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03 November 2020

O TEMPO EM QUE VIVEMOS

 

Num momento, Elvis Costello estava num estúdio de Helsinquia, sozinho com a guitarra, a gravar os esboços de três canções, e, no momento seguinte, descobria-se de regresso a casa, em Vancouver, no Canadá. Tudo se passou entre o início do passado mês de Fevereiro e o meio de Março, quando o mundo que conhecíamos começou a desaparecer: “Depois de Helsinquia, fui a Paris onde trabalhei com o Steve Nieve e um grupo de óptimos músicos franceses que ele reuniu. Não tinha nenhuma música escrita, apenas as sequências de acordes. Eles tocaram maravilhosamente e avançámos imenso. Durante cerca de um mês não cheguei a ouvir o resultado final porque viajei para Liverpool onde ia começar uma digressão com os Imposters. Estava a correr tudo muito bem quando, de repente, por causa do vírus, as pessoas começaram a deixar de aparecer nos concertos e compreendi que estava na altura de cancelar tudo e voltar para o Canadá para ir ter com a minha família antes que fechassem as fronteiras”, conta ele, ao telefone, a partir da costa ocidental canadiana. “E ali estava eu, na ilha de Vancouver, a olhar para aquele imenso mar e a tentar perceber onde tudo isto iria parar...” 

Não ficou muito tempo assim. Poder ter todo o tempo para estar com a mulher, Diana Krall, e os filhos gémeos terá sido uma benção mas é difícil imaginá-lo parado. Estava já em curso a operação da iminente mega-republicação – em 9 vinis e muito outro “material de apoio” – de Armed Forces (1979) e o novo álbum, Hey Clockface, tinha ficado suspenso: “Foi nessa altura que o Michael Leonhart me enviou duas músicas que viriam a ser ‘Radio Is Everything’ e ‘Newspaper Pane’. Posso dizer que essas duas músicas foram o que me permitiu ter uma visão do que, poderia ser um álbum coerente. Apesar de ser um disco de enormes contrastes, a mistura do Sebastian Krys – com quem já tinha trabalhado em Look Now – não contribuiu para que as faixas soassem todas semelhantes mas para fazer sobressair a intensidade de cada uma delas: se ‘No Flag’ se situa num extremo e ‘Byline’ no outro, há também momentos de composição espontânea nas peças de 'spoken word' em que procurei descobrir atmosferas musicais que pudessem articular-se bem com aqueles textos. Desejei, realmente, experimentar coisas diferentes. Se não fosse assim, teria simplesmente ido com a minha banda para estúdio. O que foi também uma forma de tirar o melhor partido de uma situação que nunca teríamos sido capazes de imaginar”

A coerência estética e sonora estava assegurada e, para isso, não foi necessário nenhum tema recorrente, ainda que, para quem desejar escutá-lo à lupa, possam surgir pistas de investigação; “É sempre possível descobrir relações entre algumas canções mas não gosto de deixar as pontas soltas demasiado à vista. Só reparo nessas possíveis ligações depois de as ter gravado. Há certas ideias que podem destacar-se, a forma como observamos e comentamos pode ter uma raiz comum – ‘Newspaper Pane’ e ‘ Byline’, por exemplo, são ambas sobre a escrita jornalística –, se procurarmos, acabaremos sempre por encontrar alguma coisa. Mas isso não foi nada que eu tivesse planeado, não existiu uma matriz previamente pensada. Permiti apenas que as músicas se fossem acumulando. O momento em que procuramos encontrar uma estrutura para um álbum é quando pensamos na sequência das canções, como jogar com os contrastes entre textos, andamentos e tonalidades – podemos nem ter consciência de que duas canções estão no mesmo tom, mas, ao ouvi-las, sentimos isso –, há imensas razões para que as canções surjam numa determinada ordem e os temas emergem a partir desses contrastes”

“No Flag”, por exemplo, que a intriga crítica quis ver como uma “canção de protesto” – embora recorde muito mais um verso (“Apenas o mastro em que a bandeira é hasteada e o vento. Nenhuma bandeira”) do poeta persa medieval, Rumi, tão amado por Leonard Cohen – é, afinal, apenas um equívoco interpretativo de algo que comenta a fragilidade fundamental dos tribalismos identitários: “Nunca seria uma canção de protesto porque isso implica colocarmo-nos de um lado contra outro. O dia em que acordamos para o facto de que a lealdade a crenças ou a religiões não nos traz nenhum consolo é um dia difícil. Porque, se removemos as bandeiras, temos de nos confrontar com os valores essenciais. ‘We’re All Cowards Now’ é também acerca desse relexo de nos irarmos tanto com algumas coisas que vão acontecendo no mundo que tudo se torna conflitual. Apetece dizer: 'Pensas que és muito corajoso com essa arma na mão. Que tal se a atirasses ao chão? Serias exactamente igual a mim”. Escrevi-a há dois anos mas, pelo que vemos hoje à volta, só posso dizer que, desgraçadamente, tudo se confirmou. E, pelo título, pode reparar que não é uma canção de acusação, não excluo ninguém, incluo-me a mim mesmo. Ninguém está imune a ser sugado por este dilúvio de desinformação, estupidez e superstição. Não as vejo, de facto, como canções de protesto mas como reflexões acerca do tempo em que vivemos”

O que poderá servir como óptimo pretexto para reavaliar uma canção como "Tramp The Dirt Down" (1989), na qual Costello expelia fel sonhando com o dia em que o túmulo de Margaret Thatcher desceria, enfim, à terra: “Mesmo essa era muito mais acerca do que Margaret Thatcher representava, daquilo que personificava em matéria de filosofia e dogma político, do que sobre ela enquanto pessoa. Foi uma canção que, então, naquelas circunstâncias, eu escrevi, e estas são as canções que agora escrevo. Tento arrumar todas as canções que escrevi como reacção a alguma coisa num canto do cérebro onde não se transformem numa força estática. A vida e as circunstâncias mudam. Sou capaz de pensar no tipo de canção que poderia escrever acerca do nosso primeiro-ministro: seria uma canção cómica ou sonsa. É muito fácil escrever canções puramente confrontacionais. É possível que, dos tempos actuais, surjam canções que, no futuro, reconheceremos como marcas desta época. Mas não há nenhuma regra que diga que tenho de ser eu a escrevê-las”

A reedição de Armed Forces – que poderá ser ou não o início de um processo a estender a toda a restante discografia – acompanha a tendência crescente para o ressurgimento contemporâneo do vinil e também a revalorização do álbum face à molecularização do "streaming". Mas será algo para ficar ou somente uma moda temporária? “Todas as coisas são temporárias. Os meus três primeiros álbuns foram registados num gravador de 8 pistas. Mas a minha vida organizava-se à volta das cassetes: gravava as canções novas em cassetes e entregava-os a amigos ou a outros músicos para que as aprendessem e também as trocávamos com música gravada do vinil ou da rádio. Quando o digital se tornou dominante, o CD era aquela coisa mágica, praticamente indestrutível, que podia acolher imensa música. Com o tempo, fomos compreendendo que não era assim tão melhor. Finalmente, com o mp3 e o 'streaming', temos acesso a praticamente toda a música mas não temos aquele objecto, o disco. Nunca gostei de CD, o 'artwork' perdeu a dimensão indispensável. Mas não tenho poder para definir as regras. Se me perguntarem o que é um disco, eu respondo que é uma rodela de vinil de 12 polegadas. O CD deu-nos a possibilidade de termos música portátil que podíamos ouvir em qualquer lado, em casa ou no carro, o que é óptimo. O 'streaming', para mim, é como a rádio sem conversa, podemos escolher o que ouvir ou escutar aleatoriamente. O que não tem nada de mal, podemos tropeçar em meia dúzia de canções que nunca tínhamos ouvido antes. Não me apetece fazer um manual de instruções acerca de “como devemos ouvir música”, tudo é possível e nada é permanente. No futuro, outras coisas existirão”

Uma das coisas que, inexplicavelmente, continuam a existir é a OBE (Ordem do Império Britânico), condecoração atribuida pela rainha de Inglaterra a súbditos notáveis nas artes, ciências e actividades de caracter social. Que muitos recusam e Elvis Costello, surpreendentemente, aceitou. Na realidade, pelos melhores motivos: “Inicialmente, pensei recusá-la. A atribuição das OBE é como aquelas vendas por liquidação total... (risos) atribuiram-ma mas tenho a certeza de que nunca ouviram uma palavra das minhas canções!... O meu pai cantou em Buckingham, em 1958 e 1962, quando estava na Joe Loss Orchestra, para o pessoal do palácio. Desempenhou o papel de empregado dos empregados, cantou para os criados da rainha. Por isso, não entrou no palácio pelo portão principal. Sabe quem o fez? Eu!... (risos) Tudo aquilo que o império representa é, sem dúvida, absolutamente errado. Mas, na verdade, já não existe, literalmente, nenhum império nem eu preciso de qualquer certificação real acerca do valor daquilo que faço. No entanto, tinha curiosidade de, um dia, ali entrar e ver o que lá se passava. Afinal, desde há muito que pago impostos para sustentar a família que ali vive!”

15 May 2008

EM 2003 ERA ASSIM
(a propósito de Amy Winehouse que, via Rock In Rio,
promete ser a praga mediática dos próximos tempos,
só ultrapassada pelo massacre da eurobola)


Quem ouve jazz? Um vírgula muito poucos por cento acima de ninguém. Quem ouve jazz? Uns bastante confortáveis milhões desde que, muito generosamente, o jazz aceite incluir Norah Jones ou Diana Krall entre os primos afastados. Não é uma questão de opinião. São as estatísticas dos BPIs e Billboards deste mundo que assim as classificam. Aparentemente, no mesmo momento em que as vendas globais de CD descem a pique, as de jazz subiram para uns honrosíssimos (não se riam) 2%. Porquê? Porque Norah Jones e Diana Krall "são jazz" e, assim, se encarregam de fazer o "upgrade" do saguão da indústria que partilham com Charlie Parker, Miles Davis, Mingus, Ornette, Coltrane ou Ellington. Na verdade, se o rock, depois de morto, deixou de ser a causa dos rebeldes sem causa para se transformar numa terapia ocupacional dos tempos livres adolescentes, se a pop quimicamente pura passou a ser mera coreografia de hypes e starlets semestralmente renováveis, se a clássica já obriga a pré e pós-produção de imagem, porque haveria o jazz de se deixar ficar pelintramente orgulhoso da sua "integridade"? Porque não haveria de se conformar com a missão de "coffee table music" e aceitar a condição de produto de consumo, lado a lado com o Xanax, o futebol ou a leitura da "Caras"? Afinal, pelo meio dos anos 80, Sade Adu, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl não tinham já sido empacotados como "the british jazz revival"?

Em poucas palavras: a indústria descobriu um filão. E ele, hoje (para além de Krall ou Jones), dá pelos nomes de Peter Cincotti, Katie Melua, Jamie Cullum, Michael Bublé e Amy Winehouse. Aspiram ao estatuto de "novos Sinatras" ou "novas Peggy Lee/Julie London/Ella Fitzgerald" e são todos muito jovens e bem apessoados. Cincotti, por exemplo: 20 anos, americano, nº1 na tabela de jazz da Billboard com o álbum homónimo de estreia, também terceiro mais vendido de 2003 na categoria, estreia cinematográfica anunciada em Spider Man 2 e Beyond The Sea, de Kevin Spacey. Como é, então, o "jazz wunderkind" ungido como messias pela "Vanity Fair"? "Good looks" de modelo masculino em versão BCBG, voz banalmente "flat" que até arrepia citar no mesmo fôlego que Sinatra, pianista competente como milhares de outros em actividade nos bares de Nova Iorque, arranjos e interpretações "not quite pop, not quite jazz" para quatro originais descartáveis e um reportório de "standards" que vai dos Beatles a Blood Sweat And Tears e Fats Waller. A competição directa por este nicho do jazz ultra-light vem de Michael Bublé (25 anos, canadiano) e Jamie Cullum (24 anos, inglês). O primeiro (em registo também homónimo) investe na mimetização fiel dos tiques da era do swing e não lhe parece mal atirar-se a canções dos Bee Gees com a participação dos próprios, ao mesmo tempo que assume a pose de crooner de casino delicodoce, doravante indispensável no lobby dos melhores hoteis. Cullum (Twentysomething, dupla platina em Inglaterra), esse, faz o género de "enfant terrible", mais copos-gajas-e-terra-nas-unhas do que luva branca, que não desdenha dar cabo de Hendrix, Jeff Buckley, Radiohead e Who por entre versões igualmente pedestres de clássicos de Cole Porter e Lerner/Loewe e composições próprias. O Algonquin Hotel de Nova Iorque já lhe abriu as portas pelo que se prevê uma disputa renhida pelo título de rei do "dinner jazz". Pelo menos tão renhida como a do torneio feminino Krall/Jones, com Katie Melua (19 anos, origem russa e residência britânica) e Amy Winehouse (19 anos, inglesa) na qualidade de "outsiders most likely". Frank, de Winehouse — suposta discípula de Ella, Dinah, Sarah e Ray Charles, várias nomeações para os Brit Awards —, tem a virtude de tanto beber da velha tradição jazz quanto da "nova" funk/soul/hip hop e, por aí e por alguma individualidade menos oriunda "de fábrica" (ainda que a léguas do almejado modelo Erykah Badu), fugir um pouco ao estereótipo lounge-nostálgico. No qual, Melua e Call Off The Search (1º lugar do top inglês) mergulham de cabeça mas, esbracejando pelo galardão de Norah-Jones-de-Holiday Inn, provam, contudo, a existência de um público ávido das suaves insignificâncias da "mood music". (2003)