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08 September 2025

GENTIL PSICADELISMO

Não tem sido devidamente investigado o conjunto de circunstâncias que estarão na raiz do súbito surgimento de uma corrente particularmente experimental de música folk irlandesa. Mas é indiscutível que, com epicentro em Dublin, um universo em permanente expansão - Lankum, Landless, Brìghde Chaimbeul, Radie Peat, ØXN, Ye Vagabonds, Skipper’s Alley, Lisa O'Neill, John Francis Flynn - vem sistematicamente publicando aquilo que, seguramente, no futuro, haverá de ser encarado como uma preciosíssima arca de tesouros. Detectada por Geoff Travis e Jeannette Lee (da Rough Trade) quando se aperceberam da existência de “beautiful and strange traditional music from Britain, Ireland and beyond”, para ela criaram a etiqueta River Lea - "a division of Rough Trade Records" - e reservaram quase em exclusivo os dotes de produção de John "Spud" Murphy, espécie de Martin Hannett tardio das margens do Liffey. (daqui; segue)
 
 Poor Creature - "All Smiles Tonight"

18 January 2024

(sequência daqui) "A música folk é História preservada. Conta a história de uma classe que nunca deteve o poder. Que nunca escreveu os livros. Penso ter sido Frank Harte quem disse: 'Quem tem o poder escreve a História, quem sofre escreve as canções'. Continuar a cantar estas canções é mantermo-nos em contacto com a história das classes trabalhadoras e manifestar-lhes solidariedade no presente", disse também Flynn a "The Thin Air". E isso poderia ser integralmente transposto para abordar CYRM, dos ØXN, colecção de 6 canções maioritariamente sob uma perspectiva feminina e retratando uma espécie de eternas trevas mentais medievais, nas quais a selvajaria exercida sobre mulheres supostamente possuídas por demónios ou outras entidades malignas é regra. Fruto da maravilhosa promiscuidade estética de Dublin, a banda é constituída por Radie Peat (voz dos Lankum), Eleanor Myler (Percolator), Katie Kim e John ‘Spud’ Murphy (produtor dos Lankum). ØXN designa uma variedade de touros castrados usados como bestas de carga na velha Irlanda e CYRM um maligno encantamento feminino. Reforçando a faceta das coincidências significativas, o grupo teve origem no fatídico dia 6 de Janeiro de 2021, quando, ao mesmo tempo que, em Washington DC, uma multidão de bárbaros enfurecidos assaltava o Capitólio, Peat, Kim e Myler celebravam o Nollaig na mBan (Natal das Mulheres irlandês) actuando na mesma torre militar de vigia debruçada sobre o Atlântico onde os Lankum gravaram False Lankum. "Cruel Mother", "The Trees They Do Grow High", e "Love Henry" injectam o soro de misoginia, vingança, perda e assombração de raiz tradicional e "The Wife of Michael Cleary" (de Maija Sofia) e "The Feast" (inspirado pelo romance de Nick Cave, And The Ass Saw The Angel), são a demonstração concreta da linha contínua que une o Mal de todas as épocas. Os 13 arrasadores minutos finais de "Farmer in the City", extraída de Tilt, de Scott Walker (1995), não autorizam espaço nem tempo para que um único soluço possa ocorrer.
 

14 January 2024

"Willie Crotty"
 
(sequência daqui) Foi nas "salas de aula" do Cobblestone ("Vivo ao virar da esquina, por isso, duas ou três vezes por semana passo por lá. Foi ali que forjei a minha identidade musical. Todas as noites podemos escutar diferentes tipos de música. Ao longo dos anos, fui-me aperfeiçoando lá. Tudo sem pagar um cêntimo, aprendendo com os mestres e fazendo bons amigos. O Cobblestone é mais um centro cultural do que um pub. Haverá sempre gente a tocar música tradicional irlandesa mas, se não for assim, nunca se poderá desenvolver um sentido enraizado de comunidade. Se não existe um ponto de encontro, é difícil dar início a qualquer coisa") que a matéria do que viria ser Look Over The Wall See The Sky começou a ser modelada: "Este álbum ocupa-se a explorar a identidade irlandesa e o que ela significa. Faço experiências mas não toco na sua essência. A música irlandesa não precisa de ser refrescada ou modernizada. Não a vou salvar, ela não precisa de ser salva, está de muito boa saúde. Simplesmente, há um muito amplo espectro de formas de a abordar". Tal como já se anunciava em I Would Not Live Always, estão todas presentes em Look Over The Wall See The Sky. Seja em peças enraizadamente irlandesas ou noutras objecto de conversão por afinidade, pelo meio de melodias em dissolução ou em confronto com tempestades de ruído branco, sintetizadores, guitarras, violino, drones, electrónica, flauta, interferências de rádio, e painéis de dissonância electro-acústica, afagam ou esventram "Willie Crotty" (a história de um fora-da-lei do século XVIII, das montanhas de Comeragh), "Mole In The Ground" (exumada da Anthology of American Folk Music, de Harry Smith) ou "The Lag’s Song" (lamento de prisão de Ewan McColl). Sob uma só condição: "Se respeitarmos a música de origem e a essência da canção, temos todo o direito de seguir em busca de uma visão diferente". (segue para aqui)

11 January 2024

 
(sequência daqui) Na verdade, não se trata apenas dele mas de uma comunidade informal de músicos irlandeses de Dublin que tem, até agora, como figuras mais destacadas os Lankum (publicaram, este ano, o belíssimo False Lankum) mas igualmente os nada menores Lisa O’Neill (All Of This Is Chance, acabado de entrar para o cânone em 2023) e, idem aspas, os ØXN, de CYRM. John Francis cresceu a tocar "tin whistle", estudou música na universidade e considerou a hipótese de vir a ser professor. A "pós-graduação", porém, fê-la pelos "pubs" de Stoneybatter e Capel Street, na margem norte do Liffey, mas, sobretudo, no Cobblestone, em Smithfield (anunciado como "A drinking pub with a music problem"). Foi por aí que descobriu as gentes dos Lankum e afins, deu corda aos Skipper’s Alley e, em 2021, por ocasião da campanha contra o extermínio do Cobblestone às mãos dos tubarões do imobiliário, as várias pontas de um problema começaram a tornar-se evidentes: "Quando as coisas ficam hiper-globalizadas, as habitações são devastadas pelos grandes negócios, é impossível pagar uma casa na nossa própria cidade, e nos descobrimos à deriva num mar de 'branding' empresarial, temos de nos dedicar realmente às raizes culturais. Começamos a interrogar-nos de onde somos e o que isso significa e é muito fácil agarrarmo-nos à nossa identidade: basta cantar uma canção ou escutá-la". Mais ou menos o mesmo que, há um par de anos, Radie Peat, dos Lankum, no "Irish Independent", perguntava: "Desejamos realmente uma cidade onde tudo é propriedade da mesma gente, só existem Lidls e Aldis e as lojas de esquina desapareceram?" (segue para aqui)

27 September 2023

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXXVII)
 
(com a indispensável colaboração do R & R)
(clicar na imagem para ampliar)
 
Nine Wassies from Bainne live in Mountjoy Prison

08 February 2022

MÚSICOS E ARQUITECTURA
 

O National Concert Hall de Dublin é um edifício de 1865, situado em Earlsfort Terrace, e intimamente ligado à história da luta pela independência da Irlanda. Entre 2014 e 2016, Ross Turner – baterista e multi-instrumentista com currículo ao lado de Lisa Hannigan, Joe Henry, Ships,  I Am The Cosmos e Villagers – foi músico residente da venerável instituição e foi nessa qualidade que, por ocasião do 150º aniversário do Concert Hall, se entregou à missão de desafiar músicos de diferentes áreas a explorar os vários espaços do edifício (excepto o palco) para criar novos objectos sonoros. Como diria à RTÉ, “Um dos meus elementos favoritos daquelas instalações é a forma como soam, a combinação das amplas salas de mármore com as divisões de chão de madeira e as escadarias de pedra. Ter escutado ali, anteriormente, coros, orquestras e solistas foi o que me inspirou a tentar capturar a simbiose entre os músicos e a arquitectura, uma antítese do típico ambiente controlado de um estúdio. A intenção era extrair tanto quanto possível do potencial sonoro do edifício, preservar a autenticidade naquele processo de expressão, descoberta e exploração”. E sem público. (segue para aqui)

Lisa O'Neill & Colm Mac Con Iomaire - "Peggy Gordon"

12 August 2011

ROLLERSKATE SKINNY - "SPEED TO MY SIDE"



Em 1996, vi-os no Temple Bar Music Centre, de Dublin. Fui ao tapete, corri a comprar Horsedrawn Wishes e proclamei-os o alfa e o ómega da música dos últimos cinco milénios e dos próximos dez (sort of). Depois, perdi o álbum. Pelos meios possíveis e necessários, consegui voltar a ouvi-lo. Sim, é óptimo. Mas houve ali uns milénios a mais.

(e, na altura, ainda não sabia isto: "Ken Griffin, Ger Griffin (no relation) and Steve Murray had been in The Hippyshakes in the 1980s. Later the band became Shake and was characterized by a strawberry logo. In 1991, Jimi Shields (younger brother of My Bloody Valentine's Kevin Shields) joined the band and suggested a name change to Rollerskate Skinny, chosen from a line in The Catcher in the Rye, by J. D. Salinger: 'She's quite skinny, like me, but nice skinny, rollerskate skinny'")

(2011)

18 May 2011

O "DERBY"

"Com o alto patrocínio da nação que inventou a Via Verde e os cartões pré-pagos do seu telemóvel reunir-se-ão hoje em Dublin alguns milhares de pategos para celebrar outro evento histórico, outro marco reluzente da portugalidade: uma final europeia.

O que é uma final europeia? As oito primeiras páginas do Público esclarecem-nos: é um jogo de bola em que os bracarenses Alan, Vandinho e Paulão defrontam os portuenses Helton, Guarin e Sapunaru. Rapazes humildes de Nevogilde e Cedofeita, que molhavam o pé em Labruge ou conduziam juntas de bois em Tibães e que hoje revelarão, como é habitual nestas merdas, novos mundos ao mundo.

Nem a rainha Elizabete de Inglaterra faltará ao importante derby: pela primeira vez em cem anos a coroa britânica aterrou na Irlanda. Sempre prestimoso, Jorge Nuno Pinto da Costa recebeu-a ontem no aeroporto. Esta manhã um eclipse aterrorizou os indígenas do Gabão e um novo cometa foi avistado na Sibéria. As mãos da Pietá começaram a sangrar. O universo está suspenso por um duelo de titãs". (aqui)

(2011)