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28 March 2008

MIL-FOLHAS



Eric Matthews - The Imagination Stage

Maldição ou carimbo de qualidade, o estatuto de músico “de culto” tanto pode servir de guarda-chuva para inomináveis bizarrias como para aqueles autores que, sem se dedicarem à prática de géneros hermeticamente impenetráveis, por alguma insondável razão, nunca lograram cair nas graças do (geralmente muito pouco) respeitável público. Eric Matthews – como Paddy McAloon com o qual a sua matriz estética não partilha pouco terreno –, criador de verdadeiras preciosidades de pop requintada como It’s Heavy In Here (1995) ou The Lateness Of The Hour (1997), tem praticamente tudo o que os manuais aconselham para o livre acesso à condição de Bacharach (Brian Wilson também não lhe assentaria mal) do novo século: formação académica, gosto recomendavelmente eclético (do barroco, à pop e ao jazz), intuição melódica, “a way with words”, um modo pessoal de compôr canções-mil-folhas. Já o sabíamos das gravações anteriores e The Imagination Stage confirma-o em absoluto. Dificilmente surgirá tão cedo um álbum de pop mais ricamente trabalhada. Mas só duvidosamente Matthews, através dele, conquistará o reconhecimento que merece.
(2008)

27 March 2008

MODERN CLASSIC



Eric Matthews - The Lateness Of The Hour

Eric Matthews é um pequeno génio com uma missão: salvar a pop da acção corrosiva do rock. Ele gosta de canções com melodias fluentes e arranjos sofisticados e sonha conseguir reunir na sua única pessoa os talentos combinados de Brian Wilson, Andy Partrigde, Burt Bacharach, Jimmy Webb, McCartney e Elvis Costello. Um pouco como um irmão mais novo de Paddy McAloon (dos Prefab Sprout) com aspirações a ser hoje o Cole Porter (e Irving Berlin e Gershwin e Sondheim...) de ontem. Isto significa, claro, que as suas canções são, ao mesmo tempo, extraordinariamente conservadoras e magnificamente sumptuosas.



O vocabulário que ele utiliza já foi anteriormente desdobrado em múltiplas declinações mas a verdade é que Matthews (como McAloon e, em certa medida, Sean O'Hagan, dos High Llamas) consegue o improvável prodígio de, ao segundo álbum, atingir o difícil estatuto de "modern classic". Canções como "To Clean The Air" - que faz precisamente isso - são preciosas miniaturas para marimbas, cravo e quarteto de cordas, "Yes Everyone" transforma as soluções simples em geniais, "Becomes Dark Blue" traduz o título para voo de cordas e saxofone jazzy, "Gilded Cages" é uma discreta mas majestosa homenagem a Michael Nyman, "Dopeyness" é puro XTC "with a personal touch" e "Gnashing Teeth", a última, reinventa o matrimónio celestial de Brian Wilson e Van Dyke Parks celebrado pelos Beatles de "Penny Lane". Derivativo? Sem dúvida. Mas, tal como já acontecia com o anterior It's Heavy In Here, absolutamente glorioso.

(1997)

23 March 2008

A NOVA COMPLEXIDADE POP



Andrew Bird - Soldier On

Em simultâneo com a sua discografia “oficial”, Andrew Bird tem publicado paralelamente uma série de EP, genericamente intitulados Fingerlings, para os quais, entre álbuns e/ou durante as digressões, vai lançando algumas peças soltas e experiências avulsas. Ao último – que foi distribuído no decurso da sua última tournée europeia – designou-o como Soldier On e é outra óptima demonstração daquilo a que (juntamente com Eric Matthews, The Most Serene Republic, Sufjan Stevens e mais uns quantos) se poderia chamar “a nova complexidade pop”: longe do “barroco” de pacotilha do velho “progressivo”, actua ,essencialmente, no interior do formato da canção pop mas requinta-o harmónica, instrumental, orquestral e literariamente, aqui e ali, entretem-se com uns “scherzi” electrónicos, recuperando o espírito do primeiro experimentalismo pop iniciado em Revolver ou Pet Sounds. Além do mais, qualificar Soldier On como EP (oito temas não exactamente miniaturais) só pode ser sintoma de que, para Bird, um longa-duração é coisa de grande fôlego conceptual.

(2008)