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05 April 2026

MÚLTIPLA PERSONALIDADE
Desde 2011, três álbuns - Anna Calvi (2011), One Breath (2013), e Hunter (2018) - e três EP, parece produtividade assaz exígua mas, se observada com atenção, revelar-se-á exactamente o oposto, para mais entregue aos cuidados de múltiplas vozes e mãos. A saber: no 1º EP,  Strange Weather (2014), Anna Calvi convocava David Byrne e consistia da revisão de canções de Keren Ann, FKA Twigs, Connan Mockasin, Suicide, e David Bowie; em Give My Love to London (2014), de Marianne Faithfull, participaria com o tema (composto a meias) "Falling Back"; a 4 de Fevereiro de 2016, um mês após a morte de David Bowie, incluiu-se no EP Strung Out in Heaven, uma compilação de covers de David Bowie, contribuindo com voz e guitarra para a faixa "Blackstar", que, posteriormente, com Amanda Palmer, apresentaria no Radio City Music Hall, em Nova Iorque; em 2017, compôs a ópera, The Sandman, baseada num conto de E. T. A. Hoffmann e encenada por Robert Wilson, que estrearia a 3 de maio, no Festival Ruhrfestspiele, em Recklinghausen, na Alemanha. (daqui; segue para aqui)

"I See A Darkness" (feat. Perfume Genius)

28 May 2019

FKA twigs - "Cellophane" (live at The Wallace Collection)

(videoclip aqui)

24 December 2015

MÚSICA 2015 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)




















* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Foi, essencialmente, um ano assaz pluralista e de óptima música. Do experimentalismo em cambiantes vários de Holly Herndon, FKA twigs, Laurie Anderson, Momus e Julia Holter, ao discreto mas significativo ressurgimento folk – com a sofisticação das Unthanks, o minimalismo de This Is The Kit e Rozi Plain, a crueza dos Stick In The Wheel ou a felicíssima amplitude das óptimas homenagens a Shirley Collins e Ewan MacColl –, e ao inevitável e sempre bem-vindo contingente de "singer-songwriters" de distintas gerações (Sufjan Stevens, Robert Forster, David Corley, Laura Marling, Richard Thompson, Rickie Lee Jones), desta vez, brilhando com fulgor particularmente intenso no extraordinário álbum dos Apartments, de Peter Milton Walsh. E houve ainda espaço para singularidades como o encontro Dylan-Sinatra, as investidas políticas de Darren Hayman e Milky Wimpshake ou o devaneio filarmónico dos British Sea Power.

27 August 2015

M3LL155X 


Quando, a 6 de Agosto do ano passado, foi publicado LP1, já os anteriores EP1 (2012) e EP2 (2013) nos tinham obrigado a arregalar olhos e ouvidos perante a magnífica e sufocante estranheza das imagens e sons que FKA twigs – com Arca/Alejandro Ghersi e Jesse Kanda à ilharga – nos lançava à cara, coisa oriunda de Interzone sideral, definitivamente o género de estimulante de que a música contemporânea precisa como um afogado necessita de oxigénio. O álbum de estreia foi, assim, somente a fulgurante confirmação da suspeita de termos, enfim, a possibilidade de escutar música que não se limita a perseguir, incessantemente, a própria cauda e não vive exclusivamente do gesto de mirar, à socapa, o espelho retrovisor da História. A brigada de catalogadores não descansou enquanto não a capturou no interior de fronteiras minimamente reconhecíveis – por exemplo, a jaula do “R&B futurista” ou “alternativo” – o que conduziu twigs/Tahliah Barnett a, justissimamente, desafiar: “Não se trata de eu não querer ser classificada como R&B, mas há, igualmente muitas outras coisas. Falemos, então, de tudo!”



Tudo é, precisamente. o que, 12 meses depois, volta a descobrir-se no EP de cinco faixas, M3LL155X, ler MELLISSA, a ninfa que alimentou Zeus com mel e, na versão de twigs, o nome da sua energia feminina primordial. Veneno new age à vista? Não nos preocupemos (por enquanto): o conteúdo mais subliminarmente esotérico em que poderemos tropeçar são assaz explícitos farrapos de mensagens - “Teach me how to lead with my middle finger”, “Love me rough, I'm your doll”, “Shut your eyes and feel the rush, will you fuck me while I stare at the sun?” –, argumento mínimo para um vídeo de cerca de 17 minutos por ela realizado, no qual, por entre vertiginosas reconfigurações de “vogueing”, jorros de líquido amniótico multicoloridos, aparições da lendária musa-"evil witch" tatuada franco-argelina, Michèle Lamy, e sobreposições do rosto de Tahliah ao corpo de uma boneca insuflável, vítima ambiguamente submissa de violação, se lê um guia labirinticamente feminista do que, confundindo género, vulnerabilidade, explorações sonoras terminais e radical abstraccionismo digital, só poderia ter lugar num clube onde ninguém, na verdade, dança mas imagina o que poderia ser dançar.

21 January 2015

O ASSOMBRO E O PÂNICO 



“Vivemos numa era pós-moderna em que é extraordinariamente difícil inventar coisas fundamentalmente novas. Tudo explodiu lá atrás – John Cage destruiu um piano e Jimi Hendrix lançou fogo à guitarra muito antes de a Annie ter nascido. Há sempre alguém capaz de tocar mais rápido, mais forte, com mais distorção. Só nos resta mergulhar em nós mesmos, descobrir quem somos, apenas nisso será possível acreditar”, dizia, há cerca de um ano, à “Pitchfork”, Tucker Andress, virtuoso e quase anónimo guitarrista, acerca da sobrinha, Annie Clark/St. Vincent. Há-de ter sido por via equivalente, embora completamente distinta, que caminharam os outros dois nomes que começam a desocultar os contornos do mundo audiovisual (e do imenso outro) ainda por nascer: Arca/Alejandro Ghersi e Jesse Kanda. Não é, de modo algum, um acaso que o magnífico LP1 (e anteriores EP) de FKA twigs tenham fortíssima marca de ambos e que, Björk, essa outra impenitente "shapeshifter", haja recrutado Ghersi na qualidade de co-produtor do próximo opus (enquanto Kanda sonha em voz alta com a hipótese de se ocupar dos vídeos). 




É, na verdade, de um vertiginoso mergulho interior que se trata nos sons e nas imagens de "Thievery" (algo como a insolente coreografia de uma robótica strip dancer, andrógina e esteatopígica, descendente bastarda da Vénus de Willendorf e do "Rubber Johnny" de Chris Cunningham e Aphex Twin), "Now You Know" ("city ghosts" projectados sobre uma aurora boreal nos céus de Saturno), no abstraccionismo entomológico de "Held Apart" – todos de Xen, alter-ego compulsivo e título do álbum de estreia de Arca –, nos desfigurados e infernais bebés e no pesadelo oro-faríngeo de “Trauma 1 & 2”, ou na liquefacção da anatomia humana de "Fluid Silhouettes", gémea de "Water Me" e "How’s That", de twigs. Espécie de colisão suave entre antiquíssimo romantismo radicalmente digital e projecto científico orientado para a identificação dos processos pelos quais, do infinitamente grande ao invisível plano sub atómico, o assombro e o pânico se instalam, há nesta enorme estranheza de um Eraserhead que tivesse sido filmado por Kubrick segundos depois de ter devorado Cronenberg, muito mais do que os 2263 caracteres deste texto seriam capazes de começar sequer a descrever. 

02 January 2015

MÚSICA 2014 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 25)






























* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Em ainda outro ano de maioria feminina – e não chocaria se Natalie Merchant ou a regressada Suzanne Vega tivessem integrado a lista de dez... mas o mesmo poderia dizer-se de Bonnie ‘Prince’ Billy ou Micah P Hinson, para ficarmos apenas por estes e não aproveitarmos o pretexto alinhando, à socapa, uma lista alternativa –, verdadeiramente difícil é, entre FKA twigs e St. Vincent, decidir qual das duas mais contrariou a rotina quase hegemónica do copy + paste e se empenhou em enxergar os contornos de uma música (e das imagens que alimentam e se alimentam dessa música) indiscutivelmente contemporânea. And beyond... Se isso, realmente, importa, diga-se, então, que o ínfimo piparote que terá empurrado LP1 para cima decorre, justamente, da videografia de twigs: há muito tempo que não ficávamos tão arrepiantemente mudos perante uma articulação de imagens e sons que nos coloca perante o que ainda não tem nome.

04 December 2014

TRANSHUMANOS



No extraordinário videoclip para "All Is Full Of Love" (1999), Chris Cunningham encenava um longo e apaixonado beijo entre uma Björk andróide e a réplica de si mesma que, em campo e contracampo, cantavam “You'll be given love, maybe not from the sources you have poured yours, maybe not from the directions you are staring at”. Quinze anos depois, sem perder uma particula do fascínio original, começa, porém, a assemelhar-se à ingenuidade das descrições de Jules Verne em Da Terra à Lua. Segundo o “El País” de 6 de Novembro, numa sondagem da Middlesex University, 46% das 2000 pessoas inquiridas declarava-se a favor de manter relações sexuais com um robot, Stowe Boyd, da Gigaom Research, garantia que “em 2025, os robots sexuais serão coisa comum”, e informavam-nos que David Levy e Adrian Cheok, na London City University, se aplicam no desenvolvimento do I-Friend, um software sofisticado “dotado de personalidade, capaz de sentir emoções e estados de alma, equipado com um corpo quente, lábios que se mexem e falam e órgãos sexuais”.



Abra-se, então, lugar nos dicionários para “prostibots”, “robostitutes” e “lovotics”, arrumem-se nos museus os bisavós Robby The Robot e C-3PO (e, porque não, o HAL 9000, de 2001?), encarem-se sob outros olhos a Rachael, de Blade Runner, a Cylon, Number Six, de Battlestar Galactica, ou a Samantha, de Her, mas, sobretudo, dedique-se a indispensável atenção ao conceito de transhumanismo e às interrogações que suscita: qual o ponto-limite a partir do qual o humano poderá confundir-se com o não humano “avançado”? Onde se traça a fronteira do humano quando um implante na cóclea nos pode proporcionar uma audição de cyborg e o "download" do conteúdo do cérebro para suporte digital já não é uma fantasia totalmente delirante? O que distingue o natural (e o que significa “natural”?) do não natural? No perímetro pop, não desprezemos o pioneiro “All Is Full Of Love” – nem sequer a bem menor contribuição de Gillian Anderson/HAL, "Extremis" – mas, agora, concentremo-nos nas configurações, transfigurações e desfigurações dessas perplexidades tal como os assombrosos vídeos de FKA twigs para "#throughglass", "How’s That", "Hide" e "Water Me" as representam, e, em "Papi Pacify", "Breathe" e "Video Girl", dilatam arrepiantemente o espectro de “normalidade” das emoções. 

09 October 2014

COM UM DEDO NO DIQUE


Os alertas vermelhos já tinham disparado há muito mas foi no MIDEM (Marché International du Disque et de l'Édition Musicale) de Janeiro de 2007 que algumas profecias apocalípticas acerca do fim da indústria musical começaram a desenhar-se com nitidez. Chris Anderson, editor da “Wired”, previa que “os direitos sobre a música estavam condenados a desaparecer, as editoras convencionais também e os músicos (sobre)viveriam, sobretudo, de concertos e encomendas”. Jacques Attali garantia que “no futuro, toda a música será gratuita e a indústria terá de inventar novas formas de ganhar dinheiro” e Stéphan Bourdoiseau, patrão da Wagram, proclamava: “O mundo antigo está em ruínas, mas será necessário esperar 15 anos para ver o mundo novo. Entretanto, teremos perecido”. Apenas nove meses depois, a 10 de Outubro, os Radiohead protagonizariam aquilo que o “Sunday Times”, três dias antes, qualificara como “The day the music industry died”: In Rainbows (ansiosamente aguardado pelos fãs durante quatro anos, após Hail To The Thief), ficava acessível para “download” na página da banda na Internet, “ao preço que cada um quiser pagar”



Estamos ainda a meio do prazo de 15 anos calculado por Bourdoiseau, continuamos todos por cá, mas sucedem-se as variações sobre o tema do menino holandês que evitou uma catástrofe, tapando com um dedo, durante uma noite, o buraco de um dique. Mal tínhamos digerido o matrimónio Apple-U2, e é, de novo, com origem nos Radiohead que outro safanão acontece: na sexta-feira 26 de Setembro, Thom Yorke, recorrendo a uma das mais temíveis escunas pirata em actividade, o BitTorrent, colocou à venda por 4.73€ o seu segundo álbum a solo, Tomorrow’s Modern Boxes. O grande plano é “dispensar os intermediários, devolvendo o controlo do comércio na Internet aos criadores”. Inevitavelmente, segundos depois, sem necessidade de pagar um único cêntimo, estava pronto para ser escutado no "bas-fond" digital. E, tal como aconteceu com In Rainbows e a última coisa dos U2, a verdade é que, se entrará, seguramente, nos manuais de História da Música do século XXI, será somente em consequência do método de distribuição escolhido: incursão autenticamente vertebrada no universo da electrónica crepuscular há a da última faixa (“Nose Grows Some”) e é tudo. Não é Scott Walker (ou FKA twigs) quem quer.