Showing posts with label Elvis Costello. Show all posts
Showing posts with label Elvis Costello. Show all posts

26 March 2026

Elvis Costello c/ Chet Baker - "Shipbuilding" (ver também aqui)
 
(sequência daqui) Antes disso (e concentrando-nos apenas na música), já inúmeras gentes haviam cultivado essa conjugação de esforços, de Woody Guthrie a Pete Seeger, Joan Baez, Bob Dylan ou Phil Ochs e inúmeros outros, até ao mui explícito Elvis Costello que, em 1989, “when England was the whore of the world and Margaret was her madam", lhe dedicaria "Tramp The Dirt Down"   (“There's one thing I know, I'd like to live long enough to savour, that's when they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”). Mais tarde, reflectindo sobre o assunto, justificar-se-ia: “A codificação das canções políticas que as tornou previsíveis obriga-nos a ser um pouco mais subtis. Podemos supor que uma canção contém algum potencial de mobilização mas isso pouco significa se estivermos a cantar para um grupo de pessoas que já comunga dos nossos pontos de vista. É a forma como o fazemos que importa". (segue para aqui)

26 November 2025

À BEIRA DO ABISMO
Quando, em 1997, Jeff Buckley morreu por afogamento no Wolf River - um afluente do Mississipi -, a sua discografia consistia de um e só um álbum de estúdio (Grace, 1994). Actualmente, sem que tenha sido registado algum fenómeno de ressurreição miraculosa, contam-se 10 álbuns de compilações, 11 ao vivo, 2 box-sets, 2 EP, e 5 videos, nos quais faltará ainda incluir outros cofres do tesouro que, na Wikipedia, recolhem inéditos como 'Dido's Lament' (uma ária de Dido e Æneas, de Henry Purcell, interpretada no Meltdown Festival de 1995, sob a direcção de Elvis Costello) ou "All Flowers In Time Bend Towards the Sun" (a colaboração de Buckley com Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins, que esta impediria de ser publicada considerando-a "inacabada" - ainda que acrescentando "Talvez eu não venha a ter essa ideia para sempre"). Responsável por tamanho dilúvio de material post mortem? Mary Guibert, a mãe adolescente do jovem génio Buckley, filho de outro Buckley genial, Tim, tão mais excepcional explorador dos infinitos sonoros quanto figura paternal distante e ausente. O qual, em It’s Never Over, Jeff Buckley (2025), o documentário de Amy Berg agora disponível, apenas de passagem é referido por Tim em à parte acri-doce: "O que herdei do meu pai? Pessoas que se lembram do meu pai... pergunta seguinte?" (daqui; segue para aqui)
 
 "Grace" | The Late Show | BBC | London

08 July 2024

FIOS INVISÍVEIS


"Bem vindos ao novo mundo! No qual as pessoas não são arquivadas por categorias e todos os cruzamentos são naturais. É o efeito que a música exerce sobre nós. De Obama a Elvis Costello, as pessoas gravitam em torno desta música. Até no modo como escolho quem convidar para colaborar comigo existem formas subtis de permitir que a música se dirija onde é necessário sem ter de me preocupar com a minha ou a tua etnicidade. E isso é algo que deve ser celebrado", dizia Arooj Aftab à "Spin", há cerca de um mês. Referia-se ao facto de "Mohabbat" (do seu álbum Vulture Prince) ter aparecido na "Summer Playlist" de 2021, de Barack Obama, e de, para o novíssimo Night Reign, na lista de convidados, surgir o nome de Elvis Costello enquanto quase clandestino executante de piano Wurlitzer em "Last Night Reprise" (do que se confessaria "extremamente orgulhoso" dado tratar-se da sua primeira referência de sempre como teclista "em qualquer disco"). (daqui; segue para aqui)

01 April 2024

16 January 2024

07 May 2023

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXXV)
 
(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)
"Just Good Friends" (álbum integral aqui)
 
 
"Shipbuilding" (E. Costello; álbum integral aqui)

14 April 2023

  "God Give Me Strength" & "I Still Have That Other Girl"

(sequência daqui) E contaria também que Burt tinha sido de opinião que “não valia a pena escrever 36 canções para, no final, escolher 12. Era melhor concentrarmo-nos apenas nessas 12, trabalhá-las muito bem e gravá-las”. O "box-set" The Songs of Bacharach and Costello agora publicado reafirma a sobreexcelência do álbum mas faz-nos igualmente saber que, para além dessas 12, outras – nada menores – foram compostas para um musical (Taken From Life) nunca concretizado e que aqui escutamos nas vozes de Cassandra Wilson, Jenni Muldaur e Audra Mae, juntamente com interpretações ao vivo e versões de Costello para outras canções do mestre. No passado dia 8 de Fevereiro, Burt Bacharach morreu com 94 anos. Mas, como ele e Costello demonstraram, para eles, o céu não é o limite.

11 April 2023

DEIXAR SUBENTENDIDO
 

Foi no Outono de 1998. Elvis Costello preparava-se para publicar Painted From Memory – o álbum que gravara, a quatro mãos, com Burt Bacharach – e, com o intuito de anunciar a sua ascensão ao céu dos escritores de canções, convocara as cortes mediáticas para algures, em Londres. A cerimónia seria, previsivelmente, morosa: conferência de imprensa ritual, seguida da interminável espera de uma estação de televisão que tardava em estabelecer o contacto. Mas, no final, sem nada previamente combinado, acerquei-me dele e, como quem conversa enquanto partilha o elevador, lancei-lhe uma pergunta. Depois, outra. E outra. Acabaria por ser uma bela conversa informal na qual Elvis confessaria o essencial: “Com o Burt, aprendi a deixar subentendido o sentido de uma canção e a não ter a obsessão de dizer logo tudo nos primeiros oito compassos. Tive a oportunidade de deixar os argumentos das canções desenvolverem-se gradualmente, dando origem a um crescendo muito mais intenso do que alguma vez conseguira com uma banda. Ele contou-me que, uma vez, a Marlene Dietrich lhe dissera 'Não ofereças o teu sorriso de mão beijada'. Uma forma de dizer que não é bom revelar todos os segredos de uma canção de uma só vez”. (daqui; segue psra aqui)

20 March 2023

REFEIÇÃO PESADA

Bono não é, nem muito remotamente, Bob Dylan. Nem sequer Elvis Costello, Bruce Springsteen ou até Morrissey. Mas, se o Nobel da Literatura de 2016 publicou as óptimas Chronicles Volume One (2004) – e, no ano passado, The Philosophy Of Modern Song –, e os outros se autobiografaram em Unfaithful Music & Disappearing Ink (2015), Born To Run (2016) e Autobiography (2013), o moço de Dublin também conhecido como Paul Hewson nunca se perdoaria se não adicionasse o nome à lista da elite pop/rock com ambições literárias. A sua contribuição intitula-se Surrender: 40 Songs, One Story e, conta quem a leu, nas cerca de 600 páginas, detalham-se todos os incidentes e polémicas que ocorreram desde o momento em que, há 46 anos, Larry Mullen colocou no placard de mensagens da Mount Temple Comprehensive School de Dublin um anúncio no qual escrevinhara “Baterista procura músicos para formar uma banda” e, daí, germinariam os Feedback, depois Hype, e, enfim, na Primavera de 1978, os U2. (daqui; segue para aqui)

"Pride (In The Name Of Love)"

26 December 2022

Domenico Modugno - "Volare (Nel Blu Dipinto Di Blu)"
 
(sequência daqui) Mas nenhuma supera o ponto de vista sobre "Volare", de Domenico Modugno (“Esta poderá ter sido uma das primeiras canções alucinogénicas antecipando em quase dez anos "White Rabbit", dos Jefferson Airplane”), que desencadeia uma especulação linguística inesperada: “Há algo muito libertador em escutar uma canção numa língua que não compreendemos. Vão a uma ópera e verão como o drama salta das páginas mesmo que não percebam uma só palavra. Escutem um fado e a tristeza escorrerá dele ainda que não falem uma sílaba de português”. Pelo caminho, depois de ampliar desmedidamente o "plot" original do texto de uma canção, é perfeitamente capaz de se pôr a escrever em rimas (em "The Pretender", de Jackson Browne: “He’s an ice-cream vendor, a drunk on a bender, a moneylender, and he could have been a contender, the pretender has drawing power“) ou de – a meio da abordagem de “The Little White Cloud That Cried”, de Johnnie Ray – apresentar uma lista de 26 canções banhadas em lágrimas, nenhuma delas na ponta da língua de ninguém.
 
  
 
 Elvis Costello -"Pump It Up"
 
Genuína obra-prima de elogio acri-doce temperado de ciumeira é, no entanto, o que escreve sobre "Pump It Up", de Elvis Costello: “Esta canção tem imensos defeitos mas consegue disfarça-los a todos. Por essa altura, Costello tinha andado a ouvir Springsteen de mais. Mas também tinha ingerido uma valente dose de ‘Subterranean Homesick Blues’. É implacável como são todas as canções dele deste período. O problema é que isso fatigava as pessoas, continham um excesso de ideias que chocavam umas com as outras e eram palavrosas demais. Aqui, porém, tudo é compactado numa única canção. Com o tempo, Elvis demonstraria possuir uma gigantesca alma musical. Dali em diante, comporia música de câmara, escreveria canções com Burt Bacharach, discos de country, versões, soul, música orquestral e para bailado. E, se escrevemos canções com Burt Bacharach, quem quer saber o que as pessoas possam pensar?”

17 October 2022

ESSÊNCIA LYNCHIANA

Com Angela Jennifer Lambert (aliás, AJ Lambert) nada é, realmente, como se imagina. Após uma “juventude perdida” a bordo de ilustres bandas desconhecidas (ou quase) – Sleepington, Looker, Here We Go Magic –, com quem se dirigiria ela para os estúdios de Steve Albini, em Chicago, com o objectivo de gravar um EP (Lonely Songs, 2018) comemorativo dos 60 anos de Only The Lonely (1958), de Frank Sinatra? Evidentemente, Greg Ahee, dos Protomartyr, escolha instantânea de AJ que, não escondamos mais o jogo, é neta de Frank e filha de Nancy Sinatra. E, quando, aos 44 anos, se decidiu, enfim, por um percurso de cantora, para além de concertos de voz e piano em que interpretava os clássicos do avô, que reportório escolheu para si no álbum de estreia, Careful You (2019)? John Cale, Chris Bell, TV On The Radio, Spoon, Billie Holiday, e duas pepitas de Ol' Blue Eyes, de entre uma lista de candidatos onde se incluiam também Robert Wyatt, Elvis Costello e David Bowie. (daqui; segue para aqui)

"How Many"

28 May 2022

Amber Coffman - "Run Run Run"
 
(sequência daqui) Seria, justamente, isso que, paralelamente ao preconceito que a lançaria para todo o sempre nas labaredas da Inquisição pop, a transformaria em farol das movimentações punk, pós-punk e new wave com discípulos e fãs confessos como Thurston Moore, Kim Gordon (Sonic Youth), B-52, Kathleen Hanna (Bikini Kill), Courtney Love, RZA ou todos os que viriam a participar nos álbuns de homenagem Every Man Has a Woman (1984) – Elvis Costello, Harry Nilson, Rosanne Cash, Roberta Flack –, Yes, I’m A Witch (2007) – Peaches, Le Tigre, DJ Spooky, Cat Power, Flaming Lips – e Mrs. Lennon - Canções de Yoko Ono (2010) – só com intérpretes brasileiras. Aos quais deverão acrescentar-se aqueles que, agora, sob a produção de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em Ocean Child – Songs of Yoko Ono, a 18 de Fevereiro, lhe ofereceram este valioso presente pelo seu 89º aniversário. Muito em particular, David Byrne com os Yo La Tengo, Sudan Archives, Sharon Van Etten, Thao, U.S. Girls e Stephin Merritt mas também Flaming Lips, Amber Coffman e Deerhoof.

31 March 2022

22 March 2022


"Farewell, OK"
 
(sequência daqui) Desenha as silhuetas de personagens sombrias (“I had a pocket full of presidents, a suitcase full of elements, double-cross of spectacles, a tycoon made of tentacles“), reanima fantasias (“Penelope Halfpenny sat on the desk, then stretched and grinned, she cracked her spine and so we sinned”) e tentações juvenis (“She took my hand in an experiment, put it where it shouldn't be, put it underneath her dress and waited to see”) ou reune no mesmo palco Mussolini, Gustav Mahler, Myrna Loy, Francis Bacon, Helena de Tróia, Lady Godiva, Godzilla e “The Marxists, Groucho, Chico, Harpo and Karl”. Exactamente o tipo de clássicos instantâneos capazes de desenhar completamente o argumento sobre “a part-time waitress with a dream of greatness“ apenas em quatro versos: “He wrote her name out in sugar on a Formica counter, ‘You could be the game that captures the hunter’, then he went out for cigarettes, as the soundtrack played The Marvelettes”.

19 March 2022

 
(sequência daqui) Segundo o autor, “the boy named if” é “uma alcunha para o amigo imaginário, o nosso eu secreto que conhece tudo aquilo que negamos, aquele que culpamos pelos disparates que fazemos e pelos corações – até mesmo o nosso – que quebramos”, declinada em “13 instantâneos que nos transportam de uma juventude desnorteada até aquele momento embaraçoso em que nos dizem para parar de nos portarmos como crianças. O que, para a maioria de nós, pode ser qualquer momento nos 50 anos seguintes”. Quiséssemos realmente mergulhar nas águas pantanosas do Sigmund-charlatão-vienense, poderíamos imaginar que se trataria de uma formulação alternativa para “the boy named id”. Mas não é necessário: numa inesperada investida em direcção aos primórdios que, milagrosamente, nunca soa a nostalgia mas a sôfrego recarregamento de baterias, os Imposters/Attractions lançam-se na refrega como se o universo fosse implodir no segundo seguinte e Costello, entre o possessamente frenético e o apaziguadamente lânguido, junta os pontinhos entre as suas diversas encarnações iniciais – de Armed Forces (1979) a Imperial Bedroom (1982), Blood And Chocolate ou King Of America (1986). (segue para aqui)

16 March 2022

DESMANTELAR A CAIXA

No Outono de 2020, acabado de publicar Hey Clockface, Elvis Costello contava-nos como, no início desse ano, perante os primeiros sinais de alarme pandémico, “as pessoas começaram a deixar de aparecer nos concertos” e compreendera “que estava na altura de cancelar tudo e voltar para o Canadá para ir ter com a minha família antes que fechassem as fronteiras”. E rematava: “Ali estava eu, na ilha de Vancouver, a olhar para aquele imenso mar e a tentar perceber onde tudo isto iria parar...” Como viria a descobrir-se, a perplexidade não iria durar muito: “Temos de escolher entre rendermo-nos e escrever baladas pálidas e melancólicas acerca do isolamento ou abrir a pontapé um buraco na caixa onde nos encerraram”, confessa ele, agora, à “Uncut”. A dita caixa haveria de ser, literalmente, desmantelada: não apenas publicaria Hey Clockface mas também La Face de Pendule À Coucou (EP de "remixes" e versões francesas de Clockface com Iggy Pop, Isabelle Adjani, Tshegue e AJUQ), um luxuoso "boxset deluxe" de Armed Forces (1979), Spanish Model (uma peculiar reconfiguração de This Years’s Model (1978), em castelhano, interpretado por cantores espanhóis e latino-americanos sobre o registo instrumental original dos Attractions) e, por fim, The Boy Named If – ou, em versão oficiosa, The Boy Named If (And Other Children’s Stories) –, o 32º álbum de estúdio de uma prolífica discografia. (segue para aqui)

"The Boy Named If"

03 January 2022

TODOS OS NEURÓNIOS ILUMINADOS
A linhagem musical e o círculo de relações dos dB’s eram imaculados: Chris Stamey, Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby caminhavam nas pegadas dos Television, Big Star, Kinks e Elvis Costello mas, sobretudo, dos britânicos The Move e, em circunstâncias diversas, tinham-se cruzado ou haveriam de cruzar-se com Richard Lloyd (Television), Don Dixon (produtor dos R.E.M., Smithereens e Guadalcanal Diary), Mitch Easter (fundador dos Let’s Active e produtor dos R.E.M., Pavement e Suzanne Vega), Chris Bell (Big Star) e Scott Litt (produtor de Nirvana, R.E.M. e Liz Phair). Mas, entre a chegada a Nova Iorque, em 1978, dos quatro nativos da Carolina do Norte e a publicação – apenas no Reino Unido – dos dois primeiros (e preciosíssimos) álbuns – Stands for Decibels (1981) e Repercussion (1982) – haveria de passar-se demasiado tempo durante o qual, contudo, a banda não esteve, de modo algum, inactiva. Sob várias designações e configurações, deixaram um muito razoável baú de gravações (essencialmente, singles e registos ao vivo) do tempo em que, como conta Stamey nas suas memórias, Spy In The House Of Loud: New York Songs And Stories, imaginavam a sua música à imagem de uma máquina de flippers “quando as luzes disparam ao mesmo tempo, uma espécie de resposta cerebral instantânea, com todos os neurónios iluminados”. (daqui; segue para aqui)