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06 January 2026
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22 April 2020
A PREDADORA E AS PRESAS
Há dois anos, Hunter, o terceiro álbum de Anna Calvi, apresentava-se como um manifesto “queer e feminista” sobre o qual abertamentamente proclamava: “Pretendo ir além do género. Desejo não ter de escolher entre o masculino e o feminino em mim. (...) Ando à caça de alguma coisa – desejo experiências, desejo acção, desejo liberdade sexual, desejo intimidade. (...) Desejo repetir infinitamente as palavras ‘rapariga, rapaz, mulher, homem’ até lhes encontrar os limites, contra a vastidão da experiência humana. Envergo o meu corpo e a minha arte como uma armadura mas também sei que ser verdadeira para comigo é expor-me a ser ferida”. Após os belíssimos Anna Calvi (2011) e One Breath (2013), a intenção era, então, oferecer ao mundo algo de “tranquilamente audacioso e provocante, primitivo e belo, vulnerável e forte, o caçador e a presa”. Por essa altura, pouco antes de se apresentar em Lisboa, no Capitólio, tinha-nos confessado que pretendia “criar algo que fosse mais visceral, animal e selvagem e menos cerebral, textos mais imediatos e muito concentrados na ideia de conduzir até ao extremo o contraste entre as sensações de força e poder, de vulnerabilidade e intimidade” e, através desse gesto, “alcançar a máxima nitidez possível”. Uma nitidez tão grande quanto a do que, num disco “muito mais do corpo do que da cabeça”, explicitamente, propunha: “A nossa cultura está impregnada de fantasmas de mulheres enquanto objectos de caça dos homens. Quis inverter os papéis: a mulher como caçadora que se apodera da sua presa, masculina ou feminina. Basta de tolerância em relação aos limites que, supostamente, definiriam como uma mulher se deve comportar. Por que motivo haveria de aceitá-los apenas por causa da minha anatomia?...”
Nesse álbum, para além dos músicos com que, habitualmente trabalhava - Mally Harpaz, percussão e harmonium, Daniel Maiden, baixo e bateria, John Baggot, teclados – chamara também a si Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds). Terá estado aí mesmo a semente do que no novo mini-CD, Hunted, foi o plano de acção: pegar em sete canções de Hunter ("Swimming Pool", "Hunter", "Eden", "Away", "Don’t Beat The Girl Out Of My Boy", "Wish" e "Indies Or Paradise") e partilhá-las com Julia Holter, Charlotte Gainsbourg, Courtney Barnett, e Joe Talbot (Idles), caçados para, por sua vez, as capturarem para si, tendo como ponto de partida, "takes" iniciais ou não publicadas de cada uma delas. Não por serem, necessariamente, melhores ou mais “genuínas” mas por oferecerem um ponto de partida diferente: “Estive a ouvir diversas versões destas canções que tinha gravado inicialmente. Hunter era um disco muito intenso e galvanizante. Desta vez, quis apresentar estas canções numa outra perspectiva mais serena e vulnerável. Em cada uma das canções, não sinto que uma versão seja mais verdadeira, mais autêntica do que a outra. É apenas uma outra forma de olhar, um outro ângulo sobre o mesmo enredo”. A escolha dos cúmplices não assentou em nenhuma particular proximidade ou intimidade pessoal: “Conhecia a Courtney Barnett e o Joe Talbot de alguns concertos em que, por acaso, tínhamos estado juntos e, uma vez, tinha ido ter com a Charlotte Gainsbourg – ela já conhecia o meu trabalho mas, quando lhe falei, não fazia a menor ideia de quem eu era – para lhe dizer quanto gostava do trabalho dela. A Julia Holter está na mesma editora que eu o que até facilitou os contactos, mas, até este momento, nunca nos tínhamos falado nem encontrado”.
Na verdade, nem em estúdio, chegaram sequer a encontrar-se, tendo sido todas as partes gravadas separadamente. Tratou-se apenas de reconhecer afinidades estéticas e de descobrir uma forma de lhes dar corpo musical: “São todos músicos e artistas que me têm inspirado e com quem desejei colaborar por sentir que poderiam acrescentar algo de importante ao espírito de cada canção. Enviei as canções a cada um deles, perguntei-lhes unicamente se gostariam de as interpretar mas não lhes dei qualquer tipo de instruções acerca de como o fazer. Permiti que procedessem como desejassem. A beleza de todo este processo foi poder receber de volta aquilo que lhes tinha enviado e ficar magnificamente surpreendida com os resultados e com as escolhas que tinham feito”. No caso de Julia Holter, a quem propôs dedicar-se a "Swimming Pool", o resultado foi especialmente surpreendente: “Não estava, de todo, à espera que ela acabasse por me apresentar aquele espantosa versão coral... foi uma surpresa maravilhosa. É, sem dúvida, um belíssimo exemplo do enorme talento e da imaginação única dela. Mas todos eles eram, verdadeiramente, aqueles que queria, todos são muito importantes para mim e senti-me muito feliz quando aceitaram o meu convite. Se fosse possível, no entanto, também não perderia a oportunidade de trabalhar com o Iggy Pop”.
Embora, antes de se dedicar a novo álbum de originais, exista ainda o projecto para um outro volume de colaborações, durante o ano passado, entregou-se à composição para a banda sonora da quinta temporada de Peaky Blinders, a extraordinária série da Netflix, (para a qual, entre diversos outros, Nick Cave e PJ Harvey também contribuiram largamente): “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade – algo que sempre procurei na minha música –, como se eu fosse ele. Foi uma espécie de diálogo entre nós que me conduziu a procurar inspiração na música dos westerns porque Peaky Blinders é, de facto, um western situado em Birmingham”. E, com quem gostaria de poder ter colaborado mas já não o poderá fazer? “David Bowie, Nina Simone, Jimi Hendrix, e Edith Piaf”.
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01 September 2016
APURAR E DECANTAR
Segundo Neil Hannon, aparentemente, o assunto deixa-se esclarecer em poucas palavras: “Suponho que Foreverland foi inspirado pela minha história pessoal dos últimos seis ou sete anos e por documentários de História da BBC4”. Com que andou, então, Hannon ocupado desde que, em Maio de 2010, publicou Bang Goes The Knighthood? Na verdade, toda uma carreira paralela: com Thomas Walsh, dos irlandeses, Pugwash, inventou The Duckworth Lewis Method, cujo primeiro álbum homónimo (2009) era "a kaleidoscopic musical adventure through the beautiful and rather silly world of cricket”, e o segundo, Sticky Wickets (2013), reinvestia na mesma modalidade; no ano seguinte, dedicou-se à escrita de um musical, Swallows and Amazons, a partir de uma série de romances dos anos 30, de Arthur Ransome; em 2012, sobre os Sevastopol Sketches, de Tolstoy, criou a sua primeira ópera, Sevastopol, e, logo a seguir, In May, teatro-musical de câmara com libreto de Frank Alva Buecheler, sob a forma de 24 canções para a voz de Leentje Van de Cruys, o piano de Fredrik Holm, e as cordas do Ligeti Quartet; por fim, há dois anos, estreou To Our Fathers In Distress, uma peça para o orgão recém-restaurado do Royal Festival Hall, côro e ensemble de cordas, dedicada ao pai, bispo da Church Of Ireland e doente de Alzheimer. “With my background in foolish pop, it's still a surprise and an honour to be asked to do such things”, confessaria ele, na altura.
A modéstia será genuína mas, por muito ligeiras e irónicas que as canções dos Divine Comedy pareçam, ninguém se atreveria a classificá-las como “foolish pop”. Coisa fácil de compreender, aliás, na recente e assaz reveladora entrevista à Boundless, na qual, sem máscaras, desenha a sua genealogia musical: a Electric Light Orchestra, de Roy Wood e Jeff Lynne (“Goste disso ou não, a ELO é a minha mais profunda influência. Na minha música, podem identificar-se tiques da ELO por todo o lado. Posso estar a pensar nos Walker Brothers mas o que sai é ELO”), Scott Walker e “a lot of French stuff” (“No fim da adolescência, andava obcecado com a pop orquestral dos anos 60 e com as canções francesas. Em grande parte, isso deve-se a Scott Walker e às suas interpretações de Jacques Brel. Era tão brutalmente honesto e poético... claro que daí até Gainsbourg e Piaf foi só um salto. E como tambám gostava de cabaret alemão e bandas sonoras de filmes, tudo acabou por se combinar”), e Michael Nyman (“Quando comecei, era uma epítome do puto indie dos anos 80: antes de mais, era fã absoluto dos R.E.M. e dos Pixies e de alguns 'shoegazers' mais obscuros – Pale Saints, Chapterhouse, Ride... mas, quando vi os filmes do Peter Greenaway, fui completamente abalado pelo modo intenso e punk como o Michael Nyman fazia soar um quarteto de cordas. Afastei-me cada vez mais da ideia do quarteto básico de rock. Por volta do meio dos anos 90, tentei articular um pouco as duas coisas”).
Não é preciso lupa para confirmar que, se não surge, realmente, nada de surpreendentemente novo em Foreverland, os traços essenciais da música dos Divine Comedy mantêm-se intactos. A última meia década terá servido para apurar e decantar o estilo mas quem como o diminuto Hannon seria capaz de desenhar, em cinemascope, um auto-retrato em "Napoleon Complex" (“Who pulls the strings, who makes the deals, stands five foot three in Cuban heels?”), fazer transportar (em portentosa música e vídeo mock-Greenaway) o 1.60m para a corte de Catarina da Rússia e, em 3’12”, incluir aula de História e declaração de amor (com “Ekaterina Alexeyevna” como texto da "bridge") ou criar uma BSO de recorte exótico para potencial thriller em "Desperate Man#? Apenas o mesmo Neil Hannon que deixou "Other People" tal qual a gravara no telemóvel, num quarto de hotel, "a cappella", pronta a deixar-se raptar, em voo orquestral, para um céu de Hollywood.
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24 November 2015
Honra e glória eternas ao marido da poetisa Silva, discípulo de Edith Piaf, aldeão da Coelha, fiador do BES e o presidente mais radical e esquerdista da democracia portuguesa!
30 October 2015
O discípulo de Edith Piaf, num encore de "Je Ne Regrette Rien", deixa-nos com uma lagrimita de saudade desse santo-Rádio-Táxis-Autocoope, o queridíssimo Salazar: "Ao longo da nossa História, só conhecemos verdadeiro progresso económico e social quando existiu estabilidade política"
28 October 2015
O marido da poetisa Silva numa arrebatadora interpretação de
"Je Ne Regrette Rien"
"Non! Rien de rien...Non! Je ne regrette rien...
... Ni le bien qu’on m’a fait...
... Ni le mal, tout ça m’est bien égal!...
... C’est payé, balayé, oublié, je me fous du passé!..
... Avec mes souvenirs j’ai allumé le feu, mes chagrins, mes plaisirs, je n’ai plus besoin d’eux!..."
05 March 2014
CARREGADOS DE FUTURO
A 15 dias de distância, aparentemente, a actualidade do assunto dir-se-ia algo prejudicada. O ponto, contudo, é que, para o que, aqui, verdadeiramente importa, a actualidade é o menos decisivo dos critérios. Fale-se, então, do concerto de reunião dos Mler Ife Dada, do passado dia 14 de Fevereiro, no CCB. Comemorando os 30 anos de uma banda que, desde o final da década de 80, não existe, haveria sérios motivos para supor estarmos perante um quadro clínico daquilo que, no seu tratado de anatomia patológica pop, Simon Reynolds designou como “retromania”: a devoção quase museológica pelo passado, a reconstituição de um reportório “de época”, o olhar obsessivamente retrospectivo. Exactamente aquilo que podemos encontrar, por exemplo, num álbum como Sun Structures, dos Temples, grupo "soit disant" psicadélico britânico cujos elementos terão nascido por volta da altura em que a banda de Nuno Rebelo e Anabela Duarte encerrou a actividade. E justamente tudo o que nem vagamente se detectou no regresso dos Mler Ife Dada: sem pré-aviso e ignorando tudo acerca deles, ninguém no público seria capaz de adivinhar que a magnífica música que escutava não tinha sido criada na véspera.
A diferença de atitude é crucial: voltar atrás e trazer, tão só, aquilo que já lá estava ou usar esse movimento como pretexto para continuar a pegar fogo à invenção. Naturalmente, ter como ponto de partida Coisas Que Fascinam (1987) e Espírito Invisível (1989) – duas das peças musicais pop mais carregadas de futuro do século XX – e os singles e EP complementares é uma enorme vantagem. Mas, se esse era o guião, dificilmente se preveria o modo pelo qual, sem maiores sobressaltos do que a incorporação de um trio de cordas e outro de sopros, ele seria gloriosamente expandido e dinamitado: como se o interregno de 25 anos tivesse sido minuciosamente cronometrado para possibilitar o melhor concerto de sempre dos Mler Ife Dada, a vertigem sonora da máquina de dança dada-surreal (multiplamente engatada em afro-funk arábico, visões de Naked City através de lentes Plopoplot Pot, arraiais "kitsch"-fadistas e figuras obrigatórias de "vaudeville" eurasiático) estendeu a passadeira para a exuberante encarnação de Anabela sob a forma de cegonha cruzada de pantera "on high heels", ora Yma Sumac, ora Jane Birkin, Berberian, Piaf ou Callas sem travões. No futuro, lá ao longe.
20 February 2012
ELOGIO DA DISLEXIA

Camille - Ilo Veyou
Tal como certas personagens que adoramos odiar, Camille Dalmais inscreveu-se em Sciences-Po, em Paris. Mas rapidamente se apercebeu do seu tremendo erro, arrepiou caminho e – ao contrário de outros – decidiu reinserir-se socialmente, optando pela música. Conhecemo-la através dos Nouvelle Vague, esse divertimento de "easy-listening" chique entregue à missão de tropicalizar e reconfigurar para o "french-touch" algum reportório punk e new wave que se punha mais a jeito. Era dela a voz que escutámos a amaciar insolentemente "In A Manner Of Speaking" (Tuxedomoon), "Guns Of Brixton" (Clash), "Too Drunk To Fuck" (Dead Kennedys) e "Making Plans For Nigel" (XTC). Não foi a única pérola a ser gerada no interior da ostra-NV: devemos-lhe, igualmente, a óptima Phoebe Killdeer (& The Short Straws) de Weather’s Coming.
Camille, entretanto, gravou Le Sac des Filles (2002), Le Fil (2005) e Music Hole (2008), etapas preparatórias onde aqueceu os motores da experimentação vocal e da contenção instrumental – com tirocínio por peças de Benjamin Britten e presença na banda sonora de Ratatouille – que haveriam de desembocar neste magnífico Ilo Veyou, espécie de dislexização de “I Love You”. É fácil imaginá-la como uma Björk com os pés um pouco mais assentes na terra (mesmo que do ponto de vista do marciano que, em "Mars Is No Fun", prefere abandonar o seu planeta e “wander all afternoon in the shopping mall of Milton Keynes”), dedicada a "lullabies" imponderáveis, deliciosas paródias de patrioteirismo-Piaf (“La Suisse attire les comptes en banque, les anglais ont un humour exquis, le Nicaragua produit la cocaïne et la revend au meilleur prix, la France, la France des photocopies”), pseudo-exotismos minimalistas, bizarrias de "kindergarten" surreal. Mas Camille é única e irrepetível.
(2012)
Camille - Ilo Veyou
Tal como certas personagens que adoramos odiar, Camille Dalmais inscreveu-se em Sciences-Po, em Paris. Mas rapidamente se apercebeu do seu tremendo erro, arrepiou caminho e – ao contrário de outros – decidiu reinserir-se socialmente, optando pela música. Conhecemo-la através dos Nouvelle Vague, esse divertimento de "easy-listening" chique entregue à missão de tropicalizar e reconfigurar para o "french-touch" algum reportório punk e new wave que se punha mais a jeito. Era dela a voz que escutámos a amaciar insolentemente "In A Manner Of Speaking" (Tuxedomoon), "Guns Of Brixton" (Clash), "Too Drunk To Fuck" (Dead Kennedys) e "Making Plans For Nigel" (XTC). Não foi a única pérola a ser gerada no interior da ostra-NV: devemos-lhe, igualmente, a óptima Phoebe Killdeer (& The Short Straws) de Weather’s Coming.
Camille, entretanto, gravou Le Sac des Filles (2002), Le Fil (2005) e Music Hole (2008), etapas preparatórias onde aqueceu os motores da experimentação vocal e da contenção instrumental – com tirocínio por peças de Benjamin Britten e presença na banda sonora de Ratatouille – que haveriam de desembocar neste magnífico Ilo Veyou, espécie de dislexização de “I Love You”. É fácil imaginá-la como uma Björk com os pés um pouco mais assentes na terra (mesmo que do ponto de vista do marciano que, em "Mars Is No Fun", prefere abandonar o seu planeta e “wander all afternoon in the shopping mall of Milton Keynes”), dedicada a "lullabies" imponderáveis, deliciosas paródias de patrioteirismo-Piaf (“La Suisse attire les comptes en banque, les anglais ont un humour exquis, le Nicaragua produit la cocaïne et la revend au meilleur prix, la France, la France des photocopies”), pseudo-exotismos minimalistas, bizarrias de "kindergarten" surreal. Mas Camille é única e irrepetível.
(2012)
10 January 2010
ADÃO, EVA, CAIM E ABEL (E MARTHA)

Martha Wainwright - Sans Fusils, Ni Souliers, À Paris
Dizer “família disfuncional” é, como se sabe, uma redundância. Mas ainda que, desde Adão, Eva, Caim e Abel, nesse imaginário pilar da sociedade, as coisas nunca tenham, realmente, corrido bem, há casos em que, francamente – não há como dizê-lo de outra forma –, se abusa. O casal Loudon Wainwright III (aliás, um retinto "freak-folker" bastante "avant la lettre") e Kate McGarrigle, antes de violar os sagrados votos do matrimónio, divorciando-se, reproduziu-se por duas vezes. Da primeira, nasceu Rufus Wainwright, um moço que se imagina dotado de um gigantesco talento de compositor e intérprete operático mas que, lá no fundo, gostava era de ser Judy Garland (e foi-o, em Rufus! Rufus! Rufus! Does Judy! Judy! Judy!: Live From The London Palladium). A mana mais nova, Martha, pelo seu lado, folk-rockou sofrivelmente em dois álbuns, até ter descoberto a sua verdadeira vocação: montar um gigantesco “chuva de estrelas” a solo, macaqueando Edith Piaf. Na produção do espectáculo (apresentado no Dixon Place, de Nova Iorque, em Junho passado), Hal Willner fez o que foi capaz para segurar as pontas, houve imitações mais conseguidas do que outras, mas, essencialmente, o que se deve perguntar é: não seria mais do que oportuno um referendo sobre a ilegalização do casamento heterossexual?
(2010)
Martha Wainwright - Sans Fusils, Ni Souliers, À Paris
Dizer “família disfuncional” é, como se sabe, uma redundância. Mas ainda que, desde Adão, Eva, Caim e Abel, nesse imaginário pilar da sociedade, as coisas nunca tenham, realmente, corrido bem, há casos em que, francamente – não há como dizê-lo de outra forma –, se abusa. O casal Loudon Wainwright III (aliás, um retinto "freak-folker" bastante "avant la lettre") e Kate McGarrigle, antes de violar os sagrados votos do matrimónio, divorciando-se, reproduziu-se por duas vezes. Da primeira, nasceu Rufus Wainwright, um moço que se imagina dotado de um gigantesco talento de compositor e intérprete operático mas que, lá no fundo, gostava era de ser Judy Garland (e foi-o, em Rufus! Rufus! Rufus! Does Judy! Judy! Judy!: Live From The London Palladium). A mana mais nova, Martha, pelo seu lado, folk-rockou sofrivelmente em dois álbuns, até ter descoberto a sua verdadeira vocação: montar um gigantesco “chuva de estrelas” a solo, macaqueando Edith Piaf. Na produção do espectáculo (apresentado no Dixon Place, de Nova Iorque, em Junho passado), Hal Willner fez o que foi capaz para segurar as pontas, houve imitações mais conseguidas do que outras, mas, essencialmente, o que se deve perguntar é: não seria mais do que oportuno um referendo sobre a ilegalização do casamento heterossexual?
(2010)
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