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12 January 2026

Que, no exterior de todos os comícios do neo-facho, um carro com potente megafone lhe ofereça uma riquíssima banda sonora (XX)

Gypsy Jazz Classics | Django Reinhardt & The Hot Club of France: 2-hour collection of timeless gypsy jazz classics. Featuring the legendary Django Reinhardt on guitar and Stéphane Grappelli on violin, together with the Hot Club of France, this compilation brings you the true spirit of swing.

11 December 2022

 
(sequência daqui) Não se trata, evidentemente, apenas de “decompor rótulos e categorias” mas de reconhecer o gritantemente óbvio: excluindo episódios caricatos como o das bandas de “blue-eyed bluesmen” da década de 70 do século passado, a música contemporânea é medularmente mestiça e nenhum laboratório seria alguma vez capaz de, do jazz ao rock’n’roll, de Duke Ellington a Django Reinhardt, de Debussy a Philip Glass, do fado à morna, identificar o grau de pureza de cada autor, género ou peça musical. Basta espreitar, por exemplo, para o video de "Do I Love You (Indeed I Do)" – original de Frank Wilson – e da quase replicação de uma assembleia geral da ONU que os muitos músicos (cordas, sopros, vozes, percussão) em palco encenam nesta exuberante interpretação, para que se torne inteiramente claríssimo que, se a soul e o R&B clássicos tiveram uma origem cultural bem específica, hoje, são aquilo a que, facilmente, se chamaria património colectivo. Mas poderiam ser também a visceral "Turn Back The Hands Of Time" (de Tyrone Davis), a vibrante celebração colectiva de "Don’t Play That Song" (Aretha Franklin/Ben E. King), a imperial "The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore" (prévia incursão caucasiana pelos Walker Brothers), a complexa subtileza de "Nightshift" (Commodores), a profundidade panorâmica de "Someday We’ll Be Together" (Supremes), ou qualquer uma das outras 40 que, apesar de gravadas, acabaram preteridas. “Inspirei-me em Levi Stubbs, David Ruffin, Jimmy Ruffin, Jerry Butler, Diana Ross, Dobie Gray e Scott Walker, entre muitos outros, e tentei fazer-lhes justiça assim como aos autores desta gloriosa música”, declara Bruce, acrescentando “A minha intenção é que o público actual possa partilhar da sua beleza e júbilo tal como aconteceu comigo desde que, pela primeira vez, a escutei". Missão cumprida, Bruce.

Tyrone Davis

14 April 2021


(sequência daqui) O hip hop, como os blues, pode já não ser exclusivamente negro e Django Reinhardt, guitarrista cigano franco-belga, pode ter tocado com Coleman Hawkins e Duke Ellington, mas o ponto de vista não se deixa abalar: “É verdade. Mas eu desejaria que os Rolling Stones, os Led Zeppelin e o Paul Simon (o David Byrne é um caso um pouco diferente), em vez de se colocarem tão à defesa quando se lhes aponta o facto de se terem obviamente alimentado das músicas negras, aproveitassem a oportunidade de terem tantos relacionamentos multi-raciais – e, sem dúvida, existe esse desejo espontâneo de se misturarem e tocarem uns com os outros – para abordar o problema. Imagine se o Keith Richards tivesse dito ‘Tudo o que faço baseia-se na experiência de pessoas negras que eu nunca serei capaz de compreender’... Porque era bastante natural que os blues e o rhythm’n’blues tivessem uma ressonância na vida de miúdos ingleses pobres da altura. Mas teria sido muito diferente se ele acrescentasse ‘Vou dedicar a minha voz, o meu dinheiro, a minha energia e a minha projecção pública à justiça racial’. Vivemos num mundo que favorece as pessoas brancas. Tem sido assim há centenas de anos. Isto não significa que o racismo seja culpa minha. Mas disponho de uma excelente oportunidade para falar sobre o meu papel relativamente a ele. Recordo-me de que, quando o Bruce Lee veio até à Califórnia para dar aulas de kung fu a toda a gente, negros incluídos, houve uma grande resistência da comunidade local acerca de quem poderia ser autorizado a participar. Importante é termos consciência de que as pessoas de côr neste país não estão dispostas a continuar a viver desta forma”. (segue para aqui)

28 August 2018

CONHECER O SEGREDO 


“First thought, best thought” era o princípio orientador da poesia de Allen Ginsberg: dar livre curso ao pensamento “espontâneo” sem necessidade de o filtrar através de disciplinas ou formas estéticas. David Tattersall, dos Wave Pictures, prefere citar Neil Young – “The more you think, the more you stink” – e, a propósito do último album, Brushes With Happines, acrescenta: “Gravámo-lo todo, ao vivo, numa pequena sala, durante uma noite de Janeiro, até de madrugada. Escutá-lo é como estar presente numa cerimónia, conduz-nos até aquele lugar. É como ser-nos dado a conhecer um segredo que emana de um grupo de pessoas num determinado ponto, no tempo e no espaço. Imensas bandas alegam ter gravado o seu Tonight’s The Night ou Astral Weeks, um álbum especial registado naquelas raras circunstâncias noturnas, livres de pressões, uma colecção de jams inspiradas. Na verdade, não foi isso que aconteceu. Passaram eternidades a aperfeiçoá-lo. Este nosso é autêntico. Uma improvisação genuinamente embriagada” (no original, em inglês, “a genuine shitfaced improvisation” soa bastante mais realista). 



O método foi, aliás, um pouco mais radical: quando entraram na “pequena sala”, existiam apenas os textos de David para as nove canções e nem um compasso de música. Tattersall (guitarra), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria) teriam de se dedicar à descoberta das peças sonoras que faltavam ao "puzzle", sob a acção supostamente benfazeja dos estimulantes envolvidos. Já com Beer In The Breakers (2011) o plano fora idêntico: gravar num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com material emprestado por Darren Hayman (outra carta fora do baralho, responsável pela série em curso Thankful Villages), sem recorrer a "multitracking" nem "overdubs", em uma ou duas "takes". Desta vez, segundo a lenda, foi tudo à primeira "take". Publique-se a lenda. Porque, tenha acontecido rigorosamente assim ou não, o que importa é que a banda que, desde 2003, após dezasseis óptimos álbuns (e dezenas de colaborações) sem alguma vez ter ultrapassado a condição de “best kept secret”, produziu mais outro clássico confidencial de "words & music", instantâneos (“The little window that I look out of has a pleasing view, electricity pylons seem to be friendly with the trees”) e observações (“There’s something to be learnt from this burnt match”), aparições de Django Reinhardt, Jerry Lee Lewis e Peter Green, e a sombra, só a sombra dos blues.

23 February 2017

MÁFIA DE GUITARRAS 


Thurston Moore não poupa nas palavras: “Michael Chapman esfarrapa uma guitarra acústica da mesma forma que Kandinsky uiva com um pincel. A sonoridade do feedback que ele extrai de uma guitarra de caixa foi sempre o meu modelo quando faço improvisação noise”. Isto diz ele acerca de um tipo de 76 anos que, apesar de – com Roy Harper, Bert Jansch, John Martyn, Martin Carthy ou Davey Graham – ter sido um dos faróis do folk/blues britânico e ostentar um CV com quase cinco dezenas de álbuns, só agora, após anos demais confinado a um estatuto de culto excessivamente confidencial, com 50, se vê publicamente aclamado como há muito era devido, regiamente produzido por Steve Gunn (que inclui Chapman, juntamente com La Monte Young, John Fahey e Robbie Basho, na sua lista privada de gurus) . 

    O Michael Chapman foi uma das figuras importantes do "british folk/blues revival" dos anos 60. Que memória guarda dessa época? 
    Era um ambiente muito sociável, apenas um grupo de amigos com experiência de tocar em clubes de folk, tudo gente nada académica. Divertíamo-nos muito, viajávamos pelo país todo. Para mim, era tudo muito novo, antes disso, nunca tinha sido músico profissional. Aprendíamos a tocar com músicos como o John Renbourn, o Bert Jansch ou o Davey Graham que ampliavam os limites daquilo que era possível fazer com uma guitarra acústica. 

    No ínicio, quais eram os seus modelos musicais? 
    O primeiro é capaz de ter sido o Big Bill Broonzy, E o segundo o Django Reinhardt. Na verdade, a minha raiz não era a folk mas sim o jazz. 

    Esse grupo de que fazia parte ao qual poderíamos acrescentar, por exemplo, o Richard Thompson, constituía como que uma espécie de fraternidade musical, apesar das diversas origens musicais? 
    Éramos uma espécie de máfia da guitarra acústica! (risos) 



    Tem ideia de por que motivo, de um tão rico conjunto de guitarristas – embora todos se tenham tornado músicos de culto –, praticamente nenhum atingiu o estatuto popular de "guitar hero" como aconteceu com Jimmy Page, Eric Clapton ou Jimi Hendrix? 
    Suponho que tenha sido porque nenhum de nós alguma vez desejou ser encarado desse modo. Ser famoso não era aquilo de que andávamos à procura. Os Pentangle chegaram a ser famosos e, até certo ponto, poderíamos dizer que o John Martyn também... mas tínhamos a noção do valor daquilo que fazíamos e bastáva-nos isso. Quem toca guitarra acústica prefere não o fazer em salas demasiado grandes. Eu gosto de poder ver o tipo que está na última fila. E, se houver oportunidade, beber um copo com ele. Numa sala com 5000 pessoas não se pode beber com todas... embora possa tentar-se! (risos) 

    Segundo a lenda, tudo começou para si em 1966, numa noite de chuva na Cornualha, quando, para pagar a entrada num clube, se ofereceu para tocar. É mesmo verdade? 
    É verdade, é. Estava uma tempestade terrível e eu tinha decidido que ia dormir no carro. Mas apercebi-me que, com o ruído da chuva, nunca iria conseguir. Então, entrei nesse clube de folk e propus-lhes tocar durante meia hora. Acabei por aceitar uma contraproposta de tocar seis noites por semana durante todo o Verão. Nem olhei para trás: era mais dinheiro do que o que ganhava como professor de fotografia no Lancashire. Sem ter sido necessário tomar qualquer grande decisão, completamente por acaso, tornei-me músico profissional. 

    Custou-lhe deixar o ensino da fotografia? 
    Não. Saí na altura certa. Eu queria ensinar da melhor forma que era capaz mas não me deixavam. Colocavam-ne imensas restrições relativamente ao que podia fazer. É uma história longa e aborrecida... e como também namorava com uma aluna e a minha mulher não achava muita graça a isso... (risos) 



    O Michael tem uma discografia enorme... 
     ... é uma estúpidez, não é?... (risos)

     ... mas, ao longo de todos estes anos, tinha consciência de que era objecto de um culto tão grande por parte de músicos mais novos como Thurston Moore ou Steve Gunn? 
    Sim, aconteceu nestes últimos dez anos, especialmente na América. Não fiz de propósito. Fizemos concertos em conjunto e dei-me muito bem e fiz amizade com gente que tem metade da minha idade. É, outra vez, aquela história da máfia das guitarras só que, desta vez, na América. E, embora, na maioria, sejam guitarristas eléctricos, a mim tanto se me faz. Sempre toquei ambas, é-me indiferente.

    Como foi a relação com Steve Gunn que produziu este seu álbum? 
    Conheci-o há cerca de dez anos num festival de guitarras. Tinha ouvido os últimos álbuns dele e achei-os fantásticos. Por isso, quando conversei com ele, disse-lhe que não estava interessado em apenas mais um álbum-de-Michael Chapman, desde há muito desejava gravar com uma banda. Fomos para um estúdio em Nova Iorque e, durante três dias, gravámos uma quantidade de coisas bastante interessantes. Foi aí que me apercebi que poderíamos ir mais longe com aquele grupo de pessoas que não eram só bons amigos mas também grandes músicos. A combinação perfeita. 



    Porque decidiu regravar uma série de canções que já tinha publicado em álbuns anteriores? 
    Até cerca de três meses antes de começarmos a gravar, eu não tinha escrito nenhuma canção nos últimos quatro anos. Quando compus algumas novas para este disco, não imagina como fiquei feliz: estava convencido que nunca mais voltaria a ser capaz de o fazer. E, das antigas, escolhi as que tinham sido incluidas em álbuns nunca publicados na América. 

    Apesar de a música americana ter sido sempre uma referência central na sua, este álbum – porque foi gravado nos EUA e com músicos locais – é apresentado como o seu primeiro “álbum americano”. Na actual situação política deste país, não é um momento particularmente problemático para se fazer essa associação? 
    (risos) O álbum foi gravado já quase há um ano. E queríamos publicá-lo também em vinil. Acontece que a maioria das fábricas de discos de vinil foram desactivadas. Leva praticamente um ano a conseguir que um disco seja prensado. E quando o disco foi concluído a situação política era diferente. Mas compreendo bem aquilo que quer dizer. As coisas estão numa enorme confusão. E, provavelmente, ainda irão ficar pior. Mas não sei... teremos de esperar para ver. Não sei se não deveríamos dar uma oportunidade ao homem... embora, na minha lista de prioridades, isso esteja lá bem no fundo.

19 October 2016

APROPRIAÇÃO CULTURAL 

Debussy - "Pagodes" (Martha Argerich)

Nas páginas do “Guardian”, nas últimas semanas, tem sido tema constante. Tudo começou, pela notícia da intervenção da escritora Lionel Shriver, numa conferência em Brisbane, na qual contava a história de dois estudantes do Bowdoin College, no Maine, EUA, que, no início deste ano, organizaram uma festa temática de aniversário para um amigo. Sendo a tequila o tema, distribuiram "sombreros" pelos convidados. Mal as fotos da festa surgiram nas redes sociais, desencadeou-se uma tempestade na universidade: acusados de “estereotipificação étnica”, os “culpados” foram expulsos das instalações que ocupavam e a associação de estudantes exigiu que fossem tomadas medidas que impedissem novos e pérfidos actos de “apropriação cultural”. Pouco depois, foi a notícia de uma empresa canadiana produtora de um gin aromatizado com plantas silvestres do norte do país, obrigada a pedir desculpa ao povo Inuit (anteriormente designado como “esquimó”, o que viria a ser considerado insultuoso) por causa de um video publicitário de animação onde apareciam bonecos Inuit, canoas, cantos tradicionais, igloos e ursos polares. O pecado? “Apropriação cultural”. Logo a seguir, chegou a vez da Disney, forçada a acto de contrição por, no filme (ainda por estrear) Moana, se ter atrevido a representar personagens, trajes e adereços nativos da Polinésia.

Django Reinhardt - "Blues"

Acerca de tão iníquas profanações identitárias – proibido seria ainda que um escritor abordasse temas e contextos exteriores ao seu género, etnia, orientação sexual –, Shriver afirmara: “Ser membro de um grupo não é uma identidade. Ser asiático, gay, deficiente ou pobre não é uma identidade. (...) Se abraçarmos identidades de grupo estreitas, encerramo-nos nas próprias jaulas em que nos querem aprisionar”. Mas poderia também ter acrescentado que, se pretender conduzir-se a denúncia da “apropriação cultural” às últimas consequências, irá ser necessário, por exemplo, eliminar uma imensa fatia da história da música ocidental: não serão as "mourisques" e "morris dances" uma ofensa à cultura árabe? Deveria Mozart ter-se permitido o “Rondo Alla Turca” e o francês Bizet ter composto a Carmen? Debussy tinha autorização para colher inspiração nos gamelãs de Java? E Duke Ellington errou gravemente ao incorporar Debussy e Ravel que, por sua vez, bebeu do jazz, género que o cigano franco-belga, Django Reinhardt, também praticava? E as intimidades de Philip Glass com a música indiana para não falar das inomináveis promiscuidades rock, blues e country? Muitas cabeças irão ter que rolar...

03 July 2015

SEGUNDA PELE


É oficial: Richard Thompson aderiu ao marxismo. Não na variante m-l, nem sequer na mais heterodoxa tendência Groucho. A de Thompson, foi criada por Henry Charles Marx (1875-1947), fundador da companhia Marxochime Colony, no Michigan, e inventor do marxophone. Descrito como “bandolim-guitarra-cítara” ou, alternativamente, celestaphone, é uma espécie de dulcimer vitaminado, membro obscuro da numerosa família de instrumentos híbridos, muito popular entre o final do século XIX e início do XX, que deu, igualmente, ao mundo o ukelin (ukulele+violino) e a tremoloa (cítara+guitarra havaiana). Na verdade, nem será coisa assim tão esotérica, na medida em que, dos Doors a Fiona Apple, Laurie Anderson, Aimee Mann, Beach Boys, Portishead, Fleet Foxes (e mais umas dezenas de outros), sem que o suspeitássemos, esteve presente em considerável número de gravações. Deixemos, então que, à quarta faixa de Still ("Broken Doll"), o marxophone nos arrepie sobre o gemido de um órgão distorcido, olhos nos olhos com o abismo (“As you look through me to something else, in your eyes I think I see twisted up infinity, angel soul imprisoned in a shell”). 



Sim, porque, quando se trata de Richard Thompson – desde "The End Of The Rainbow" até, aqui, a "Dungeons For Eyes" –, podemos estar certos que a dor e a débil crença na benignidade da espécie que se lhe colam como uma segunda pele, serão sempre, irremediavelmente, o "plat du jour". Aceitando ser produzido por Jeff Tweedy (Wilco), não pode afirmar-se que as marcas deste sejam notórias: as canções fluem magnificamente por entre palavras ácidas (“He’s smiling at me, the man with the blood in his hands, the man with the snakes in his shoes, am I supposed to love him?”), melodias que tanto ecoam e transfiguram a tradição folk britânica como se ajeitam a inflexões jazzy ou a modalismos orientais, e uma guitarra lança-chamas mas visceralmente geométrica e avessa à tagarelice. Isto é, (im)puríssimo Richard Thompson, exactamente o mesmo que se permite oito minutos finais de descompressão em "Guitar Heroes", homenagem e paráfrase dos mestres (Django Reinhardt, Hank Marvin, Chuck Berry, James Burton, Les Paul, Dale Hawkins) rematada pela confissão “I still don’t know how my heroes did it!”

16 October 2013

SIM, SIM, SIM 


Em 2011, naquelas trepidantes semanas finais do ano em que, guiando-nos fidelissimamente por parâmetros de avaliação estética praticamente científicos, nos é confiada a superior missão de decretar os melhores dos passados doze meses, quando, por entre tubos de ensaio fumegantes e folhas de Excel densamente preenchidas, ficou, enfim, concluído o processo, o resultado não poderia ser mais surpreendente (mas ciência é ciência!): no meu top 10, surgiam 9 álbuns com assinatura feminina, sendo Tom Waits (Bad As Me) o único intruso do género oposto. Ignoro em que medida isso poderá contribuir para o febril debate em curso (travado com instrumentos de análise não menos científicos do que os utilizados pela crítica musical) acerca dos consistentemente melhores resultados académicos das raparigas – é verdade que, no ano seguinte, tão avassaladora hegemonia não se repetiu – mas, dessa brigada de assalto, de acordo com os testes preliminares de selecção, encontram-se já bem colocadas para, em 2013, repetir a proeza, June Tabor, Laura Marling e no que, agora, vem à conversa, Anna Calvi. 


Por altura do álbum de estreia homónimo, o respeitável "hype" dos fãs instantâneos Brian Eno e Nick Cave ter-lhe-á, certamente, dado jeito para arrebitar orelhas distraídas. Mas, quem a escutou, rapidamente se terá apercebido de que estava perante mais um espécime particularmente valioso da classe artista pop-com-"pedigree"-de-conservatório: Calvi cantava como uma Callas membro do clube de fãs de Siouxsie Sioux, supliciava a guitarra de modo só igualado por St. Vincent, compunha nos interstícios das partituras de Debussy, Bowie, Morricone e Django Reinhardt e apresentava-se como potencial modelo fotográfico que não passaria despercebido – entre outros – a Karl Lagerfeld. Tudo motivos bastantes para que o segundo, One Breath, agora publicado, assumisse o duplo carácter de acontecimento de relevo e pretexto de confirmação definitiva (ou não). E o veredicto é sim, sim, sim! Nem uma só das qualidades antes reveladas é contrariada e várias outras se descobrem, fazendo pensar que o famigerado piropo de Eno (“o acontecimento musical mais importante desde Patti Smith”) pecava seriamente por defeito. Escutem "Piece By Piece": o crescendo da floresta de "pizzicati" de uma orquestra em afinação abre a porta a uma melodia hipnótica que se deixa abalar pelos espasmos controlados da guitarra. A mesma guitarra que, atrás, em "Eliza", se enroscara vertiginosamente como uma serpente pela batida rítmica acima, puxando a ascensão épica para além da estratosfera. Espreitem, a seguir, o vídeo de "Sing To Me", realizado por Emma Nathan: Nick Cave tem aqui o ponto de partida para passar das palavras aos actos e começar a escrever o seu segundo "western spaghetti", depois de The Proposition – a banda sonora da melhor discípula contemporânea de Morricone já existe. E prestem atenção também a "One Breath" (Portishead desagua em Mahler), "Cry" (a "torch song" segundo Hendrix), "Love Of My Life" (Hendrix esquartejado pelo punk) e "Carry Me Over" (todas as pegadas vão dar a Scott Walker). Disco do ano, qual a dúvida?

13 December 2011

ANNA CALVI - MY LIFE IN MUSIC (II)



Cocteau Twins - Heaven Or Las Vegas

"She's not really singing words, so all you have is the emotion of the melody. (...) How you say something is often more important than what you're saying".




Django Reinhardt - Limehouse Blues

"My dad used to play guitar and when I was about six, he'd strum along with Django's chords while I'd play Stéphane Grapelli's violin parts. When I was a bit older and started playing guitar, I fell in love with his style".

(número de Dezembro da "Uncut")

(2011)