamente pelas paredes acima, de fúria. Na verdade, após a escuta de You, Me And Everyone, se se entende facilmente que os procedimentos e conceitos que presidem à manipulação dos materiais sonoros não são drasticamente diversos dos do triângulo acima referido, será bastante menos evidente descortinar onde se poderiam situar os elementos bucólico/paisagísticos que o “folk” de “folktronica” tende a sugerir. Sim, há flautas, glockenspiel e cordas mas, mais decisivo do que isso, uma estratégia montada em torno de um velho PC, um gira-discos e um sintetizador, com o objectivo de, entre samplagem, improvisação e copy + paste, muito à maneira de Brian Eno, “capturar acidentes”: colisões de sopros jazz em delírio-free, espasmos e glissandi digitais, densas malhas polirrítmicas, decomposições minimalistas do vocabulário neo-clássico e outras várias e assaz férteis torsões. (2007)