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02 October 2022

26 September 2021

Saintmaking: the canonisation of Derek Jarman by queer 'nuns' (real. Marco Alessi)

"This year marks the 30th anniversary of film-maker Derek Jarman’s canonisation by an activist group of gay male 'nuns' known as the Sisters of Perpetual Indulgence. At the time in 1991, Derek Jarman was the most prominent person in the UK living openly with HIV. He was outspoken, radical and unapologetically queer" (aqui)

04 August 2020

ALMANAQUE DE EMOÇÕES


Quando, após 63 anos a despachar, por encomenda, 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra, Antonio Vivaldi, em 1741, morreu como um quase indigente, ninguém se arriscaria a prever que, 200 anos mais tarde, haveria de ser celebrado enquanto autor de um dos “greatest hits” do reportório “clássico”, As Quatro Estações. A popularidade da sua música já tinha visto melhores dias e, de facto, até ao fim dos anos 20 do século passado – quando uma colecção de centenas de partituras suas foi descoberta num mosteiro perto de Turim –, caíra completamente no esquecimento. Desse momento em diante, porém, de adereço sonoro publicitário a toque de telemóvel, não haverá muito quem, mesmo ignorando tudo sobre este precursor da Tin Pan Alley com uma costela proto-punk (é favor ouvir os 3 minutos e picos da totalidade do Concerto "Alla Rustica"), não lhe tenha passado pelo menos um fragmento das Estações pelos tímpanos. 

"Harvest" (c/ Kayla Cohen)

Inevitavelmente, o impulso para as citar, parafrasear e reinventar foi fortíssimo e a ele não resistiram, ente muitos outros, os Swingle Singers, Philip Glass, Piazzolla, Max Richter ou, mais recentemente, Anna Meredith, em Anno (2018). É, agora, a vez dos Modern Nature que, após a estreia, How To Live (2019), inspirada pelo jardim de Derek Jarman em Dungeness, quase por acidente, em Annual, retomaram o modelo: ”Pelo fim de 2018, comecei a preencher um diário com palavras, observações de caminhadas, descrições de acontecimentos, associações livres... relendo-o, à medida que o ano progredia do Inverno para a Primavera, do Verão para o Outono, a tonalidade do diário parecia mudar também. Dividi o diário em quatro estações e usei-as como matriz para as quatro canções principais”, explica Jack Cooper que, com o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers) e o percussionista Jim Wallis, constitui os Modern Nature. Calendário conceptual e almanaque de emoções e memórias, é um breve ciclo de canções em filigrana, com a poética da folk, a paleta do lirismo jazz e a respiração de um minimalismo pastoral.

20 February 2020

Derek Jarman and friends 
in Dungeness (mais aqui)


"Recently Jarman has campaigned against the closure of St Bartholomew's Hospital. Once again, he was just really talking about himself: 'There's a good deal of fun about the place. And I don't think you could get treatment like that anywhere else in the world. It's state of the art, both in the treatment, and in the freedom you're given. 'Derek, we're going to give you this, this and that.' But if you were to say 'I honestly don't want these, Mark', he'd say, 'It's up to you'. How long do you carry on against the inevitable? Do you let it happen? There is that freedom for you to say, 'end of treatment'.' There is a line in Blue: 'We all contemplated suicide. We hoped for euthanasia.' 'I just wanted to know what my doctor would think,' Jarman says. 'He was very, very uncommittal about it. I said that I really didn't want to end up an absolute wreck, that I'd prefer to be quietly terminated. We discussed it, and he didn't really say anything apart from a tacit agreement that it might be a possibility. What's the point of hanging on grimly if it's just a few agonising weeks? The funny thing is, if you are very unwell you don't register everything, you just come and go, half-conscious. I told one of the sisters that it's worse when you get better, when you begin to feel the pain'"(daqui; ver também aqui)

24 September 2019

UM LONGO CAMINHO

  
Dungeness é um promontório na costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, uma reserva natural de Especial Interesse Científico devido à sua particular geomorfologia bem como às ricas fauna e flora. É também o local onde, desde 1983, se ergue uma central nuclear que, apesar de, diversas vezes, ter apresentado problemas graves, só tem o encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que Derek Jarman – cineasta, encenador, pintor, escritor, poeta e activista pelos direitos gay –, imediatamente após ter sido dignosticado HIV-positivo em 1986, comprou uma velha casa de pescadores em torno da qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria sob a assombração da central (“Vê-se um por-do-sol ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão foi o de 1993 e o título do diário, Modern Nature


Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral e tensão urbana como achou o nome da banda que sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern Nature. Escutando How To Live, apetece dizer que foi necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente, alguns dos locais de paragem – Richard Thompson, Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman, Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda – mas, à extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca), It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants. Num video dividido entre paisagem rural e marítima e fragmentos de "morris dancing", leia-se um discreto manifesto de serena perplexidade: “Modern nature, great failure, tired and broken old creator, grand space race, find a new place, high above the barren fixed state (…) hide my eyes, my ears, away to nature”.

19 December 2017

ISRAEL, OS MEDIA E SEXO ORAL 


Há muitas luas, escrevendo sobre um "songwriter" estimável mas que a História só em rodapé registará, ousei compará-lo (favoravelmente) ao Bob Dylan de então. E, para eterna vergonha e infinda penitência futura, afirmava, convicto: “Não consegue entender-se muito bem por que motivo uma geração inteira, há anos, persiste em convencer-se e em tentar convencer as seguintes de que Bob Dylan, do ponto de vista criativo, não se encontra definitivamente empalhado”. É verdade que estava ainda muito próxima a idade das trevas-"born again" do futuro Nobel da Literatura que, agora, no 13º volume da "Bootleg Series", a Columbia pretende reabilitar. Fraca atenuante, porém, face ao arrasador desmentido que toda a obra imediatamente posterior de Dylan se encarregaria de fazer. Funcionaria, contudo, no longo prazo, como vacina (relativamente) eficaz contra juízos demasiado apressados. Mas, no que diz respeito ao Morrissey actual, é bem provável que nem um reforço da primeira dose evitará que lhe supliquemos que pare de emporcalhar a memória dos Smiths e, sejamos justos, de uma parcela importante da sua discografia a solo. 



O impulso incontrolável para o disparate é, nele, lendário. Se, em matéria de panfletarismo vegan, apontar as malas de Beyoncé como causa para o risco de extinção do rinoceronte poderá ser só tolice, acusar o povo chinês de ser “uma sub-espécie” em virtude dos seus hábitos alimentares ou relativizar o terrível massacre de 2011, na Noruega, perante “o que acontece, todos dias, nos McDonald's”, já é, francamente, mais grave. E verdadeiramente indesculpáveis são declarações tais que “Estou convencido que brancos e negros nunca se darão bem nem gostarão uns dos outros” ou “Quanto maior é a imigração, mais rapidamente a identidade britânica desaparece”. Tudo isto desajeitadamente contrabalançado por indignados protestos – “Abomino o racismo, a opressão e crueldade de todos os tipos” - e objectivamente contrariado pela muito especial relação de mútua paixão com a comunidade “latina” de Los Angeles, à qual dedicou a canção "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… it seems if you're rich and you're white, you'll be alright”) e a quem, durante a campanha presidencial norte-americana, incitava a não votar em Donald Trump.



Aparentemente, Morrissey é incapaz de viver sem isto: agora mesmo, num concerto de ante-estreia na BBC6 de Low In High School, pareceu-lhe apropriado insinuar, totalmente a despropósito, o apoio a Anne Marie Waters, candidata ferozmente anti-islâmica à direcção do já desmedidamente xenófobo UKIP. Realmente desastroso é que se, embora com imensa dificuldade, ainda ia sendo possível separar os dislates-“bigmouth” da obra gravada, desta vez, eles invadem e apoucam as canções de forma irremediável. Num álbum em que dir-se-ia existirem apenas três temas – Israel, os media e sexo oral -, as hostilidades abrem-se em modo de "glam" artriticamente pesadíssimo com a portentosa proclamação... err... trumpiana, “Teach your kids to recognize and to despise all the propaganda filtered down by the dead echelons mainstream media”. Um pouco mais adiante, naquilo que até poderia ser uma sedutora variação de Debord/Vaneigem sobre O Elogio da Preguiça” (“Spent the day in bed, very happy I did, yes I spent the day in bed, as the workers stay enslaved (...) Oh time, do as I wish, time, do as I wish (…) And no bus, no boss, no rain, no train”), de súbito, regressa a obsessão: “Stop watching the news! Because the news contrives to frighten you, to make you feel small and alone, to make you feel that your mind isn't your own”. O que, convenhamos, combina mal com a rudimentar retórica tablóide da morosa "Israel" (“they who reign abuse upon you, they are jealous of you”), tema que, no tango de casino de "The Girl From Tel-Aviv Who Wouldn't Kneel", desenvolve com uma argúcia política de taxista (“What do you think all these conflicts are for? It's just because the land weeps oil”).


Em memória do saudoso "Margaret On The Guillotine", há gestos de simpatia – o “Axe the monarchy” da imagem da capa, a paráfrase anti-militarista sobre "Universal Soldier”, de Buffy Sainte-Marie, em "I Bury The Living" (“You can’t blame me, I'm just an innocent soldier, (…) Give me an order! I'll blow up a border, give me an order and I'll blow up your daughter”) – mas, de um modo geral, com dois ou três momentos de contacto oro-genital para criar o clima adequado, tudo se resume a um serôdio "flower power" de Twitter: “They say presidents come, presidents go, but all the young people they must fall in love”. Para lavar os ouvidos, nada melhor do que optar pela reedição de The Queen is Dead (1986), estojo de algumas das máximas preciosidades Morrissey/Marr ("The Boy With The Thorn In His Side", "Bigmouth Strikes Again", "There’s A Light That Never Goes Out"…). Com todos os bónus, raridades e "lives" de rigor, Alain Delon baleado, na capa, título subtraído a Hubert Selby Jr., e video de 13 minutos de Derek Jarman. Mas, sobretudo, com Morrissey ainda vivo.