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19 June 2025

 
(sequência daqui) Grande é, pois, o pasmo quando, agora, perante Instant Holograms On Metal Film - o proverbial álbum de fumo colectivo do cachimbo da paz -, se escuta as vozes de Sadier e Marie Merlet declarando "The numbing is not working anymore, an unfillable hole, an insatiable state of consumption, assigned trajectory". E, logo a seguir, "Killing the possibilities, of there being other stories, conceptualisations, of progress and development, Open are the possibilities! A deluding promise of a middle class for old times on". É verdade que ainda persistem sinais de baixa filosofia-de-redes-sociais mas, no seu melhor, é como se a banda tivesse dobrado a fita do tempo e, colando o passado sobre o presente, tivesse gerado um universo alternativo onde Magritte e Hopper - por entre Deleuze e Guattari, pulsações motorik e funk electrónico - trabalham no projecto de uma catedral Bauhaus para a Bacia de Aitken, no Sul Polar da Lua.

25 January 2018

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XLIII)

("JL" 1984; clicar na imagem para ampliar)

Pennies From Heaven - Real. Herbert Ross (1981)

27 January 2016

MOSAICO

  
Houve sempre muito cinema na música dos Tindersticks e bastante música dos Tindersticks no cinema. Em 2011, a propósito da publicação da caixa Claire Denis Film Scores 1996–2009 com as bandas sonoras do grupo para seis filmes da realizadora francesa (White Material, 35 Rhums, L’Intrus, Vendredi Soir, Trouble Every Day e Nénette Et Boni), Stuart Staples confessava mesmo que “quando encontrei o David Boulter, três ou quatro anos antes de termos constituído os Tindersticks, o que nos atraiu foi o universo das bandas sonoras para cinema”. Bem mais do que a de diversos outros com idênticas ambições, a música da banda de Nottingham – quando ainda não imaginava sequer poder vir a ter autorização para ver-se projectada nos ecrãs –, na sua natureza mais profunda, aspirava à condição do "film noir", em todas as suas variantes e declinações. Não é, por isso, motivo para surpresa que a relação quase monogâmica com Denis se tenha estabelecido (e prolongado, em 2013, com as atmosferas electrónicas de Les Salauds), alargado à colaboração com Suzanne Osborne na vídeo-instalação Singing Skies ou, paralelamente, com o Museu da Primeira Guerra Mundial, de Ypres, na Bélgica, através da criação de música para a sua exposição permanente. 



E, agora, The Waiting Room, projecto audiovisual total concebido como parcela do programa do Festival de Curtas Metragens de Clermont-Ferrand, no âmbito do qual, para cada uma das canções do álbum homónimo, foi encomendado um vídeo aos realizadores Christoph Girardet, Pierre Vinour, Rosie Pedlow, Joe King, Gregorio Graziosi, David Reeve, Gabraz, Claire Denis, Suzanne Osborne, Sara Não Tem Nome e ao próprio Stuart Staples. É nessa exacta dimensão de peça mosaico que o disco-filme exige ser apreciado: um encadeamento não-narrativo de momentos singulares que, numa lógica de "cadavre exquis", e com o discreto descentramento jazzístico dos arranjos de Julian Siegel, se abre a uma infinidade de sentidos. Da puríssima beleza hopperiana de “Hey Lucinda” (com Lhasa de Sela), à rude estranheza de “We Are Dreamers!”, ao desfile de animais embalsamados sobre a amável melancolia de “Like Only Lovers Can”, ao jogo de luz e sombra de “Follow Me” à volta de uma melodia de Bronislaw Kaper para Revolta na Bounty.

28 May 2012

O QUE LÁ NÃO ESTÁ



 














Paul Buchanan -  Mid Air
 
A imagem da capa dificilmente poderia sonhar ser uma tradução visual mais fiel do que contém o primeiro álbum a solo de Paul Buchanan: como se de uma das peças da série, de Robert Longo, Men In The Cities – figuras masculinas (mais raramente, femininas), em postura de queda, desequilíbrio ou contorção espasmódica, como a que surgia envolvendo The Ascension, de Glenn Branca – se tratasse, mas uma em que, do modelo, apenas restasse, vazia, a "business-suit". Mid Air é exactamente isso: um lugar de perda e ausência onde, em 14 miniaturas e 36 minutos, é tão (ou mais) decisivo o que lá não está como o ínfimo que ali se escuta.


Com os Blue Nile, quatro álbuns em vinte anos de carreira (A Walk Across The Rooftops, 1984, Hats, 1989, Peace At Last, 1996, High, 2004), essa ideia de rarefacção já lhes era consubstancial, mas, se tudo parecia existir, em estado de imponderabilidade, num universo paralelo onde Hopper e Chagall desenhavam o "storyboard" para um argumento de Raymond Carver ao qual Buchanan, Robert Bell e P. J. Moore ofereciam a banda-sonora, as sombras que o atravessavam ainda guardavam alguma materialidade. Agora, quase só voz e piano, num disco que esteve para se chamar “Minor Poets Of The 17th Century”, é como se ouvíssemos um Chet Baker que não projecta sombra, um Sinatra monossilábico, um Satie poeta que, em vez de composições em forma de pêra, distribuisse "fortune cookies" com frases como “far above the chimney tops, take me where the bus don’t stop”, “the buttons on your collar, the colour of your hair, I think I see you everywhere” ou “last out the newsroom, please put the lights out, there’s no-one left alive”. E ali nos deixamos ficar, imobilizados, fascinados pelos vivos que nunca iremos ver, encandeados pelas luzes definitivamente apagadas.

05 September 2011

25 February 2009



WHAT WILL CHANGE EVERYTHING?
"What game-changing scientific ideas and developments do you expect to live to see?"



Anton Zeilinger

THE BREAKDOWN OF ALL COMPUTERS
Anton Zeilinger
(University of Vienna and Scientific Director, Institute of Quantum Optics and Quantum Information, Austrian Academy of Sciences)

Some day all semiconductors will break down and therefore all computers as, besides historic instruments, no computers exist today which are not based on semiconductor technology. The breakdown will be caused by a giant electromagnetic pulse (EMP) created by a nuclear explosion outside Earth's athmosphere. It will cover large areas on Earth up to the size of a continent. Where it will happen is unpredictable. But it will happen since it is extremely unlikely that we will be able to get rid of all nuclear weapons and the probabilty for it to happen at any given time will never be zero.

The implications of such an event will be enormous. If it happens to one of our technology based societies literally everything will break down. You will realize that none your phones does work. There is no way to find out via the internet what happened. Your car will not start anymore as it is also controlled by computer chips, unless you are lucky to own an antique car. Your local supermarket is unable to get new supplies.There will be no trucks operating anymore, no trains, no elctricity, no water supplies. Society will completely break down.


Edward Hopper - "Eleven a.m.", 1926

There will be small exceptions in those countries where military equipment has been hardened against EMPs making the army available for emergency relief. In some countries even some emergency civilian infrastructure has been hardened against EMPs. But these are exceptions as most governments simply ignore that danger.

(2009)

03 January 2009

JAZZ/NOIR


The Sweet Smell Of Success - real. Alexander Mackendrick, 1957

"The connections between jazz and the classic American film noir are complex and dynamic, but relatively uncharted. In contradiction to the late romanticism of the traditional Hollywood film score, jazz was used to critique cinematic illusionism and to position the spectator to view and hear film noir as a modernist art-genre with roots in German expressionism, gangster films, hard-boiled crime and proletariat fiction, French poetic realism, Italian neo-realism and Edward Hopper's painting. (...)


The Blue Dahlia - real. George Marshall, 1946

Ralph Ellison observed that much in American life is 'jazz-shaped'. Jazz colours so many facets of the contemporary condition: poetry, dance, painting, film. Jazz, in its turbulent history and various genres (Chicago Style, Hot, Swing, Kansas City Style, Bop, Modern, Cool, West Coast, East Coast, Mainstream etc), has had a palpable impact on modernist art forms. It is also both a popular and a political idiom. In Malcolm X's and Martin Luther's oratory, or Muhammad Ali's boxing-dancing, the jazz reference represents the double edged strategy of making cultural expression political or of making political expression palpable as culture". (John Conomos, Sonic Darkness: Notes Towards on Aesthetic of Jazz in the American Film Noir)

(2009)

29 July 2008

A CIDADE E O MUNDO


"Approaching a City" - Edward Hopper, 1946



"L'Origine du Monde" - Gustave Courbet, 1866

(2008)

25 January 2007

IT'S NOT


Lost In Space

Aimee Mann poderia não ter assinado nem mais uma canção, antes e depois das que escreveu para a banda sonora de Magnolia, de Paul Thomas Anderson, que, por certo, aí teria instantaneamente garantido o direito a figurar no livro de honra dos "songwriters" de excepção. Não somente pelo sumptuoso recorte clássico das suas composições magnificamente desesperadas como, principalmente, através do crucial papel que desempenhavam como motor e contraponto da narrativa de um filme que, também ele, é já marca de água na história do cinema contemporâneo.

Por acaso, antes, Aimee Mann já tinha história passada à altura e, depois, em 2000, com Bachelor nº2 - Or The Last Remains Of The Dodo , não fez senão confirmar a ideia de que, na ilustre linhagem musical de Bacaharach, Lennon & McCartney, XTC ou Elvis Costello, não haverá, hoje, muitos a fazer-lhe sombra. A verdade é que, algures pelo meio de Lost In Space, "Real Bad News" quase podia constituir o ponto de partida para o argumento de uma "sequel" de Magnolia que se empenhasse em enterrar a lâmina do punhal ainda mais fundo na ferida incurável que esse filme rasgou: "You might think that things will change but take my word, they won't, you paint a lovely picture but reality intrudes with a message for you, and it's real bad news".

É verdade, o mundo e a espécie humana nunca foram particularmente frequentáveis ("people are tricky, you can't afford to show anything risky, anything they don't know, the moment you try, well, kiss it goodbye", canta ela em "It's Not") e Aimee Mann anda por cá, como um belíssimo arcanjo anunciador da catástrofe iminente, para nos explicar que o mais saudável ainda é desistirmos de vez de qualquer réstia de optimismo e, se alguma coisa, por acaso, correr bem, só poderá ser uma boa surpresa.

Sim, porque nestas autênticas flores do mal que são as onze magníficas e venenosamente sedutoras canções de Lost In Space onde, subliminarmente, se pode ler o tema da dependência neurótica e dos comportamentos compulsivos (as drogas, o álcool, a putrefacta vidinha, a televisão — "it's all about drugs, it's all about shame") que Aimee, por altura de Bachelor nº2, previa como elo de ligação implícito do àlbum seguinte, o melhor ainda é seguir o conselho de Dante à entrada do último cículo do Inferno e abandonar todas as esperanças.



Aqui estão a borboleta e a chama ("the moth don't care if the flame is real cause moth and flame got a sweetheart deal"), o "hate the sinner but love the sin, let me be your heroin" de "High On Sunday 51", as "perfect drugs" e os "superheros" de "Humpty Dumpty", a esquizofrenia ("say you were split, split in fragments and none of the pieces would talk to you"), os desgraçados automatismos humanos, demasiado humanos, de "Pavlov's Bell" e a ideia de que "this big ball of sad isn't even worth filling with air".

A "big ball" poderá ser o cérebro ou o planeta mas, que importa isso? No fim, por entre as ilustrações do "booklet" em registo Edward Hopper-BD ainda mais desamparado, só resta o destroço de um sonho: "So baby, kiss me like a drug, like a respirator, and let me fall with the dream of the astronaut where I get lost in space that goes on forever and you make all the rest seem like an afterthought and I believe it's you who could make it better, though it's not, no, it's not". (2002)