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14 June 2012

CURRÍCULO PARA O PAPADO



The Popes  -  New Church
   
Agora que, segundo o “El Pais”, o Vaticano (confirmando a tese de Gabriele Amorth, Exorcista-Chefe local, que, há dois anos, garantia que os escândalos de pedofilia se deviam ao facto de o Diabo andar à solta na Santa Sé) se converteu num “campo de batalha onde os soldados do Altíssimo combatem com as armas do Demónio” – afinal, historicamente, nada de novo –, a ressurreição dos Popes através de um álbum intitulado New Church não poderia vir mais a propósito. E com todas as personagens certas. Recordando: criados, em 1994, por Shane MacGowan como sucedâneo dos Pogues quando a estes se esgotou a paciência para lhe aturar o catálogo completo das viciações, com ele, gravaram The Snake (1994), The Crock Of Gold (1997) e o live, Across the Broad Atlantic (2002). Inevitavelmente, uma vez mais, sai MacGowan. 



Mas fica Paul 'Mad Dog' McGuinness que, como o nome indica, também não é flor que se cheire: entre os dois álbuns pós-MacGowan – Holloway Boulevard (2000) e Outlaw Heaven (2009) – passou uma temporada na cadeia de Pentonville por ilícitos vários. E, agora, para New Church, enquanto "special guest star" em "Throw Down Your Aces", convidou Howard Marks, escritor, "drug dealer" condenado a 25 anos de prisão e, supostamente, íntimo da CIA, do IRA, do MI6 e da Mafia. Como se vê, tudo boa gente e com currículo para o papado. Que, confirmando a definição do 'Mad Dog' para a banda (“Sex Pistols meeting The Dubliners”), até produz um decentíssimo cocktail de rock vadio, essências “célticas”, transpiração-Springsteen e fundo de garrafa-Waits. Isso e algo entre uns Dropkick Murphys com cadastro criminal e uns Gaslight Anthem de fígado corroído. Ou, se preferirem, uns Pogues menos geniais e, definitivamente, sem Shane MacGowan.

01 September 2010

MEMÓRIAS DA AMÉRICA



The Gaslight Anthem - American Slang




Holly Golightly & The Brokeoffs - Medicine County

Encravada algures nas vísceras da Net, está uma entrevista com Brian Fallon, dos Gaslight Anthem, em que, à pergunta “Como é a sensação de se aperceberem que o Bruce Springsteen vos roubou a vossa sonoridade?”, ele, com absoluta candura, primeiro ri à gargalhada e, depois, responde “Mas fomos nós quem o roubou desavergonhadamente!...”. Tratava-se, claro de uma interrogação ironicamente armadilhada mas Fallon não só entrou no jogo sem pestanejar como, logo de seguida, se lançou num extenso elogio das imensas qualidades de Bruce como "everyday man" e vizinho de New Jersey nada difícil de encontrar nos bares e clubes da cidade, sempre à espreita de revelações locais. Estas coisas têm, evidentemente, consequências. Não foi também, por isso, uma daquelas manobras promocionais cozinhadas nos departamentos de marketing editoriais o facto de, em 2009, no concerto de Glastonbury dos Gaslight, Springsteen ter participado enquanto guest-star em "The '59 Sound", tendo repetido a visita em Hyde Park, pouco antes do seu London Calling (já publicado em DVD).



Serão, então, os Gaslight Anthem apenas mais uma das inúmeras bandas que fazem carreira à custa da clonagem de obra alheia? Considerem esta hipótese: muito mais legitimamente do que, por exemplo, os Arcade Fire – cuja dívida colateral ao mais célebre residente da E Street se limita a uma rígida simulação formal dos sinais exteriores da cinemática dimensão bigger than life da sua música –, os autores de American Slang trabalham, sim, sobre a mesma matéria que deu origem a clássicos como Darkness On The Edge Of Town, Born To Run ou The River. Por outras palavras, enquanto uns (ainda que não seja essa a sua matriz essencial) tomam de empréstimo o guarda-roupa, os cenários e os adereços de Springsteen, Fallon e cúmplices concentram-se na escrita dos episódios e na invenção das personagens que não chegaram a figurar no gigantesco painel da história americana contemporânea iniciado em Greetings From Asbury Park N.J.



Se lhes desejássemos encontrar genealogia diferente, poderíamos pensar, igualmente, nos Replacements, no ilustríssimo e ignorado Willy de Ville, no Van Morrison de “Domino” ou nos actuais Richmond Fontaine e Dropkick Murphys mas, eles próprios, quando inquiridos, tanto referem os Clash quanto Tom Petty, os Joy Division ou os Smiths. A espinha dorsal do argumento, essa, mantém-se fidelíssima à memória mítica de uma América (privada e colectiva) ancorada naquele tempo “when we were lions, lovers in combat, faded like your name on those jeans I burned”, povoada de “queens of the Bronx, blue eyes and spitfire”, “orphans before we were ever your sons of regret”, mesmo ali ao lado do "Andy Diamond’s Choir (...) who’ll sing the rhythm and the blues so sad and so slow”.



De fora para dentro – isto é, de Londres para a Georgia onde, actualmente, vive –, Holly Golightly procura outro ângulo para a reinvenção da mesma lendária narrativa (a da country, dos blues, do rockabilly, do bluegrass), em registo eruditamente noir e, pela terceira vez, na companhia do guitarrista e baterista Lawyer Dave. O pequeno milagre que ambos concretizam em Medicine County (gravado numa igreja abandonada) assenta, essencialmente, numa dupla e sábia fuga: ao diletantismo "new weird America" dos pretensos hillbillies de fim-de-semana – felizmente, em curva descendente – e ao pastiche cerimoniosamente respeitador da tradição. Aqui o modelo é o de uns Cramps algo menos psicadélicos filmados por Terrence Malick, com argumento co-escrito por David Lynch e Nick Cave e a "final cut" não poderia assentar-lhes melhor.

(2010)

11 July 2010

DROPKICK MURPHYS - "WILD ROVER"
"Imaginem dois homens sentados lado a lado num bar em Boston. Passado algum tempo, um deles olha para o outro e diz: - Depois de o ouvir, estou convencido de que é irlandês. - Pois sou - responde o outro tipo orgulhosamente. - Eu também! E de que lugar da Irlanda veio? - Sou de Dublin, ora pois - responde o outro tipo. - Não me diga! Eu também! E em que rua vivia em Dublin? - Vivia numa zona pequena e encantadora - responde o outro - Na rua McLeary, na parte velha da cidade. - Que grande coincidência - replica o primeiro -, eu também. E em que escola andou? - St. Mary's - responde o segundo. O primeiro tipo fica verdadeiramente entusiasmado e diz: - Também eu. Diga-me, em que ano terminou o liceu? E o outro responde: - Bem, terminei o liceu em 1964. - O Bom Deus deve estar a sorrir-nos lá do alto! - exclama o primeiro - Mal posso acreditar na nossa sorte de virmos parar ao mesmo bar esta noite. Acredita que eu também terminei o secundário em St. Mary's em 1964? Nesse momento, entra outro homem no bar, senta-se e pede uma bebida. O empregado aproxima-se a abanar a cabeça e diz: - Vai ser uma noite longa, os gémeos Murphy estão outra vez bêbedos". (Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, Thomas Cathcart & Daniel Klein) (2010)

17 June 2010

DROPKICK MURPHYS & CONAN O'BRIEN
- "SHIPPING UP TO BOSTON"
(Boston 6/4/10)



(2010)

16 June 2010

14 June 2010

DROPKICK MURPHYS - "WORKER'S SONG"



Yeh, this one's for the workers who toil night and day
By hand and by brain to earn your pay
Who for centuries long past for no more than your bread
Have bled for your countries and counted your dead

In the factories and mills, in the shipyards and mines
We've often been told to keep up with the times
For our skills are not needed, they've streamlined the job
And with sliderule and stopwatch our pride they have robbed

We're the first ones to starve, we're the first ones to die
The first ones in line for that pie-in-the-sky
And we're always the last when the cream is shared out
For the worker is working when the fat cat's about

And when the sky darkens and the prospect is war
Who's given a gun and then pushed to the fore
And expected to die for the land of our birth
Though we've never owned one lousy handful of earth?

All of these things the worker has done
From tilling the fields to carrying the gun
We've been yoked to the plough since time first began
And always expected to carry the can


(2010)
CANTOS E LENDAS



Dropkick Murphys - Live on Lansdowne, Boston, Ma

Nenhum lisboeta (ou qualquer outro sábio e atento cidadão do mundo então deambulando pelas coordenadas da arábica Lishbuna), nem excessivamente novo, nem demasiado velho, é digno desse nome se, a 28 de Abril de 1989, não tiver integrado as fileiras dos que acorreram ao Coliseu dos Recreios para um concerto acerca do qual, para quem a ele compareceu, não restará a mais microscópica dúvida ter-se tratado de um daqueles que a memória do planeta deverá registar até à consumação dos tempos. Em palco, na superiormente sublime conflagração entre o catolicismo ortodoxo, o paganismo alcoólico-orgiástico irlandês – perdoem a redundância – e o punk serôdio e, por isso mesmo, mais decadentemente avassalador, os Pogues (quero dizer, Shane MacGowan e comparsas) celebravam os momentos últimos da desmedida embriaguês poética do Ocidente, disparavam para a atmosfera, em fulgurante pirotecnia, os estilhaços da felicidade impossível de todos os Dylan Thomas do mundo, amassavam campo, adro de igreja, bordel, taberna e grande cidade, e, pelo caminho, deixavam uns milhares de almas sem perceber exactamente o que se tinha passado à frente dos seus olhos e ouvidos. Reza a lenda que, horas antes, Shane terá consumido o conteúdo líquido e variado de diversos bares da cidade, sido reanimado da horizontal na calçada de uma avenida da capital à custa de anfetaminas e, em consequência relativamente directa, durante o frenesim do concerto, despojado, por algum fiel mais devoto, do anel “blessed by the Virgin Mary”, por cuja devolução, regressaria, repetidamente, à boca de cena, em angustiada súplica. Mesmo londrina e “modernamente” aculturada, era a Irlanda que ali estava.



Claro que não era. Mas também era. A Irlanda “tigre celta” e a Irlanda falida. A Irlanda das Kilrush, vilas-fantasma, e das Dublin e Sligo, dos Joyce, Wilde e Yeats. A da história muito-pior-que-portugesmente-maldita e a das Westport turísticas do pub de Matt Molloy (dos Chieftains), dos abrigos miseráveis da “fome da batata” ou da Cork à boleia pindérica das “capitais europeias da cultura”. A dos irlandeses do Manchester City e a da imensa diáspora nos EUA. Como a de Boston, com Red Sox, no baseball, Guinness na corrente sanguínea e Dropkick Murphys na música. Agora que o gypsy punk dos Gogol Bordello vacila, podem concentrar-se no Celtic-punk deles. De carreira, são três anos mais velhos mas ainda não optaram pelos aromas tropicais do Brasil. Continuam, casmurramente irlandeses, a festejar todos os St. Patrick’s Days, quais Sex Pistols com o trevo tatuado na testa e o kitsch assaz “celticamente” duvidoso de infantes e adolescentes multicoloridos a saltitarem as ceili dances, pelo meio de uma trupe de matulões tatuados, uns de uniforme negro e outros de kilt, a tocar, desvairadamente, gaita de foles, banjo, guitarras eléctricas, bateria e tin whistle. Martin Scorsese não descansou enquanto não lhes sacou ‘I’m Shipping Up To Boston’ (sobre um texto desenterrado dos arquivos de Woody Guthrie) para The Departed, Bruce Springsteen declarou-se devoto desde que um dos filhos o convenceu a assistir a um concerto e, embora em estado de consciência sempre incerto, o próprio MacGowan lhes deu a bênção.



Ouvindo e vendo o CD e DVD de Live on Lansdowne, Boston, Ma – mais uma tão arrepiante quanto contagiosa festa identitária em tons de verde-terra-de-Ériu-deusa-de-uma-tão-pobre-soberania – não é muito difícil entender porquê: aqueles tipos, apoiantes, muito possivelmente anacrónicos, do sindicalismo AFL-CIO, proletariamente democratas e entusiasmadamente populistas, cantam uma história épica e lendária que as babes loiríssimas e os moços suados que exercitam o mosh, lá em baixo, davam tudo para que, pudesse conter um átomo de verdade. A belíssima narrativa do monge cristão, Naomh Pádraig, que expulsou as serpentes pagãs da ilha esmeralda – por mais pagãos que eles, empedernidamente, continuem a ser – está-lhes demasiadamente agarrada à pele para a poderem esquecer. E, nós (que supomos ter pouco a ver com isso), ainda que convencidos que o Shane do anel da virgem era um enorme poeta demente e eles são apenas diligentes oficiantes do culto, não lhes conseguimos resistir.

(2010)