Showing posts with label Durruti Column. Show all posts
Showing posts with label Durruti Column. Show all posts

05 June 2008

MAIS LEVE QUE O AR


The Montgolfier Brothers - The World Is Flat
 
Apesar do frenesim esquadrinhador dos caçadores de cabeças ao serviço da maçonaria do "hype", a pop britânica ainda encerra meia dúzia de segredos bem guardados que quase parecem fazer gala em permanecer eternamente ocultos. Roger Quigley e Mark Tranmer (que gravam quase indistintamente como Gnac ou The Montgolfiers Brothers) fazem parte dessa seita que, mais ou menos regularmente, vai publicando álbuns e espera, sem se esforçar muito por isso, que o resto do mundo lhe preste alguma atenção.
 

 
Se os Gnac — nome que desenterraram de um conto de Italo Calvino — se dedicam essencialmente à música instrumental, os Montgolfier Brothers (evocação poética dos pioneiros da aeronáutica) combinam os instrumentais "incidentais" com a canção de formato clássico apropriadamente mais leve do que o ar e devedora de uma lista de referências musicais que eles generosamente põem à disposição: começa-se em Baden Powell e segue-se por Henry Purcell, François de Roubaix, Kraftwerk, Momus, Ennio Morricone, Plaid, George Delerue, Kryzstof Komeda e Durutti Column. E, acrescentaria eu, Felt, YMG, Virginia Astley e um pouco da assexualidade cultivada dos Smiths. Já havia um pouco de tudo isso nos anteriores Friend Sleeping e Biscuit Barrel Fashion (dos Gnac) e Seventeen Stars (dos Montgolfiers) e agora, um tanto mais sonoramente encorpado, mas não demasiado, volta a emergir neste The World Is Flat. Poderá ser "bedsit poetry", no entanto, no género, ainda continua a ser do mais potável. (2002)

04 June 2008

MONTGOLFIÈRE *


The Montgolfier Brothers - Seventeen Stars

Este é um disco antigo. Não é um disco muito antigo mas é um disco antigo. Por acaso, acabado de gravar e publicar agora mesmo. O que não é necessariamente mau (até é um disco muito bom) e é substancialmente melhor do que um disco velho. Os Oasis, os Radiohead, os Belle & Sebastian são velhos, irremediável e desgraçadamente velhos. Os Montgolfier Brothers — tal como os seus homónimos "frères", pioneiros da navegação aérea — são antigos. Antigos como Robert Wyatt, como os Gist, como Kevin Ayers, como os Go-Betweens, como os Durruti Column (menos os afectados maneirismos barrocos), como a Virginia Astley de From Gardens Where We Feel Secure (menos o lado irritantemente bucólico/campestre). E modernos como o foram os Young Marble Giants, os Blue Nile, Pascal Comelade, Momus e It's Immaterial. Eu disse-vos que era um disco antigo. E não escondi que era um disco muito bom e bonito.
 

Pelo meio, há a história (é a história da própria canção "Seventeen Stars" que dá o título ao disco, erguida sobre três ou quatro acordes, com introdução e final radicalmente lacónicos) de uma viagem pela costa do sul de França, de Bordeaux ao Bassin d'Arcachon, mas isso é só um pequeno pormenor deste "travelogue" interior que, quase sem querer, entre outras preciosidades, nos deposita nas mãos três miniaturas absoluta e irredutivelmente clássicas como "Even If My Mind Can't Tell You", "In Walks A Ghost" e "Une Chanson Du Crépuscule" (assuntos da dimensão, e ainda mais, digo-vos eu, de "Love At First Sight"). É uma coisa muito secreta como foram as Deux Filles e Jane & Barton de 80 de que só nós (ninguém se acuse) sabemos. Agora — é uma proposta irrecusável da omnipotente seita oculta — é obrigatório compreender que voar de balão numa "montgolfière" (Richard Branson não tem nada a ver com isto) é equivalente a vinte pastilhas de "E" e que Seventeen Stars é simultaneamente um radical desafio à lei da gravidade e o mais perfeito diário de bordo de uma viagem literalmente mais leve do que o ar. Bem vindos a bordo da baixa tecnologia aeronáutica.