Showing posts with label Don De Lillo. Show all posts
Showing posts with label Don De Lillo. Show all posts

09 September 2024

 
(sequência daqui) Voltaria igualmente à superfície a polémica citação de Don De Lillo que, em "The Cultural Ambassador" (de The Ugly One With The Jewels, 1995), ela usara, defendendo que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender". Afinal, apenas uma versão menos entusiástica do que a de Karlheinz Stockhausen que, no calor dos acontcimentos, qualificaria o 11 de Setembro como “a maior obra de arte de todos os tempos, o sonho de qualquer músico: trabalhar durante dez anos para a realização de uma obra e morrer durante a consumação dela". Stockhausen nunca se retrataria mas, anos mais tarde, Laurie procuraria explicar-se: “A questão, quando se escreve sobre estética e política, é que a política e a arte estão sempre a mudar. Há um tempo e um lugar certos para abordarmos determinadas ideias que não são sempre necessariamente verdadeiras”. (segue para aqui)

27 November 2015

CÃO VADIO


Quando, em Setembro de 2001, uma semana e um dia após o atentado ao World Trade Center, Laurie Anderson actuou no Town Hall de Nova Iorque, um calafrio circulou entre público e palco durante a enunciação dos textos de peças como "Strange Angels" (“Big changes are coming, here they come, here they come”), "Let X=X" ("I feel like I am in a burning building... I gotta go"), e, sobretudo, "Oh Superman" ("Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America. And the voice said: neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”). Incluir ainda na set list "From The Air" (“This is your Captain. We are about to attempt a crash landing. Please extinguish all cigarettes. (…) Your Captain says: Put your head on your hands. This is your Captain and we are going down. We are all going down, together”) teria sido carregar demasiado dramaticamente o momento.


Especialmente, tratando-se de Anderson que, seis anos antes em "The Cultural Ambassador", citando Don De Lillo, afirmara que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender" (mais tarde, confrontada com isso, justificar-se-ia: “A questão, quando se escreve sobre estética e política, é que a política e a arte estão sempre a mudar. Há um tempo e um lugar certos para abordarmos determinadas ideias que não são sempre necessariamente verdadeiras”). No novo Heart Of A Dog – banda sonora do seu filme homónimo –, porém, uma outra "From The Air" surge: nela, Laurie Anderson conta como, tendo-se refugiado na Califórnia a seguir ao 11 de Setembro, durante um passeio pela montanha com a cadela Lolabelle, de súbito, esta se viu ameaçada por um falcão que as sobrevoava. Nesse instante, nos olhos da "rat terrier", leu exactamente o mesmo espanto que vira no rosto dos novaiorquinos: ela descobria-se na situação de presa e o predador atacava pelo ar. Um pouco antes, em "Birth Of Lola", começara a maravilhosamente errática exploração de mais outro colar de pérolas sterneano (“Chamo-lhes histórias de cão vadio: vão por aqui, por acolá, viram uma esquina, dão quinze voltas ao quarteirão antes de voltarem ao presumível tema. E Laurence Sterne foi o mestre desse tipo de escrita”) desencadeada pela senha “This is my dream body, the one I use to walk around in my dreams”.



E, no sonho, Laurie encontra-se na sala de partos de um hospital, dando à luz Lolabelle. Logo a seguir, o cenário é o do leito de morte da mãe e dos animais que ela vê no tecto e com os quais conversa; depois, a ínvia relação entre as directivas da Homeland Security (“If you see something, say something”) e, segundo Wittgenstein, o poder da linguagem na criação do mundo; as outras perdas – Lou Reed, Gordon Matta-Clark, também Lolabelle – e o suave apaziguamento que a filosofia oriental lhe emprestou; ou ainda uma história acerca de como contar histórias é também um processo de apagamento de memórias... numa estrutura líquida, articulada por "inserts" instrumentais do Kronos Quartet, aguadas electrónicas, som ambiente. Algo próximo de um hipnótico filme sem imagens de que apenas nos aperceberemos que poderão fazer falta se nos informarem que se trata, de facto, de uma banda sonora.

22 May 2012

INVENTAR O MUNDO


Já, por diversas vezes, Laurie Anderson, involuntariamente, desempenhou o papel de profetisa dos tempos modernos. Aconteceu, primeiro, em 1981, quando, em "O Superman (For Massenet)", vinte anos antes, “viu” e “ouviu” imagens e vozes que lhe diziam “Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America (…) And the voice said: neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”. Eram, afinal, apenas palavras e frases de uma opera (Le Cid), de Jules Massenet, e das Histórias, de Heródoto, mas, numa manhã de Setembro de 2001 – seria essa a autêntica Odisseia no Espaço? – todos voltámos a vê-las e escutá-las, em directo, sob os céus de Nova Iorque. Em 1995, em "The Cultural Ambassador" (de The Ugly One With The Jewels), citando Don De Lillo, afirmara também que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender", antecipando, aliás, o modo como, a quente, Karlheinz Stockhausen qualificaria o 11 de Setembro: “a maior obra de arte de todos os tempos, o sonho de qualquer músico: trabalhar durante dez anos para a realização de uma obra e morrer durante a consumação dela". Agora, a propósito de Dirtday! – último painel do tríptico que iniciou com Happiness e continuou em The End Of The Moon –, confessa que o que a motiva é não desejar que, daqui a cinquenta anos, possa existir quem olhe para trás e pense “Ainda me recordo de quando não havia um polícia em cada esquina...”



Essencialmente assente no último álbum (Homeland, 2010) mas não exclusivamente delimitado por ele, Dirtday! é um “grande filme mental, uma enorme sala onde as pessoas poderão imprimir as suas próprias marcas”, alimentado “por uma espécie de raiva e pela minha incapacidade para aceitar que não esteja toda a gente na rua a protestar contra o que lhe está a acontecer”. E, citando Carl Sagan que defendia que “toda a realidade é uma construção”, Laurie Anderson dá um passo em frente e dispõe-se a modificá-la. Porque se, no fundo, “muitas coisas que poderiam acontecer não acontecem”, isso se deve ao facto de não recorrermos às armas que temos mesmo à mão: “Os políticos são, fundamentalmente, contadores de histórias. Descrevem o mundo tal como ele é e também como pensam que deveria ser. Na qualidade de colega contadora de histórias, parece-me, realmente, uma excelente altura para reflectir sobre como as palavras podem, literalmente, criar o mundo. Precisamos de histórias para compreender o passado e avançar para o futuro; se não fosse assim, viveríamos apenas num mundo de sensações. As histórias oferecem-nos um sentido de possibilidade: se não gostamos de uma, podemos inventar outra”.



Numa conversa com Marina Abramović, em 2003, Anderson contava que uma das suas citações preferidas devia-a a Lenine que dissera que “a ética é a estética do futuro”. E interpretava-a como significando que, algum dia, “conseguiremos ser tão bons uns para os outros e comunicar de uma forma tão clara que poderemos dispensar todas aquelas coisas que, hoje, colocamos na categoria de ‘beleza’”. Já houve utopias bem mais mortíferas do que esta. Mas não nos colocaremos, seguramente, em perigo se comparecermos à chamada de Laurie Anderson que, em diálogo com Fenway Bergamot – a sua mais recente “audio drag alter-ego persona” –, nos conduzirá através do seu particularíssimo labirinto sterneano de “shaggy dog stories” onde todos os mundos são possíveis. (dia 22: Centro Cultural Vila Flor, Guimarães; dia 23: Teatro Gil Vicente, Coimbra; dia 24: Teatro Aveirense, Aveiro; dia 25: Teatro Cine, Torres Vedras; dia 26: Teatro Virgínia, Torres Novas)

11 September 2011

RAIDS ON HUMAN CONSCIOUSNESS

Sendero luminoso/Peruvian terrorist group - fact sheet and chronology prepared by Office of the Ambassador at Large for Counter-Terrorism: "February 1985 - Blacked out most of Lima during the Pope's visit, while simultaneously burning a large hammer and sickle on a mountainside within view of the capital".


Paloma de Papel - Real. Fabrizio Aguilar, 2003

"There's a curious knot that binds novelists and terrorists. [...] Years ago I used to think it was possible for a novelist to alter the inner life of the culture. Now bomb-makers and gunman have taken that territory. They make raids on human consciousness. What writers used to do before we were all incorporated". (Mao II, Don De Lillo)

(2011)

11 September 2007

(ARTE E TERROR I) - BUT WAS IT ART?



Segundo declarações do compositor contemporâneo Karlheinz Stockhausen, os recentes atentados terroristas aos EUA teriam constituido "a maior obra de arte de todos os tempos", o sonho de qualquer músico: "trabalhar durante dez anos para a realização de uma obra e morrer durante a consumação dela". Em 1995, Laurie Anderson, em "The Cultural Ambassador" (do álbum The Ugly One With The Jewels), citando Don De Lillo a propósito de um episódio vivido em Israel em que se divertira experimentando explosivos com um especialista militar, afirmara também que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender". E (com óbvia e imensa ironia) reconhecia como aquela lição prática de terrorismo a fizera ter "a great time", esclarecendo-a definitivamente acerca dos verdadeiros significados de "new" e "interesting" sobre os quais havia sido interrogada a propósito da "avant garde" musical de que ela supostamente faria parte.


Pelo seu lado, no mesmo ano, no ficcional "Diário de Nathan Adler" que constituia o suporte do álbum Outside, David Bowie, remetendo para a obra de "body artists" radicais como Ron Athey, Nitsch, ou os "castracionistas de Viena" dos anos 70, após descrever pormenorizadamente o assassinato e desfiguramento sanguinário da adolescente "Baby Grace", fazia o imaginário detective da brigada de Art-Crime interrogar-se, intrigado: "It was definitely murder, but was it art?". Eu também não sei a resposta. Mas gostava que fosse possível — mesmo em plena atmosfera de guerra iminente, pânico escatológico e permanente ameaça de todas as formas de terror — parar nem que fosse um segundo para discutir questões frívolas como esta.

(ARTE E TERROR II) - DEPOIS DOS SIMULADORES



1) O que significa discutir "questões frívolas" e, aparentemente, absurdas como, por exemplo, saber se o terrorismo pode ser uma forma de arte? O que implica, verdadeiramente, esgrimir pontos de vista acerca das afirmações recentes de Karlheinz Stockhausen e das menos recentes de Laurie Anderson ou de David Bowie? Tão simplesmente aquilo que, na igualmente recente entrevista com Leonard Cohen, ele próprio sublinhava: o luxo (luxo genuíno e sem preço) que significa vivermos numa civilização onde essas discussões têm ainda tempo, espaço e são autorizadas. Poderão não ser muito diferentes das dos sábios de Alexandria acerca do sexo dos anjos, quando as fronteiras do império desabavam sob o avanço dos bárbaros, mas o simples facto de poderem existir já diz o suficiente a propósito da grandeza da cultura que as possibilita. E é esse mesmo o ponto. Pode ser esse o ponto que a condena mas vale todos os riscos.


2) Há meses, numa entrevista com Brian Eno, interrogava-o acerca da sua concepção da arte como simulação das infinitas possibilidades da vida real, sem a hipótese irremediával da tragédia. E ele (sem imaginar sequer as consequências futuras do que dizia) exemplificava-me com a experiência dos simuladores de voo onde, mesmo quando tudo corre muito mal para pilotos inexperientes, ninguém sucumbe ao acidente. Eu respondi-lhe que, uma vez, depois de ver o filme Johnny Got His Gun, de Dalton Trumbo, tinha ficado uma noite sem dormir. Disse-me: "É, certamente, um bom filme, mas ninguém morreu realmente, pois não?". E, agora, após as Twin Towers, como vamos responder? Quando se ultrapassam os limites pensáveis de todas as possibilidades, como haveremos de pensar? (2001/2002)