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12 January 2009

"DEVIDO AO ADIANTADO DA HORA,
ME SINTO ANTERIOR A FRONTEIRAS"




A Casa do Tom: Mundo, Monde, Mondo - DVD realização de Ana Jobim

António Carlos Jobim, em 1979, prepara-se para habitar a casa que desejou para si, no Rio de Janeiro, com o Jardim Botânico como seu quintal e, no poema “Chapadão” que costura toda a narrativa, situa-a “sob a axila do Cristo, neste sovaco cristão”. Para falar do Rio, socorre-se das palavras de Pablo Neruda: “O Rio de Janeiro é a porta delirante de uma casa vazia, o antigo pecado, a salamandra cruel, intacta no braseiro das longas dores do teu povo” e recorda a infância feliz – “se é que a gente pode ser feliz, aí, nesse mundo” – em Ipanema. Vemo-lo, a seguir, em Nova Iorque (onde a gastronomia local “sem arroz nem feijão, só batata” o atormenta), no auge da bossa-nova que ofereceria a Sinatra e ouvimo-lo justificar o nomadismo alegando que, a partir de uma certa idade, o endereço não tem importância e ecoando Drummond: “Os senhores me desculpem mas, devido ao adiantado da hora, me sinto anterior a fronteiras”.



Imagens de filhos, amigos, festas/concertos de filhos e amigos, sempre o piano (um em cada casa), pares de óculos espalhados por todo o lado, o cafezinho, a(s) música(s) e a evocação do Sítio do Poço Fundo, matriz familiar antiga do índio Jobim, onde, de pijama, ténis e sobretudo, derrama erudição acerca de urubus, enxerga o sertão em toda a parte e, amargamente, filosofa: “Deus deve ter tantos planetas assim como a Terra, com tantos Brasis dentro, que a ele talvez não faça diferença. No fim, a destruição do mundo, provará apenas a nossa enorme incompetência, que nós somos, realmente, um animal daninho”. Ana Jobim, sua segunda mulher, filma, fotografa, narra, comenta e, de caminho, inventa o docufessional, género híbrido de documentário e confessional.

(2009)

26 July 2008

BOSSA-NOVA (III)



Getz/Gilberto (1963)
Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim & Astrud Gilberto

Não terá sido um dos álbuns fundadores da bossa-nova mas foi, de certeza, aquele que, fechando o círculo que, do jazz tinha ido dar à música brasileira, regressou ao jazz, juntando o seu criador e a voz quase intangível da sua mulher, Astrud, num dos mais perfeitos álbuns de sempre. Quase todo o “british lounge/jazz revival” de 80 veio a ele beber. No estúdio, porém, o diálogo terá sido assim: “João (em português): ‘Tom, diga a esse gringo que ele é um burro’; Tom (em inglês): ‘Stan, o João está a dizer que o sonho dele sempre foi gravar com você’; Stan, ‘Curioso, pelo tom de voz, não parece ser isso o que ele está a dizer… Aqui nasceu, verdadeiramente, a “Garota de Ipanema”.






Chega de Saudade (1959)
João Gilberto

Para a História, a bossa-nova nasceu em Agosto de 1958, com o single nº 14.360 da Odeon, do cantor João Gilberto e as músicas “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Bim Bom” (do próprio cantor). Mas só com o álbum do ano seguinte a modernidade chegaria, de facto, à música brasileira. Na contracapa, Jobim anunciava: "João Gilberto, em pouquíssimo tempo, influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores".






António Carlos Jobim (1963)
Tom Jobim

Sob convite da Verve, Tom Jobim regista um álbum inteiramente instrumental onde alinha “Chega de Saudade”, “Insensatez”, “Desafinado e “Garota de Ipanema”, entre outros. O que começara a germinar em Canção do Amor Demais (álbum de Elizeth Cardoso, de 1958), de colaboração com Gilberto e Vinícius, floresce, agora, em puríssimo “cool”. A “Downbeat” atribuiu-lhe a classificação máxima.






Nara (1964)
Nara Leão

Jovem, moderna, Nara, no mesmo instante em que mergulhava na bossa (cantava Carlos Lyra, Vinícius de Moraes e Baden Powell) anunciava a posterior reavaliação do samba, retomando o reportório de músicos "do morro" como Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho. Com Astrud Gilberto, uma das outras vozes “minimais” que contribuiriam para uma certa definição da personalidade da bossa.






O Compositor e o Cantor (1965)
Marcos Valle

Guitarrista, pianista, compositor, surfista, carioca e fã de jazz, colega de liceu de Edu Lobo e Dorival Caymmi, Marcos Valle – que, muito pouco tempo depois, abandonaria o barco da bossa em direcção às mais longínquas paragens sonoras – neste seu segundo álbum, gravava, de um jacto, diversos futuros clássicos: "Samba de Verão", "Preciso Aprender a Ser Só", "Seu Encanto", "A Resposta", "Gente".






Depois do Carnaval (1963)
Carlos Lyra

Embora não tão sofisticado quanto Jobim ou Gilberto, Lyra inovou na bossa-nova ao propôr letras de temática social e, neste terceiro álbum – onde, pela primeira vez, Nara Leão entrou num estúdio – reunia uma impressionante lista de temas ("Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", "Canção que Morre no Ar", "Influência do Jazz" e "Se é Tarde me Perdoa") que as enciclopédias da bossa registariam.






Francis Albert Sinatra & António Carlos Jobim (1967)
Frank Sinatra & Tom Jobim

Se o álbum de Stan Getz com Gilberto, Jobim e Astrud assinalou a definitiva internacionalização da bossa, esta obra-prima absoluta de Sinatra com Jobim (em interpretações bilingues de sete temas de Tom) e orquestrações mais que perfeitas de Claus Ogerman é, indiscutivelmente, a sua coroação máxima. Para além de géneros e categorias, um dos amovíveis nas listas do século XX.



(2008)