08 August 2025
08 January 2025
29 November 2024
HERDAR AS VOZES
Durante uma considerável parcela da sua história, e, particularmente, durante o Estado Novo, o fado não gozou de imaculada reputação junto de intelectuais e oposicionistas do regime salazarista/marcelista. Eça de Queiroz, logo desde o início, não pesava as palavras: "Atenas produziu a escultura, Roma fez o direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou? O fado. Tem uma orquestra de guitarras e uma iluminação de cigarros. A cena final é no hospital e na enxovia. O pano de fundo é uma mortalha”. Pinto de Carvalho/Tinop, autor de uma História do Fado (1903), enterrava a lâmina ainda mais fundo: “O fadista, minado de taras, avariado pelas bebidas fortes e pelas moléstias secretas, com o estômago dispéptico, o sangue descraseado e os ossos esponjados pelo mercúrio - é um produto heteromorfo de todos os vícios, atinge a perfeição ideal do ignóbil”. E, mais à frente, Fernando Lopes-Graça - compositor e investigador das tradições musicais populares - apenas encarava o fado como “canção incaracterística e bastarda, o execrando fado, produto de corrupção da sensibilidade artística e moral quando não indústria organizada e altamente lucrativa” (A Canção Popular Portuguesa, 1953). Embora já algumas décadas adiante, e após a transformação profunda que Amália Rodrigues e Alain Oulman lhe haviam imprimido, ver José Mário Branco, o autor de "A Cantiga É Uma Arma" ("O faduncho choradinho, de tabernas e salões, semeia só desalento, misticismo e ilusões, canto mole em letra dura, nunca fez revoluções", 1975), em ameno convívio com fadistas não seria algo de muito previsível. Mas foi por aí mesmo que se iniciou a história conjunta de Zé Mário e Camané que, agora, em Camané ao Vivo no CCB – Homenagem a José Mário Branco este recorda.
JOÃO LISBOA - Como foi o vosso primeiro encontro?
CAMANÉ - Quando era ainda muito novo, escutava-o como ouvinte vulgar (neste disco canto alguns temas que me fizeram chegar a ele por ter gostado muito de o ouvir). Depois, uma noite que ia a sair do "Faia", tinha eu, para aí, 19, 20 anos, encontrei o Zé Mário com o Carlos do Carmo. Estavam a fazer um concerto suponho que no S.Luis, e o Carlos do Carmo apresentou-mo. Foi muito simpático e apercebi-me que ele já gostava de fado, tinha-se rendido ao fado. Entretanto, na altura, a Aldina Duarte organizava uns finais de tarde de fado no Teatro da Comuna e o Zé Mário, de vez em quando, ia ouvir-me. Começámos a falar imenso sobre fado e sobre a visão que ele tinha do fado que era muito parecida com a minha: o fado tem uma estética muito própria, as pessoas ouvem um fado e, intuitivamente, identificam-no como fado. É importante manter isso, não perder essa referência no percurso do passado para o futuro. Foi fantástico ele ter-me dito que sim quando lhe pedi para produzir um disco meu. (daqui; segue para aqui)
24 September 2023
POR FAVOR, NÃO PANTEONEM O EÇA!
"T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pele humana: um outro achou ostentosa a pele humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoura lhe parecia preferível a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compêndios: eu opus-me severamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso se lhe quisessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos"
Carta a Carlos Mayer
A passagem em epígrafe indicia, de maneira inequívoca, que, para o grande poeta satírico que foi Eça, não havia limites para o atrevimento da sua língua mordaz. Desde afirmar, em certo momento de indignação, que a bandeira portuguesa, em vez de cinco quinas, devia ter cinco nódoas, até pedir a Ramalho Ortigão que fizesse desbocada chantagem com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrade Corvo, pedindo-lhe que lhe pagasse (a ele, Eça), se não quisesse que este publicasse um romance que deixaria a reputação de Portugal pelas ruas da amargura – valia tudo. Sem excluir que disse, em carta a Pinheiro Chagas, que “o nosso império no Oriente fora um monumento de ignomínia.” A vigorosa defesa que fez, em Cuba, dos trabalhadores chineses oriundos de Macau, miseravelmente exploradas pelos cubanos, fê-lo em termos que os diplomatas não costumam afagar. Livros como A Relíquia, ou A Capital ou O Conde de Abranhos ou O Crime do Padre Amaro, não costumam ser currículo academizável ou panteonável. Eça era destemidamente atrevido e a sua graça reguila era um dos seus irresistíveis encantos. Este impenitente Gavroche que sempre suscitou admirações de gente de paladar linguístico apurado, mas nunca o “entusiasmo” de multidões, merece, como ninguém, que o deixem fora das pompas solenes de um cortejo panteónico. Eça foi sempre um “gamin” de alto gabarito: deixem, pois, continuar a sê-lo, à revelia das recomendações “catedráticas” daqueles cuja pele serviria bem para forrar as paredes de um quarto, mas para pouco mais. Eça de Queiroz e a pompa não são miscíveis. Quem não compreendeu isto não compreendeu nada da sua obra. Podem ter escrito muito sobre vele, mas não escreveram, de modo nenhum, SOBRE ELE PROFUNDO. Ponham-se agora a catar nos textos, a ver se ele, em algum lado, disse ou não disse, explicitamente, que quereria ir ou não ir para o Panteão. Não hão de ir longe. Não é aí que se encontra a resposta.
Eugénio Lisboa (sequência daqui)
28 August 2023
AVISO POR CAUSA DA MORAL, DO BOM SENSO E DA LEGALIDADE
Quem alguma vez tenha lido A Cidade e as Serras, não terá dúvida nenhuma de que Eça preferiria ficar sepultado em Tormes a ser trasladado para o panteão. Também não duvidará de que Eça detestaria a ideia de ir para o Panteão. Bastava conhecer um bocadinho a obra e a maneira de estar no mundo do autor de Os Maias.
Mas, a um senhor que hoje é ministro, ocorreu a ideia macabra de fazer essa trasladação, sem consultar os herdeiros, que são os únicos a poderem, legalmente, dar autorização para uma tal trasladação. E estes, tanto quanto se saiba, não a deram nem a darão.
A Assembleia da República tem o poder de autorizar a operação, mas não tem o poder de a impor.
O que se pretende fazer em Setembro é ilegal, afrontoso e próprio de quem nunca leu a sério uma só linha do grande escritor. E é próprio de quem está mais interessado em pôr-se em bicos de pés do que em servir a memória do nosso maior romancista.
Convida-se o maior número de pessoas e instituições culturais a manifestarem-se contra este sinistro atentado. Bastaria, de resto, colocar-se uma simples lápide no Panteão, deixando os ossos do grande homem em paz, onde ele sempre gostou que ficassem!
Estas iniciativas devem sempre partir de gente culturalmente equipada para as tomar e não de políticos ansiosos por fazerem currículo.
Bons deuses, há limites para o dislate!
(Eugénio Lisboa, que pede a todos os que leiam estas palavras e com elas concordem o favor de as divulgar).
15 June 2019
19 June 2018
20 April 2017
"Quem leu Camões, Eça de Queirós, Mário de Sá-Carneiro, David Mourão-Ferreira, Baptista-Bastos, Maria João Lopo de Carvalho, Nuno Júdice ou Margarida Rebelo Pinto, entre outros, não terá por certo deixado de notar a abundância e variedade de mamas. Os personagens dos romances de Miguel Sousa Tavares, por exemplo, são propensos a ver mamas em toda a parte, vivem dominados pelo desejo de mamas, parecem não ter outra ideia, outro objectivo que não seja a busca de um genuíno par de mamas. (...) A este mesmo grupo pertence o fabuloso criador de O Códex 632, de A Fórmula de Deus e de tantos outros livros em que as descrições das mamas, combinando a sugestão freudiana e o estilo proustiano, são da maior importância para a compreensão e interpretação do pensamento literário de José Rodrigues dos Santos".
01 December 2016
01 June 2016
27 October 2015
01 February 2015
27 October 2014
29 September 2014
22 February 2014
24 November 2013
30 January 2012
FNAC: “Troque os Maias pela Meyer”
Edit (17:07): ... uma campanha que era tão boa...
(2012)
19 October 2011
Circuncisão de Cristo - Friedrich Herlin (1466)
30 March 2011
Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto.
«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria!
— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico! E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando. Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar.
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados! Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!
— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.
— O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...»
Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam!
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)»
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres.
— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos! (Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre)
(2011)