(sequência daqui) Mas, talvez, a mais rica e diversificada tenha sido a que, na década de 80 ficou conhecida como "renascença do rock americano", dos R.E.M., Dream Syndicate, Violent Femmes, Green On Red e Los Lobos, aos Jason & The Scorchers, Blasters ou Rain Parade e inúmeros outros. Entre os quais, os Lone Justice, praticantes de "country/cowpunk" de apenas dois álbuns mas que revelaram ao mundo a tremenda voz da então ainda adolescente, Maria McKee. Se, dela, na trajectória a solo que se seguiu à implosão da banda, nunca poderemos, pelo menos, esquecer o magnífico La Vita Nuova (2020), Viva Lone Justice - operação de limpeza, restauro e recontrução de fitas de gravações informais dos primórdios da banda - transporta-nos para aquele muito particular universo no qual a energia frenética de "Rattlesnake Mama", "Nothing Can Stop My Loving You" e, sobretudo, "Teenage Kicks" (dos Undertones), coexiste facilmente com o romantismo de câmara de "You Possess Me" e com o tradicionalismo de "Wade In The Water".
The Days Of Wine And Roses (1982) e Medicine Show (1984) – juntamente com contributos dos R.E.M., Violent Femmes, Green On Red, Los Lobos, Lone Justice e uma mão bem cheia de outros contemporâneos – tinham ficado para a história do penúltimo fôlego do rock norte-americano, numa elegante e acerada diagonal entre Neil Young, Velvet Underground e Television, desenhada a quatro mãos pelas guitarras altamente inflamáveis de Steve Wynn e do genial Karl Precoda. No entanto, após dois álbuns menos notáveis, a banda que o baterista Dennis Duck baptizara em homenagem ao colectivo experimental que reunira La Monte Young, John Cale, Tony Conrad e Jon Hassell, em 1989, separou-se. Vários projectos individuais e colaborações mais tarde, só em 2012 ensaiariam uma reunião e, em 2017 e 2019, voltariam a atiçar o lume com How Did I Find Myself Here? e These Times.
Foi numa das sessões de gravação deste último que, pelas 11 da noite, depois de 12 horas contínuas em estúdio, quando se preparavam para uma cerveja comunitária final, apareceu Stephen McCarthy, dos Long Ryders, de sitar na mão. “O engenheiro de som e o produtor ainda não se tinham ido embora, levámos as cervejas para dentro, lígámos a aparelhagem e, durante 80 minutos, mergulhámos numa fantástica jam session. Não dissemos uma palavra, ninguém deu quaisquer instruções, nada estava escrito, não havia regras de jogo estabelecidas. Apenas uma espécie de desafio implícito: ‘Não quero ser o primeiro a parar’. Só houve um pequeno intervalo quando o Mark Walton pousou o baixo e foi buscar shots de tequilla para todos. Mesmo assim, continuámos a tocar”. Nos meses seguintes, Wynn regressaria a essa alucinatória quase hora e meia, retalhá-la-ia, sobrepor-lhe-ia as percussões de Johnny Hott, o sax de Marcus Tenney e, aqui e ali, os seus textos recortadamente burroughsianos. Os 20 minutos iniciais de "The Regulator" apresentam-se como “uma viagem psicadélica, panorâmica, política e sonâmbula através de Nova Iorque” e, nas restantes (e extensas) quatro de The Universe Inside, o Miles Davis eléctrico, Hendrix, Soft Machine, Neu! e Ornette Coleman, pairam sobre esta “psychedelic, avant-jazz, freak-out, weirdo band we were always meant to be”. Parece que só terão posto fim à lendária jam inspirados pelo que Miles terá respondido a Coltrane quando este lhe confessou que, por vezes, não sabia como acabar um solo: “Basta tirar o sax da boca”.
MINOR-KEY, MID-TEMPO, ENIGMATIC, SEMI-FOLK-ROCK-BALLADISH THINGS
R.E.M. - Fables Of The Reconstruction(reedição CD duplo)
Quando uma banda de longo curso permanece suficiente tempo em actividade para atingir o estatuto – simultaneamente confortável e perigoso – tecnicamente designado por "fazer parte da mobília", pode facilmente acontecer que deixe de se lhe prestar a atenção que, justamente, merece e que apenas por reflexo nostálgico, aqui e ali, o seu nome e obra venham, episodicamente, à conversa.
Com três décadas de existência este ano celebradas, os R.E.M. não entraram ainda na categoria das respeitáveis e queridas múmias (apesar de veteranos e não exactamente marginais, a aura original de criaturas "cool" e pioneiros da cena rock-alternativa dos EUA permanece-lhes colada), mas nem toda a gente se recordará instantaneamente que, não só muito poucos outros restam da geração, deles contemporânea, que empurrou o rock norte-americano para fora dos cuidados intensivos (Long Ryders, True West, Dream Syndicate, Jason & The Scorchers, Violent Femmes, onde andam?), como, para além das duas ou três glórias que o p.o.v.o. reconhece de imediato, lhes devemos um riquíssimo baú de preciosidades sempre eminentemente revisitáveis (favorito pessoal: melhor canção com o melhor videoclip de sempre – "Imitation Of Life").
E, acima de tudo, a imaculada série dos cinco primeiros álbuns gravados – assiduamente, um por cada ano – para a IRS: Murmur (1983), Reckoning (1984), Fables Of The Reconstruction (1985), Lifes Rich Pageant (1986) e Document (1987). Uma vez interrogado acerca de como caracterizaria a música do grupo, Peter Buck respondeu: “Minor key, mid-tempo, enigmatic, semi-folk-rock-balladish things”. Ao terceiro álbum, escolhendo como produtor o lendário Joe Boyd – "sound designer" supremo do folk-rock britânico –, a música dos R.E.M., sem deixar de corresponder a essa definição, adquiria profundidade, detalhe sonoro e densidade muito superiores. A escuta do segundo CD com as demos iniciais a que Boyd daria o acabamento final serve para demonstrar isso mesmo.