Showing posts with label Fanfarlo. Show all posts
Showing posts with label Fanfarlo. Show all posts

18 April 2012

POUPINHA NEO-ROMÂNTICA

 
Fanfarlo - Rooms Filled With Light 

Se os Fanfarlo do inicial Reservoir (2010) se apresentavam como uma versão convenientemente aparada da pop descabeladamente barroca dos Arcade Fire, bem acompanhada, à época, pelos Mumford & Sons e Noah & The Whale, não se pode, de todo, dizer que os dois posteriores anos de crescimento lhes tenham sido benignos – tal como, já agora, não foram para os Noah, os que mediaram entre o óptimo The First Days Of Spring (2009) e Last Night On Earth (2011), peça inexplicavelmente insonsinha. Não há-de restar muita gente que ainda se deixe embalar pela velha cantilena do “difícil segundo álbum”: as “dificuldades” podem surgir em qualquer etapa e a história está repleta de excelentes segundos álbuns facilmente concretizados.

Porque, se algum problema existe, ele reside apenas nas decisões estéticas que se toma e as que passaram pelas cabeças de Simon Balthazar e cúmplices estiveram bastante longe de ser acertadas. Isto é, tentar converter a matriz anterior numa sua versão oitentamente recauchutada – pinceladas de sintetizador, polimento lustroso à la Roxy Music-modelo-lounge, acenos pouco decorosos aos Dexys Midnight Runners tal como as playlists os indexaram (aquela e só aquela banda que gravou "Come On Eileen"), ou, nos momentos mais embaraçosos, enlevos melódicos de poupinha neo-romântica – é o género de ideia que nunca deveria ter ocorrido a uma banda que retirou o seu nome de uma novela de Baudelaire. Não que o resultado seja insultuosamente vil (nos melhores trechos, aproxima-se de uma infusão descafeínada dos Divine Comedy) ou que, se apanhados, por acidente, no rádio, obriguem a saltar, em pânico, para o zapping. Mas apetecia outra coisa que não dissesse apenas bem com os cortinados.

02 December 2011

BANCOS DE APOSTAS



Os Fiery Furnaces são o género de banda que, em vez de, no mesmo número de compassos, fazer um acorde seguir-se ao anterior, prefere alinhar um fragmento de canção ao outro – inteiramente diferente – que, imediatamente, o antecedia. Fosse pintura aquilo a que se dedicam e, onde se esperaria uma sucessão de tonalidades de azul, poderíamos ter como certo que veríamos uma gincana cromática de verde, amarelo e lilás. O mesmo, aliás, acontece com os textos. Ligeira correcção: acontecia. Desde I’m Going Away (2009) e, parcialmente, Widow City (2007), uma espécie de quase-normalização formal pareceu deixar de ser mal vista pelos manos, Eleanor e Matthew Friedberger, que chegaram até ao impensável de autorizar a intromissão de extravagantes bizarrias como o modelo estrofe-refrão-estrofe nas suas canções. Last Summer, primeira aventura a solo de Eleanor, deixa suspeitar que poderá ter sido ela o catalizador da mudança: pensado como uma evocação dos primeiros tempos da sua chegada a Nova Iorque – mais exactamente, a Brooklyn –, há dez anos, estrutura-se como um micro-"travelogue" urbano que acolhe benignamente os exercícios de estilo (dos "girl groups", à Motown e ao funk), sem que, por isso – a personalidade musical de Eleanor é suficientemente vincada para lhe permitir devorar sem ser devorada –, se transforme em colega de turma dos Best Coast, Cults ou Tennis, ou abdique de confessar peculiares intimidades como “watching ‘Footloose’ with the biggest bottle of vodka in the world”. No festival Mexefest, que, a 2 e 3 de Dezembro, ocupará cerca de uma dezena de espaços em Lisboa, Eleanor Friedberger será, de certeza, um dos concertos por que se deve optar.



Espalhados pelo planeta físico e virtual, há mil sinais a indicar-nos que o outro só poderá ser o de Josh T. Pearson, texano bardo "alt.country" da dor-de-corno, alegadamente erigida em superior forma de arte. Candidato a figurar em inúmeras listas de “melhores de 2011”, Last Of The Country Gentlemen, porém, sofre do síndroma tecnicamente designado como não-é-Cohen-Van-Morrison-Hank-Williams-ou-Springsteen-quem-quer: extensa e morosa lamúria em que parcela considerável das canções ultrapassa os 10 minutos, exige uma tolerância de Job para se escutar na íntegra as erráticas elucubrações bíblico-alcoólicas de quem resolveu redigir o seu diário de infortúnios sentimentais em modo “Caras”-indie, conseguiu convencer uns quantos que tiradas do tipo-afinal-havia-outra (“Whenever we make love, I’m sadder every time, because I feel like I’m cheating on a woman who’s not my wife”) deverão ser consideradas poesia e embrulha tudo isso em infindáveis clichés arpejados de guitarra.



Num programa de concertos densamente povoado, deverá ainda destacar-se a pop orquestral corrigida pelos Talking Heads e Velvet Underground tal como os Fanfarlo a praticam, o impressionismo minimalista electroacústico de James Blake e, no destacamento luso, contaremos com uma excelente oportunidade para confirmar currículos e aferir o potencial de candidatos mais ou menos recentes. Por outras palavras, se dos Dead Combo e do recém-publicado Lisboa Mulata existem sérios motivos para se aguardar uma assaz excelente apresentação, os bancos de apostas estão igualmente abertos no que respeita à pop mais leve que o ar de Julie & The Carjackers, ao brutalismo primitivista dos PAUS (supergrupo herdeiro dos Vicious Five, If Lucy Fell e Linda Martini), aos ecléticos labirintos sonoros dos Aquaparque, ou ao punk suadamente épico de Os Velhos.

(2011)

24 February 2010

FANFARLO - "YOU ARE ONE OF THE FEW OUTSIDERS
WHO REALLY UNDERSTANDS US"







(2010)

14 February 2010

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO



Fanfarlo - Reservoir




Owen Pallett - Heartland

A propósito de Reservoir, houve já quem tivesse escrito que a última coisa de que o mundo precisa é de bandas de rock orquestral, derramando épicos insuflados à la Arcade Fire sobre o povo desprevenido. Acontece que, por motivos absolutamente diferentes, tenho exactamente a opinião inversa: tal como sucedeu no histórico caso Doors vs Bunnymen – em que o modelo foi claramente suplantado pelos copistas –, todas as supostas (e reais) derivações recentes da banda canadiana, se lhe têm tomado de empréstimo o template estético como ponto de partida, no final do processo, apresentam-no consideravelmente emagrecido de excessos, limpo de arrebatamentos histriónicos e higienicamente a salvo da embaraçosa aura de messianismo litúrgico. Mumford & Sons e Noah & The Whale estão aí muito à mão para o demonstrar e, agora, os londrinos Fanfarlo encarregam-se de fornecer o derradeiro QED.



Um empregado sueco da Beggars Banquet (Simon Balthazar, voz, guitarra, teclados, bandolim, sax, clarinete, glockenspiel), um livreiro (Justin Finch, voz e baixo), um editor de uma revista de viagens (Leon Beckenham, trompete, teclados, melódica), uma professora de Inglês (Cathy Lucas, violino, teclados, bandolim, voz, serra friccionada) e um conselheiro vocacional de estudantes universitários (Amos Memon, voz e percussão), autodenominados a partir de uma novela de Baudelaire, inventam o género de música que, tendo, indiscutivelmente um ou dois dedos de um pé na pop “barroca” tal como Butler & Chassagne a praticam, vê os movimentos disciplinados por meio das justíssimas chibatadas correctivas aprendidas no manual-VU, lido segundo a tradução dos Talking Heads (Balthazar, por outro lado, também é algo mais do que apenas um discípulo de David Byrne explicado às massas pelos Clap Your Hands Say Yeah), e deixa-se temperar com as “etnicidades” recomendavelmente fake adquiridas na tendinha Beirut, de Zach Condon, e um ou outro subliminar psicadelismo da marca Neutral Milk.



Owen Pallett – ele, o orquestrador dos Arcade, mas, igualmente, dos Grizzly Bear, Beirut, Pet Shop Boys, e, heteronimamente, Final Fantasy – contribui com o outro ângulo da questão: entregue a si mesmo, aquilo que, nos Grizzly e Beirut, enriquece o tecido musical, é aqui somente a mesma pompa e decorativismo florido com que encadernou Funeral e Neon Bible. Conceptual e grandiloquente, Heartland pertence aquela família de grotescos empadões narrativos de que Ys, de Joanna Newsom, é um dos mais notórios exemplos: Lewis, “a young, ultra-violent farmer”, dialoga com o seu criador na terra de Spectrum, habitada por personagens de nomes The Butcher, Cockatrice, No-Face e Blue Imelda (uma espécie de Lewis Carroll que partilhou psicotrópicos com Philip K. Dick e a coisa correu mal a ambos), enquanto, à sua volta, a Czech Philarmonic Orchestra, Nico Muhly e "tutti quanti" debitam em piloto automático o catálogo integral de lugares comuns do sinfonismo “moderno” arrebicado de bruitage electrónica. Em curtas palavras: não é Andrew Bird nem Sufjan Stevens quem quer, só quem pode.

(2010)