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10 January 2011

THE PAST IS NOT THROUGH WITH US



Trembling Bells - Abandoned Love

O folk-rock britânico do final dos anos 60/início de 70, do século passado foi tão densamente rico e ocupou tal variedade de territórios – da folk britânica propriamente dita às suas extensões no continente norte-americano, à modernidade eléctrica ou à "música antiga" – que complicou muito seriamente a tarefa de quem, futuramente, pretendesse apresentar-se como legítimo candidato à sua herança. Simplificando um pouco abusivamente, de um trio que incluiu os Fairport Convention, Steeleye Span e Pentangle e que deu origem posterior a obras como as de Sandy Denny, Richard Thompson (com e sem Linda Thompson), Maddy Prior, Bert Jansh ou Martin Carthy ou a explorações mais ou menos heréticas da "morris dance" ou do English Dancing Master, de John Playford, com incursões por vanguardas (termo, obviamente, antigo) avulsas, só muito dificilmente seria de esperar que os putativos continuadores estivessem à altura dos mestres. E, com raríssimas excepções (assim, de repente, só uma: as Unthanks), entre a paródia "freak-folk" e gente diligentemente esforçada como Alasdair Roberts e os Espers, o único confesso discípulo justamente notável (no caso, do tutor Richard Thompson), acabou por emergir em área diversa, chamou-se Peter Buck e continua a integrar os R.E.M. Os Trembling Bells, umas valentes décadas depois, têm o currículo certo (outra vez, do "experimentalismo" que “The Wire” aprova, do baterista e compositor, Alex Neilson, à formação vocal em "early music" de Lavinia Blackwell), mas, por muito que estiquemos a benevolência, não são senão muito compenetrados clones – isto é quase, quase um louvor – do lugar geométrico onde os Fairports tropeçam nos Steeleye e geram descendência. São, seguramente, bons, mas não impedem de recordar a frase de P. T. Anderson em Magnolia: “We may be through with the past but the past is not through with us”.

(2011)

13 January 2010

DAS VIRTUDES DA SELECÇÃO NATURAL



Espers - III

Abençoado seja Charles Darwin! A selecção natural é, de facto, um processo sem o qual este mundo e, provavelmente, também os outros, seriam ainda bem piores. E que, mesmo nos nichos ecológicos mais geneticamente desfavorecidos, consegue operar pequenos milagres de identificação dos mais aptos. Tome-se, por exemplo, o caso do "freak-folk": à partida, dir-se-ia que, de um acampamento de maltrapilhos, perdidos entre a última "bad trip" de Syd Barrett, o colar de missangas de Donovan e os restos do estufado de tofu que Jimmy Page deixara colados às páginas do Book Of Thelema, de Aleister Crowley, dificilmente poderia sair coisa decente. Com o tempo, no entanto, do infecto caldo cultural, seres pluricelulares dotados de um módico de inteligência e sensibilidade acabaram por emergir.



Os Espers são uma das provas mais significativas. Recordam-se como os Fairport Convention iniciais imaginavam ser os Jefferson Airplane britânicos? Pois é justamente nesse interstício Fairport-Airplane que, ao terceiro álbum, a banda de Meg Baird, Greg Weeks e Helena Espvall labora. Claro que Meg não é Sandy Denny nem Grace Slick, e Greg ainda tem de roer muita côdea de pãozinho integral para sonhar caminhar na sombra de Richard Thompson ou Jorma Kaukonen. Mas, se recordarmos as humildes origens, até nem se saem nada mal.

(2010)

26 January 2008

A ASSINATURA INSTÁVEL




Bonnie “Prince” Billy - Ask Forgiveness




Dawn McCarthy & Bonny Billy - Wai Notes

Quando, em 2004, numa entrevista à “Mojo”, perguntaram a Will Oldham qual o tipo de relação criativa que mantinha com a música de ilustres predecessors da sua linhagem como Bob Dylan e NeilYoung, ele – aparentemente sem pestanejar – respondeu: “Se eu gravasse um disco que se assemelhasse a alguma coisa deles, isso só poderia ser exactamente da mesma forma que um western de Sergio Leone se assemelha a outro de John Ford”. Dupla vénia: a formulação não poderia ser mais correcta e, para além disso, em meia dúzia de palavras, sintetiza implicitamente duas ou três ideias que dá sempre jeito não esquecer. Aquela, por exemplo, que defende que, se para a pop (e não apenas aí) é absolutamente indispensável o “mainstream” de uma linguagem estabilizada e reconhecível, não menos necessário é que, fora do seu perímetro, nas margens ou em pleno centro (retomando a comparação de Oldham: os western-spaghetti de Leone não aspiravam propriamente à condição de rupturas radicais ou de manifestos de vanguarda), corroendo a sua matéria mesma ou infectando-a de corpos estranhos exteriores, o processo de implosão dos códigos de uso corrente esteja já em marcha.



É aqui que se torna obrigatório recordar que, sob as várias declinações de Palace (Brothers, Songs, Music, somente Palace) ou utilizando o “nom de disque” Bonnie “Prince” Billy, Will Oldham nunca foi realmente militante de cartão de nenhuma “alt.country”, “Americana”, “new-country”, “free-folk” ou de qualquer outro dos pequenos partidos que, supostamente, conspirariam para a queda do velho império da música popular norte-americana de pele mais clara. A razão para a instabilidade da assinatura, aliás, desvenda a atitude e o método: “Quando temos um nome para um grupo ou um artista, ficamos à espera que o próximo disco, se vem sob o mesmo nome, inclua os mesmos músicos. E eu reparei que, de todas as vezes, gravava sempre um tipo de álbum diferente, com pessoas diferentes, temas diferentes e sonoridades diferentes. Por isso, pareceu-me importante atribuir-lhes nomes distintos de modo a que se pudesse prestar atenção a essas diferenças. Não desejo que quem compra os meus discos fique decepcionado porque cada um não soa como o anterior”. Isto é, Bonnie Prince, não praticando nenhum género musical excessivamente hermético ou inacessível mas gozando de uma ampla liberdade de movimentos, pelo simples efeito da deslocação “por impulso” entre estilos e géneros, é bem capaz de ter feito pela transfiguração de vários deles bastante mais do que os respectivos fiéis das várias capelinhas.



Sem ser necessário recuar demasiado, The Brave And The Bold, com os Tortoise (publicado precisamente há dois anos), é suficientemente esclarecedor: numa triangulação inesperada entre o pós-rock, a “split-personality” de Oldham e um reportório de versões de autores que iam de Milton Nascimento a Bruce Springsteen, Richard Thompson, Elton John ou os Devo, emergia algo como uma geografia “balcânica”, porém, suficientemente coerente e organicamente viável. O novo EP (ou “short-player” – inclui oito temas), Ask Forgiveness, se, aparentemente, repete a estratégia – Will Oldham acompanhado por Meg Baird e Greg Weeks, dos Espers, entregue à revisão de temas de Björk, Phil Ochs, Danzig, Frank Sinatra, R. Kelly ou de Merle Haggard via-Mekons –, no fundo, inverte-a: todas as canções, uma vez tocadas pela mão e pela voz de Oldham, um pouco à maneira do que sucedia com as interpretações de Richard Thompson em 1000 Years Of Popular Music, apagam tudo o que conhecíamos acerca delas e passam a ser instantaneamente suas, como se nunca de outra forma pudesse ter acontecido. Wai Notes, entretanto, sugere ainda uma outra forma de escutarmos o reportório de Will Oldham (neste caso, o que integrava The Letting Go, de 2006) tal como ele existia “em bruto” – apenas guitarra, a sua voz (a de quem aqui assina “Bonny Billy”) e a de Dawn McCarthy, dos Faun Fables –, antes de ser requintadamente envolvido pelos arranjos de cordas que figuravam na publicação “definitiva”. E, em puro regime de “lo-fi” espectral, é todo um outro álbum que escutamos. (2008)