Pedro Gonçalves (1970-2021)
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05 December 2021
30 December 2011
2011 - MÚSICA: PORTUGUESES

Osso Vaidoso - Animal

Campanula Herminii - Cumeada

Cristina Branco - Não Há Só Tangos Em Paris

Dead Combo - Lisboa Mulata

Fernando Alvim & Vários - Os Fados e as Canções do Alvim

César Prata - Canções de Cordel

Os Lacraus - Os Lacraus Encaram O Lobo

Paus - Paus

Kubik - Psicotic Jazz Hall

Smix Smox Smux - Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão Os Exércitos Capitalistas

A Presença das Formigas - Ciclorama
(2011)
Osso Vaidoso - Animal
Campanula Herminii - Cumeada
Cristina Branco - Não Há Só Tangos Em Paris
Dead Combo - Lisboa Mulata
Fernando Alvim & Vários - Os Fados e as Canções do Alvim
César Prata - Canções de Cordel
Os Lacraus - Os Lacraus Encaram O Lobo
Paus - Paus
Kubik - Psicotic Jazz Hall
Smix Smox Smux - Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão Os Exércitos Capitalistas
A Presença das Formigas - Ciclorama
(2011)
02 December 2011
BANCOS DE APOSTAS
Os Fiery Furnaces são o género de banda que, em vez de, no mesmo número de compassos, fazer um acorde seguir-se ao anterior, prefere alinhar um fragmento de canção ao outro – inteiramente diferente – que, imediatamente, o antecedia. Fosse pintura aquilo a que se dedicam e, onde se esperaria uma sucessão de tonalidades de azul, poderíamos ter como certo que veríamos uma gincana cromática de verde, amarelo e lilás. O mesmo, aliás, acontece com os textos. Ligeira correcção: acontecia. Desde I’m Going Away (2009) e, parcialmente, Widow City (2007), uma espécie de quase-normalização formal pareceu deixar de ser mal vista pelos manos, Eleanor e Matthew Friedberger, que chegaram até ao impensável de autorizar a intromissão de extravagantes bizarrias como o modelo estrofe-refrão-estrofe nas suas canções. Last Summer, primeira aventura a solo de Eleanor, deixa suspeitar que poderá ter sido ela o catalizador da mudança: pensado como uma evocação dos primeiros tempos da sua chegada a Nova Iorque – mais exactamente, a Brooklyn –, há dez anos, estrutura-se como um micro-"travelogue" urbano que acolhe benignamente os exercícios de estilo (dos "girl groups", à Motown e ao funk), sem que, por isso – a personalidade musical de Eleanor é suficientemente vincada para lhe permitir devorar sem ser devorada –, se transforme em colega de turma dos Best Coast, Cults ou Tennis, ou abdique de confessar peculiares intimidades como “watching ‘Footloose’ with the biggest bottle of vodka in the world”. No festival Mexefest, que, a 2 e 3 de Dezembro, ocupará cerca de uma dezena de espaços em Lisboa, Eleanor Friedberger será, de certeza, um dos concertos por que se deve optar.
Espalhados pelo planeta físico e virtual, há mil sinais a indicar-nos que o outro só poderá ser o de Josh T. Pearson, texano bardo "alt.country" da dor-de-corno, alegadamente erigida em superior forma de arte. Candidato a figurar em inúmeras listas de “melhores de 2011”, Last Of The Country Gentlemen, porém, sofre do síndroma tecnicamente designado como não-é-Cohen-Van-Morrison-Hank-Williams-ou-Springsteen-quem-quer: extensa e morosa lamúria em que parcela considerável das canções ultrapassa os 10 minutos, exige uma tolerância de Job para se escutar na íntegra as erráticas elucubrações bíblico-alcoólicas de quem resolveu redigir o seu diário de infortúnios sentimentais em modo “Caras”-indie, conseguiu convencer uns quantos que tiradas do tipo-afinal-havia-outra (“Whenever we make love, I’m sadder every time, because I feel like I’m cheating on a woman who’s not my wife”) deverão ser consideradas poesia e embrulha tudo isso em infindáveis clichés arpejados de guitarra.
Num programa de concertos densamente povoado, deverá ainda destacar-se a pop orquestral corrigida pelos Talking Heads e Velvet Underground tal como os Fanfarlo a praticam, o impressionismo minimalista electroacústico de James Blake e, no destacamento luso, contaremos com uma excelente oportunidade para confirmar currículos e aferir o potencial de candidatos mais ou menos recentes. Por outras palavras, se dos Dead Combo e do recém-publicado Lisboa Mulata existem sérios motivos para se aguardar uma assaz excelente apresentação, os bancos de apostas estão igualmente abertos no que respeita à pop mais leve que o ar de Julie & The Carjackers, ao brutalismo primitivista dos PAUS (supergrupo herdeiro dos Vicious Five, If Lucy Fell e Linda Martini), aos ecléticos labirintos sonoros dos Aquaparque, ou ao punk suadamente épico de Os Velhos.
(2011)
Os Fiery Furnaces são o género de banda que, em vez de, no mesmo número de compassos, fazer um acorde seguir-se ao anterior, prefere alinhar um fragmento de canção ao outro – inteiramente diferente – que, imediatamente, o antecedia. Fosse pintura aquilo a que se dedicam e, onde se esperaria uma sucessão de tonalidades de azul, poderíamos ter como certo que veríamos uma gincana cromática de verde, amarelo e lilás. O mesmo, aliás, acontece com os textos. Ligeira correcção: acontecia. Desde I’m Going Away (2009) e, parcialmente, Widow City (2007), uma espécie de quase-normalização formal pareceu deixar de ser mal vista pelos manos, Eleanor e Matthew Friedberger, que chegaram até ao impensável de autorizar a intromissão de extravagantes bizarrias como o modelo estrofe-refrão-estrofe nas suas canções. Last Summer, primeira aventura a solo de Eleanor, deixa suspeitar que poderá ter sido ela o catalizador da mudança: pensado como uma evocação dos primeiros tempos da sua chegada a Nova Iorque – mais exactamente, a Brooklyn –, há dez anos, estrutura-se como um micro-"travelogue" urbano que acolhe benignamente os exercícios de estilo (dos "girl groups", à Motown e ao funk), sem que, por isso – a personalidade musical de Eleanor é suficientemente vincada para lhe permitir devorar sem ser devorada –, se transforme em colega de turma dos Best Coast, Cults ou Tennis, ou abdique de confessar peculiares intimidades como “watching ‘Footloose’ with the biggest bottle of vodka in the world”. No festival Mexefest, que, a 2 e 3 de Dezembro, ocupará cerca de uma dezena de espaços em Lisboa, Eleanor Friedberger será, de certeza, um dos concertos por que se deve optar.
Espalhados pelo planeta físico e virtual, há mil sinais a indicar-nos que o outro só poderá ser o de Josh T. Pearson, texano bardo "alt.country" da dor-de-corno, alegadamente erigida em superior forma de arte. Candidato a figurar em inúmeras listas de “melhores de 2011”, Last Of The Country Gentlemen, porém, sofre do síndroma tecnicamente designado como não-é-Cohen-Van-Morrison-Hank-Williams-ou-Springsteen-quem-quer: extensa e morosa lamúria em que parcela considerável das canções ultrapassa os 10 minutos, exige uma tolerância de Job para se escutar na íntegra as erráticas elucubrações bíblico-alcoólicas de quem resolveu redigir o seu diário de infortúnios sentimentais em modo “Caras”-indie, conseguiu convencer uns quantos que tiradas do tipo-afinal-havia-outra (“Whenever we make love, I’m sadder every time, because I feel like I’m cheating on a woman who’s not my wife”) deverão ser consideradas poesia e embrulha tudo isso em infindáveis clichés arpejados de guitarra.
Num programa de concertos densamente povoado, deverá ainda destacar-se a pop orquestral corrigida pelos Talking Heads e Velvet Underground tal como os Fanfarlo a praticam, o impressionismo minimalista electroacústico de James Blake e, no destacamento luso, contaremos com uma excelente oportunidade para confirmar currículos e aferir o potencial de candidatos mais ou menos recentes. Por outras palavras, se dos Dead Combo e do recém-publicado Lisboa Mulata existem sérios motivos para se aguardar uma assaz excelente apresentação, os bancos de apostas estão igualmente abertos no que respeita à pop mais leve que o ar de Julie & The Carjackers, ao brutalismo primitivista dos PAUS (supergrupo herdeiro dos Vicious Five, If Lucy Fell e Linda Martini), aos ecléticos labirintos sonoros dos Aquaparque, ou ao punk suadamente épico de Os Velhos.
(2011)
Labels:
Aquaparque,
Best Coast,
Cults,
Dead Combo,
Eleanor Friedberger,
Fanfarlo,
Fiery Furnaces,
Hank Williams,
Josh T. Pearson,
Leonard Cohen,
Os Velhos,
PAUS,
Springsteen,
Tennis,
Van Morrison
18 October 2011
LOST IN TRANSLATION
(sequência daqui)

Dead Combo - Lisboa Mulata
Tom Waits até é um rapaz apreciador de fado. Que, como uma vez, contou o seu guitarrista, Joe Gore (de passagem por Lisboa para produzir os Belle Chase Hotel), gostando, inevitavelmente, de Amália, lhe preferirá a modalidade terra-nas-unhas de Alfredo Marceneiro. E é tão fã que chegou mesmo a compor um (em improvável ternário...), inicialmente planeado para Mule Variations, mas só publicado como décima faixa de Blood Money: "The Part You Throw Away", aquela canção que ele gosta de citar como exemplo de desejável ruído no canal de comunicação, quando Terry Gilliam o ouviu cantar “In a Portuguese saloon” e supôs que o texto fosse “On the porch the geese salute”. E justificava-se: “Gosto de coisas mal compreendidas. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal".
Tom Waits iria, de certeza, salivar com este álbum dos Dead Combo. Por várias razões: porque Tó Trips e Pedro Gonçalves também padecem desse problema de distorção da informação – escutam fados, mornas, marchinhas, e, quando tentam reproduzi-las (mesmo com Camané ou Sérgio Godinho a darem apoio), sem querer, sai-lhes outra coisa, perdem-se na tradução, e o objecto final, encardido e desleixado, parece-se admiravelmente pouco com o original; porque "Anadamastor" e "Blues da Tanga" só não foram escritas por Waits por mero acaso e "Esse Olhar Que Era Só Teu" é bem capaz de ser o fado que ele andava à procura; e porque o seu (outro) genial guitarrista, Marc Ribot, toca em quatro faixas (incinera literalmente a "Marchinha do Santo António Descambado") e, se tiver juízo e não andar excessivamente ocupado, cuidará de lhe meter Lisboa Mulata nas mãos e fazê-lo feliz durante 45 minutos.
(2011)
(sequência daqui)
Dead Combo - Lisboa Mulata
Tom Waits até é um rapaz apreciador de fado. Que, como uma vez, contou o seu guitarrista, Joe Gore (de passagem por Lisboa para produzir os Belle Chase Hotel), gostando, inevitavelmente, de Amália, lhe preferirá a modalidade terra-nas-unhas de Alfredo Marceneiro. E é tão fã que chegou mesmo a compor um (em improvável ternário...), inicialmente planeado para Mule Variations, mas só publicado como décima faixa de Blood Money: "The Part You Throw Away", aquela canção que ele gosta de citar como exemplo de desejável ruído no canal de comunicação, quando Terry Gilliam o ouviu cantar “In a Portuguese saloon” e supôs que o texto fosse “On the porch the geese salute”. E justificava-se: “Gosto de coisas mal compreendidas. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal".
Tom Waits iria, de certeza, salivar com este álbum dos Dead Combo. Por várias razões: porque Tó Trips e Pedro Gonçalves também padecem desse problema de distorção da informação – escutam fados, mornas, marchinhas, e, quando tentam reproduzi-las (mesmo com Camané ou Sérgio Godinho a darem apoio), sem querer, sai-lhes outra coisa, perdem-se na tradução, e o objecto final, encardido e desleixado, parece-se admiravelmente pouco com o original; porque "Anadamastor" e "Blues da Tanga" só não foram escritas por Waits por mero acaso e "Esse Olhar Que Era Só Teu" é bem capaz de ser o fado que ele andava à procura; e porque o seu (outro) genial guitarrista, Marc Ribot, toca em quatro faixas (incinera literalmente a "Marchinha do Santo António Descambado") e, se tiver juízo e não andar excessivamente ocupado, cuidará de lhe meter Lisboa Mulata nas mãos e fazê-lo feliz durante 45 minutos.
(2011)
17 October 2011
LISBOA COMO MOLDURA

Não se trata, evidentemente, de crochet ou de tricot. Mas, no nicho musical dos Dead Combo, a “malha” é algo que também deverá ser cosido, costurado ou cerzido, uma espécie de célula sonora de geração mais ou menos espontânea, sempre apta a deixar-se integrar em tecidos de maior complexidade, desde que manipulada por peritos deste ramo da histologia aplicada à música. Até agora, de modo razoavelmente informal, tinha conduzido o guitarrista Tó Trips e o contrabaixista Pedro Gonçalves através de uma ficção onde traduções aproximativas do fado tropeçavam em cambaleantes espectros do western tal como Leone e Morricone o converteram à ópera. Mas, em Lisboa Mulata, assim eles o explicam (leiam a partitura a duas vozes como se tivesse sido transcrita para um único instrumento), tudo isso ganha um chão e uma moldura que ajuda a focar mais nitidamente a imagem e a identificar-lhe as coordenadas.
Um pouco de história retrospectiva, se calhar, ajudava a perceber melhor a trajectória...
Depois dos Lulu Blind acabarem, eu (Tó Trips) cansei-me um bocado de ter bandas, de andar a telefonar ao pessoal para ensaiar e, para aí em 2002, decidi gravar umas malhas que tinha. Era um cha-cha-cha e também uma versão dos "Verdes Anos", do Carlos Paredes que o Henrique Amaro ouviu e me convidou para gravar numa colectânea de homenagem ao Paredes. Encontrei o Pedro num concerto do Howe Gelb e perguntei-lhe se estaria interessado em meter o contrabaixo naquilo. Pedi-lhe boleia mas, como ele não tinha carro, acabámos por vir a pé até ao Bairro Alto. Gravámos e assim começaram os Dead Combo. Isto também passou um bocado por ter ouvido o Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos e outro disco em que ele tocava músicas do professor haitiano dele, Frantz Casseus... ao fim ao cabo, tinha vontade de abordar a guitarra de uma outra maneira. Entretanto, andámos a gravar umas coisas para o Sudwestern, um filme do Edgar Pêra, onde eu tinha um papel de cangalheiro que usava uma cartola. A imagem de gato-pingado dos telhados acabou por ficar e o Pedro adoptou a do gangster, o tipo da noite, do jazz...

A vossa música teve sempre um perfil de banda sonora imaginária para uma qualquer ficção – teatro, cinema – de localização geográfica imprecisa...
Se assobiares os "Verdes Anos" e imaginares aquilo num andamento mais lento, poderia ser um "western". As nossas próprias personagens também poderiam caber num filme. Já compusemos para teatro, para o filme Slightly Smaller Than Indiana, do Daniel Blaufuks, e, para este filme do João Canijo, também íamos compor mas ele, depois, decidiu prescindir da banda-sonora. Mas sempre dissemos que éramos duas personagens da Lisboa das palmeiras, tropical e antiga, da luz e das cúpulas das igrejas, a Lisboa da rua, dos bairros e das facadas.
Exactamente o género de "plot" que costuma rimar com fado...
Daí ter surgido a ideia do fado-"western". Mas, desta vez, preocupámo-nos mais com a ideia de o que poderíamos ter de diferente para mostrar? Temos sempre malhas para trabalhar mas qual haveria de ser a moldura? Pensámos, então, nesse lado da Lisboa africana. Já tínhamos tido umas malhas próximas disso mas nunca couberam nas outras molduras que tínhamos. Afirmámos sempre que vínhamos do Sul e éramos de Lisboa mas nunca tínhamos colocado explicitamente a cidade na capa de um disco. Até porque isso poderá facilitar alguma distribuição lá fora. Como irá acontecer, na Hungria, por exemplo.

Nesse registo “mulato”, descobriram-vos alguma alma cigana, zíngara?...
Não, por acaso, não há nada aciganado. Ainda não chegámos aí... mas, olha, até pode ser uma ideia.
Uma coisa notória é que as músicas são muito mais construídas, quase à beira de serem canções...
Nunca tínhamos trabalhado desta forma. No primeiro, já havia as malhas, foi só uma questão de as coser e gravar. No segundo, íamos trabalhando na Zé dos Bois, mas um gravava uma coisa e, a seguir, o outro trabalhava por cima. No Lusitânia, fomos para estúdio e não tínhamos quase nada, lá é que construímos tudo. Este foi a primeira vez que, uns meses antes, já tínhamos uma direcção. E, por causa desse lado africano, poderia facilmente colocar-se uma voz.
E escrever mesmo canções, com vozes e tudo?
Chegámos já a pensar na possibilidade dos Dead Combo e as Divas do Bairro que eram amigas nossas como a Suzie Peterson, a Mônica Coteriano, da Bomba Suicida, ou a Carla Bolito. Tivemos uma experiência ou outra com elas mas nunca se veio a concretizar. Mas será um projecto à parte que poderemos sempre fazer.
Os Dead Combo começaram a sonhar com o Marc Ribot e, neste álbum, ele aparece mesmo a tocar com vocês...
Há três anos, mandámos-lhe os nossos discos. No primeiro, havia uma música chamada "Ribot", achámos simpático enviar-lhe. Mas sem intuito nenhum. Quando começámos a pensar neste disco, lembrámo-nos de convidá-lo. Ele disse logo que sim. No início das gravações, retomámos o contacto e, por sorte, em Março, ele veio cá ao S. Jorge, e fomos ter com ele. Mandámos-lhe as gravações para Nova Iorque, ele gravou vários "takes" e deixou-nos escolher.
Ficaram, portanto, com imenso material inédito dele, pronto a usar...
Nem tínhamos pensado nessa hipótese... mas, agora que estás a falar nisso...
(2011)
Não se trata, evidentemente, de crochet ou de tricot. Mas, no nicho musical dos Dead Combo, a “malha” é algo que também deverá ser cosido, costurado ou cerzido, uma espécie de célula sonora de geração mais ou menos espontânea, sempre apta a deixar-se integrar em tecidos de maior complexidade, desde que manipulada por peritos deste ramo da histologia aplicada à música. Até agora, de modo razoavelmente informal, tinha conduzido o guitarrista Tó Trips e o contrabaixista Pedro Gonçalves através de uma ficção onde traduções aproximativas do fado tropeçavam em cambaleantes espectros do western tal como Leone e Morricone o converteram à ópera. Mas, em Lisboa Mulata, assim eles o explicam (leiam a partitura a duas vozes como se tivesse sido transcrita para um único instrumento), tudo isso ganha um chão e uma moldura que ajuda a focar mais nitidamente a imagem e a identificar-lhe as coordenadas.
Um pouco de história retrospectiva, se calhar, ajudava a perceber melhor a trajectória...
Depois dos Lulu Blind acabarem, eu (Tó Trips) cansei-me um bocado de ter bandas, de andar a telefonar ao pessoal para ensaiar e, para aí em 2002, decidi gravar umas malhas que tinha. Era um cha-cha-cha e também uma versão dos "Verdes Anos", do Carlos Paredes que o Henrique Amaro ouviu e me convidou para gravar numa colectânea de homenagem ao Paredes. Encontrei o Pedro num concerto do Howe Gelb e perguntei-lhe se estaria interessado em meter o contrabaixo naquilo. Pedi-lhe boleia mas, como ele não tinha carro, acabámos por vir a pé até ao Bairro Alto. Gravámos e assim começaram os Dead Combo. Isto também passou um bocado por ter ouvido o Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos e outro disco em que ele tocava músicas do professor haitiano dele, Frantz Casseus... ao fim ao cabo, tinha vontade de abordar a guitarra de uma outra maneira. Entretanto, andámos a gravar umas coisas para o Sudwestern, um filme do Edgar Pêra, onde eu tinha um papel de cangalheiro que usava uma cartola. A imagem de gato-pingado dos telhados acabou por ficar e o Pedro adoptou a do gangster, o tipo da noite, do jazz...
A vossa música teve sempre um perfil de banda sonora imaginária para uma qualquer ficção – teatro, cinema – de localização geográfica imprecisa...
Se assobiares os "Verdes Anos" e imaginares aquilo num andamento mais lento, poderia ser um "western". As nossas próprias personagens também poderiam caber num filme. Já compusemos para teatro, para o filme Slightly Smaller Than Indiana, do Daniel Blaufuks, e, para este filme do João Canijo, também íamos compor mas ele, depois, decidiu prescindir da banda-sonora. Mas sempre dissemos que éramos duas personagens da Lisboa das palmeiras, tropical e antiga, da luz e das cúpulas das igrejas, a Lisboa da rua, dos bairros e das facadas.
Exactamente o género de "plot" que costuma rimar com fado...
Daí ter surgido a ideia do fado-"western". Mas, desta vez, preocupámo-nos mais com a ideia de o que poderíamos ter de diferente para mostrar? Temos sempre malhas para trabalhar mas qual haveria de ser a moldura? Pensámos, então, nesse lado da Lisboa africana. Já tínhamos tido umas malhas próximas disso mas nunca couberam nas outras molduras que tínhamos. Afirmámos sempre que vínhamos do Sul e éramos de Lisboa mas nunca tínhamos colocado explicitamente a cidade na capa de um disco. Até porque isso poderá facilitar alguma distribuição lá fora. Como irá acontecer, na Hungria, por exemplo.
Nesse registo “mulato”, descobriram-vos alguma alma cigana, zíngara?...
Não, por acaso, não há nada aciganado. Ainda não chegámos aí... mas, olha, até pode ser uma ideia.
Uma coisa notória é que as músicas são muito mais construídas, quase à beira de serem canções...
Nunca tínhamos trabalhado desta forma. No primeiro, já havia as malhas, foi só uma questão de as coser e gravar. No segundo, íamos trabalhando na Zé dos Bois, mas um gravava uma coisa e, a seguir, o outro trabalhava por cima. No Lusitânia, fomos para estúdio e não tínhamos quase nada, lá é que construímos tudo. Este foi a primeira vez que, uns meses antes, já tínhamos uma direcção. E, por causa desse lado africano, poderia facilmente colocar-se uma voz.
E escrever mesmo canções, com vozes e tudo?
Chegámos já a pensar na possibilidade dos Dead Combo e as Divas do Bairro que eram amigas nossas como a Suzie Peterson, a Mônica Coteriano, da Bomba Suicida, ou a Carla Bolito. Tivemos uma experiência ou outra com elas mas nunca se veio a concretizar. Mas será um projecto à parte que poderemos sempre fazer.
Os Dead Combo começaram a sonhar com o Marc Ribot e, neste álbum, ele aparece mesmo a tocar com vocês...
Há três anos, mandámos-lhe os nossos discos. No primeiro, havia uma música chamada "Ribot", achámos simpático enviar-lhe. Mas sem intuito nenhum. Quando começámos a pensar neste disco, lembrámo-nos de convidá-lo. Ele disse logo que sim. No início das gravações, retomámos o contacto e, por sorte, em Março, ele veio cá ao S. Jorge, e fomos ter com ele. Mandámos-lhe as gravações para Nova Iorque, ele gravou vários "takes" e deixou-nos escolher.
Ficaram, portanto, com imenso material inédito dele, pronto a usar...
Nem tínhamos pensado nessa hipótese... mas, agora que estás a falar nisso...
(2011)
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