"Gato Diplomata" (E. Lisboa)
13 January 2025
10 January 2025
08 January 2025
14 April 2024
13 April 2024
09 April 2024
LE ROI SE MEURT
Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.
Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?
O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!
Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
Eugénio Lisboa
NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça
de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como
o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.
13 March 2024
24 September 2023
POR FAVOR, NÃO PANTEONEM O EÇA!
"T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pele humana: um outro achou ostentosa a pele humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoura lhe parecia preferível a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compêndios: eu opus-me severamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso se lhe quisessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos"
Carta a Carlos Mayer
A passagem em epígrafe indicia, de maneira inequívoca, que, para o grande poeta satírico que foi Eça, não havia limites para o atrevimento da sua língua mordaz. Desde afirmar, em certo momento de indignação, que a bandeira portuguesa, em vez de cinco quinas, devia ter cinco nódoas, até pedir a Ramalho Ortigão que fizesse desbocada chantagem com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrade Corvo, pedindo-lhe que lhe pagasse (a ele, Eça), se não quisesse que este publicasse um romance que deixaria a reputação de Portugal pelas ruas da amargura – valia tudo. Sem excluir que disse, em carta a Pinheiro Chagas, que “o nosso império no Oriente fora um monumento de ignomínia.” A vigorosa defesa que fez, em Cuba, dos trabalhadores chineses oriundos de Macau, miseravelmente exploradas pelos cubanos, fê-lo em termos que os diplomatas não costumam afagar. Livros como A Relíquia, ou A Capital ou O Conde de Abranhos ou O Crime do Padre Amaro, não costumam ser currículo academizável ou panteonável. Eça era destemidamente atrevido e a sua graça reguila era um dos seus irresistíveis encantos. Este impenitente Gavroche que sempre suscitou admirações de gente de paladar linguístico apurado, mas nunca o “entusiasmo” de multidões, merece, como ninguém, que o deixem fora das pompas solenes de um cortejo panteónico. Eça foi sempre um “gamin” de alto gabarito: deixem, pois, continuar a sê-lo, à revelia das recomendações “catedráticas” daqueles cuja pele serviria bem para forrar as paredes de um quarto, mas para pouco mais. Eça de Queiroz e a pompa não são miscíveis. Quem não compreendeu isto não compreendeu nada da sua obra. Podem ter escrito muito sobre vele, mas não escreveram, de modo nenhum, SOBRE ELE PROFUNDO. Ponham-se agora a catar nos textos, a ver se ele, em algum lado, disse ou não disse, explicitamente, que quereria ir ou não ir para o Panteão. Não hão de ir longe. Não é aí que se encontra a resposta.
Eugénio Lisboa (sequência daqui)
28 August 2023
AVISO POR CAUSA DA MORAL, DO BOM SENSO E DA LEGALIDADE
Quem alguma vez tenha lido A Cidade e as Serras, não terá dúvida nenhuma de que Eça preferiria ficar sepultado em Tormes a ser trasladado para o panteão. Também não duvidará de que Eça detestaria a ideia de ir para o Panteão. Bastava conhecer um bocadinho a obra e a maneira de estar no mundo do autor de Os Maias.
Mas, a um senhor que hoje é ministro, ocorreu a ideia macabra de fazer essa trasladação, sem consultar os herdeiros, que são os únicos a poderem, legalmente, dar autorização para uma tal trasladação. E estes, tanto quanto se saiba, não a deram nem a darão.
A Assembleia da República tem o poder de autorizar a operação, mas não tem o poder de a impor.
O que se pretende fazer em Setembro é ilegal, afrontoso e próprio de quem nunca leu a sério uma só linha do grande escritor. E é próprio de quem está mais interessado em pôr-se em bicos de pés do que em servir a memória do nosso maior romancista.
Convida-se o maior número de pessoas e instituições culturais a manifestarem-se contra este sinistro atentado. Bastaria, de resto, colocar-se uma simples lápide no Panteão, deixando os ossos do grande homem em paz, onde ele sempre gostou que ficassem!
Estas iniciativas devem sempre partir de gente culturalmente equipada para as tomar e não de políticos ansiosos por fazerem currículo.
Bons deuses, há limites para o dislate!
(Eugénio Lisboa, que pede a todos os que leiam estas palavras e com elas concordem o favor de as divulgar).
23 May 2023
09 March 2023
19 November 2022
23 September 2022
22 August 2022
11 June 2022
"Conheci a Paula Rego em Londres, quando para lá fui viver, em 1978, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada. Fui-lhe apresentado em casa do Helder Macedo. Logo me impressionaram muito o seu sorriso travesso, a quase intolerável amperagem dos seus olhos e a total despretensão da sua conversa. A Paula tornava-se rapidamente amistosa e recusava o jargão dos pseudo-cultos. Falava, com ironia mal velada, nos críticos de arte, que construíam grotescas catedrais de interpretação, à volta de soluções de pintura muito simples e muito óbvias. Em literatura, passa-se o mesmo, mas os críticos de arte refinam, neste delírio interpretativo. Ao longo da minha vida, conheci mais do que um pintor de nome que dizia gostar de ouvir opiniões sobre as suas obras, desde que não fossem opiniões de críticos de arte. Lembro-me de a Paula, que gentilmente me convidara a visitar o seu enorme estúdio, em Londres, me ter ali mostrado um seu quadro de enormes dimensões. Disse-me que quando concluíra aquela obra, notara que no canto inferior esquerdo, ficara um espaço em branco, que se tornou, para ela, irritante. Para obviar a isso, pintou lá uma figura de um animalzinho que me mostrou, comentando: 'Não imagina, Eugénio, as coisas delirantes que alguns críticos disseram do significado profundo deste animalzinho, que eu ali pusera só para encher espaço...'" (daqui)