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13 June 2024

"Floating On A Moment" (ver aqui também)
 
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)

01 June 2008

SEX KITTENS, VESTIDOS E FLUÍDOS ORGÂNICOS



Vários - Divas/Exotica

Ao contrário do que possa pensar-se, a história dos vestidos com manchas incriminadoras de fluídos orgânicos masculinos não começou com Bill Clinton e Monica Lewinsky. Mamie Van Doren (a única sobrevivente das famosas três "M" de Hollywood, juntamente com Monroe e Mansfield), por exemplo, garante que, na realidade, Rock Hudson não era irredutivelmente gay mas sim bissexual e que possui um vestido com as nódoas apropriadas capazes de o provar. Para além disso, a "first sex kitten in cyberspace" de quem se dizia que "a terceira coisa em que nela se reparava era o facto de não saber, de todo, cantar" não se incomodava nada com a má língua e cantava mesmo, como se comprova em Divas/Exotica, uma extensão da colecção Ultra Lounge que reune um conjunto de dezoito sereias cantoras do cinema e da música, dedicada a uma missão: "corrigir todos aqueles que pensam que já ouviram tudo". É nessa exacta medida que este álbum se assume como "um antídoto contra o grunge de quatro acordes e o drum'n'bass de um só acorde. Aqui se encontram dezoito mulheres com idade para serem vossas avós e com uma única ideia na cabeça. Aqui se descobrem algumas melodias que nunca imaginámos que regressassem e outras que nunca desapareceram. Umas já eram autenticamente estranhas quando apareceram, outras foram justamente celebradas como clássicos. Outras ainda, exploravam um mundo crepuscular à maneira de Ed Wood onde um certo entusiasmo tonto vencia o mau gosto e uma devastadora ausência de talento".



Colocada a questão de outra maneira, não há nenhuma razão plausível para que quem viaja até ao sétimo céu na companhia dos Pizzicato Five não seja capaz de se fazer transportar até ao mesmo lugar pela mão destas divas. Elas podem ser bastante entradotas (ou nem sequer já serem vivas) mas, acreditem, não foram sempre assim. E, quando gravaram estas canções, estavam ainda suficientemente capazes de ensinar meia dúzia de coisas a todas as Madonnas e Sharon Stones deste mundo. Ann Margret — a loiríssima sueca que contracenou com Elvis Presley — era uma deusa, para a mais "antiga" Marlene Dietrich gravar um quase-rock como "Near You" equivalia a uma heresia, "Teach Me Tiger", de April Stevens, era uma condenação às eternas labaredas do inferno e "That Makes It", de Jayne Mansfield, "Let's Misbehave", de Eartha Kitt (segundo Cole Porter), "Heatwave", de Marilyn Monroe ou "Go, Go, Calypso" de Mamie Van Doren tinham o que bastava para convocar uma reunião de urgência do Comité Central da Santíssima Inquisição de todas as épocas.



Claro que a passagem do tempo atenua (e até valoriza) os tais "mau gosto e devastadora ausência de talento" mas, nesta compilação, se, de um lado, há as puríssimas transgressões de Brigitte Bardot ("Je me donne a qui me plait ça n'est jamais le même mec"), a saborosa frivolidade de Sophia Loren em "Zoo Be Zoo Be Zoo", a "gaieté" parisiense de Josephine Baker de "Don't Touch My Tomatoes" ou a gloriosa descerebração luso-tropical de Carmen Miranda em "Mamã Eu Quero", por outro lado, também existem outras coisas um bocadinho mais sérias (mas que não estragam o bom ambiente geral) como "Do Your Duty", de Billie Holiday, o magnífico "Forbidden Fruit", de Nina Simone, "Jezebel", de Edith Piaf, a acetinada sofisticação de Astrud Gilberto em "So Nice", o bondiano "Goldfinger" de Shirley Bassey, o exotismo "over the top" e supostamente étnico da voz de múltiplas oitavas de Yma Sumac ou o outro calypso ("Since Me Man Has Done Gone And Went") de Maya Angelou, poetisa, historiadora, actriz, escritora, dramaturga, activista dos Direitos Civis, nomeada para o prémio Pulitzer e — lá vamos nós outa vez... — devota de Bill Clinton, para além de bailarina sensual e competentíssima cantora de calypsos.



(1999)

01 May 2008

PORTISHEAD, BRIXTON ACADEMY, 1997



"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.



É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.



No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)