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07 August 2012

SHE FEELS LOVE IN DIGITAL STEREO


Saint Etienne - Words And Music By Saint Etienne
  
Custa um pouco a acreditar mas, segundo um estudo recente da YouGov – uma empresa "online" de "market research" – a forma mais popular para o público descobrir uma música continua a ser a rádio, o local preferido para se ler críticas de música ainda é a imprensa escrita e o prazer de comprar um disco físico supera o de o descarregar da Internet. Nós podemos duvidar mas os Saint Etienne, não. Simultaneamente, fãs e clássicos académicos pop – Bob Stanley e Pete Wiggs foram jornalistas e críticos de música –, ao oitavo álbum, optaram por tornar absolutamente explícito aquilo que, anteriormente, era apenas o subtexto latente da sua discografia: a pop como guia para a vida e ferramenta para decifrar o mundo.



Exactamente da mesma forma que Rob Fleming (o protagonista de High Fidelity, de Nick Hornby), organizava a sua colecção de discos não alfabeticamente mas autobiograficamente, na capa de Words And Music, exibem o mapa de uma localidade imaginária onde todas as ruas e artérias têm nomes de canções – "Tobacco Road", "Thunder Road", "Penny Lane"... – e todo o disco é uma gigantesca madalena de Proust pronta a fazer disparar os gatilhos da memória. Que a voz de "indie sex-kitten" bem comportada de Sarah Cracknell evoca, sussurrando “I used Top Of The Pops as my world atlas”, “I feel love in digital stereo”, “I was in love, and I knew he loved me because he'd made me a tape" ou defendendo “the strange and important sound of the synthesiser”. Coisa “estranha e importante” que foi sempre a matriz da sua "indie dance music" amável e literata e que, em Words And Music (título esclarecedor sugerido por Lawrence, dos Felt), tem o seu instante de autocelebração, no qual, ao contrário, de Rob Fleming, nunca vacila na sua fé.

05 June 2008

MAIS LEVE QUE O AR


The Montgolfier Brothers - The World Is Flat
 
Apesar do frenesim esquadrinhador dos caçadores de cabeças ao serviço da maçonaria do "hype", a pop britânica ainda encerra meia dúzia de segredos bem guardados que quase parecem fazer gala em permanecer eternamente ocultos. Roger Quigley e Mark Tranmer (que gravam quase indistintamente como Gnac ou The Montgolfiers Brothers) fazem parte dessa seita que, mais ou menos regularmente, vai publicando álbuns e espera, sem se esforçar muito por isso, que o resto do mundo lhe preste alguma atenção.
 

 
Se os Gnac — nome que desenterraram de um conto de Italo Calvino — se dedicam essencialmente à música instrumental, os Montgolfier Brothers (evocação poética dos pioneiros da aeronáutica) combinam os instrumentais "incidentais" com a canção de formato clássico apropriadamente mais leve do que o ar e devedora de uma lista de referências musicais que eles generosamente põem à disposição: começa-se em Baden Powell e segue-se por Henry Purcell, François de Roubaix, Kraftwerk, Momus, Ennio Morricone, Plaid, George Delerue, Kryzstof Komeda e Durutti Column. E, acrescentaria eu, Felt, YMG, Virginia Astley e um pouco da assexualidade cultivada dos Smiths. Já havia um pouco de tudo isso nos anteriores Friend Sleeping e Biscuit Barrel Fashion (dos Gnac) e Seventeen Stars (dos Montgolfiers) e agora, um tanto mais sonoramente encorpado, mas não demasiado, volta a emergir neste The World Is Flat. Poderá ser "bedsit poetry", no entanto, no género, ainda continua a ser do mais potável. (2002)